terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Oscar 2014

Quem vai ganhar os Oscars este ano?
Rubens Ewald Filho

     Uma seleção de impecáveis finalistas. Acho que esta é a melhor qualidade do Oscar 2014. É o caso de todos os nove selecionados para melhor filme assim como os finalistas para melhores atores e atrizes. Se erraram foi porque havia gente boa demais e uma outra exclusão era inevitável. Chegaram mesmo a ousadia suprema de não escolher verdadeiros ícones de Hollywood, como Tom Hanks (e com uma boa interpretação em Capitão Phillips ou Robert Redford (já ganhou ate premio honorário, não esqueçam que foi ele  quem criou Sundance!). E até mesmo a sacrossanta Oprah Winprey (O Mordomo da Casa  Branca), o querido e falecido James Gandolfini e a duas vezes  premiada Emma Thompson. 

      Além disso, há uma expectativa de surpresa no ar. Não há um favorito absoluto e tudo pode acontecer. O que sem duvida vai transformar a festa de entrega dos prêmios deste ano mais interessante. Ainda que nem tudo sejam rosas. Uma serie de questões foram levantadas nestas ultimas semanas, já que cá entre nós, o Oscar adora uma polemica e cada vez mais da preferência a filmes com temática séria. Os 9 finalistas este ano discutem corrupção e drogas (O Lobo de Wall Street), escravidão (12 anos de Escravidão), a profissão perigosa de astronauta (Gravidade), a pirataria nos altos mares Capítão Phillips), a homofobia do governo americano que permitiu a morte de muita gente por Aids (Clube de Vendedores de Dallas), a falta de princípios cristãos dentre as freiras irlandesas (e novamente a homofobia do governo americano) em Philomena, a velhice (Nebraska), novamente a corrupção (Trapaça) e uma historia sobre como será o amor no futuro, poética mas melancólica (Ela).

      Se prestarem atenção, não há na lista,  filmes verdadeiramente independentes que este ano sofreram uma abalo grave com a falta de recursos e investidores (conseqüência da crise econômica) e continua a não haver mulheres diretoras.  Pesquisas  mostram que tem caído o numero de realizadoras na industria  e a única exceção brilhante é o sucesso espetacular da animação Frozen, uma Aventura Congelante que deve ganhar sua categoria e foi realizado por uma mulher estreante  (o filme já fez mais de 770 milhões de dólares no mundo inteiro e continua em cartaz agora em copias legendas, “sing along”, para o publico cantar junto!) E sua trilha musical também já vendeu perto de 600 mil cópias em varias semanas (chegando perto de Rei Leão) e superando Beyoncé. A autora do milagre é Jennifer Lee, que fez o filme estourar também em merchandising e  aplicativos.  

     Basicamente o problema este ano é que há filmes bons demais, ou ao menos queridos pelos votantes. Supõe-se que os favoritos sejam os de maior numero de indicações, a disputa estaria entre Gravidade (10 indicações), 12 anos como Escravo (9) e Trapaça (8). A duvida é tanta que pela primeira vez em 25 anos de sua historia o Sindicato de Produtores deu empate entre Gravidade e Escravo. Mas pelo sistema de contabilizar votos do Oscar, muito complexo, é difícil isso suceder (mas não impossível). A impressão que tenho é que Gravidade deve levar os Oscars técnicos (merecidamente) e também o de melhor diretor. Seria o primeiro diretor mexicano, ou seja, latino americano a ganhar esse Oscar e merecidamente porque seu trabalho é espetacular (e bem sucedido de bilheteria, o que sempre é bom). Os críticos gostam também porque desde que surgiu descoberto por Spielberg, já se tinha certeza de seu talento e de que um dia daria certo. O tema da festa do Oscar deste ano também faz pensar nele, porque se trata de heróis no cinema (mas pensando bem, o protagonista de Escravo, Solomon é também um herói !

        Mas o que fazer com os filmes queridos pelo publico, como Trapaça ou mesmo Lobo de Wall Street? E principalmente “12 anos como Escravo”, um filme inatacável de sucesso relativo (dado a sua temática difícil  que chegou aos 100 milhões de renda mundial. Mas muita gente evita ver sofrimento na tela!). Pessoalmente acho o trabalho do diretor Steve McQueen muito digno, sem cair em sentimentalismos ou jogadas fáceis. Acredito que leve o Oscar de melhor filme e como escrevi, “Acho que o cinema tem o dever e a obrigação de produzir filmes como este e a Academia em prestigiá-los. Ainda mais quando feitos com tamanho respeito e dignidade”. (Se o filme  da Escravidão ganhar Brad Pitt seu produtor deve buscar o premio, se ganhar O Lobo quem subiria ao palco seria Leonardo De Caprio seu produtor que por sinal disputou com Brad a chance de fazer aquele filme). 

As polemicas 

    Woody Allen – Há algumas semanas Mia Farrow a ex-companheira (nunca foram casados ou viveram juntos) resolveu voltar a atacar Allen, repisando acusações das quais ele já havia sido inocentado. Embora Hollywood conheça de velho essa situação de mulher rancorosa  criou-se um compreensível mau estar e levantou-se a hipótese de que isso poderia prejudicar a vitória de Cate Blanchett, por um filme dele, Blue Jasmine. Afinal ela parecia a única coisa certa dentre os prêmios. Seria um castigo contra Allen ou uma reprovação publica (mesmo ele tendo já ganhado 4 Oscars e provocado 12 indicações ou prêmios para suas estrelas). De qualquer forma, Amy Adams (Trapaça) já esta na sua quinta indicação sem levar e é sem duvida a querida do publico e Cate já ganhou antes (por O Aviador) !   

Melhor canção

     A categoria musical sempre esta envolvida em problemas e neste ano deixaram como finalista um canção desconhecida chamada Alone Yet Alone, de filme homônimo, que fracassou em bilheteria e é praticamente desconhecido. Descobriu-se que o autor dela, Bruce Broughton que foi muito tempo executivo na Academia havia mandado emails recomendando sua musica. Resultado: ela foi desclassificada. Houve novas reclamações porque a musica era cristã e religiosa e diziam ser preconceito! 

