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sexta-feira, 16 de março de 2018

O Cinema de Luis Buñuel


Esta é outra excelente edição da Distribuidora Versátil, com 6 cards e 6 filmes do genial diretor. Eis um resumo crítico dos seus trabalhos contidos no digistack com 3 DVDs.

Tristana, Uma Paixão Mórbida (Tristana) ****
França, Itália, 1970, 95min. Diretor: Luis Buñuel. Elenco: Catherine Deneuve, Fernando Rey, Franco Nero, Lola Gaos, Antonio Casas, Jesús Fernandéz.
Sinopse: Após ficar órfã a jovem Tristana é levada para morar com seu tutor, um velho livre-pensador e parasita. Aos poucos a paixão doentia dele vai destruindo a pureza da moça.
Pouco depois da obra-prima A Bela da Tarde (Belle de Jour, 1967) o mestre espanhol Luis Buñuel (1900-83) se reuniu novamente com Catherine Deneuve num de seus filmes mais sóbrios e lineares (e, no entanto, chocante em seus meandros). Buñuel constrói com muito rigor o filme em duas partes, a primeira esquemática e até didática na crítica impiedosa de Don Lope (o notável ator espanhol Fernando Rey, 1917-94, de Operação França, Esse Obscuro Objeto do Desejo, O Discreto Charme da Burguesia, todos eles de Buñuel!). Mas não destituída, porém, de uma certa simpatia pelo personagem e sua destruição de Tristana (uma das suas inesperadas e impiedosas reviravoltas). Repare na sutileza com que Buñuel insere seu sempre obrigatório ataque ao clero.
Um dos grandes filmes do diretor, cheio de ironia e bom elenco. Foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro. Rey foi premiado como melhor ator em Cannes, o filme foi premiado em Biarritz, e da revista Fotogramas de Plata. Buñuel contava que as idiossincrasias de Tristana foram baseadas nos hábitos da própria irmã dele! Quando foi indicado ao Oscar, Buñuel declarou: ”nada me deixaria mais aborrecido moralmente do que ganhar um Oscar!”. E o filme que ganhou acabou sendo o italiano Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita também muito bom. Catherine Deneuve sempre declarou que este era um de seus filmes favoritos. Na época ainda havia uma forte censura na Espanha do ditador Franco (que proibiu o filme duas vezes quando ainda estava em roteiro) e o filme só conseguiu ser feito quando chamou atores internacionais. Buñuel era grande admirador de Perez Galdós, o autor do romance original e origem do filme. Mas ainda assim achava a novela “kitsch” , previsível e dos piores trabalhos do escritor. Mudou a historia de Madrid para Toledo, e a ação do fim do século 19 para 1920, quando o diretor ainda era muito jovem! Apesar disso lutou durante anos para conseguir realizar o filme. Mais de vinte anos, desde os anos 50, quando morava no México. A censura de Franco havia implicado com o filme anterior dele, Viridiana (61) e foram 8 anos para convencê-los a autorizar o filme. Eles eram contra a sedução e corrupção da heroína além das criticas à Igreja. Reza a lenda que La Deneuve teve um romance com o galão italiano Franco Nero, atual marido de Vanessa Redgrave.

