domingo, 27 de abril de 2014

Florbela

Florbela (Idem) Portugal, 12. Direção de Vicente  Alves do Ó. Com Dalila Carmo, Ivo Canelas, Albano Jerônimo, José Neves, Antonio Fonseca. 119 min.

    Adoro o país mas não sou muito admirador dos filmes de Portugal e tenho que me controlar para não fazer piadinha com o nome melhor dizendo o sobrenome deste diretor. Já que no Brasil não durava uma semana sendo apresentado como o Senhor Ó!!! Enfim, eu acho o cinema deles quadrado, pesado, lento, formal mais ou menos alias como quase tudo que os portugueses fazem, tudo muito ao pé da letra. Ate mesmo sua esplendida literatura.  Fiquei muito curioso de ver o filme sobre uma lenda justamente da literatura portuguesa que é a poetisa Florbela Espanca de quem sempre ouvi falar na classe teatral e nunca tive chance de ler. Alias sai do filme também sem conhecê-la direito.

    Toda critica portuguesa que eu li fala da cena de sexo que abre o filme que para nos é básica, sempre de roupa e ate desagradável porque ela aparece toda machucada, depois de Levar uma surra. O filme parece ser bem cuidado, rodado em grandes mansões antigas, com móveis, jardins e figurinos encantadores. Mas tudo é tão falso, tão posado, os atores são tão duros que parecem.. parecem... ah, parecem muitos filmes brasileiros.  Mesmo a moça que faz o papel central não tem nem a garra, nem a presença física que justifique o resultado.

     Florbela Espanca (1894- 1930) batizada como Flor Bela de Alma da conceição Espanca era filha bastarda que se matou com apenas 36 anos. O pai ficou rico com varias profissões inclusive antiquário e dono de cinema. Sua mulher legitima era estéril e teve filhos em caso extraconjugal, Flor e 3 anos depois o irmão Apeles registrados como filhos de pai incógnito.  Ele só reconheceu a filha 18 anos depois de sua morte (e nunca o filho). 

        Flor foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar o curso secundário e se casou com colega de escola. Sua produção poética só iria encontrar algum sucesso após sua morte. De qualquer forma casou-se 3 vezes e manteve uma paixão incestuosa por seu irmão que iria morrer num acidente(ou não) de aviação , só que o ator que o interpreta é tão desagradável que provoca total rejeição da platéia.  Logo depois ela tenta a primeira vez suicídio. Eventualmente morreria de overdose  de barbitúricos.Ou seja, essa historia sem duvida da margem a um bom filme. Só que não é este.  Seu único mérito é provocar uma intensa vontade de conhecer a obra de Florbela.

Ref fim.    

Espetacular Homem Aranha 2: a Ameaça de Electro

Espetacular Homem Aranha 2:  a Ameaça de Electro (The Amazing Spider Man 2) EUA, 14. Direção de Mark Webr. 142 min.Com Andrew Garfield, Emma Stone, Sally Field, Jamie Foxx, Dane HeHaan, Colm Feore, Felicity Jones, Paul Giamatti, Embeth Davidtz, Campbell Scott, Marton Csokas, Stan Lee.

      Ainda mal nos recuperamos dos últimos blockbusters, o Capitão America e quem diria, o Noé e já temos que consumir o Segundo filme do Reboot (retomada?) do Homem Aranha, que de qualquer forma eu prefiro ao original. Basicamente porque o ator é melhor, não é bonito, não tem cara de galã mas é sincero, convincente e competente também na  comédia (a primeira parte felizmente curta traz ele fica fazendo piadinhas e fiquei com medo de que tivesse pegado a síndrome de Iron Man! Ainda bem que é passageiro e serve para o espectador se acostumar de novo com o personagem após o hiato de dois anos). Afinal, este Marvel é que foi o pioneiro da onda dos heróis de quadrinhos, antes que a companhia fosse comprada pela Disney e mantivesse o seu alto padrão de qualidade (como nada perfeito, eu bem que tentei assistir a serie de teve mas é mesmo muito fraca!).