Os atores 

    De repente, depois do Globo de Ouro, um galã de 44 anos e especializado em comedias românticas, Matthew McConaughey, despontou como favorito por causa do show que deu em O Lobo de Wall Street (pequeno mas excepcional) e principalmente o Clube de Vendedores de Dallas, onde faz homófobo que supera seus preconceitos na sua luta por sobreviver. Também entra no jogo, o fato que ele perdeu 40 pounds (cerca de 20 quilos, checar) assim como seu parceiro de elenco Jared Leto (esse é menor e foram 10 quilos). E Academia adoram os que fazem isso, engordam ou emagrecem pela arte! Ambos são os favoritos e são exemplos de vida. Jared é bonito demais para ser levado a serio, parou de trabalhar no cinema por 5 anos e virou cantor de rock. Ate conseguir essa chance. Matthew que é casado com uma brasileira Camila Alves com quem tem 3 filhos, confessou na entrega do Globo a influencia que ela teve em sua vida, forçando-o a acordar cedo, procurar melhores papéis e assim deu uma virada em sua carreira. 

    Num primeiro momento, acreditava-se que Jennnifer Lawrence poderia ganhar outro Oscar seguido ao do ano passado agora como coadjuvante por Trapaça. Mas começou a parecer, “demais, cedo demais”, porque a moça alem de tudo é campeã de bilheteria com as series Jogos Vorazes e X Men. Isso foi abrindo espaço para uma jovem atriz negra que brilhou inicialmente no tapete vermelho como ícone de moda, a mexicana de origem africana e formada em Yale, Lupita O´Nyongo por 12 anos de Escravidão (sabiam que o nome Lupita é uma referencia a santa protetora do México, Nossa senhora de Guadalupe a quem deve estar pedindo proteção!).

    De qualquer forma, conduzido pela simpática e gentil Ellen De Generes, o Oscar 2014 promete ser divertido e surpreendente. Convido vocês para assistirem conosco na TNT, no domingo de carnaval. Afinal não precisa acordar cedo no dia seguinte.

Ref fim . 

A historia do Robocop


A historia do Robocop
Por Adilson de Carvalho Santos 
 

      Era o final de 1987 e surgia um novo herói nas telas : meio homem, meio máquina, um tira total, conforme anunciado pelo cartaz promocional do filme. O filme foi na época um grande sucesso de bilheteria impulsionando em Hollywood a carreira de seu diretor, o holandês Paul Verhoven. O filme, que teve orçamento de US$ 13 milhões, flertava com a linguagem das histórias em quadrinhos e não escondia a influência do trabalho do artista Frank Miller em Batman, fosse pelo visual do policial robótico ou pelo uso da mídia televisa como um elemento narrativo constante e onipresente no roteiro do filme. Na história de Edward Neumeir & Michael Miner, o honesto policial Alex Murphy (Peter Weller) é morto em combate de forma desumana e cruel pelo terrível bandido Clarence Boddicker (Kurtwood Smith) e o que resta de seu corpo e cérebro é mesclado a um organismo cibernético criado pela OCP (Omni Produtos de Consumo), uma multinacional responsável pela polícia de uma Detroit futurista e violenta, na qual a segurança do cidadão é entregue a uma organização privatizada e desalmada, crítica ferrenha de um capitalismo selvagem. No filme, a consciência abalada de Murphy vai aos poucos, e com a ajuda de sua parceira a oficial Lewis (Nancy Allen) , sobrepujando a programação recebida e recuperando as memórias de sua vida anterior, o que o levará a se rebelar contra a OCP quando descobrir a ligação entre Dick Jones (Ronny Cox) – alto oficial da empresa – e os crimes de Clarence, contra quem busca vingança. A roupa de Robocop preta e prateada, que custou entre $500.000 e $1 milhão, demorava horas para ser vestida por Peter Weller e era muito pesada, o que por um lado dificultava para o ator mas por outro salientava ainda mais seus movimentos robóticos. Na cena em que o personagem sai de dentro do carro, o ator foi filmado de forma a parecer que este saía de  dentro do veículo quando na verdade o ator não conseguia se sentar nele com a roupa completa.

         O filme aproveita idéias já exploradas antes na literatura de ficção científica como “Cyborg” , de Martin Caidin (que foi adaptado para a Tv no seriado clássico “O Homem de Seis Milhões de Dolares”) e nos contos de Isaac Asimov em que este desenvolveu as leis da robótica, claramente servindo de base para as 3 diretrizes de Robocop que são “Servir o público, proteger o inocente e garantir a manutenção da lei”.Contudo, muito longe de se entregar a uma discussão filosófica a respeito do que define o homem e a máquina, Robocop era um filme de ação sem a preocupação de ser politicamente correto, usando e abusando da violência explícita com um total de 30 mortos nos seus 102 minutos originais de projeção, o que o levou a ser reclassificado pelo MPAA (órgão que regula as faixas etárias estabelecidas para os filmes) 12 vezes antes de ser finalmente liberado. O filme chegou a ser indicado ao Oscar nas categorias de melhor som e melhor montagem. Perdeu mas ganhou o Saturn Awards, premiação voltada para os filmes do gênero fantástico.   
   
           “Robocop” foi marcante por empregar a tecnologia à disposição na época aliada à linguagem das Hqs, que naquele final da década de 80 alcançava um forte apelo artístico e comercial em obras como a de Frank Miller, principalmente por mostrar a mídia televisiva como elemento manipulador da opinião pública. Tal afinidade e dinâmica eram tão acentuadas que o artista  foi convidado a escrever o roteiro da sequência que seria lançada em 1990 sem a direção de Paul Verhoeven que achava cedo demais para uma continuação. Tim Hunter chegou a assumir o posto de diretor, mas abandonou o projeto devido a diferenças criativas. Coube então a Irvin Kershner (diretor de “O Império Contra Ataca”) preparar o filme que veio a ser classificado como “impossível de ser filmado” de acordo com o roteiro original de Miller. O resultado foi uma mudança tão grande no roteiro que se tornou uma pálida imitação do primeiro trocando Clarence por um perigoso traficante que tem sua mente implantado em um robô. A bilheteria foi abaixo do esperado nos EUA (continuou  o êxito no Brasil)  e embora não tenha sido um grande fracasso, ficou pouco acima de seu orçamento que foi mais que o dobro do primeiro filme. Anos mais tarde o roteiro original de Miller veio a ser usado em uma HQ intitulada “Frank Miller’s Robocop”. 
          O 3º filme começou a ser produzido em meio à dificuldades financeiras da produtora Orion Pictures e só obteve metade do orçamento do segundo filme. Peter Weller se recusou a voltar e foi substituído por Robert Burke, enquanto Nancy Allen aceitou seu retorno com a condição de que sua personagem morresse no início do filme. A história que tratava da venda da OCP para um conglomerado Japonês teve a assinatura de Frank Miller, mas este não conseguiu elaborar uma história empolgante colocando Robocop enfrentando samurais e incluindo uma constrangedora sequência de vôo do herói que em nada acrescentou. O filme foi feito em 1991, mas teve que esperar mais dois anos para chegar às telas devido aos problemas financeiros da Orion Pictures.

