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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

A Primeira Noite de um Homem (The Graduate)


Em cartaz de 4 a 10 de janeiro no CineSesc em São Paulo

A Primeira Noite de um Homem (The Graduate)
EUA, 1967. 105 min. Diretor: Mike Nichols. Roteiro: Calder Willingham,Buck Henry, baseado em livro de Charles Webb. Fotografia: Robert Surtees. Música: David Grusin. Canções de Paul Simon & Art Garfunkel. Desenho de produção de Richard Sylbert. Produção de Lawrence Turman. Com Dustin Hofman, Anne Bancroft, Katharine Ross, Murray Hamilton, William Daniels, Elizabeth Wilson, Brian Avery, Norman Fell, Marion Lorne, Aliche Ghostley, Richard Dreyfuss (ponta), Mike Farrell.

Sinopse: Ben (Hoffman) volta para casa depois de se formar na faculdade e conseguir bolsa para especialização. Tem um romance com a vizinha casada, mas acaba se apaixonando pela filha dela.

Bastidores: Lançado em 1967, o filme estourou nas bilheterias e foi o primeiro a descobrir o potencial do público jovem que se identificou com os personagens e transformou em sucesso a trilha musical de Simon & Garfunkel, criando para o filme baladas urbanas nascidas na linha “folk-rock”. Foi a revelação de Dustin Hoffman que embora fosse velho demais para o papel (30 anos), deu início a uma brilhante carreira. Suas cenas com Mrs. Robinson, viraram antológicas assim como certas frases da fita (“Plásticos”). Indicado a oito Oscars, ganhou como Diretor e foi o filme cult de toda uma geração. Como sempre, o título nacional apelou dando ideia de uma porno-chanchada. Doris Day recusou o papel de Mrs. Robinson e Ben deveria ter sido feito por Robert Redford que era o favorito do produtor Lawrence Turman.

Crítica: Foi o primeiro filme a descobrir o óbvio: os jovens iam mais ao cinema e gostavam de se ver retratados na tela. À primeira vista, parecia apenas uma comédia de costumes, uma brincadeira com a virgindade masculina e a antropofagia feminina, mas ganhou dimensões de sátira social, modelo para toda uma geração. O herói Ben, desde sua chegada de avião, está numa espécie de vácuo, perplexo, sem entender o mundo dos pais. Foge desligando-se do aquário na escuridão (o tema musical: Sounds of Silence), parece um marciano imerso na piscina. Sua conversão ao mundo dos adultos é feita por Mrs. Robinson (a sensacional Anne Bancroft - curiosamente havia apenas uma diferença de seis anos entre ela e Dustin) a mulher do sócio do pai. A sedução de Ben, é um dos melhores momentos do cinema moderno, a timidez versus o autoritarismo de Mrs. Robinson, levando-o a um sexo automatizado. Um dia não aguenta mais e pergunta: “Será que não podemos ao menos conversar um pouco?”. Mas não consegue, não pode, ela é toda a sociedade que ele não entende, a hipocrisia que aceita a mulher infiel, um marido complacente e o bem estar econômico como calores absolutos.

O filme cai quando Anne sai de cena e Ben apaixona-se por “Katharine” e começa um relacionamento com sua geração. Desajeitado, afirma desde o início: “Quero ser diferente”, mas não sabe dizer exatamente como. Só não deseja ficar padronizado e fabricado em série como todos de sua casa. Muita gente critica o final que parece ser um “happy end”, mas na verdade nada foi solucionado, os problemas continuam existindo, eles estão indo juntos, lado a lado, sabe lá para onde. A história de Ben, não teria a mesma qualidade, não fosse a direção inventiva de Mike Nichols, “homenageando sem pudor Fellini, Varda, Antonioni”. Em todas as cenas ele acrescenta um detalhe que dá a tônica do filme. Quando Katharine recebe a notícia do caso de Ben com a mãe, a câmera desfocada se concentra aos poucos em seu rosto com lágrima; os pais e amigos vistos no silêncio da máscara submarino; os diálogos no escuro do quarto do hotel; a extraordinária sequência que se segue a sedução em que a montagem paralela liga o quarto de Ben ao quarto de hotel, da piscina à cama, terminando num corte magistral. O elenco está excepcional, Dustin acrescenta detalhes só seu: tira o pigarro antes de beijar, boceja quando pede a moça em casamento e Anne tem um momento antológico quando solta fumaça após o beijo.

O filme foi visto na época como um grito de protesto e angústia de uma mocidade incompreendida, mas o final, hoje é simbólico. O casal como sua própria geração, não sabia que caminho tomar e como quase todos nós, acabaram no ônibus errado.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Revisitando: Bonnie e Clyde, Uma Rajada de Balas




Dias 8,9, 12 de novembro na Temporada Clássicos das salas Cinemark


Bonnie e Clyde, Uma Rajada de Balas (Bonnie and Clyde)

EUA, 1967. 111 min . Diretor: Arthur Penn.Roteiro de Robert Benton, David Newman e Robert Towne (não creditado). Elenco: Warren Beatty, Faye Dunaway, Gene Hackman, Estelle Parsons, Michael J. Pollard, Gene Wilder, Denver Pyle, Evans Evans, Dub Taylor.