O Estranho Caminho de São Tiago ou A Via Láctea (La Voie Lactée) ****
Espanha/,França, 1969. 102 min. Direção e musica de Luis Buñuel. Produção de Serge Silberman. Roteiro de Jean-Claude Carrière e Buñuel. Fotografia de Christian Matras. Com Laurent Terzieff, Paul Frankeur, Delphine Seyrig, Edith Scob, Alain Cuny, Muni, Bernard Verley, Michel Piccolli, Pierre Clementi, George Marchal, Claudio Brook, Delphine Seyrig, Jean Claude Carriére, voz de Buñuel (na cena em que o Papa é assassinado por revolucionários).
Sinopse: Dois peregrinos que estão viajando pelo caminho para São Tiago de Compostela passam por todas as grandes heresias da Igreja Católica.
Bastidores: Um dos filmes mais ousados e anti-católicos de Buñuel. Depois de Belle de Jour, o surdo e alcoólatra diretor ameaçou abandonar o cinema, mas retornou com este trabalho, anterior à Tristana. São dois peregrinos que fazem uma viagem até São Tiago de Compostela na Espanha (a palavra vem do latim, Campus Stella, ou seja A Via Láctea ou Caminho das Estrelas). É por isso que o filme tem dois títulos. Trata-se de um passeio pelas heresias da História, o filme de um espanhol ateu que nunca conseguiu se livrar da super estrutura da Igreja, e que sempre se considerou “ateu, graças a Deus”. Ele e o roteirista Carrière pesquisaram tudo que se referia às Heresias, e fizeram a história de dois mil anos de Heresias, em dezenove sequências. Os dois mendigos (Paul e Laurent) - que parecem estar esperando “Godot” !
 No seu caminho encontram os mais estranhos personagens, todos eles discutindo problemas e falando frases rigorosamente autênticas, retiradas de livros da época. O filme mostra as seis mais importantes Heresias: Cristo ao mesmo tempo como Homem e Deus, A Santíssima Trindade, a Transubstanciação, a Imaculada Conceição, a sabedoria e onipresença de Deus e as origens do Diabo. A ironia de Buñuel contando piadas das Bodas da Canaã e usando barba somente porque barba inspirada confiança. O efeito é salutarmente cômico, quase surrealista. Sem mais nem menos, se discutem heresias da forma mais engraçada possível. É claro que essa velha fobia anti-clerical, só se poderia aceitar de um homem como ele, que em toda sua vida combateu os absurdos do catolicismo, sem nunca conseguir libertar-se de suas marcas. O maior problema é a dificuldade de identificar personagens e símbolos. O espectador não tem obrigação de saber todas as heresias para identificar “quem é quem”. O mais facilmente reconhecido é o Marques de Sade (Piccoli) que parece ter sido levado às suas práticas sexuais diante de uma mulher que histericamente afirmava a existência de Deus. Responde Sade:  “ Se Deus existe, eu o detesto”.
 A peregrinação começa com um encontro com um desconhecido (Cuny), que dá uma esmola ao menos pobre dos dois. Porque somente quem tem fé tem direito a tudo. Faz também uma profecia: “terás o filho de uma prostituta”. Mesmas palavras feitas por Deus ao profeta Oséias. Esta prostituta (Seyrig) surge no final e Buñuel sugere que ela talvez seja um anjo. Depois a Transubstanciação é defendida por um padre saído de asilo de loucos que conclui, “Deus está para a hóstia assim como o carneiro está para o patê de Carneiro”. A dupla natureza de Cristo é debatida entre garçom e “maitre” de um restaurante. A origem do diabo se revela numa orgia “prisciliana” em que o Bispo de Ávila põe em prática sua tese de que se deve tirar o mal do corpo através dos excessos sexuais. O Livre Arbítrio serve de tema para um duelo entre um Jansenista e um jesuíta, que no fim saem de braços dados. Enquanto numa capela próxima, uma freira se crucifica. A Santíssima Trindade é criticada por um bispo que profana um túmulo, a Imaculada Conceição é discutida numa cena em que um casal se tranca no quarto enquanto um padre começa a falar sobre sexo e casamento, conseguindo finalmente inibir o casal. Buñuel mostra o padre dentro do casal mostrando que a Igreja está sempre interferindo nas relações de alcova.
A mais importante de todas as conclusões é de Cristo que anuncia que veio a Terra não para trazer a paz, mas a Espada. Mais tarde ele faz um milagre, para que dois cegos voltem a ver. Quando Jesus e os discípulos pulam uma vala, a câmera mostra os dois cegos examinando as valas com suas bengalas, apesar de terem recobrado a visão, eles conservam o velho hábito da bengala. O homem é moralmente cego, quer dizer Buñuel, e sua única saída é sua liberdade espiritual. Os episódios surrealistas se sucedem, num deles, um carro se espatifa porque recusou carona, dentre dele, está o diabo (Clementi) que dá um conselho muito prático “Roubar os sapatos do morto” . Mais tarde, quando são interrogados pela polícia por suspeita de roubo, desta vez de comida, os policiais acabam aceitando uma resposta estereotipada “de acordo com a visão que eles próprios têm da coisa”. Outros episódios são também muito engraçados. Numa festa de colégios de garotas, estas recitam “anátemas”, enquanto há flashes de um grupo de revolucionários, preparando para fuzilar o Papa. Ouve-se barulho de tiros e um dos espectadores pergunta o que foi. O vagabundo explica que era ele imaginando a execução do Papa, o outro responde: “Isso só vai acontecer em sua imaginação”.
Buñuel não chega a concluir. Quando os peregrinos chegam à Santiago descobrem que há suspeitas de que não ele que está enterrado lá, mas um Prisciliano. Então, todas as peregrinações e milagres nunca tiveram sentido. Então, “meu ódio pela ciência e a tecnologia, talvez me faça cair no absurdo de cair de acreditar em Deus”, diz ele. A Via Láctra é o filme de um jovem velho contestador que faz brincadeiras à maneira de Godard e que defende suas idéias, as mesmas desde A Idade do Ouro (L´Age D´Or), no início de sua carreira até o fim. Ainda que um pouco “quadrado” em matéria de linguagem, é um grande show-man. Mesmo que não se entenda os detalhes de sua fita, é uma brilhante e instigante diversão, provando que idade é uma coisa muito relativa (foi realizado depois de Bela da Tarde e antes de Tristana). Em sua autobiografia o diretor afirma que resolveu fazer o filme ao ler Historia de los Hetereoxos españoles de Marcelino Menendez Y Pelayo.