        O personagem ainda continuou fora do cinema em duas sérias animadas, histórias em quadrinhos (incluindo um encontro entre Robocop & O Exterminador do Futuro) e um seriado de Tv de 1994, novamente sem Peter Weller, com o personagem vivido por Richard Eden. O seriado teve 23 episódios e não foi além da primeira temporada, mas o personagem voltou a Tv na mini-série “Robocop: Prime Directive” com Page Fletcher no papel principal. Contudo, o apelo original do personagem foi diluindo e ficando muito aquém daquele promissor início do filme de 1987 e que José Padilha agora tentará restabelecer junto às platéias de hoje, em uma realidade em que o crime e a corrupção ainda são as grandes mazelas da sociedade.

Fim. 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Robocop

Robocop (Idem) EUA, 14. Direção de José Padilha. Sony. Roteiro de Joshua Zetumer inspirado no script de 1987 de Edward Neumeier, Michael Miner. Com Joel Kinnamann,  Gary Oldman, Michael Keaton, Abbie Cornish, Jackie Earle Haley, Jennifer Ehle, Michael K. Williams, Jay Baruchel, Marianne Jean Baptiste e Samuel L. Jackson.

     No fundo eu sempre sonhei com o dia em que veria um diretor brasileiro fazer um filme norte-americano onde ele pudesse jogar  ironias e verdades na cara do espectador local).  Mesmo pagando um preço por isso. Da mesma forma que em Tropa de Elite 2, O inimigo agora é outro, cujo sucesso o levou a carreira internacional, e onde concluía de forma muita corajosa dando nome aos bois (na corrupção generalizada).Ele repete a dose aqui com um final muito forte, onde parodia os noticiários de Direita do canal Fox americano com seu desmedido e cego patriotismo (ajudado também pelo subestimado Samuel L. Jackson como apresentador, naturalmente os do canal são loiros ou grisalhos, conservadores e republicanos). Com tal força que o final é bem capaz de ser responsável pela bilheteria fraca que teve na America (rendeu nos primeiros dias não mais que 30 milhões de dólares, longe de um desastre mas menos que o esperado. Está sendo salvo porque tem sido mais compreendido no exterior, onde já chegou aos 70 milhões!).

      De qualquer forma gostei muito desta versão e a única coisa de que senti falta foi o senso de humor que era imperativo na série, em particular no primeiro filme (também não exagera no violência o que bom). É interessante lembrar que o  Robocop original foi uma produção da produtora Orion, com script original e não quadrinhos! E seu problema foi que a Orion abriu falência e na pressa liberaram os direitos para uma serie de teve que não funcionou. A massa falida da Orion passou depois para a MGM UA, o que explica sua renascença. RoboCop, o Policial do Futuro (1987) foi dirigido pelo holandês Paul Verhoeven estreando nos EUA (como Padilha) e se passava em Detroit (aqui também mas de lá para cá, a cidade famosa pela industria de automóveis, hoje é a mais atingida pela recessão e luta com dificuldade por sua sobrevivência). Lá num futuro próximo passado para conter a violência nas ruas, será inventado um policial Cyborg, a partir de um policial que quase foi assassinado por uma quadrilha de traficantes, criam uma figura poderosa e cibernética. Só que dentro dele há ainda algo de humano que procura vingança . Fez enorme sucesso apesar da visão pessimista do futuro. Tem sempre senso de humor, bons efeitos especiais, ação de primeira. Virou um clássico moderno do gênero. Peter Weller fazia bem o protagonista mesmo com o rosto quase sempre escondido seguido por Nancy Allen. 

       Houve duas continuações RoboCop 2 (1990) de  Irvin Kershner (O Império Contra Ataca). Agora Detroit enfrentava o ápice da violência com  Departamento de Polícia em greve e em meio a uma nova droga solta pelas ruas, o “Nuke”. Mas Robocop terá de enfrentar um cyborg maior e mais forte, criado justamente com a função de destruir o “policial do futuro”. Foi o  filme estrangeiro de maior sucesso no Brasil em 1990 e que curiosamente não funcionou nos EUA. Desnecessariamente violento (como uma cena de operação no cérebro), tem roteiro de Frank Miller, que esquece da heroína (mal se vê Nancy) e concentra a ação nos malfeitores. Quem melhora é Weller no papel-título, usando bem a roupa metálica e os gestos. O supervilão é um garoto de 12 anos que age com total frieza e trafica uma nova droga chamada Nuke. Também tinha um profeta louco que é transformado no segundo Robocop. O clímax é o confronto dos dois. Pena que o filme termine meia hora antes do final, com o fim de Cain. Dali em diante é apenas uma sucessão de lutas exageradas. Só que tem tanta ação, tanta tecnologia que o espectador não vai se sentir logrado. 

      O Robocop 3 de 93, foi feito por um desconhecido Fred Dekker,  e novo ator Robert John Burke (com sempre com Nancy). Ele continua fiel à seus princípios, protegendo a população de Detroit contra a corporação OCP, que está expulsando as famílias de suas casas para construir um ambicioso projeto imobiliário. Robocop enfrentará ainda um andróide Ninja e a gang dos Splatterpunks numa batalha de rua.