      O surpreendente aqui é que eles tentam ser diferentes, nem tanto de muitos quadrinhos mas ao menos no cinema e de certa maneira correm riscos. E não sei bem porque não promovem a presença de outro super vilão muito querido, que é o Goblin.  Enfim, tem uma coisa que eu não gosto que é a mania americana de insistir nessa tecla da falta de pais e a falta que os filhos sentem de seus pais. Isso é coisa do tempo do Spielberg e ET e vive sendo reprisada e refeita. Não tem mais cabimento achar que um adulto vá viver a vida inteira sofrendo porque o pai teve que o deixar, já que não é difícil imaginar uma boa razão. Aqui, o Peter Parker seria a vitima, que derrama lágrimas junto com a tia (a sempre ótima Sally Field e as cenas entre eles estão entre as melhores do filme). O que reclamo é que existem milhões de pessoas que tem uma vida estável e completa porque há muita gente nessa situação, inclusive no Brasil e nas favelas, já que pais com freqüência não gostam de responsabilidades!  No caso deste Dr. Richard Parker  então ainda mais claro que houve problemas já que era cientista, trabalhava numa empresa de gente perigosa e com segredos de estado! Era óbvio que esse segredo serviria alem de tudo para neste exemplar explicar as loucuras que se passam na empresa.

      Fora isso, o filme é muito bem amarrado, com uma historia de amor convincente, já que o casal se formou na High School (Stan Lee tem piadinha na festa de formatura) agora parece que vai se separar porque Gwen Stacy (Emma Stone) esta para ganhar uma bolsa de estudos em Londres e ela quer muito ir para lá, custe o que custar. Mas tudo isso vai sucedendo também junto com o surgimento de outro super vilão, no caso o Electro ,feito em grande parte digitalmente por Jamie Foxx, o curioso é que ele começa com um fã do Homem Aranha, que vai virando a casaca quando sofre um acidente e vira uma espécie de monstro que absorve a eletricidade e pode provocar apagões e ate coisas piores!

      A outra trama central é o antigo amigo de escola de Peter  que é  o complicado Harry Osborn  e que vem a ser o mesmo personagem vivido na trilogia anterior pelo James Franco. Fizeram bem em escolher outro ator mais fraco e sofrido, com uma aparência de vitima (o Dane de Haan que surgiu de repente na terceira temporada da serie Em Terapia/In Treatment, passou por True Blood, Poder sem Limites, Os Infratores, aquele O Lugar onde tudo Termina com Ryan Gosling, uma pontinha em Lincoln,  e faz James Dean agora num novo filme chamado Life). Ele consegue trazer um pouco de neurose que ira resultar num Goblin (Verde) muito mais sinistro do que da serie anterior. 

      Movimentado, cheio de efeitos (não sei como eles podem ir sendo superados, já que estão bons há muito tempo!), com confrontos finais a la Video-game, com tudo isso o novo Homem Aranha corre riscos. E acho isso bom. Diferente e ousado. Acredito que irão aprovar. Mesmo com que inicial relutância. 
Ref fim.                    

Inch'Allah

Inch'Allah (Idem). Produção Canadense/Francês Dirigido e escrito por Anais Barbeau-Lavalette. 101 min. Com Evelyne Brochu, Sabrina Ouazani, Sivan Levy, Yousef Sweid.


    Não fez em São Paulo boa carreira no circuito de arte este drama que foi premiado na mostra paralela Panorama de Berlim (pela critica e ecumênico), também indicado a 5 Genies, o Oscar canadense, levou o Jutra de coadjuvante (para Sabrina), ganhou Festival de Phoenix.

     Naturalmente não é um filme fácil ou digestivo e a diretora de Quebec fez antes o Making of do Premiado Incendios.  Voltando mais uma vez a falar dos conflitos sem solução entre Israel e Palestinos durante a Ocupação.