Sinopse: Biografia romanceada da vida de Clyde (Champion) Barrow (1909- 1943) e Bonnie - Elizabeth - Parker (1910-34) que durante a Depressão americana assaltavam bancos e se tornaram gângsters, formando uma pequena quadrilha.

Comentários: A seleção de filmes do Cinemark melhora ainda mais, trazendo agora verdadeiros clássicos do cinema que há não muito não reprisados nem mesmo na TV. É o caso deste filme antológico da Warner que quebrou barreiras (em particular na forma narrativa e no uso da violência no cinema, inclusive na incrível sequência do tiroteio final em câmera lenta, ainda insuperado). Ele realmente provocou uma revolução no cinema de Hollywood, quando o crítico mais importante do New York Times, fez não apenas uma critica desfavorável, mas duas! O jornal ficou tão furioso que acusando-o de estar afastado do cinema atual e incapaz de ver a mudança da sociedade naqueles ano tão polêmicos da Guerra do Vietnã, o despediu! Caso único no maior jornal do mundo!
Bonnie & Clyde (o subtítulo nacional nunca foi usado direito e sempre ridicularizado) ganhou apenas os Oscars de fotografia e atriz coadjuvante (Estelle Parsons). Foi porém indicado para filme, ator,atriz, coadjuvantes (Gene e Pollard), direção, roteiro e figurino. Foi indicado a 7 Globos de Ouro e não levou nenhum. O vencedor foi o anti-racista No Calor da Noite, com Rod Steiger com melhor ator e Kate Hepburn como atriz por Adivinhe Quem Vem para Jantar.     

O filme respeita a lenda, como dizia John Ford, e não necessariamente a realidade (a verdadeira Bonnie tinha um metro e cinquenta, era poetisa talentosa e um primeiro marido). Foi a primeira produção do jovem galã Warren Beatty, irmão de Shirley MacLaine e futuramente bem sucedido diretor, produtor e astro (levou Oscar® por Reds). Ele pôs as mãos num roteiro de uma dupla de jornalistas da revista masculina Esquire, Robert Benton (que se tornaria premiado diretor e roteiro de Kramer versus Kramer, 79 e novamente roteiro por Um lugar no Coração, 95. Também escreveu o célebre Superman, o Filme, 78) e seu parceiro, David Newman (1937-2003), também seria indicado ao Oscar® por Bonnie e Clyde, faria outros roteiros (Ninho de Cobras, Esta Pequena é uma Parada), mas o único filme que dirigiu nem chegou a ser distribuído. Quem ajudou no script foi o hoje ainda célebre Robert Towne que dirigiu Conspiração Tequila e outros 3 filmes e fez roteiros famosos (como Chinatown, que lhe deu o Oscar®, Missão Impossível 1 e 2, Shampoo). Para a direção Beatty afirma ter convidado George Stevens, William Wyler, Karel Reisz, John Schlesinger, Brian G.Hutton, Sydney Pollack.

A outra grande novidade foi chamar para a direção um diretor de teatro, da turma do Actor´s Studio, Arthur Penn (1922-2010), que tinha feito antes apenas o curioso Um de Nos Morrerá, com Paul Newman, 58, depois o talentoso O Milagre de Annie Sullivan que deu Oscar para Anne Bancroft, o intelectualizado mas interessante Mickey One com Warren Beatty, 65, Caçada Humana com Jane Fonda e Marlon Brando, 66. Este Bonnie & Clyde foi sua obra-prima (ficaram inesquecíveis para mim, as imagens da gente pobre da época da Depressão mostradas diante do deserto e o vento. Só isso já basta como comentário sobre sua situação). Porém nunca voltou a acertar em cheio, apesar de ter feito o bom O Pequeno Grande Homem com Faye Dunaway e Dustin Hoffman, 70. E o hippie Deixem-nos Viver (Alice´s Restaurant,69). 

Ao menos, o filme não envelheceu com sua bela fotografia (premiada com o Oscar®, ganhou ainda de atriz coadjuvante para Estelle Parsons, ainda viva continua a fazer Broadway). O roteiro é excepcional (e foi antes oferecido aos franceses François Truffaut e  Jean-Luc Godard que sensatamente os recusaram). Ainda assim sente-se a influência da Nouvelle Vague, na narrativa, com cortes abruptos e mudanças de tom. Outra influência assumida pelo diretor foi a de Akira Kurosawa, de Os Sete Samurais no uso de câmera lenta. Mas foi Beatty que pela primeira vez produziu iniciando uma grande carreira que culminou com o Prêmio “Irving Thalberg” no Oscar® (2000). Lançou como estrela Faye (Natalie Wood, Jane Fonda - que nega isso, dizendo que não passou no teste e Tuesday Weld recusaram o papel. Testaram também Carol Lynley, Jean Hale, Sue Lyon, Ann Margret, Julie Christie). Também foi a estreia no cinema de Gene Wilder, Estelle Parsons e o primeiro personagem marcante de Gene Hackman.