     Por falta de grana da Orion, este mal passou nos EUA (a série sempre foi  mais popular no exterior que lá dentro). Mesmo com esses problemas, o filme é profissional. A heroína leva vinte minutos para aparecer e o Robocop ainda mais um tempo porque a história se fixa na resistência de alguns moradores que viram guerrilheiros para enfrentar os policiais a mando da grande corporação que precisa expulsá-los de um bairro de Detroit, para construir uma obra grande no lugar e assim agradar os japoneses. Sempre violento, com uma leitura política,  menos bem humorado que os anteriores. 

     E chegamos a este novo Robocop que vem com um elenco Classe A muito superior aos anteriores. O papel titulo é de Joel Kinnaman que é dinamarquês e lembrado pela serie de teve que estrela ainda The Killing (esteve também em Millenium, versão com Daniel Craig), Protegendo o Inimigo com Denzel Washington e no B A Hora da Escuridão. O ótimo Gary Oldman faz o inventor do novo Robocop , a australiana Abbie Cornish é a esposa (ela é encantadora mas resultou menos convincente). Acho uma sacada divertida colocar logo como vilão supremo aquele Michael Keaton, que já foi o criador de Batman! 

      Todo o filme é narrado portanto em dois tempos, o programa de teve com Samuel Jackson que diz o que o publico deve pensar e os fatos que vão sucedendo que não fogem muito do original. Depois de ser atingido quase mortal, o oficial Alex Murphy  tem a chance de virar um cyborg (acho que não usam essa palavra) usando um corpo que é um verdadeiro arsenal. Mas não lhe custa muito para perceber que ele foi vitima de um atentado (em sua própria casa) e um chefe de quadrilha que o tentou eliminar, provavelmente com a ajuda de uns colegas. Desobedecendo a ordens, vai atrás dos culpados, ate o momento onde se torna evidente que sabe demais e pode ser perigoso. Deve ser, portanto eliminado. 

      Como já disse, o filme não abusa da violência, mas é sempre convincente nas cenas de ação, muitas vezes correndo com os personagens ou procurando segui-los ou sinalizá-los. Claro que não tem a novidade do primeiro Robocop, e nem teria como. Mas não desaponta, é competente trabalho de um cineasta não acostumado a lidar com tanta tecnologia. Vibrei por ele.

Ref fim.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

The Lunchbox ****dia 28

The Lunchbox (Dabba) India, 13. Direção e roteiro de  Ritesh Batra. Com  Irrfan Khan, Nimrat Kaur, Nawazuddin Siddiqui, Denzil Smith, Bharati Achrekar.Co-produção  França, Alemanha e EUA.  104 min  IMOVISION.

     São raros os filmes indianos que conseguem distribuição no Brasil e mesmo assim este foi premiado no circuito de Festivais.  Foi vencedor na Semana da Crítica, seção paralela do Festival de Cannes organizada pelo Sindicato Francês da Crítica de Cinema também  participou dos Festivais de Londres,  Toronto, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e recebeu o prêmio do júri na 10ª edição do Amazonas Film Festival. Além disso, ainda levou os prêmios de Melhor Roteiro e Atuação Marcante (para o protagonista Irrfan Khan), na Premiação do Asia Pacific Film Festival 2013.

       Na verdade, pouco tem a ver com o filme médio indiano, que hoje tem técnica melhor mas tem problemas ainda com a censura intensa e não evita os obrigatórios números musicais (clips) que interrompem a ação. Este filme modesto se parece mais com outros que tem temática semelhança em particular You´ve Got Mail (Mensagem para Você, 98, com Tom Hanks e Meg Ryan) e o anterior, Nunca te vi sempre te Amei (84 Charing Cross Road, 87, com  Anne Bancroft e Anthony Hopkins), ambos com o mesmo esquema do casal que se ama sem terem nunca se encontrado pessoalmente. 

        A historia se passa na atual Mumbai e tem cara desse cinema moderno e pobre que se faz no mundo todo. Camera na mão, despreocupação de se ouvir o que dizem ou pensam, situações  mal desenvolvidas e a mania de seguir personagens pela vida afora. Fica difícil entender ao menos um pouco que existe por lá um serviço de entregas de marmitas, comida a domicilio chamada de  Dabbawallahs que dizem fazer um serviço impecável. Até que um dia, um erro na entrega faz com que uma pacata dona de casa conheça um homem de meia idade. Juntos eles criam um mundo de fantasia a partir de mensagens trocadas através das embalagens usadas pelo  Dabbawallahs.

      Ou seja, duas pessoas solitárias apesar de terem compromissos. O homem é auditor, a mulher é casada, tem um marido desinteressado e uma filha pequena já em idade escolar. Seu almoço mais caprichado do que  a média faz parte de sua estratégia de tentar recuperar o marido. Depois de alguns dias de erro na entrega, o casal começa a se comunicar através de  mensagens  dentro do pão e eventualmente os dois vão se envolvendo, trocando idéias e ate pensando em um dia se encontrarem. 

       É quase um verão retro e local de “Ela”, em vez do casal moderno que usa um aparelho digital com a voz, aqui é uma coisa mais primitiva. Mas a vontade ou ilusão de ser compreendido e ter um relacionamento feliz são semelhantes.

       Feito por Ritesh Batra, estreando no longa, este é outro filme onde culinária tem muita importância  mas é basicamente uma historia de amor, nada sentimental como gostam os críticos (eu prefiro comida, digo filme mais quente e picante).   Destaque no elenco para Irrfan Khan, que é conhecido de muitos filmes (Quem que ser milionário, O Espetacular Homem Aranha, viagem a Darjeeling, As Aventuras de Pi).

Ref fim.

Clube de Compras Dallas

Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club). EUA, 13. 117 min. Direção de Jean-Marc Valée. Roteiro de Craig Borten, Melisa Wallack. Com Matthew McConaughey, Jared Leto, Jennifer Garner, Steve Zahn, Denis O´Hare, Dallas Roberts, Michael O´Neill, Griffin Dunne.