O Fantasma da Liberdade (Le Fantôme de la Liberté ) ****
França, Itália, 1974. 104 min. Diretor: Luis Buñuel. Elenco: Adriana Asti, Adolfo Celi, Jean Rochefort, Michel Lonsdale, François Maistre, Michel Piccoli, Monica Vitti, Pierre Lary, Marie-France Pisier, Jean-Claude Brialy.
Sinopse: Uma série de episódios cotidianos interligados, vistos de forma surrealista e inesperada.
O grande mestre espanhol Luis Buñuel (1900-83), então recém agraciado com a Palma de Ouro em Cannes por O Discreto Charme da Burguesia (Le Charme Discret de la Bourgeoisie, 1972) tencionava encerrar sua carreira como diretor com este filme, o mais radicalmente surrealista desde seu começo de carreira nos anos 20 e 30 com Um Cão Andaluz e A Era do Ouro (ele acabaria voltando a dirigir mais outro, Esse Obscuro Objeto do Desejo, convencido pelo produtor e amigo Serge Silberman). É uma sucessão de episódios todos casualmente entrelaçados por algum personagem, sempre intrigantes e desconcertantes e que, bem no espírito surrealista, desafiam e ao mesmo tempo impossibilitam explicações racionais. Ajudado no roteiro por seu colaborador habitual Jean-Claude Carrière, o diretor tem algumas sacadas como quando nos mostra um jantar onde as pessoas sentam-se à mesa em privadas e se trancam em um pequeno cômodo para comer; monges que após rezarem para um doente jogam cartas e bebem; uma menina dada como desaparecida que está o tempo todo à vista dos pais; fotografias obscenas presenteadas a duas meninas em um parque que se revelam surpreendentes e principalmente um franco atirador que mata pessoas à esmo do alto de um prédio de Paris.
Buñuel (que aparece rapidamente no episódio inicial espanhol sob os créditos como um dos condenados à morte) novamente despeja ironia feroz e sarcasmo sobre seus alvos prediletos: a burguesia, a autoridade constituída, o clero, a hipocrisia, as convenções sexuais. A falta de trama não torna o filme vazio. Pelo contrário, a sucessão de surpresas cativa o espectador e a trivialidade dos acontecimentos tornam os desenlaces surreais ainda mais desconcertantes. Fazendo-nos, como em grande parte objetivava o movimento surrealista, enxergar a realidade com outros olhos. Um filme especial que envelheceu um pouco, se tornando por momentos lentos e irritantes (e não é para todos os públicos) de um dos mais autorais diretores da história do cinema. O título, uma citação do início do Manifesto Comunista de Marx e Engels, pode tanto ser uma crítica ao comodismo burguês quando ao radicalismo esquerdista. Ambiguidade bem típica de Buñuel. Só há registro de prêmios de direção pelos críticos italianos e O National Board of Review. O titulo é uma referencia ao Manifesto Comunista e o título original, traduziu em vez de Especreto com Fantasma. O que o torna uma sátira a mentalidade burguesa que tem medo da liberdade, mas também uma critica aos partidos comunistas rígidos da época.

A Morte neste Jardim (La Mort en ce Jardin)  ***
México,França , 1956. 100min. Direção: Luis Buñuel. Elenco: Simone Signoret, Georges Marchal, Michel Piccoli, Tito Junco, Charles Vanel, Michele Girardon. Adaptação: Luiz Alcoriza. Baseado em livro de José-André Lacour.
Sinopse: Na Guiana Francesa, em 1945, fronteira do Brasil, um golpe militar obriga garimpeiros a fugirem, um velho com sua neta, uma prostituta, um padre e um aventureiro que se embrenham pela selva tropical.
Esteve inédito durante anos no Brasil, este pouco conhecido trabalho do espanhol Buñuel na época ainda exilado no México. Ele ainda não era tão famoso, mas mesmo assim conseguiu reunir um ótimo mas heterogêneo elenco. Para compensar o canastrão central Marchal (1020-97), tem o veterano Vanel, a estrela Signoret e o ainda coadjuvante Piccoli, todos como vítimas de uma violência militar que os obriga a fugir para a fronteira através da selva, que seria o jardim. Buñuel volta a trabalhar a cores (tinha feito antes Robison Crusoe) com o sistema Eastmancolor com resultado bem interessante. Mas o roteiro é fraco e mal desenvolvido, com alguns toques estranhos (como a cobra que é devorada pelas formigas gigantes), alguma filosofada, tudo narrado da forma clássica que o diretor gostava. Insatisfeito com o script, ele o reescrevia todos os dias de madrugada e tudo durou apenas 3 semanas. Parece ter tido pretensões comerciais em meio a certos temas subversivos (a igreja colonialista, a exploração de diamantes, a policia atirando nos manifestantes, depois o fuzilamento, personagens ambíguos e complexos, certo toque de Tesouro de Sierra Madre). A estreante francesinha Michele Girardon que também fez Hatari de Howard Hawks e interpretou uma jovem muda, se suicidou em 75, quando tinha apenas 37 anos. Segundo o diretor Simone Signoret estava tão apaixonada por seu marido Yves Montand que, a caminho do México, colocou documentos comunistas no passaporte na esperança de ser impedida da imigração americana!