      A historia é narrada pelo ponto de vista de uma jovem obstetra que trabalha para as Nações Unidos numa clinica no campo de refugiados em Jerusalem. Ela tem uma vida pacata, indo trabalhar passando por inúmeros controles e a noite saem para beber e dançar com uma vizinha Ava . Na clinica fica amiga de um paciente grávida Rand (Sabrina, que rouba o filme) cujo marido esta esperando ser sentenciado numa prisão israelense e seu irmão ativista. Quando Rand perde o bebe, Chloe não pode ir lhe ajudar mas a situação se complica fazendo com que ela viole seu juramento de Hipocrates. Talvez a atriz que faz a protagonista seja inexpressiva demais mas ainda assim dá uma visão convincente de uma situação que parece insolúvel e sem esperança. A fotografia curiosamente foi feita pelo pai da diretora.  O titulo é uma expressão que quer dizer “ Se Deus Quer”. 

Ref fim.

Temporada de Caça

Temporada de Caça (Killing Season) EUA/Belgica, 2013. California. Direção de  Mark Steve Johnson. Com Robert De Niro,John Travolta, Milo Ventimiglia, Elizabeth Olin, Diana Luybenova. Em DVD.

     A estréia próxima de  Profissão de risco, um filme B que nunca mereceria a participação de Robert De Niro me fez procurar este outro filme já do ano passado que eu tinha deixado passar.  Culpa destes tempos complicados onde ha poucos lançamentos nas locadoras que estão conseguindo sobreviver (assim mesmo com problemas, se eu quero comprar um Blu Ray de “Gilda”, por exemplo,  não tem disponível, sou obrigado a fazer pedido e esperar dias!). Antigamente eu tinha o habito de deixar alguns filmes menores, inclusive nacionais, para assistir depois em casa, em DVD, já que eles saiam regularmente. Hoje não mais. Difícil fugir da pirataria e se habituar com Netflix e Now, ambos sucessos retumbantes. Ou seja, não da mais para eu fazia antes trazia uma dúzia de filmes em DVD para assistir em casa em dois dias!

     Não tem como não ficar triste em ver De Niro, que já foi o maior ator do mundo, na opinião de todos perdendo seu tempo em filmezinhos de terceira categoria (as vezes com outros em decadência com Stalone no recente Ajuste de Contas). Eu tenho a teoria de que ele esta trabalhando em qualquer coisa para juntar dinheiro para deixar fortuna para seus filhos já que antes trabalhava ganhando menos que a concorrência porque fazia projetos pessoais quase sempre independentes e sem grana. E isso deve ter começado no dia em que se descobriu mortal e com uma ameaça de câncer. Laurence Olivier fez a mesma coisa provando que ser bom pai pode ser uma qualidade deles. Mas o risco é imenso.  Acabar com sua reputação. Tenho certeza que se um cineasta brasileiro quiser bancar a vinda de De Niro para um projeto médio aqui, não teria muitos problemas (não nesta época de Festival do Tribeca que ele dirige,  já que foi um dos salvadores de Nova York depois dos atentados). 

      Acho bem capaz que ao ler o roteiro deste filme europeu ele pensou que poderia ter uma chance melhor dramática e pensando bem esta menos ruim do que em outros recentes, inclusive o já citado Profissão de Risco.  O filme tem certa densidade e ao menos ele não tem que usar aquela infeliz barbichinha que porta o Travolta. Para não falar no sotaque esquisito que tem que fazer. Esse nunca foi muito bom nem na época das discotecas. Mas o roteiro alem de lembrar The Deer Hunter (O Franco Atirador, titulo alias errado, do mesmo De Niro) mexe na ferida da guerra da Servia e a tragédia de uma quase guerra civil cheio de estupros e abusos.

