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quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Nico, 1988


Nico, 1988
Itália, Bélgica, 2018. Direção de Susanna Michiarelli. Com Trine Dyrholm, John Gordon Sinclair, Anna Maria Martinica.

Duvido muito que haja grande público no Brasil para este documentário extremamente europeu, melhor dizendo ainda francês, que relembra uma modelo e cantora de voz pequena e vida curta, que teve morte trágica e já por causa disso se tornou uma figura lendária. Seu nome era Nicol, e nasceu em Cologne, Alemanha em 1938. Logo entrou para a célebre turma de Andy Warhol (lembrado este sim como artista plástico, diretor de filmes ousados e curiosos, de temática gay que marcariam época até hoje). Ela foi também membro do grupo chamado The Velvet Underground, uma banda de rock experimental (com John Cale) desde 1967 e com eles fez vários álbuns de rock. Foi também viciada em heroína e custou a se livrar do vício.

Mas soube aproveitar a vida apesar do final trágico e absurdo. Em 18 de julho de 1988, quando andava de bicicleta em Ibiza, na Espanha, teve um pequeno enfarte que a fez perder o controle provocando colapso e queda da bicicleta, batendo com a cabeça no chão. Tinha 49 anos de vida. E não foi a toa que sua imagem permaneceu (a voz monótona, a maquiagem excessiva que lhe deram a imagem posterior chamada de “Nico saída do túmulo”). Teve também uma vida movimentada, tendo um filho chamado Christian Paffgen, com o ator Alain Delon com quem teve um caso em 1962. Quem a apelidou de Nico foi o fotógrafo Herbert Tobias, em homenagem ao namorado Nikos Papataks. Além disso, estudou arte dramática no famoso Actor´s Studio de Lee Strasberg em 1960, na mesma turma que Marilyn Monroe. Foi modelo de Coco Chanel. Usava roupas negras e andava de moto. Foi Jim Morrison que a incentivou a fazer as próprias letras das canções tiradas de seus pesadelos. E fazia isso, cercada de velas num banheiro escuro. Dizia ter sido influenciada por Rainer Maria Rilke e Sylvia Plath. Teve longo romance (dez anos) com o diretor de cinema Philippe Garrel. Frase famosa dela: “Eu sou uma nihilista, por isso eu gosto de destruição. Para mim é a forma adequada religião desde que eu comecei a pensar”. Quem gosta do tema e do tipo de música, vai curtir muito o filme.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Hannah (Idem)


Hannah (Idem)
Itália, França, Bélgica, 2018. 95 min. Direção de Andrea Pallaoro. Com Charlotte Rampling, André Wilms, Jean Michael Balthazar, Luca Avalone, Stéphanie Van Vyve, Simon Bishop, Jessica Fanhan. Roteiro de Pallaoro e Orlando Tirado.

Este filme foi vencedor do Festival de Veneza como melhor atriz, Roberto de Pietro como melhor técnico e melhor fotografia para Chayse Irving no Festival de Chicago. O diretor jovem Pallaoro que é italiano do Trento, 1982, que em 2013 fez o raro Medeas (com Catalina Sandina Montero, Bryan O Byrne). Depois deste Hannah, ele estaria fazendo outro filme chamado Monica, sem referências.
O resumo oficial do filme é o seguinte: Hannah (Charlotte Rampling) é uma mulher de terceira idade que vive na Bélgica, se divide entre as aulas de teatro, a natação e o trabalho como empregada doméstica. Quando o marido vai preso, ela não tem alternativa a não ser a solidão e tenta refazer laços perdidos com descendentes, mas há um segredo na família que dificulta seu relacionamento com terceiros.

Achei muito adequada uma crítica europeia que descreve o filme como um exercício em “slow cinema” (cinema lento) enquanto o diretor o chama de “giallo - trama policial - existencial”. Acho que isso já deixa o espectador com o pé atrás. Eu pessoalmente tenho muita dificuldade em apreciar um filme devagar demais por mais que descreva conflitos humanos e sinceros, principalmente de personagens de mais de meia idade, já a pura velhice, portanto um assunto amargo e triste, que certamente pode nos comover. Ainda mais por causa da presença da britânica Charlotte Rampling (nascida em 1946, nascida em Essex) que teve uma longa carreira como jovem, depois se casou com músico francês (Jean Michel Jarre, até 96) e por saber falar francês, tem feito uma notável carreira em todos os gêneros e personagens (desde o recente 45 Anos, A Piscina, Operação Red Sparrow e Assassin´s Creed num total de 127 créditos). Já a entrevistei por três vezes, é sempre uma presença discreta, sempre tensa, mas sem dúvida é uma das melhores atrizes de sua geração o que mais que justifica este filme. Ainda mais num filme que não tem medo de refletir as dificuldades da velhice, no que alguém chamou de “como um animal desesperado pela dor!” (os europeus usam um adjetivo de que não sou muito familiar, mas vale registrar aqui, a chamada “miserabilidade”, a pobreza vivida por personagens em geral femininos em trabalhos de Antonioni, Bresson e os Irmãos Dardenn, Kaurismaki, Michael Haneke). Ou seja, é um formalismo, que foge da invenção ou humor. E por isso mesmo difícil de ser consumido pelo espectador comum. Não vou mais adiante.