O Diário de Uma Camareira (Le Journal d’une Femme de Chambre) ***
França, Itália, 1964. 95min. Diretor: Luis Buñuel. Elenco: Jeanne Moreau (1928-2017), Georges Géret, Michel Piccoli, Daniel Ivernel, Fançoise Lugaigne, Jean Ozenne, Muni, Jean Claude Carrière. Baseado em livro de Octave Mirbeau (1850-1917). Houve versões da mesma história como Segredos de Alcova com Paulette Goddard, 46, de Jean Renoir, uma versão homônima de 2015, de Benoit Jacquot, com Lea Seydoux, Vincent Lindon. Uma outra desconhecida de 2011 de Bruno François Boucher.
Sinopse:  Jovem camareira vai trabalhar no interior da França, em casa de família rica repleta de taras e esquisitices, e acaba se envolvendo também na investigação do estupro e morte de garotinha da região.
Após uma sucessão de filmes realizados no México, Luis Buñuel (1900-83) realizou na França essa adaptação livre do livro de Mirbeau. É uma história muito erótica, cheia de ambiguidades e subentendidos, bem ao gosto do diretor, e cujas ironias cruéis sobre as relações entre patrões e empregados lembram justamente o cinema de Jean Renoir. Não faltam aspectos tipicamente buñuelianos: a crítica mordaz às elites, o anticlericalismo, o fetiche por pés, o final irônico e inesperado. E há ainda a beleza e o talento de Jeanne Moreau (em sua autobiografia, aliás, Buñuel diz que a escolheu para o papel justamente pelo modo como ela caminhava usando saltos altos!). Uma pequena obra-prima do genial diretor. O Chiappe que é visto sendo saudado aos gritos pelos fascistas, numa sarcástica homenagem de Buñuel, era o chefe da polícia parisiense que, entre muitos outros gestos autoritários, proibiu a exibição do filme do diretor A Era do Ouro (L’Âge d’Or, 1930) e fascistas destruíram a sala de cinema que o exibia.

Simão do Deserto (Simón del Desierto ) ***
México, 1965. 43 min. Diretor: Luis Buñuel. Elenco: Claudio Brook, Silvia Pinal, Enrique Álvarez Félix, Hortensia Santoveña.
Sinopse: No século IV, o santo Simão vive sobre uma altíssima coluna no meio do deserto, penitenciando-se porque deseja estar mais perto de Deus e fica por lá durante 37 anos consecutivos. Mas é tentado pela falta de fé das pessoas e pelo próprio Satanás.
Comentários: Buñuel realizou no México, com dinheiro do produtor Gustavo Alatriste, marido da estrela Silvia (que havia sido Viridiana), este filme muito pessoal, que lança um olhar novo sobre os seus proverbiais ateísmo e anticlericalismo. Era um projeto tão próximo ao diretor que, quando o dinheiro acabou, ele abandonou a idéia inicial (que teria metragem normal) e finalizou o que tinha com seus próprios recursos, adicionando um epílogo inesperado e mesmo assim deixando o filme com menos de uma hora de duração. Baseado na vida de São Simão Estilita, que teria vivido no século VI e passado sessenta e quatro anos no alto de uma coluna, Buñuel relê a sua moda o santo, feito pelo mexicano Claudio Brook. Com muita ironia, mas simpatia e até respeito, ele mostra as dificuldades do santo para levar a cabo sua penitência. Não pelo desconforto físico ou pelo sofrimento, mas pelo que ocorre embaixo, ao pé de sua coluna. Seus milagres são recebidos com indiferença pelo povo, os monges têm dúvidas sobre ele e o próprio Satanás (sugestivamente feito por Silvia) o tenta de diversas maneiras e procura fazê-lo descer para o chão e abandonar seu suplício.
O filme tem um clima de comédia, mas é basicamente uma reflexão filosófica séria sobre o contraste entre a fé pura e desinteressada e a religião estabelecida, que traz a reboque a indiferença, o fanatismo, a idolatria. Buñuel ganhou o prêmio especial do júri e o da crítica em Veneza. Curiosamente o então já consagrado Glauber Rocha faz breve figuração no filme. A fotografia é do mestre mexicano Gabriel Figueroa. Ganhou premio do Júri e da Crítica no importante Festival de Veneza. O santo que inspirou o filme era chamado de Simeon Stylites o Sírio. Este foi o último filme do diretor no México onde fez 20 filmes em seu período de exílio da ditadura na Espanha. Foi inspirado no livro The Golden Legend, uma biografia de santos do século 13.