     Assim pelo que se entende, De Niro era um mercenário que participou dos crimes e agora Travolta vem em busca da vingança, caçando ele na região montanhosa onde vive caçando cervos. Consegue se aproximar, ficam meio amigos, mas no fundo é uma caçada humana e os dois ficam se atirando um no outro jogando verdades entre si. O diretor Johnson (O Demolidor, O Motoqueiro Fantasma)  não tem boa reputação mas segura a historia com certo interesse.  Aquela historia de De Niro ter um filho que mesmo brigado quer lhe mostrar sua netinha é outra coisa que também não funciona. Mas só se perde  mesmo no final, que é prolongado, estendido e mal resolvido.  Mas é triste se ver dois astros que lutam para manter sua fama cair nessa (Travolta aqui não repercutiu mas na festa do Oscar chamou a cantora Idina Menzel, por um nome completamente diferente que inventou na hora (Adele Dazeem). E foi um escândalo.

     Enfim, queria também contar para os leitores que não estou vendo menos filmes que costume, só escrevendo menos e por uma boa razão: estou terminando de revistar e estender o Dicionário de cineastas que deve sair no segunda semestre deste ano em edição Digital! É um projeto de vida que esta ficando muito bacana!.

Ref fim            

A Grande Vitória

A Grande Vitória. Brasil, 14.  Paris filmes. Direção  e roteiro de Stefano Capuzzi Lapietra. Com Caio Castro, Sabrina Sato, Tato Gabus Mendes, Suzana Pires, Domingos Montagner, Moacyr Franco, Felipe Folgosi, Tuna Dwek e Felipe Falanga.

     É muito difícil o Brasil realizar filmes que escapam das formulas tradicionais: a comédia (a chanchada), o filme de favela, o drama rural /social, a biografia de artista pop. Este A Grande Vitória (que já se chamou antes Aprendiz de Samurai) é uma experiência nova em outra possibilidade  um  filme sobre campeão esportivo, no caso de um campeão  treinador de judô, Max Trombini, baseado em uma biografia de Wagner Hilário. 

      Não há nenhuma garantia de que o tão arisco publico para cinema brasileiro vá assistir o filme mesmo com o chamariz de jovem astro de televisão que é Caio Castro, meio tosco, baixinho, barbudo, limitado, mas que vem com aquela naturalidade de novela.  É uma velha tradição de nosso cinema que nenhum astro de novela leva qualquer um aos cinemas, nem mesmo Antonio Fagundes no apogeu da juventude. Por outro lado, eu que vivo reclamo dos péssimos roteiros não posso me queixar deste que é alias como tudo no filme extremamente correto e profissional. Talvez as crianças no começo sejam meio fracas, e como sempre não parecem o similar adulto, mas fora isso tudo é bem feito e demonstra que o diretor não faltou demais as aulas da FAAP ou da  faculdade americana que cursou. 

      A historia começa com Sabrina Sato na piscina (o que é sempre fotogênico) comunicando ao rapaz que esta grávida, o que pode atrapalhar seus planos de se mudar para os EUA. Volta-se em flash back para a infância dele em Ubatuba, onde são muito pobres e ele é muito briguento em parte porque ressente a ausência de um pai que sumiu. Quem cuida mais dele, é o velho avô (a primeira experiência realmente dramática de Moacyr Franco, que está humano e convincente). Depois é seguir a carreira do moço, que arranja um bom mestre de judô (Tato Gabus Mendes, outro que convence e ajuda muito o filme) e vai para Bastos.  O pai é feito por  Domingos Montagner, um personagem mal explicado mas que ganha muito com sua figura carismática. Enfim, não chega a ter pretensões a ser um karate kid.É apenas uma interessante e bem contada historia real O protagonista faz um papel no filme e aparece na ceninha final nos letreiros). João Carlos Martins faz a trilha musical (pela primeira vez) embora não tenha visto  sua versão final.                    

