sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Quero Matar meu Chefe 2 (Horrible Bosses 2)

EUA, 14. Direção de Sean Anders. 108 min. Com Justin Bateman, Kevin Spacey, Jason Sudeikis, Charlie Day, Jennifer Aniston, Jamie Foxx, Chris Pine, Christoph Waltz. Jonathan Banks.

Foi preciso que eu fosse consultar o arquivo para me lembrar do que achei do primeiro filme. Tudo é tão descartável que tinha esquecido de que dentro do baixo nível do gênero, tinha até salvado a comédia.  E vejam como eu começava, alias hoje diria a mesma coisa: “Não é de estranhar que as comédias estejam cada vez mais ousadas e atrevidas quando se vê que as próprias séries de TV hoje mostram cenas de cama e falam francamente de órgãos sexuais. Parece um caminho natural que também está trilhando a comédia nacional e que se reflete nesta nova comédia, que vai mais longe ainda do que o Se Beber não Case Dois. Confesso que num primeiro momento me assustei um pouco, surpreso inclusive de ver uma estrela como Jennifer Aniston falando palavrões e piadinhas muito fortes. Sem medo de se comprometer e fazer chanchada”. Isso no primeiro, a mesma coisa no segundo, que só é um pouco prejudicada por um diretor inferior, um certo Sean Anders (que é mais roteirista, como diretor fez apenas Esse é Meu Garoto, um dos piores filmes de todos os tempos com Adam Sandler. Considerando isso, até que não errou tanto, possivelmente porque o elenco já esta afinado e todos já conhecem seus  personagens.

Ainda continuo gostando que os protagonistas sejam quase os novos Três Patetas: nenhum dos três heróis é  muito inteligente, muito pelo contrário, são trapalhões, desastrados e vivem se estapeando! Claro que são Patetas atualizados no que seria uma versão masculina e muito mais farsesca de Como Eliminar seu Chefe (que é citado aqui), que por sua vez é uma variante do velho Cavalo de Batalha do teatro e literatura, a historia dos que tentam matar o Tio Rico para ficar com a fortuna e sempre terminam em desastre.

Esta variante é em cima de três amigos que agora já começam desempregados, melhor dizendo, resolveram não ter chefe, ganhar dinheiro por conta própria. Criando seu próprio negócio, um novo tipo de chuveiro. Vendem sua invenção para um grande milionário (Waltz, duas vezes vencedor do Oscar) que tem um filho ainda mais desonesto e sem escrupuloso do que ele (feito pelo galã Chris Pine). São enganados por ele e agora tentam partir para a vingança, com a ajuda de malandros (vão visitar ate o antigo patrão agora na cadeia, dando chance a dois momentos para Kevin Spacey, sempre ótimo).

Bom, dali em diante o filme é uma sucessão de viradas e derrapadas, perseguições e erros, de brigas e confusões (a figura mais curiosa é a de Charlie Day, da série It´s Alway Sunny in Philadelphia  e Amor à Distancia que sempre fala demais e estraga tudo. E finalmente Kurt Jason Sudeikis (do Saturday Night Live e The Cleveland Show) é feito por um grande amigo de Jennifer Aniston (há poucas mulheres, ela faz um ninfomaníaca!).

Igual ao original, não espere sutilezas, mas a verdade é que as confusões vão se sucedendo e o filme vai ficando mais ou menos engraçado.

Revisitando: Uma Linda Mulher (Pretty Woman)

No Cinemark dias 29, 30 de novembro e 3 de dezembro
 
Uma Linda Mulher (Pretty Woman)
EUA, 1990. 119 min. Diretor: Garry Marshall. Elenco: Julia Roberts, Richard Gere, Hector Elizondo, Paul Dooley, Laura San Giacomo, Jason Alexander, Ralph Bellamy, Elinor Donahue, Amy Yasbeck, Alex Hyde White, Hank Azaria, Larry Miller e ponta do diretor Marshall (como guia de turismo), Tracy Reiner (sobrinha do diretor, como mulher no carro).

Sinopse: Edward, um rico executivo pega na rua uma jovem prostituta Vivian, a quem durante uma semana ensina a se vestir e comportar, e com quem acaba se envolvendo.