A Arte de Robert Bresson



Edição em Digistack pela Versátil. Com 2 DVDs, 4 Cards, em versões restauradas, uma hora de extras incluindo documentário sobre o cineasta.

Robert Bresson (1907-1999)
Diretor francês, nascido em 25 de setembro em Bromont-Lamothe, na Auvergne. Os críticos o adoravam, o público o detestava. Seus filmes não fazem concessões, são rigorosamente concebidos e montados, quase sempre sem utilizar atores profissionais (sua única descoberta que se tornou profissional foi Dominique Sanda). Chamado de o "jansenista" do Cinema francês, pelo rigor e disciplina de seus trabalhos, que também podem ser chamados de “minimalistas”’. Suas fitas são difíceis, mas irrepreensíveis. Começou como pintor e passou mais de um ano como prisioneiro de Guerra. Apesar de ter trabalhado como roteirista e dirigido em 1934 um média-metragem, Les Affaires Publiques, uma sátira burlesca cujas cópias desapareceram, Bresson considerava que sua carreira começou com O Diário de um Padre (embora tenha feito apenas 14 filmes em 50 anos!) onde passou a usar amadores como modelos (não os chamava de atores). Os títulos em português via IMDB, traz versão nem sempre original que passou em cinemas comercialmente, mas também titulo usado em festivais! Morreu aos 98 anos em Paris (só estreou no cinema aos 42 anos). Mas se aposentou antes na década de 1980 quando não conseguiu fundos para a produção de um desejado Livro do Genesis.

Dir.: 1934 – Les Affaires Publiques (Média Metaragem. Comédia). 1943 – Anjos do Pecado (Les Anges du Péché. Rennée Faure, Jany Holt). 1944 – As Damas do Bois de Boulogne (Les Dames du Bois de Boulogne. Maria Casarés, Elina Labourdette). 1950 – O Diário de um Padre ou O Diário de um Paroco de Aldeia ( Le Journal d'Un Curé de Campagne . Claude, Armand Guilbert). 1956 – Um Condenado à Morte Escapou (Un Condamné à Mort s’est Echappé. Françoise Leterrier, Charles le Claiche). 1959 – Pickpocket (Idem. Ou O Batedor de Carteiras. Martin Lassale, Marika Green). 1962 –O Processo de Joana D´Arc ( Procès de Jeanne D'Arc. Florence Carrez, Jean-Claude Fourneau). 1966 – A Grande Testemunha (Au Hasard Balthazar. Anne Wiazemsky, Françoise Lafarge). 1967 – Mouchette, a Virgem Possuída (Mouchette. Nadine Nortier, Jean-Claude Guilbert). 1969 – Uma Mulher Delicada (Une Femme Douce. Dominique Sanda, Guy Frangin). 1971 – Quatro Noites de um Sonhador (Quatre Nuits d’Un Rêveur. Isabelle Weingarten, Guillaume des Forêts). 1974 –Lancelot do Lago ( Lancelot-du-Lac . Luc Simon, Laura Duke). 1977 – O Diabo Provavelmente( Le Diable Probablement (Antoine Monnier, Tina Irissari). 1983 – O Dinheiro (L’Argent. Christian Patey, Sylvie Van der Eisen).