Ref
 

Getulio

Getulio. Brasil, 14. Direção de João Jardim. Produção de Carla Camurati. Com Tony Ramos, Drica Moraes, Alexandre Borges, Clarice Abujamra, Leonardo Medeiros, Fernando Luis, Murilo Elbas, Marcelo Medici, Adriano Garib, Silvio Matos, Murilo Grossi, Paulo Giardini,  Thiago Justino, Claudio Tovar, Daniel Dantas. 

     Só mesmo num país como o Brasil é que se deixou para fazer  apenas agora uma biografia sobre o ex-ditador e ex-presidente Getúlio Vargas que morreu em 1954  que ate agora foi mostrado em um par de documentários longas (mas nos anos 60), em algumas series de teve Globo (ate bem feitas) e como coadjuvante em alguns longas (como Osmar Prado que o fez em Olga, Paulo Betti em Chatô, que naturalmente não vimos e provavelmente nunca o veremos), e o meu favorito Leon Cakoff numa aparição em O País dos Tenentes (era de todos o mais parecido).

     Tony Ramos não se parece fisicamente com a polêmica figura e curiosamente nem tenta.  De vez em quando muito de longe tem um leve sotaque gaucho.  Mas fala com o seu tom habitual, não usa o chapéu famoso (será só eu que vejo o Getulio de chapéu!), no máximo fuma charuto e tem uma barriga postiça. Estão ausentes frases características dele assim como a seu respeito (na verdade,  povo esta totalmente fora do filme, só é visto na cena final quando mostram cenas reais de seu enterro. As imagens de jornais de época só surgem do meio para o fim –e os protestos de ruas em fotos na mão de Alzirinha! O que mais eu senti falta: ele virou um bom ainda que impaciente velhinho. Não é em momento algum um ditador destronado. Tão educado, compreensivo, correto, obedecedor das leis (uma hora diz que rasgou duas constituições não iria fazer isso uma terceira vez. Eu contradigo, para quem vez não teria problema mais uma!). Mesmo a corrupção que rola solta pelo palácio e por sua família, o que fica claro quando se desmascara a figura do capanga Gregório Fortunato (e querem me dizer por que não há uma única cena entre Getulio e ele?? Seriam os dois protagonistas e fundamentais na tragédia que vai se desenrolar. Um teria de enfrentar o outro...).  

      A escolha de não procurar nem de longe imitar Getulio é parcialmente compensada porque obviamente ele existiu antes da televisão e não há muita gente viva que se lembre dele. Nem do seu jeito de agir e falar. Podem muito bem consumir Tony, já que graças a Deus ele é muito bom ator, tem a reações certas, pro meu gosto ate humaniza demais uma figura que sempre será um torturador simpatizante de fascistas/nazistas e não a vitima que esta neste roteiro, um desamparado velho (não se diz a idade dele, alias sonega-se informações de todos os tipos. Por exemplo, o que há entre ele e sua mulher  que mal se falam e obviamente estão separados de fato! E por que um filho esta viajando e não volta e não se fala mais nisso (será filho, como não explicam posso estar errando!). E a única figura que realmente deixa um pouco mais claro que esconde muita coisa, é a eminência parda, a filha Alzirinha, que Drica Moraes torna a melhor coisa do filme . Ao menos da para se ver que é ela que manobra tudo por trás, que tem segredos embora não digam quais são eles! (por isso o pai é tão pouco amoroso com ela, que insiste em ficar em cima dele. Porque esta conspirando com os militares, e coisas piores).

      Para dar maior clima e suspense ao filme, o roteiro inventa um par de vezes cenas de sonho para Getulio se imaginar saindo do Palácio do Catete preso e semelhante. Mas se fizeram isso bem que podiam ter mostrado uma situação onde a família que matava Getulio como a saída para eles todos, o que afinal foi o que sucedeu... É uma hipótese possível e interessante que ninguém ousa levantar  porque ainda há envolvidos por perto... Quem sabe no próximo século!