Comentários: Uma espécie de conto de fadas moderno (variante de Pigmalião, ou seja, My Fair Lady) que foi um enorme sucesso de bilheteria para a Disney, de tal maneira que se pode dizer que salvou o estúdio da falência (mesmo os desenhos andavam fracos mas na época eles não tinham encontrado ainda a fórmula moderna para realizar filmes de êxito com atores!). Originalmente a historia escrita por J. F.Lawton (que nunca antes ou depois fez nada que prestasse, em geral aventuras como Força em Alerta I e II com Steven Seagal, Reação em Cadeia com Keanu Reeves). Ele teve a ajuda no roteiro não creditado de outras pessoas: Robert Gardland, Stephen Metcalf, Barbara Benedek.

Que mudanças? Segundo o diretor foi ele quem insistiu que tudo virasse uma comédia romântica. Inicialmente pretendiam ser um drama dark sobre prostituição em Los Angeles nos anos 80. E o relacionamento entre Vivian e Edward teria temas controvertidos, inclusive a ideia de que ela era viciada em cocaína e parte do acordo é que ela não usasse a droga por uma semana e ela queria o dinheiro para poder ir para a Disneylândia. Edward a punha para fora do carro e ia embora. E o script original acabava com Vivian e a amiga indo de ônibus para Disneylândia.  A produtora Laura Sizkin  foi quem cortou isso ou passou a situação para a amiga Kit. Algumas dessas cenas foram filmadas e aparecem em DVD de aniversario do filme. Como quando é confrontada por traficantes diante do Blue Banana (na cena da banheira ela usava a droga e não escovava os dentes).

O diretor Marshall é especialista em  comédia (ele é irmão da diretora Penny Marshall e foi criador de séries de TV famosas como Harry Days, Odd Couple). No cinema tinha acertado pouco antes para Disney, com Bette Midler em Amigas para Sempre (88) e na MGM Um Salto para Felicidade com Goldie Hawn (87). Ele fez as escolhas certas e teve êxitos posteriores com Frankie & Johnny com Al Pacino, O Diário da Princesa I e II que descobriu Anne Hathaway, Idas e Vindas do Amor (Valentine´s Day, 10, novamente com Julia Roberts).

Na época o sucesso foi tão grande que pouco pararam para ver e discutir que o filme é antes de tudo um mau exemplo, ensina as meninas adolescentes que ser prostituta poderia ser uma boa alternativa, já o que sucede com a Julia Roberts é totalmente absurdo e fantasioso, uma cinderela que ensina tudo errado. Feliz ou infelizmente, na vida real, não basta ser mulher da rua para encontrar um príncipe encantado como Gere. Fora o mau exemplo e vindo logo de Disney, o filme foi um mega êxito, louvado por todos, repetido só nove anos depois por Noiva em Fuga (Runaway Bride), com a mesma dupla e diretor. O roteiro é muito falho, mas sem dúvida acertaram em transformar em estrela Julia (que chegou a ser indicada ao Oscar® de atriz, 91, ganharia depois em 2001, por Erin Brokovich).

A Carreira de Julia Roberts

Ninguém se deu conta, mas em 28 de outubro de 2014, Julia Roberts completou 47 anos de idade e de estrelato (sua primeira aparição em série de TV, Crime Story foi em 87, e o primeiro trabalho já como estrela foi em Três Mulheres, Três Amores/ Mystic Pizza, 1990). E nos últimos tempos desde que teve 3 filhos com o marido cinematógrafo tem estado em semiaposentadoria, só retornando para filmes especiais. Muitas vezes mal sucedidos (como o fraco Larry Crowne, o Amor Está de Volta, 11, ou participação especial pelo tema como no telefilme The Normal Heart, 14, que lhe deu indicação ao Emmy de coadjuvante. Ainda assim foi indicada ao Oscar® este ano ainda por Álbum de Família).

 Mas não há dúvida que Julia foi a mais popular estrela de Hollywood nestas ultimas décadas.
Julia Fiona Roberts nasceu em Smyma, Geórgia, de uma família de artistas e gente de teatro. Seu irmão Eric Roberts ficou famoso muito jovem e a ajudou no começo de carreira, embora hoje estejam brigados (Eric tinha lábio leporino que foi operado, sempre achei que Julia tinha o mesmo problema, mas nunca revelou isso). Mais lembrado que ele hoje em dia é a filha dele, Emma Roberts, que esteve em Acquamarine da Disney e prossegue carreira. Julia teve sorte em ficar conhecida logo com Flores de Aço (Steel Magnolias). O público adorou o seu jeito aberto, franco, com uma enorme boca e cabelos soltos. Logo ficou claro que ela não era propriamente bonita, com o cabelo preso em certos filmes, como O Segredo de Mary Reilly, chega mesmo a ficar feia, com muitas imperfeições. Mas isso não importa, Julia é antes de tudo uma estrela.