A Grande Testemunha (Au Hasard Balthazar)****
França, Suécia, 1966. 95 min. Diretor: Robert Bresson. Elenco: Anne Wiazemsky, François Lafarge, Philippe Asselin, Nathalie Joyaut, Walter Green, Jean-Claude Guilbert.
Sinopse: O burrinho Baltazar passa de bicho de estimação de um grupo de crianças a animal de trabalho, maltratado por todos. Ao mesmo tempo testemunha a infelicidade de sua primeira dona.
Comentários: Apesar de menos celebrado e famoso que O Processo de Joana d'Arc ou Pickpocket, esta é uma das obras-primas do mestre francês Robert Bresson, um comovente e muito católico drama sobre o sofrimento e desamparo dos inocentes. Tudo no estilo austero e sem artifícios de Bresson em uma narrativa com o uso muito pessoal do realismo que caracterizava o diretor. Basicamente é a exposição nua dos padecimentos do burro Baltazar e de sua antiga dona (a talentosa estreante Anne Wiazemsky, que seria depois por pouco tempo mulher de Godard, que seguiria carreira e se tornaria também escritora). O filme já começa mostrando-o sendo batizado pelo grupo de crianças que o cria com carinho. Quando elas crescem e ele é vendido para uma sucessão de donos, encontram-se nas mais diversas situações, o animal vítima de maus-tratos e crueldades pela sua condição, a moça de humilhações e decepções por seu amor e carência, os outros indiferentes ou egoístas. Bresson não se preocupa em desenvolver uma trama e sim em mostrar, sem se envolver, como os fortes submetem e tiranizam os fracos. Fiel a sua regra de usar atores amadores o diretor chegou ao extremo de recusar animais treinados (exceto na breve sequência do circo), causando uma infinidade de transtornos nas filmagens. Que, no entanto, não transparecem no delicado, ainda que chocante, resultado final, tocante e surpreendente e fora de qualquer padrão dos filmes sobre animais. Ganhou prêmios dos Críticos franceses, Premiado no Festival de Veneza pelo Cineforum, Novo Cinema, OCIC e San Giorgio.

Mouchette, a Virgem Possuída (Mouchette) ****
França, Itália, 1967. 78 min. Diretor: Robert Bresson. Elenco: Nadine Nortier, Jean-Claude Guilbert, Marie Cardinal, Paul Hebert, Jean Vimenet. Baseado em romance de George Bernanos.
Sinopse: A jovem Mouchette vive na miséria com sua família, sofrendo ainda com o descaso do vilarejo. Em uma noite chuvosa foge para o bosque onde tem um estranho encontro com um caçador.
Comentários: O melodramático título brasileiro desse clássico do francês Robert Bresson não podia ser mais inadequado, porque nada está mais distante do cinema duro e seco de Bresson, com encenação rigorosa e sem artifícios, do que o melodrama. Na verdade é uma descrição sóbria (e, por isso, mais contundente) do efeito devastador da miséria sobre uma adolescente (a marcante amadora Nadine Nortier, que nunca mais fez nada). Com o distanciamento e isenção que eram sagrados para Bresson. Ele mostra a vida cinza de Mouchette em um casebre com a mãe doente e o pai e o irmão alheios, cuidando sem recursos do bebê, sofrendo com a crueldade dos colegas de escola, o sadismo dos professores, a caridade temperada com desprezo mal-dissimulado das vizinhas. Até que em uma noite de chuva estabelece uma estranha e até patética cumplicidade com um caçador. É dos filmes de Bresson o que melhor dialoga com o espectador, sem abusar dos maneirismos estranhos que por vezes dificultam a apreciação de seus filmes. Além disso, o estilo do diretor, inclusive seu hábito de usar atores não-profissionais, se encaixa a perfeição ao tema, e Bresson jamais julga ou toma partido dos personagens, apenas mostrando-os sob a lupa de seu implacável rigor. Cópia muito boa. Concorreu a Palma de Ouro em Cannes (ganhou o prêmio católico da OCIC) e também recebeu o prêmio Pasinetti em Veneza.

Diário de Um Padre (Journal d’un Curé de Campagne) ***
França, 1951. 115min. Diretor: Robert Bresson. Elenco: Claude Laydu, Jean Riveyre, André Guibert, Nicole Ladmiral, Martine Lemaire, Rachel Bérendt, Antoine Balpêtré
Sinopse: Jovem padre francês problemático, de paróquia do interior, conta em seu diário suas atribulações no lidar com os fiéis, suas hesitações relativas à fé, sua progressiva decadência física.
Comentários: Apesar de ser o terceiro longa-metragem de Robert Bresson, este é o primeiro realmente Bressoniano. Ou seja, é o primeiro onde é visível o estilo que tornaria Bresson lendário: a narrativa austera e seca, os enquadramentos cuidados e geométricos, o uso dramático do som, a direção de atores (geralmente amadores) voltada à economia e contenção. Como era habitual em Bresson trata-se de uma adaptação literária, de livro do hoje pouco lembrado George Bernanos. A opção de ser extremamente fiel ao texto, reproduzindo ao máximo as palavras de Bernanos, aliada às idiossincrasias de Bresson, produziu um filme que, como observou André Bazin, é até mais literário que o livro. Com voz off constante (e que por vezes explica o que está implícito nas imagens) e diálogos discursivos e longos, o resultado é de uma lentidão e um detalhismo excessivos, que dilui o intimismo inerente aos conflitos e sofrimentos do jovem padre frente aos mistérios de sua missão e sua fé em um conjunto pesado e solene. Também a ambigüidade do personagem (cuja inabilidade em lidar com os problemas mundanos pode ser vista tanto como elogio como também crítica a fé e a religiosidade puras e idealizadas) não ajuda o filme para todos os públicos. Mas os interessados em conhecer um cineasta muito peculiar, extremamente influente e revolucionário, não se decepcionarão. Ganhou três prêmios da crítica em Veneza.