       Enfim, grande parte do filme foi rodado no Palácio do Catete  e em planos próximos, as vezes ate demais. A escalação do elenco é curiosa, porque coloca humoristas em papeis sérios, como Marcelo Medici de filho médico de Getulio. Até ai tudo bem, mas não consegui engolir  como chefe militar da Aeronáutica   conduzindo os inquéritos justamente o namorado do Crô! 

       No mais o confinamento no Catete que de certa forma seria um forte da trama acaba não  ajudando a trama cheia de “disse que me disse” que vão se complicando porque Getulio se recusa a bloquear a investigação ou mesmo dar um golpe (Isso merecia uma discussão maior!).  Mas vamos ser justos, o filme trata o assunto com dignidade, com alguns poucos erros de época (não se dizia nos anos cinquenta, “mau caráter”) e consegue manter o interesse. Senti certa falta de Brasil (podia ser uma conspiração em qualquer lugar do mundo), do mito de Getulio, de seu passado (não há flash- backs!), de canções de época. Louvo porém o respeito com que tudo é tratado (ate mesmo a figura de Carlos Lacerda  que tem um momento também de humanização, quando fica também aturdido!). 

     No final das contas, porém o problema é o de sempre, o roteiro falho.

Ref fim.

Entre Vales

Entre Vales Brasil, 12. Direção de Philippe Barcinski. Com Angelo Antonio, Daniel Hendler. Foografia de Walter Carvalho, Ines Peixoto, Melissa Vettore.80 min.

     O diretor fez alguns curta-metragens premiados e admirados. Não tem tido a mesma sorte ao passar para o longa mesmo trabalhando para a produtora O2 de Fernando Meirelles (realizou alguns dos episódios da serie de teve, A Cidade dos Homens) com Não por Acaso (97).Naquela ocasião eu escrevia: Phillippe  tem uma sensibilidade especial. Parece que ele tem medo de confrontos, de explicações (o filme tem poucos diálogos, ao contrário de personagens de telenovelas aqui todos são misteriosos e calados), de grandes cenas (nem mesmo numa seqüência de morte nos deixa ver ou explica direito como sucedeu).

     Engraçado que posso dizer a mesma coisa deste segundo longa, igualmente sucinto e com uma trama ainda mais discutível. Certamente a melhor coisa é a presença de Ângelo Antonio (Filhos de Francisco)  que faz o protagonista com intensidade, a única pessoa do elenco que parece sincera e empenhada. Mas é o tipo da historia que condena o filme Entre Vales a ter um publico reduzido. Faz Vicente, um economista pai de um menino Caio, que vive com Marina uma dentista. Ocorre um problema grave e toda sua vida se estraga (só vamos saber do que se trata ao final). Ele que já havia sido visto no lixão desde o começo do filme, só bem depois é que vamos ter finalmente a explicação para sua tragédia. O roteiro é incapaz de dar aos coadjuvantes (é co-produção com o Uruguai mas isso não adianta muito já que um ator ótimo com Daniel Hendler não tem absolutamente o que fazer). A questão é você embarcar ou não no conflito e no drama do Vicente. Mas há algo na visão do diretor que afasta a emoção e o resultado mais uma vez é frio e distanciado. Ou quem sabe pode ser apenas questão de gosto. 

Ref fim.  

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Hoje eu Quero Voltar Sozinho

Hoje eu Quero Voltar Sozinho. Brasil, 14. Direção e roteiro de Daniel Ribeiro. 95 min. Com Ghilerme Lobo, Fabio Audi, Tess Amorim, Selma Egrei, Eucir de Souza, Lucia Romano, Isabela Guasco. 