       Não existe mesmo duvida de que a Academia adora quando algum ator emagrece ou engorda para determinado papel (por vezes comprometendo sua saúde) e com freqüência os brinda com Oscars ou indicações (o caso de Robert DeNiro/Touro Indomável, Christian Bale que engordou agora para Trapaça mas emagreceu demais antes em  O Operário , Renee Zelwegger em Diário de Bridget Jones, Anne Hathaway em Les Miserables ano passado, Charlize Theron em Monstro, Natalie Portman em Cisne Negro, Tom Hanks em Naufrago). Este ano temos dois nesse caso e ambos parecem ser os favoritos para melhor ator (Matthew McConaughey) e coadj (Jared Leto). Foi também indicado como melhor filme do ano, montagem, maquiagem e penteados, roteiro original (ainda que baseado em atos reais). Teve um orçamento muito baixo mas ate agora não tem ido bem nas bilheterias (23 milhões nos EUA, não estreou ainda fora). Na direção temos um canadense que fez um autobiográfico delicioso que foi  C.R.A.Z.Y e a Jovem Rainha Vitória. Ao contrário deste ultimo que era todo requintado, aqui tudo é com câmera na mão, realista, sem frescuras. 

      Sem duvida, o grande feito é da dupla de atores (faz tempo que não há dois ganhando assim pelo mesmo filme, desde O Bom Pastor com Bing Crosby e Barry Fitzgerald, em 44). Jared Leto é vitima de uma maldição em Hollywood, é bonito demais e como sucede com as mulheres, o preconceito também existe com os homens, nunca lhes dão papeis difíceis e ousados. Ele passou 5 anos sem filmar, cantando com sua banda de rock, e só retornou agora no papel de um transexual. Rayon, que ele interpreta para valer sem qualquer traço de caricatura. Deve levar o premio. Mas a surpresa maior é com Matthew, que fez seu nome em comédias românticas ate quando se casou com uma brasileira, que como ele mesmo contou no Globo de Ouro, deu-lhe um jeito. O fez acordar cedo, correr atrás de melhores papeis, buscar desafios. ( É   Camila Alves, com quem tem 3 filhos ). As mudanças vieram devagar (O Poder e a Lei, Bernie, Killer Joe, Obsessão, Amor Bandido e chegou ao “stripper” de Magic Mike). E esta também em O Lobo de Wall Street na primeira parte do filme com a sequencia que eu acho que vai virar Cult, quando ele ensina ao jovem Leonardo a técnica de bater no peito.

       A ação se passa em Dallas, Texas em 1985 ( Matthew é de Austin) quando Ron Woodroof que é eletricista e montador de rodeios que leva uma vida de muita bebida, fumo, cocaína e mulheres . Também é racista e homofóbico. Mas leva um susto quando vai fazer um exame e descobre que tem HIV positivo. E provavelmente irá morrer em 30 dias. A principio ele nega tudo, se ilude mas com o tempo  fica irritado é com o governo federal, na Época do Presidente Reagan que hoje poucos lembram nunca admitiu a existência da doença oficialmente e assim impediu que fosse procurado algum remédio. A  morte de Rock Hudson viria a mudar um pouco isso mas o drama aqui de Ron era o de muitos. A droga chamada AZT estava ainda em experiência e não era permitida. Dessa forma, para se salvar e ajudar outros doentes, Ron cria uma espécie de linha de contrabando de AZT para atingir a demanda e salvar vidas. 

       É um caso não tão incomum de pessoas que são obrigadas a sair da lei para corrigir a estupidez humana, com tanta freqüência dos governos. O filme é o primeiro Classe A que eu vejo abordar o assunto e só mesmo o prestigio do Oscar pode ajudá-lo a ser assistido por mais pessoas.  

Ref fim .  

Que Estranho Chamar-se Federico! Scola Conta Fellini *********dia 28

Que Estranho Chamar-se Federico! Scola Conta Fellini Chi Strano Chiamarsi Federico. Itália, 13. Direção e roteiro de Ettore Scola. Roteiro também de Paola  e Silvia Scola 90min.Com Tommaso Lazzotti (Fellini jovem), Maurizio de Santis (Fellini), Giulio Davanzati (Scola criança),  Ernesto Argenio (Mastroianni), Sergio Rubini.

      Filme de encerramento da Mostra Internacional de São Paulo e do Festival de Veneza, este documentário revela informações que nem sempre são habituais mesmo pra os fãs de cinema. De que dois grandes do cinema italiano mais que amigos e parceiros eram velhos companheiros de luta numa antiga revista de humor que na época do Fascismo lutava para se manter viva. Primeiro (Federico) Fellini, de Rimini,  por isso visto como mestre, o primeiro a fazer sucesso e depois o mais jovem (Ettore)Scola de Trevico (e os dois se encontraram mais claramente numa sequencia bela de Nos que nos amávamos tanto,de 74, quando Scola pediu para Fellini e Mastroianni que reproduzissem para o filme a famosa cena da Fontana de Trevi). 

       É com uma certa lentidão que Scola narra o primeiro ato que se transcorre todo na redação da revista  Marco Aurelio (e descobrimos outros de cinema presentes como o diretor Steno, Scarpelli,  Ruggero Maccari).Tudo bem é didático, meio curioso mas não fundamental. Depois já damos um pulo depois que Scola vem para a redação e sua presença não é tão interessante quanto Fellini (outra coisa que poucos sentiam  sobre ele, que era muito alto e magro, fora o chapéu marca registrada). Há a bela imagem de estúdio contra o por do sol, com Fellini sentado na cadeira de diretor, na areia. Mas eu só fui me comover realmente na parte final, quando no funeral de Fellini, vem a grande idéia. Scola faz com que ele escape do caixão e saia correndo pelos fundos do estúdio Cinecitta se escondendo em sets abandonados, inclusive carrossel. Porque Fellini não pode, não deve morrer. 

        Durante o filme, Scola evita depoimentos antigos gravados e só os usa quando não tem outra alternativa. Deixa para o final uma edição de uns dez minutos mostrando trechos rápidos de praticamente todos os filmes de Fellini. Preciso ver de novo porque me emocionei muito vendo aquelas imagens, já tão familiares. De repente, todas juntas me despertaram para o inevitável. Nunca mais Fellini. E não chorava por ele mas por mim mesmo , por todas as vezes que eu vi aqueles filmes, revivi aqueles momentos, copiei, aprendi, me enganei num universo mágico e ao mesmo tempo assumidamente mentiroso. Não se trata de um grande filme. Por vezes o técnico formal que sempre Scola leva a melhor sobre ele. Só que finalmente se rende ao que Fellini tinha para mostrar e recordar que vira uma historia de amor, amizade, respeito e fidelidade. Entre dois grandes artistas.