Nem ligaram quando foi revelado que foi usada uma dublê para as cenas em que mostra as pernas (entrando no carro e ou experimentando roupa) porque Julia não tinha pernas assim tão lindas. Até no pôster seu rosto foi colocado no corpo da modelo Shelley Michelle. Uma curiosidade: Disney preferia Meg Ryan no papel que  foi recusado antes por Sandra Bullock (reza a lenda mas parece  improvável), Molly Ringwald (que depois se arrependeu muito), Kim  Basinger, Kathleen Turner, Debra Winger, Bo Derek, Sharon Stone, Michelle Pfeiffer, e até Madonna!!! Tem mais:  Demi Moore, Brooke Shields (esta foi recusada pelo diretor e Brooke diz que foi o maior erro de sua vida), Drew  Barrymore (recusada por ser nova demais, como foi também o caso de  Winona Ryder), Uma Thurman, Daryl Hannah, Jennifer Connely,  Kristin Davis, Valeria Golino (que foi finalista), Sarah Jessica Parker.   

Richard Gere o favorito das brasileiras. 

Era famoso como um criador de casos, um sujeito briguento, mal humorado, que usava drogas pesadas e desprezava a imprensa. Foi assim que eu conheci Richard Gere, no começo dos anos 80, quando ele vinha com freqüência ao Brasil porque namorava uma brasileira, Silvinha, que era gaúcha e artista plástica. Não chegava a ser antipático, tinha a arrogância da juventude e de alguém que acabara de ficar famoso, virar astro de cinema. Na vez seguinte, no Festival de Cannes ele havia mudado muito. Era calmo, paciente, falava baixo e conversava com tranquilidade. Nesse meio tempo o que sucedeu foi a conversão: Gere se tornou budista e amigo da Dalai Lama, eventualmente até mesmo seu porta voz. A carreira no cinema passou a ser secundária, o que se refletiu inclusive na escolha de papéis. Nada de blockbusters ou fitas de ação. No máximo ousa mostrar que também sabe cantar e dançar como fez no papel de advogado corrupto no musical Chicago (2002).

Passado dos 60 anos (nasceu na Filadélfia em agosto de 1949) Richard Gere até já aceitou as rugas, o cabelo branco, a maturidade. Que agora um casamento estável (com a ex Bond Girl Carey Lowell) e um filho Homer, que leva o nome do avô. Sua prioridade é lutar pelos direitos do povo tibetano (cujo país foi invadido pelos chineses que expulsaram seus dirigentes como o Dalai Lama que teve que fugir para a Índia). E de vez em quando faz filmes em que acredita como O Vigarista. Gere já foi casado antes (com a modelo Cindy Crawford) numa época onde esteve muito cercado de publicidade.
Vindo da Broadway, foi revelado nos filmes em À Procura de Mr. Goodbar, com Diane Keaton (77) e Cinzas no Paraíso (78). Sua grande chance foi quando John Travolta largou Gigolô Americano e ele herdou o papel. Sem medo de aparecer pelado (o que já sucedeu várias vezes), logo virou sex symbol. Teve êxitos com A Força do Destino com Debra Winger (81), A Força do Amor (83), mas nada como Uma Linda Mulher (90). E também uma enorme sucessão de fracassos. No Brasil, seu público continua fiel.

Curiosidade: outros atores disputaram o papel: Burt Reynolds, Al Pacino, Stallone, Albert Brooks recusaram, John Travolta fez teste, assim como foram considerados Christopher Reeve, Denzel Washington, Daniel-Day Lewis, Tom Berenger, Christopher Lambert, Charles Grodin e Dennis Quaid.

Bastidores

Eis algumas histórias dos bastidores:

- Quando Edward quebra o colar de Vivian foi improvisada assim como a risada de Julia (o diretor gostou da reação e ficou).