      Vencedor do premio da critica (na Mostra Panorama) e o Premio Teddy (para o melhor filme gay) do recente Festival de Berlim , este primeiro longa de Daniel  Ribeiro já chega com a reputação de seu diretor que fez dois curtas temáticos muito bem sucedidos e que estão disponíveis no You Tube. Café com Leite (07) premiado como melhor curta também em Berlim, premio Cinema Brasil, Miami e Paulinia entre outros sobre a relação de casal gay, onde um deles tem que cuidar do irmão pequeno. Logo depois ele acertou novamente com outro filme que é uma pequena jóia, chamado Eu não quero Voltar Sozinho (2010), mais premiado ainda (Mix, Paulinia novamente, Torino, Seattle etc). 

      Reparem no detalhe importante: no curta o protagonista cego e adolescente não quer voltar para casa sozinho. No segundo e longa, já mudou de idéia. De qualquer forma, é uma extensão do original com o mesmo elenco, o que é certíssimo, já que estão todos naturais, simpáticos e eficientes. Tanto num quanto noutro. Trabalhando com grande parte de amadores o resultado é totalmente convincente.

      Admito que possa ser ate impressão errada, mas a gente fica com a sensação de que prolongado o filme perde parte de seu encanto. Talvez seja ausência de surpresa, o inusitado que não esta mais lá. Ainda assim será difícil não embarcar nesta situação, graças me parece a naturalidade e simplicidade com que o elenco é conduzido mesmo quatro anos depois. O diretor tem mão para cinema e sensibilidade que fica mais do que evidente ao descrever a personalidade do protagonista Leonardo (Lobo) que é um adolescente cego, que vive com os pais restritos que tentam não serem controladores demais. Com raras visitas a avó (um prazer ver Selma Egrei sempre linda e serena). Tem uma melhor amiga  ciumenta, Giovanna que freqüenta a mesma escola e Leonardo sofre bullying  por parte de colegas por ser deficiente (uma coisa que acho difícil acontecer naquele tipo  de escola, o rapaz perseguido por esse problema mas não por ser gay!).

      Enfim, a situação toda é criada aos poucos, quando surge Gabriel um novo aluno do interior que se junta a dupla e com relutância também se sente atraído por Leonardo. No desenvolvimento da relação, o personagem de Gabriel se explica pouco (acho que falta um pouco mais de conflito para dar mais força ao entrecho). 

       Tudo isso, porém não abala  o fato do filme ser tão ”gostável”, tão bem realizado e sucedido. Chamá-lo do melhor filme gay já feito no Brasil seria reduzi-lo injustamente. Prefiro apostar no talento do diretor que tenho certeza fará uma bela carreira. 

Ref fim.

Noé

Noé (Noah)EUA. 14. Direção de Darren Aronofsky. Roteiro de Darren e Ari Handel. 138 min. Com Russell Crowe, Jennifer Connelly, Anthony Hopkins, Emma Watson, Ray Winstone, Logan Lerman, Douglas Booth, Nick Nolte, Madison Davenport. Paramount. 

      Este é um filme bíblico diferente dos que estamos  acostumados a assistir, quase de autor. Nada a ver com a tradição do gênero praticamente inventado por Cecil B.De Mille (Sansão e Dalila) que misturava sexo e religião. Também é completamente oposto ao filme Bíblia (1966) de John Huston, que também utilizava o Genesis, deixando a parte final para o próprio diretor Huston fazer o Noé, ouvindo a voz de Deus (aqui chamado de Criador!)  e de forma relativamente tranqüila chamar os bichos (a novidade: para não ter problemas com eles, todos eles entram na arca aos pares, meio rapidamente, de tal forma que mal da para identificá-los. E caem dormindo! Talvez tenham feito isso para evitar comparações com outro filme de Arca de Noé, aquela comédia de Steve Carell, A Volta do Todo Poderoso (07),de Tom Shadyac que era caótico mas tinha momentos divertidos. 