Ref fim

Caçadores de Obras-primas

Caçadores de Obras-primas (The Monument Men) EUA,g 14.Direção de George Clooney. Roteiro de Clooney, Grant Heslov, baseado em livro de Bret Witter,Robert M. Edsel. 119 min. Com George Clooney, Matt Damon, Cate Blanchett, Bill Murray, John Goodman, Jean Dujardin, Hugh Boneville, Bob Balaban, Dimitri Leonidas, e pontas do diretor Serge Hazanavicius (como Armand), Grant Heslov (doutor), Alexandre Desplat (Hemile), e Nick Clooney (o pai de  George Clooney fazendo o personagem dele já velho!).

      Criou-se uma onda quando poucos meses antes da estréia prevista no Natal passado, o diretor Clooney pediu as produtoras (caso raro de parceria de  dois estúdios, Fox internacional e Sony americano) para adiar o lançamento do filme, dizendo que não deu tempo para concluir os efeitos especiais. Que efeitos? Qualquer criança perceberia o óbvio. Ele quis tirar o filme da corrida do Natal e do Oscar, quando algum sensato amigo lhe chamou a atenção que seu trabalho mais recente não teria qualquer chance de ser premiado! Não chega exatamente a ser uma bomba como aquele filme que Clooney fez e ficou esquecido (O Amor não tem Regras, 08, que apesar do nome era sobre esporte) mas não acredito que vá  ser sucesso.

       Simplesmente porque é muito antiquado, parece um filme do começo dos anos 60 (tipo Os Guerreiros Pilantras, só que quadrado e bem comportado). E conta uma historia que quanto muito pode interessar os mais velhos e intelectualizados. Inspirado em fato real, conta a historia também verdadeira (o livro bem longo e documentado conta mais uma desgraça que Hitler cometeu. Ele mandou roubar todas as obras-primas dos museus da Europa a fim de que fossem colocadas no Museu dele em Berlim que estava sendo construído. A não ser aquelas de arte decadente (isso incluía as obras de Picasso, Matisse e a arte moderna, que foram queimadas sem maior cerimônia). O livro que saiu pela Rocco não encontrou o publico que merecia, imagina então o filme! Onde alias se enfatiza demais e com exagero, a moral: será que vale a pena colocar em risco  uma vida humana para se preservar obras de arte? A resposta é obviamente sim mas parece que ate mesmo o diretor esta inseguro disso. E os jovens não estão interessados nisso.

      Alguns desses fatos já foram contados antes pelo cinema, notadamente em O Trem, 1964, de John Frankenheimer,  onde Burt Lancaster comandava a Resistência no resgate de um trem carregado de obras de arte roubadas pelos nazistas . Alias um thriller quase clássico. E como se fosse para comprovar a veracidade disso tudo: agora em dezembro de 2013 em Paris foram descobertas no apartamento de um certo Cornelius Gurlitt, filho de marchand nazista, 1.400 peças obras-primas roubadas e ate agora totalmente escondidas!!!

      O problema do filme era como contar numa metragem normal esse que certamente foi  o maior roubo (de arte) da Historia e a relutância do governo (o exercito em particular) americano em formar uma equipe para resgatá-los (O filme  exagerou também nessa equipe com 8 pessoas básicas quando na realidade eles eram mais de 500!).

       Além de ter um ritmo lento e relaxado, o filme funciona melhor em cenas isoladas do que como narrativa completa. A presença do vencedor do Oscar Jean Dujardin é muito fraca e mal resolvida (tinha potencial porque é meio comédia). Mas há algum charme nas aparições de Cate Blanchett, no seu jantar com Matt Damon fazendo o elogio a Paris enquanto a pior sequencia é o roubo da Madonna (não a cantora) que desperdiça Hugh Boneville (o dono de Downtown Abbey), ou então ele ruim mesmo (resta a conferir). Minha cena favorita é curiosamente com o humorista Bill Murray, quando esta tomando um banho improvisado!  

        Embora os fatos sejam interessantes e a paisagem quase toda alemã fotogênica, a trilha musical seja um compendio de influencia de outros filmes do gênero,  o próprio autor do roteiro esqueceu-se de dar boas cenas para  Clooney ou Damon. Acho que a presença de um opositor, um oficial nazista- ou mesmo comunista! pudesse também ajudar a criar maior tensão e suspense.  Do jeito que esta o filme é uma curiosidade que irá decepcionar.

Ref fim.    

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Shirley Temple

Shirley Temple

    Quando eu era mais jovem implicava com os cachinhos de Shirley Temple. Achava que ela era responsável por milhões de crianças em todo o mundo sofrerem por causas das mães que desejavam que as filhas ficassem  parecida com ela.  Mas a má vontade se dissipou diante do charme e naturalidade desse fenômeno que foi realmente a maior estrela infantil do cinema em todos os tempos. As outras, dezenas de imitadoras, nem chegaram perto. Embora tenha ficado chocado quando descobri que o estúdio sempre diminuiu a idade de Shirley, sempre lhe deram um ano a menos.  Se fizeram isso com uma criança imaginem como mentiam sobre outras coisas. Também sempre achei muito divertido um processo judicial que aconteceu quando o critico de cinema e depois escritor Graham Greene escreveu dizendo que ela era uma anãzinha e a Fox ofendida resolveu processa-lo.  Mas vamos e venhamos, Shirley realmente parece gente grande. Obviamente era uma brincadeira . O fato é que Shirley quando tinha seis anos, oops, sete anos, ganhou um Oscar especial da Academia em miniatura por “Ter trazido felicidade para milhões de crianças e milhões de adultos muito mais do que qualquer outra criança de sua idade na historia do mundo”. A mais jovem pessoa a levar o premio até hoje!  E não estavam exagerando. Shirley sabia fazer de tudo. Cantava, dançava, chorava, tinha tempo de comédia. Mas era principalmente uma gracinha. Uma pena que tinha que  crescer. E falecer como sucedeu segunda-feira  passada aos 85 anos.