- O colar que ela usa na época custava na época 250 mil dólares e um segurança ficou o tempo todo observando a cena.

- O casal vai assistir La Traviata, que é sempre uma prostituta que se apaixona por homem rico. Durante a cena de amor, apareceu na testa de Julia uma veia que o diretor e Gere tentaram fazer desaparecer com massagem (essa mesma veia é freqüente em outros filmes dela).

- É Richard Gere que toca realmente o piano. Ele também compôs a canção que executa.

- Para Julia rir na cena em que assiste I Love Lucy, o diretor teve que coçar os pés da atriz.

- O casaco vermelho que Julia usa foi comprado por 30 dólares de uma atendente do cinema pouco antes de filmar.

- O filme foi chamado de “3000” (o dinheiro que Vivian acertou com Edward por uma semana de serviços). Virou Pretty Woman quando a canção de Roy Orbinson entrou para a trilha.

- Gere começou mais ativo no filme mas o diretor lhe disse que era um papel passivo.

- A música tocada  quando o casal transa no piano teve que ser dublada por que o som era discordante demais.

- O orçamento do filme foi generoso, e por isso que há tantas cenas em locações em Los Angeles, melhor dizendo Beverly Hills.

- A cena com o escargot foi feita no Rex (hoje Cicada). O lobby do Beverly Wilshire Hotel foi realizado no hoje derrubado Ambassador Hotel.

- Ferrari e Porsche recusaram emprestar carros  por causa do tema, mas a Lotus Cars UK se aproveitou disso e as vendas do Esprit triplicaram. Quando o personagem Stuckey bate a porta de seu carro, foi realmente preciso trocar o vidro porque a janela se quebrou.

- Ao final Edward faz serenata com uma ária de La Traviata, adaptada especialmente para o filme.

- Se prestar atenção você consegue ver Gere mover a língua dentro de sua boca quando está na porta do Penthouse brigando com o emprego. Isso sucede porque uma coroa de um dente molar dele se soltou naquela cena!

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Os Amigos


Brasil, 2013. Direção de Lina Chamie. Com Marco Ricca, Dira Paes, Caio  Blat, Alice Braga, Sandra Coverloni, Rodrigo Lombardi, Fernando Alvez Pinto, Maria Manoela, Otávio Martins.

Gostei especialmente deste novo filme da diretora paulista Lina Chamie que tem demonstrado sensibilidade e também versatilidade (foi ela quem fez o documentário sobre o Santos Futebol Clube e Sobre a Corrida de São Silvestre). Se tem algum problema é que Lina fez um filme para os espectadores que estão na sua faixa de idade, entre trinta e cinquenta (já vi alguns jovens que rejeitam o filme, simplesmente porque ainda não passam por isso que é mostrado).

No entanto é um filme carinhoso, humano, como raramente encontramos por aqui. Traz também a melhor interpretação de Marco Ricca no cinema, fazendo o protagonista bem sucedido  arquiteto, que fica muito abalado com a morte repentina de um amigo de infância. Naquele dia, ele procura encontrar sua melhor amiga, Maju (outra iluminada presença de Dira Paes), mãe de duas filhas, que procura lhe arranjar uma companheira. Basicamente é isso, outros bons atores fazem participações (a sempre suave Sandra Corvelini é a viúva), mas é um dia na vida na crise de um homem de meia idade, não muito diferente de você e eu. Tomara que Os Amigos encontre o público que merece.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Revisitando: Scarface




Temporada de Clássicos no Cinemark dia 26 de novembro



EUA,1983. 170 min. Diretor: Brian De Palma. Elenco: Al Pacino, Steven Bauer, Michelle Pfeiffer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia, Paul Shenar, F. Murray Abraham, Harris Yulin, Miriam Colon, Pepe Serna, Richard Belzer, Gregg Henry.

Sinopse: Tony Montana depois de ter sido expulso de Cuba por Fidel Castro em 1980 chega a Miami e em pouco tempo se torna o rei do tráfico de Cocaína. Tem tendências incestuosas com a irmã e acaba se viciando na droga e perdendo o controle de seu império. 