Um Condenado à Morte Escapou (Um Condamné à la Mort s´est Échappé ou Le Vent Souffle où Il Veut) ***
França, 1956. 99 min. 1956. Diretor: Robert Bresson. Elenco: François Leterrier, César Gattegno, Jean Phillipe Delamare, Roger Treherne, Charles Le Clainche, Roland Monot, Maurice Beerblocke, Roger Planchon (que virou depois conhecido ator, diretor teatral e de cinema de filmes como Lautrec, Dandin inéditos aqui).
Sinopse: Em Lyon, em 1943, André Devigni que luta pela Resistência Francesa contra o domínio nazista do país é preso e levado para uma cadeia. Quando recebe sua sentença de morte, também recebe em sua sala um jovem que pode ser ou não, um espião/delator.
Comentários: Um dos primeiros grandes sucessos do diretor que a edição abre com Bresson escrevendo “Esta historia é real, eu a conta como ela acontecer, sem ornamentos”. Com pouca trilha musical (de Mozart), menos austero que os posteriores, como sempre interpretado quase sempre por amadores. Tem um ponto fraco: é excessivamente narrado em off, o que incomoda um pouco, mas ao menos conduz o filme por uma narrativa cheia de cenas escuras. O herói narra desde que é preso (começa tentando fugir no carro que o conduz para a cadeia), mostrando sua luta cotidiana com as duvidas, as poucas amizades, a desconfiança e finalmente a fuga (que é sem grandes lances). Na época teve grande repercussão critica. O ator François Leterrier depois se tornaria diretor de 20 filmes (o mais conhecido foi Golpes da Vida/Les Mauvais Coups, com Simone Signoret, 61, os outros não passaram aqui). Ganhou melhor diretor em Cannes, foi indicado ao Bafta, críticos franceses e o americano prêmio do National Board of Review.

sábado, 9 de abril de 2016

Lançamentos em DVD: O Cinema da Nova Hollywood da Versátil

Todo mês fico ansioso esperando o que a Versátil vai trazer de novo e interessante em seus lançamentos. É ela que alimenta ainda minha saudade das locadoras e dos DVDs. Deixo para falar depois de seus pacotes mais recentes para comentar um anterior, que era um pack de filmes americanos dos anos 70, infelizmente esquecidos. São 6 filmes como de costume, mas quero comentar duas comédias:

- Esta Pequena é uma Parada: Um titulo já marcado pela época, o que para mim é parte de seu charme, no original é What´s up Doc?, ainda mais misterioso no Brasil, já que é uma frase chave do coelho Pernalonga com quem se identifica a heroína Barbra Streisand, ainda muito jovem e em um de seus melhores momentos). Esta comédia da Warner, de 72, é possivelmente a melhor da carreira do diretor Peter Bognadovich (A Última Sessão de Cinema) que era na época considerado o grande gênio do momento. Especialista em filmes antigos, ele resolveu reaproveitar uma ideia do grande diretor Howard Hawks, uma farsa girando em torno de quatro malas semelhantes (uma contém segredos de Estado, a outra uma fortuna em jóias) e todos os donos se encontrando no mesmo hotel (a la Feydeau) durante uma convenção. O jovem Ryan O´Neal no auge da fotogenia e melhor ator do que vocês lembram faz um professor pesquisador de música que pode vir a ganhar um prêmio, acompanhado por sua namorada Eunice (inesquecível participação de Madeline Kahn, então estreante). Barbra é a maluca genial que faz tudo para fisgar Ryan. A canção tema é de Cole Porter, You´re the Top, e há momentos de rolar de rir. Certamente é uma de minhas comédias preferidas.

- Procura Insaciável (Taking off, 71): Primeiro filme americano do grande diretor checo Milos Forman (Hair, Estranho no Ninho, Amadeus) fugindo para o exílio e trabalhando com um roteiro notável de John Guare, de Jean Claude Carriére, de John Klein e dele mesmo. No Brasil foi cruelmente cortado pela censura uma sequência onde famílias experimentavam maconha para saberem lidar com a droga quando os filhos a utilizarem! (e outra canção onde falam o “F...”). O importante é que esta pequena obra-prima aqui esquecida, resiste muito bem uma revisão. É uma sátira muito divertida e original, toda ilustrada por um teste para cantores de jovens meninas (dentre o grupo temos a surpresa de encontrar duas futuras estrelas Carly Simon e Kathy Bates, que assinava se então como Bobo Bates). O filme tem ainda participação da já famosa Tina Turner e o coadjuvante de Ghost Vincent Schiavelli, que faz o professor que justamente ensina a fumar. A jovem heroína Linnea Heacock (que nunca mais fez nada) é a filha de um casal, Lynn Carlin - que foi indicada ao Oscar por Faces de Cassavetes - e Buck Henry. Uma típica família careta americana que se preocupa quando a jovem desaparece de casa e acaba entrando para uma organização de pais que procuram filhas sumidas. Ou seja, um filme para ser redescoberto.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Lançamentos em DVD