   A lenda de que certas estrelas foram responsáveis por salvar estúdios da falência quase sempre são reais. Ao menos foi o caso de Shirley e seu estúdio a Fox, na verdade o mais jovem de todos os grandes estúdios americanos. Ele estava nos seus difíceis anos de formação (para se ter uma idéia de como isso é difícil basta ver os problemas que teve Spielberg com a Dreamworks ou a Orion nos anos 80) nascido da junção da 20th century com a Fox. E foi muito ajudada pela orientação do chefe da produção Darryl F. Zanuck, que foi quem orientou toda a carreira de Shirley. 

  Nascida oficialmente em 1928, em Santa Mônica, uma região praiana da California, a poucos km do centro de Los Angeles, filha de um gerente de banco, desde pequenina demonstrou talento.Com quatro anos já começou a aparecer em alguns curta metragens (calculam-se que foram 15 curtas) . Até que em 1934, a Fox a  descobriu e percebeu que tinham encontrado uma mina de ouro. E tiraram tudo o que era possível de Shirley, colocando-a em vários filmes por ano, todos parecidos, todos êxitos. Alguns deles, você pode já assistir no Brasil, em DVD (até há pouco eram raridades),como Anjo da Felicidade e Susannah.

    Não é fácil hoje em dia imaginar o sucesso de Shirley teve em  todo mundo (não apenas a imitação de seu  cabelo naturalmente cacheado, calcularam imagina que loucura, que ela tinha exatamente 56 diferentes cachos dourados). Ela foi a primeira a descobrir uma nova arma e fonte de dinheiro, o merchandising. Foram fabricadas bonecas, canecas, discos, chapéus, vestidos, tudo sempre a efígie ou semelhança dela. E que foram tremendo êxito mundial e que existem ainda até hoje no mercado. Shirley foi a numero 1 de bilheteria, votada pelos exibidores, entre 1936-37-38 batendo estrelas como Gary Cooper, Clark Gable ou Bing Crosby. Chegou a ser segurada pela famosa Lloyd´s de Londres. Ela é a origem de todas as Shirleys do mundo inclusive as futuras estrelas Shirley Jones e Shirley Maclaine.

        Nos filmes ela sempre servia de cupido para alguém ou então era algum tipo de orfã que tentava amaciar o coração de um velho. Foi dirigida por John Ford mas mesmo ele não tinha muito trabalho. A garotinha era uma profissional, fazia tudo com perfeição. Se bem que o grande momento era mesmo quando a deixavam na mão do grande sapateador Bill Bojangles Robinson, com quem ela fez uma grande parceria. Os dois se tornaram amigos apesar de na época haver grande preconceito racial na sociedade americana. Os sapateados da dupla são inesquecíveis. E se a menina não tinha grande técnica compensava em simpatia e entusiasmo.    Naturalmente Shirley sofreu todas as pressões do sucesso mas nunca deixou de ser uma criança relativamente normal. Ao menos não se viciou em drogas como sucederia depois com Judy Garland. Seu único problema era inevitável: ela tinha que crescer. Bem que a Fox tentou evitar isso. Mas não conseguiu. Era Shirley que deveria ter feito O Mágico de Oz na MGM mas o contrato não deu certo (naturalmente Judy virou grande estrela com esse filme).A Fox replicou produzindo outra fantasia colorida (coisa rara e cara na época) com O Pássaro Azul (1940), uma bela alegoria que não teve o resultado esperado. Era o fim de Shirley como atriz infantil.

    Sua transição para a fase de adolescente foi complicada. Continuou baixinha (1m57). O produtor David Selznick ( E o Vento Levou) resolveu investir nela e chegou a coloca-la em alguns filmes, como Desde que Partiste, onde fazia a filha de Claudette Colbert e irmã de Jennifer Jones, todas sofrendo porque os homens foram lutar na Segunda Guerra mundial. E no romance Verte ei Outra Vez/I´ll Be Seeing You, 44, com Ginger Rogers e Joseph Cotten. E o amigo John Ford a chamou novamente para participar de Sangue de Heróis, Forte Apache, de  48,uma fita classe Classe A onde ela compartilhava o elenco com astros do calibre de John Wayne e Henry Fonda . Ford também deu uma chance para o marido de Shirley. É que ela tentando se livrar do jugo da família se casou aos 18 anos com um sargento do exercito, o jovem John Agar (1921-2002). O casamento não duraria muito, mas Agar seria coadjuvante pelo resto da vida, em geral em fitas de Wayne (o casamento acabaria em 1950).  Shirley se cansaria da vida de atriz. Em 1949, quando tinha apenas 21 anos largou o cinema para sempre. Em dezembro de 1950, se casaria de novo com um homem de negócios com quem teria dois filhos e com que viveria até a morte dele em 2005).  Voltaria ao noticiário como embaixadora do governo americano, em Ghana e na Checoslovaquia, e sendo das primeiras celebridades a lutar publicamente contra o câncer no seio. Nunca envolvida em escândalos. Nunca manchando a memória daquela menina de cachinhos. Ano passado, ganhou um Premio Especial pela carreira pelo Sindicato dos Atores que a apontou com exemplo de profissionalismo. Subiu ao palco já com dificuldade, mas ainda sorridente, com a covinha. Uma bela e digna senhora. Como Disse uma vez: Qualquer estrela pode ser devorada pela adoração humana. Brilho a Brilho”. Felizmente isso não aconteceu com ela.

Filmografia

Shirley começou participando de curta-metragens com elenco infantil as vezes como Shirley Anne Temple, as vezes sem crédito.  .