Comentários: Saiu simultaneamente no Brasil e nos EUA uma edição em Blu-Ray de um dos filmes mais polêmicos e também cults dos anos 80. Eu nunca tinha voltado a assistir o filme desde quando o vi nos cinemas na época do lançamento e vem a calhar uma revisão. Inclusive dentro da proposta de reabilitar o diretor Brian De Palma. Tem gente que considera o filme inesquecível, em particular o mundo dos Raps. Al Pacino diz que é um dos seus favoritos. Poucos, porém se lembram de é a refilmagem de outro Scarface, o clássico de Howard Hawks que com justiça é considerado um dos filmes mais famosos e polêmicos do gênero. E também um dos primeiros a ter problemas graves com a censura, que por sinal lhe impôs um subtítulo moralista, A Vergonha de uma Nação. Importante notar que esta refilmagem traz uma dedicatória não apenas a Hawks mas também ao roteirista Bem Hecht. 

O Scarface de 1932 é uma produção do excêntrico milionário Howard Hughes, que achou que fazer uma fita de gangster era o que lhe dava mais chance de sucesso e chamou para realizar o projeto aquele que considerava o melhor diretor de Hollywood, Howard Hawks. E lhe deu a idéia básica: fazer uma espécie de adaptação da vida da família dos Bórgia, só que vivendo em Chicago nos anos trinta. Ou seja, Cesar Bórgia seria o gangster Al Capone e teria mesmo uma atração incestuosa por sua irmã, que seria uma espécie de Lucrécia Bórgia. Esse seria o ponto de partida para um projeto muito complicado porque na época havia uma grande rejeição contra os filmes que pareciam endeusar os gangsters como O Pequeno Cesar/ Alma no Lodo com Edward G Robinson e O Inimigo Publico Numero Um com James Cagney (vendo os filmes de Cagney e Bogart que Tony Montana teria aprendido a falar inglês, na refilmagem). Mas é fato que a história original é inspirada na vida de Capone, que realmente tinha uma cicatriz como o Scarface do filme, embora ela fosse no pescoço e não no rosto. 

Hawks sempre declarou que chegou a consultar os gangsters sobre o projeto e que o próprio Capone teria gostado tanto do filme que tinha uma cópia pessoal dele. Pode ser exagero, mas o fato é que muitos incidentes da história são inspirados em fatos reais e que a quadrilha de Capone ficou até lisonjeada em ser mostrada num filme como também os traficantes latinos que Oliver Stone conheceu para escrever seu roteiro. Paul Muni que faz o papel título em 1932, foi descoberto no teatro iídiche de Nova York e relutou muito antes de fazer o personagem. Pacino se inspirou nele e também seu estilo de representar um pouco exagerado, chegado ao chamado overacting

Quem teve a idéia de refazer o filme foi o produtor Martin Bregman, que sentiu que havia um clima pronto para ressuscitar o gênero gangster. Mas foi basicamente o diretor Sidney Lumet quem teve a ideia de contar a historia dos traficantes cubanos em Miami e mesmo usar o filme antigo como base. Chamaram então o roteirista Oliver Stone (que na época havia um fracasso como diretor A Mão/The Hand com Michael Caine e precisava de dinheiro porque naquele momento estava viciado em cocaína e tentava se livrar do vicio morando uns tempos em Paris. Foi lá que escreveu o texto, mas não sem antes fazer uma viagem de pesquisa com a esposa para disfarçar, por Miami, Caribe, Bolívia e Equador. Foi quando conviveu com bandidos de verdade. Quando entregou o script Pacino que já estava no projeto gostou muito, mas Lumet recusou porque queria fazer um filme mais político. Assim chamaram para o projeto De Palma, que não mexeu quase no trabalho de Stone. 

Começaram a rodar em Miami, na famosa Ocean Drive (bairro Art Decô em Miami Beach, com hotéis antigos restaurados), mas depois de um tempo começaram a ser ameaçados pelos cubanos locais que se ofenderam e não queriam ser retratados como traficantes desenfreados (era fato porém que a droga imperava naquele momento na cidade, tanto que logo depois surgiu o seriado Miami Vice, de Michael Mann). A equipe preferiu então retornar a Los Angeles onde maquiaram os lugares para ficarem parecidos com Miami. É interessante notar que no filme o apelido Scarface é falado apenas uma vez e assim mesmo em castelhano, e o próprio Tony quando interrogado não revela detalhes de como a conseguiu, só insinuando que teria sido numa briga  e que o rival teria ficado pior que ele (nessa cena do interrogatório logo no começo após o documentário que situa os fatos e mostra cenas reais de quando Fidel expulsou de sua ilha, ouvem-se as vozes de dois amigos do diretor Dennis Franz e Charles Durning). 