Por estranha coincidência, uma distribuidora lançou filmes semelhantes em temática e ambos não passaram em nossos cinemas. É a Imagem Filmes com Viver sem Endereço e O Encontro:

- Viver sem Endereço (Shelter) EUA, 15. Exibido em 14, no Festival de Toronto, só no ano seguinte foi exibido comercialmente, ainda que com dificuldade. Esta é a estreia na direção do ruivo ator Paul Bettany (que faz Vision na série Vingadores Era de UItron e agora no novo Capitão America). Ele dirige e roteirizou um drama sobre homeless, estrelado pela sua esposa, a sempre bela Jennifer Connelly (ela faz tudo para ficar magra demais e enfeada mas não consegue!). O certo seria ela ter tido alguma indicação ao Oscar (já ganhou um por Mente Brilhante) por um brilhante e difícil trabalho sobre uma jovem viciada em drogas, que vive nas ruas de Nova York e acaba ficando parceira de um negro (o também bom ator Anthony Mackie, outro que veio da Marvel onde faz Falcon) que é Tahir um refugiado da Nigéria, África, mulçumano que chama sempre por Alá. Os dois acabam se unindo tentando viver em casas vazias (ele toca música regional nas ruas). Ambos estão ótimos no filme que é bem realizado e se leva a sério. Mas obviamente não é dos temas mais atraentes para o consumidor de rotina.

- O Encontro (Time out of Mind, 14) também sobre homeless mas ainda mais frio e distante. Não consigo entender porque Richard Gere aceita um papel desses (sim, ele faz um sem teto, que vive de esmolas, consegue lugar num shelter mas não ficamos sabendo direito quem é ele, o que fazia, o pensa. Inclusive porque o diretor pretensioso prejudica tudo filmando quase sempre de longe, atrás de um vídeo, ou uma parede, como se tivesse medo de revelar mais. O diretor se chama Oren Moverman e fez antes O Mensageiro (Messenger), Rampart Um tira fora de Lei (assim como o anterior estrelado por Woody Harrelson) e um novo que esta fazendo novamente com Gere chamado The Dinner. Será que o veterano e envelhecido ex-galã ainda não aprendeu a escolher papéis! Assim esta perdendo seu antigo público de mulheres que o admiravam! A história desta vez não ajuda, dado a passividade do herói e seu mutismo. Os melhores são o veterano astro de Bob Fosse, Ben Vereen e a talentosa Jena Malone. O filme foi convidado do importante Festival de Nova York, de San Francisco e ganhou premio da crítica em Toronto. Mais uma vez que crítico adora filme chato.

Mais Cassavetes
A Versátil continua lançando pacotes excepcionais de filmes e diretores que importam, fazem a diferença. Saiu novo de John Cassavetes (E a Nova Hollywood) que traz o primeiro filme dele (que deu origem ao cinema independente americano Sombras (Shadows). Depois o longa Os Maridos (versão integral com 142 min) mas o melhor é Uma Mulher sob Influência (A Woman Under the Influence,74) que deu indicação ao Oscar de diretor para Cassavetes e de atriz para sua mulher, a magnífica Gena Rowlands (que ganhou há pouco um Oscar especial da Academia por sua carreira). Com uma cópia excelente, registra sem exageros uma das grandes interpretações da história do cinema! Traz Depoimentos e Making sobre Os Maridos.

Trilogia de Apu
O selo Obras Primas está caprichando e lançou uma edição especial da trilogia que consagrou Satyajit Ray (1921-1922) como o maior realizador da Índia (levou até Oscar especial). Isso praticamente em cima dessa sua trilogia muito pouco conhecida no Brasil. Na verdade, vale conhecer o primeiro O Canção da Estrada (Pather Panchali, 55) a história de uma família que passa dificuldades com o pai sonhador. O segundo ainda é interessante, O Invencível (Aparajito,56) onde o jovem Apu após a morte de seu pai, aos 10 anos, ganha bolsa de estudos. Tudo realista e em preto e branco. Vem o fim da trilogia com O Mundo de Apu (Apur Sansar, 59) mostrando a vida de Apu como estudante em Calcutá e seu infeliz casamento. Como extras cerca de três horas com entrevista com o diretor e os atores e etc.