      Este é o primeiro filme do diretor Aronofsky   desde Cisne Negro (sempre trabalhando com o mesmo roteirista de todos seus trabalhos) que tem um orçamento generoso (ao que parece 125 milhões tendo rendido 43 milhões de dólares no primeiro fim de semana  e foi rodado  na Islândia, no México (Durango). Houve uma controvérsia muito grande antes do lançamento porque o estúdio sofreu criticas de lideres religiosos cristãos  que o criticavam porque  o filme estaria fugindo da historia. A desculpa oficial era que o trecho que aborda Noé e o dilúvio na Bíblia era muito pequeno e sucinto, não entrando em detalhes. Portanto tomaram liberdades. Darren ficou muito aborrecido porque começaram a fazer diferentes versões do filme e exibi-las , sem consultar  o diretor. O mais curioso é que não perceberam que o trabalho de Darren é muito religioso,ainda que influenciado pelo visão judaica do Velho Testamento. Mas o final foi feliz porque isso serviu de publicidade para o filme que acabou tendo boas criticas e boa bilheteria (ate na Rússia estreou bem!).

      Mas fique preparado porque é um filme sombrio, nada technicolorido, mas não muito violento. Ao contrário é bastante místico, dando uma visão literal do dilema de Noé que acaba sendo um servo de Deus que tem que entender o que ele deseja, embora este nunca se manifeste tão abertamente quanto em filmes anteriores. Ele tem sonhos e precisa decifrá-los e às vezes o faz de maneira errônea. O titulo é correto porque o filme é todo em cima da figura de Noé,  desde jovem  quando relembra a expulsão do paraíso (Adão e Eva são  vistos  como figuras distantes e estilizadas, não dá para ter nudez ) e logo depois Caim matando Abel e dando origem a uma linhagem de homens maus e sem lei, que serão os vilões da História. O fato é que o roteiro fez tudo para tornar a historia mais intensa e conflitada. Assim temos o avô da família  o Matusalém (feito por Anthony Hopkins)  que chega a ter poderes mágicos e o chefão vilão da  tribo que descende de Caim, Tubal Cain (o bom ator Ray Winstone) que até mesmo se infiltrar na arca esperando o melhor momento para  atacar Noé. Além disso, Noé tem três filhos, o mais velho Shem (Douglas Booth, inglês bonitinho e dentuço que antes fez a mais recente versão de Romeu e Julieta, ainda inédita no Brasil) – será este Shem que pela Bíblia Dara  origem aos semitas, ou seja aos que chamamos de judeus. É o bom rapaz que namora uma jovem que convenientemente foi adotada pela família (o problema dela ser estéril será miraculosamente resolvido, alias o único milagre do filme! Por isso parece meio fora de lugar...).  Tem ainda o jovem Jafeth (Leo Hugh Carroll, que parece feminino demais) e o rebelde Ham (interpretado pelo já famoso Logan Lerman, o Percy Jackson) que  faz a linha adolescente rebelde, pensando com os órgãos sexuais e não a razão. Também quer uma mulher para si e entra em conflito com o pai quando não consegue, pensando então em traição.

       Talvez a melhor surpresa do filme seja ver que Russell Crowe  tem seu melhor momento nos últimos anos (na verdade, já o tinha dado como perdido  e canastrão ) mas olha outro milagre, sai-se muito bem num papel muito difícil, que por vezes se torna antipático e tem que tomar decisões muito difíceis, fazendo o filme pesar demasiado. Não é surpresa nenhuma, porém ter o prazer de ver Jennifer Connelly (novamente com em Russell de Mente Brilhante) fazendo a mulher de Noé, Naameh com toda discrição e delicadeza ate o momento em que tem seu grande desabafo. Outra boa figura é a de Emma Watson, que quem diria, amplia sua carreira como Ila, a filha adotada em cima da qual acontece o maior conflito do filme. 

      Outra coisa: gnão espere muitos efeitos de ação ou de 3D com a Arca ou a água da chuva ou da enchente sendo jogada no espectador.  Esta tudo ali a serviço de um drama inusitado, levado e discutido a sério. 

Ref fim.