Extremamente violento (teve oito cortes quando passou em nossos cinemas) e exagerado (ou sem controle), talvez por isso mesmo se tornou cult. De Palma fala que nas pré estréias o pessoal da industria odiou o filme (que chegou a ser indicado ao Framboesa de pior diretor). Mas que o via como uma espécie de Tesouro de Sierra Madre atualizado e enlouquecido, o sonho americano transformado em auto-destruição.  Chegou a receber classificação X (ou seja, proibido para menores) da auto-censura mas conseguiram rebaixar para R, fazendo alguns cortes. Muito esperto, De Palma fez de conta que obedeceu, mas acabou mandando para a as salas a versão completa, integral e o estúdio nunca percebeu nada (mais ou menos como se fazia no Brasil na época da ditadura, fingia-se que se cortava o que a censura pedia). De Palma só foi revelar isso quando o filme saiu em Home vídeo.

Totalmente ignorado pelos Oscars, chegou porém a ter indicações ao Globo de Ouro (Pacino e Steven Bauer e também a trilha musical eficiente mas agora um pouco datada de Giorgio Moroder). Nos extras do Blu-ray, um deles inédito e feito pelo especialista do gênero Bouzereau, vários rappers, diretores de cinema (Eli Roth, Antonio Fuqua, Keith Gordon, o italiano que fez Gomorra), críticos, escritores,  declaram sua paixão pelo filme a que chamam de “over the top”, operístico, hiper realista, o Inferno de  Dante. Mas dizendo sempre que tudo isso foi de propósito. E que ate Tarantino teria se inspirado no tiroteio final para seus Bastardos Inglórios. A influência do filme na mídia é impressionante. Basta dizer que a máquina de lavar dinheiro sujo do ditador do Iraque Saddam Houssein se chamava Montana Management! O IMDB cita mais de 300 casos onde o filme é mencionado seja com pôster, com frase famosa ou cenas inteiras. E os extras mostram alguns (South Park, Saturday Night Live, Law and Order). Demonstrando que Scarface se tornou um fenômeno, que hoje faz parte da cultura básica americana! Ainda que na estréia não tenha feito tanto sucesso de bilheteria, teria custado 25 milhões e rendido 45 nos EUA e  mais 60 no exterior (Seria preciso no entanto levar em conta a inflação que mudaria esses dados). 

Nas entrevistas atuais no Blu-ray (estão presentes Steven Bauer e De Palma assim como o produtor mas não Pacino ou Pfeiffer) não se menciona outras atrizes que teriam sido convidadas para o projeto. Mas outras fontes indicam que houve várias candidatas (Kim Basinger, Kathleen Turner, Rosana Arquette, Jennifer Jason Leigh, Jodie Foster, que teriam recusado o papel assim como Brooke Shields, por ser nova demais e ainda Glenn Close, preferida pelo produtor). Travolta foi convidado para ser o parceiro de Pacino (no lugar entrou  Bauer, que era o único cubano de nascimento e que foi casado com Melanie Griffith. Apesar do tipo ele não chegou a emplacar).

Em geral o elenco de apoio é muito bom, começando pelos chefões do crime feitos por Robert Loggia (ótimo, mas infelizmente não muito conhecido) e Murray F. Abraham,  futuro vencedor do Oscar® por Amadeus. Revelou Mary Elizabeth Mastrantonio (de origem italiana) para ser a irmã vitima do incesto, mas ela se casou com o diretor Pat O´Connor, teve dois filhos e hoje se contenta em fazer papéis em séries de TV. Teria sido também escolhida por teste Michelle Pfeiffer (que teve que pagar sua passagem para vir a Miami fazer o teste, que o produtor achou que era uma prova de seu interesse). Naquela altura ela já havia estrelado o fracasso Grease 2  (cabelo errado dava a impressão de que era gorda e sem pescoço). Determinada a provar o contrario ela emagreceu muito e ficou deslumbrante. Deram-lhe inclusive uma verdadeira entrada de estrela, descendo um elevador num vestido insinuante e depois entrando na sala. Outra cena memorável é quando a câmera lentamente vem se aproximando do seu rosto (lindo) enquanto ela cheira cocaína, se pinta e fuma cigarro. Alias todo mundo cheira demais e em toda parte (o fato é que em Hollywood e no mundo era o auge da moda de se drogar, tanto que chegam a dizer que aqueles chefões que aparecem se comportam como os executivos dos estúdios na época na visão de De Palma). De qualquer forma, com o filme Michelle Pfeiffer se tornou estrela até hoje.