Bastidores: Os personagens de Eugene Grizzard e Velma Davis (Gene Wilder e Evans Evans) são inspirados em  Dillard Darby e Sophia Stone de Ruston, Louisiana. Na noite de 27 de abril de 1933,  eles foram brevemente sequestrados pela quadrilha de Barrow. E foram liberados depois, sem violência. Num diálogo, quando fica sabendo que ele é agente funerário, Bonnie Parker comenta, "Bem, quem sabe um dia você cuidará de mim!”. E um ano depois aconteceu justamente isso. 

Embora no fim do filme, Bonnie e Clyde discutam o casamento, ela era já era casada com namorado da escola Roy Thorton, criminoso que servia pena de prisão de ano. Mas nunca quis se divorciar dele e usava seu anel quando foi morta. 

Warren Beatty pediu que os sons dos tiroteios fossem mais altos do que em filmes anteriores. Mas em algumas salas, os empregados achavam que fosse engano! Teria se inspirado em Os Brutos também Amam (Shane, 53), onde sucede o oposto ,o barulho o diretor pediu para serem mais suaves e abafados. A cena no banco em Clyde deixa o pobre ficar com o dinheiro sucedeu não com ele, mas com outro bandido, Pretty Boyd Floyd.

Segundo o diretor Penn este foi o primeiro filme que mostra uma arma sendo acionada e, no mesmo plano, as consequências disso. Mas parece Sergio Leone já tinha feito isso antes em Por um Punhado de Dólares.  

Michael J. Pollard passou mal porque inexperiente comeu seu almoço 12 vezes (em vez de fingir fazer isso como os outros atores). Vai ver por isso que foi indicado ao Oscar® de coadjuvante (ele ainda está vivo e trabalha ocasionalmente).

A Warner Brothers tinha tão pouca fé no filme que ofereceu a Beatty ao em vez de salário, 40% da renda bruta. O filme rendeu na época 50 milhões de dólares.

A história de Bonnie fumando charuto é verdadeira.  Mas feita por ela como piada. O poema que Bonnie Le em voz alta no apto alugado, The Story of Suicide Sal,  foi realmente escrito por ela em 1932.

Outra cena fictícia:  C.W. Moss fica paralelo com o carro do casal. O fato é real, mas ocorreu com Dillinger e Paul Lefty Parker. 

A dublê de Faye no filme foi uma futura estrela de TV, Morgan Fairchild. 

O personagem de  C.W. Moss é uma fictícia mistura de diversos parceiros da dupla,  incluindo Ralph Fults, William Daniel Jones (ou "W.D."/ "Deacon"), Ray Hamilton, e Henry Methvin. 

O script original apresentava Clyde como bissexual e teria um casinho com Moss, um ponto que eles diziam não ser negociável. Mas o diretor Penn não topou isso, preferindo transformar o protagonista em impotente. Um detalhe: todos afirmam que Clyde nada tinha de gay. 

Reza a lenda que Jack Warner, dono do estúdio, durante uma projeção fechada se levantou três vezes para urinar. A principio a Warner lançou o filme em drive-in e salas baratas e aparentemente  odiava o filme até sua morte

Outro crítico famoso, no caso da revista Newsweek, Joseph Morgenstern, odiou o filme numa primeira visão, mas depois talvez por ter visto o colega despedido mudou de ideia e fez outra critica. Adorando tudo. 

Uma das intenções era fazer Blanche  histérica para acentuar como Bonnie era “cool”. Cher chegou a testar para o filme mas quando o marido fico sabendo mandou ela desistir do projeto. Antes de decidir em fazer o protagonista, Beatty  queria Bob Dylan, que na verdade se parecia com o Barrow autêntico.  

A  frase do filme “Nós roubamos bancos!” foi votada em #41 lugar  pelo American Film Institute. Beatty queria que o filme fosse em preto e branco. Felizmente a Warner não aceitou porque o resultado teria sido inferior. O fotógrafo Burnett Guffrey chegou a ser despedido no meio do filme porque queria mais luminosidade. Foi substituído por um veterano Ellsworth Fredericks, mas Penn se arrependeu e chamou Guffrey de volta. 

Em 2007, o American Film Institute votou neste filme como o 42º dos melhores filmes de todos os tempos. 

Curiosamente Beatty não teve um romance com Faye durante as filmagens (fizeram esse acordo para não prejudicar o filme).

O final do filme foi muito romanceado, Bonnie estava com queimaduras e sem poder se mover por causa de acidente de carro. Na verdade, o casal caiu em emboscada perto de Gibsland, Louisiana, nem puderam sair de seu carro que foi atingido por 187 balas. Clyde estava sem sapato, só de meias e Bonnie tinha um sanduiche na boca. 

De acordo com a montadora do filme, Dede Allen, o massacre final foi editado de forma que fizesse recordar o filme amador que registrou o assassinato de John F. Kennedy. Vê-se inclusive um fragmento da cabeça de Clyde em câmera lenta. Foi rodado com 3 câmeras diferentes, cada uma numa velocidade diferente. A cena durava apenas 54 segundos. 

Dizem que Robert Benton teve a ideia do script porque seu próprio pai esteve presente no enterro do casal.