Segundo os especialistas o palavrão Fuck é dito 226 vezes e há 42 mortes. Prova de que não é um filme leve. Sem dúvida, De Palma quis fazer uma “alegoria”, ser maior do que a vida como se costuma dizer, não um semidocumentário. (o filme ficou em 10º lugar na lista dos melhores filmes de gangsteres do American Film Institute em todos os tempos).

 O mais interessante é ver Pacino sem barreiras deitando e rolando  no personagem sem qualquer freio (ele só falava com o fotógrafo John Alonzo em espanhol para ficar dentro do personagem e foi ele quem improvisou a palavra yeyo yeyo para designar a Coca, que foi assumida pelo diretor). Tem muita gente que o acha caricato aqui, outros adoram. Confesso que na primeira visão tinha me assustado, agora ou já me acostumei ou a percepção mudou (aquela velha historia “mudou o mundo ou mudei eu?”). Mas não há dúvida que é uma figura dominante e carismática. 

Também o filme ganha contornos de um conto moral, mostrando a ascensão, apogeu e queda de um criminoso que é corrompido pelo seu trabalho (não ouve a frase que diz Michelle, “don´t get high on your own supply”, “não fique alto com seu próprio estoque”). Mas há várias outras frases e momentos que entraram para a cultura pop, como a cena da Serra Elétrica (das mais sangrentas, mas uma que De Palma constrói devagar, usando gruas e entradas e saídas por janelas. Na verdade, ele se não tem aqui grandes tours de force, sempre dá um toque especial a cada movimento de câmera e enquadramento). Entre as frases: “Diga alô para minha amiguinha” (no caso sua metralhadora), “Eu tenho duas coisas no mundo que eu respeito, meus ´documentos´ (balls, no caso falando também de sua coragem) e minha palavra e eu não as quebro por nada nem por ninguém” (quando se recusa matar crianças e mulher); “Eu sempre digo a verdade mesmo quando minto”. “Lição numero um: nunca subestime a ganância alheia. Neste pais você tem que conseguir primeiro a grana, depois o poder, só então a mulher que deseja”. “Será eu não dá para dizer Fuck o tempo todo”... “O mundo pode ser Seu. Mas a que preço”? (e muitas outras).

Por causa de tantos palavrões um dos extras na edição em Blu-ray mais interessantes é como o filme foi redublado e suavizado para a televisão, tirando todos os excessos (Scarface TV). Liguei menos para o como foi feito o Video Game. Mas apreciei as cenas cortadas (2 delas nas barracas levantadas em Miami e numa delas Montana finge seduzir o amigo a força e um gay se manifesta propondo ate sexo para ele, este recusa. Mas durante o filme chama muitos de Maricon (coisa alias muito latina). 
  outras mais longas no externo desse acampamento, tomada diferente dos 4 amigos andando de conversível pela Ocean Drive, uma compra de droga de um cara que tem de tudo, um passeio pelo jardim de Mr. Soza, detalhe maior do Abraham sendo morto no helicóptero, cena maior com advogado, a chegada ao restaurante onde Montana faz escândalo depois, começo do encontra com Loggia, e cena noturna quando quase é preso por policiais. Noutro, policiais e agentes dão depoimentos de como era o trafico na época em Miami. Fala-se também que o elenco teve um mês inteiro de ensaio antes das filmagens (o que é muito raro). 

Enfim este é outro caso que provocou escândalo em sua estreia e por isso foi incompreendido. Pessoalmente não é um filme que me toca especialmente (até pelo tema), mas as imitações (uma delas da própria dupla Pacino/Palma, que foi Pagamento Final/ Carlitos Way, 93) em vez de lhe tirar o brilho, demonstram sua originalidade e apesar (ou por causa) da sangreira sua intenção de ser alegórica e fugir do realismo. Tem momentos de virtuosismo e algumas das sequências de ação e  violência mais fortes já realizadas pelo cinema.