1932- Kid´s Last Stand. Runt Page.  War Babies, O Alibi da Ruiva/Red Haired Alibi. The Pie-Covered Wagon.
1933- New Deal Rhythm. Glad Rags to Riches. Kid in Hollywood. Out All Night. The Kid´s Last  Fight. Polly Tix in Washington.  Dora´s Dunking Doughnuts. To the Last Man.  Merrily Yours Kid´in´Africa. What´s To Do.
1934- Pardon my Pups.  As the Earth Turns (sem crédito) Managed Money.
Longas:
1934- Carolina (Idem). Capricho Banco (Mandalay. Cenas cortadas) ). Alegria de Viver (Stand up and Cheer!) Quando Nova York Dorme (Now I´ll Tell). Seu Primeiro Amor (Change of Heart). Dada em Penhor (Little Miss Marker). Queridinha da  Família (Baby Takes a Bow) . Agora e Sempre (Now and Forever). Olhos Encantados (Bright Eyes).
1935- A Mascote do Regimento (The Little Colonel). Our Little Girl. A Pequena Orfã Curly Top). A Pequena Rebelde (The Little Rebel).
1936- O Anjo do Farol (Captain January). Pobre Menina Rica (Poor Little Girl). Princesinha das Ruas (Dimples). A Pequena Clandestina (Stowaway).
1937 –A Queridinha do vovô (Wee Willie Winkle). Heidi (Idem).
1938-Sonhos de Moça (Rebecca of Sunnybrook Farm). Miss Broadway (Little Miss Broadway). Anjo da Felicidade (Just Around the Corner.
1939-A Princesinha (The Little Princess). Susana (Susannah of the Mounties). O Pássaro Azul (The Blue Bird). Mocidade (Young People)
1941- Kathleen (Idem).
1942- Miss Annie Rooney (Idem).
1944- Desde que Partiste (Since You Went Away). Ver-te-ei Outra Vez (I´ll Be Seeing You).
1945-  Ninguém vive sem amor (Kiss and tell) . Amor de Duas Vidas (Honeymoon).
1947- Solteirão Cobiçado (The Bachelor and the Bobby Soxer). Marcado pela Calunia (That Hagen Girl). 1948-  Sangue de Heróis (Fort Apache).
1949- O Gênio no Colégio ( Mr. Belvedere Goes to the College). Uma Mulher contra o Mundo (Adventure in Baltimore). Tempera de Vencedor (The Story of Seabiscuit). O Eco de um Beijo (A Kiss for Corliss).
Depois Shirley fez um programa de televisão exibido no Brasil chamado Shirley Temple´s Storybook,
58-61  onde ela contava historias infantis (era apresentadora e ocasionalmente também estrelava os episódios). Foi sua ultima aparição como atriz (a não ser com apenas a voz num Red Skelton Show de 63).
Trilhas musicais 2014  

Este ano não houve grandes discussões sobre as trilhas musicais selecionadas pela Academia. Eis o que pensamos das finalistas a Paoula Abou Jaoude e eu.

Finalistas.

A Menina que Roubava Livros/The Book Thief de John Williams – Paoula: Sou fã de carteirinha de Mr. Williams e esta é  uma trilha boa com melodias bonitos mas não é sua maior trilha nem a mais memorável Trilha. Definitivamente não é um novo A Lista de Schindler. Mas é muito sutil no livro. Eu até teria gostado de ouvir algo mais sentimental, talvez para complementar o filme que e ruim!
Rubens- A Paoula tem razão, o filme é ruim, a trilha mediana e nada memorável. Pouco para quem já ganhou 5 Oscars! 

Gravidade (Gravity) de  Steven Price – Paula – Inovadora e Maravilhosa! Criou som no espaço onde se sabe que não há nenhum por lá.  Ouvi varias vezes a trilha inteira. Pra mim foi magistral o mix que ele fez de sound design / sound FX / music score, É harmonioso e se ajusta perfeitamente as imagens e também funciona emocionalmente. Arrepio toda vez que ouço track #5 "Don't Let Go", tem quase 11 minutos  de duração e é linda!!! Acho que o estilo musical tem algumas semelhanças com a trilha de Oblivion mas Gravity é muito melhor e mais inovadora! É uma das minhas favoritas e acho que pode ganhar. Rubens : Esse parece ser a impressão que passa também a Academia, é o favorito. Hora de se consagrar mais o compositor britânico Steven Price que nunca ganhou e só foi indicado agora. Mas é foi editor musical de O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003), O Senhor dos Anéis: As Duas Torres(2002) e autor e editor de  Scott Pilgrim Contra o Mundo (2010). Fez poucas trilhas suas (Ataque ao Prédio, Heróis de Ressaca, e o novo Fury com Brad Pitt). 

Ela (Her) de  William Butler and Owen Pallett – Paula: LINDA!!!! e minha outra favorita este ano e parece ser a única que pode concorrer com Gravidade embora tenham estilos totalmente diferentes. É um belíssimo e sutil escore.  Já  gostava do Arcade Fire (banda de rock canadense que fez para A Vida secreta de Walter Mitty Wake Up e Abraham´s Daughter de Jogos Vorazes)   e estava curiosa para ouvir a trilha e amei! Devido ao tema e também por ser introspectiva. É um filme difícil de escrever musica, achei a trilha perfeita não só por conseguir complementar mas também enfatizar as cenas e o clima delas.  Que fluem harmoniosamente com o dialogo, com momentos de silencio  e  com a direção de fotografia, seja qual for o “cue”, desde o piano improvisado  da Scarlett a canção que cantam juntos, acho a trilha impecável ! Rubens- Ate parece que combinamos mas não é verdade. Apaixonei-me pelo filme justamente por todas essas qualidades artísticas que o distinguem de outros trabalhos quaisquer. Um salto enorme na carreira de Jonze que virou cineasta completo.

Philomena de Alexandre Desplat -  Paoula :É uma boa trilha. Ouvi algumas vezes e acho que funciona bem no filme mas achei um pouco repetitiva nos temas. O Desplat entende de drama e clima, sempre consegue grandes cenas musicais mas não acho que seja seu melhor trabalho. Talvez seja culpa minha por excesso  de expectativa. Mas honestamente achei que ele se reciclou, as variações de som me pareceram familiares. Ainda assim  não deixa de ser uma boa trilha dramática.Rubens: O Frances Desplat é o compositor do momento, foi indicado ao Oscar 6 vezes (A Rainha, Benjamin Button, Argo, Discurso do Rei). Faz de 3 a 5 filmes por ano, e já tem um total de 151 créditos. Isso explica a reclamação acima da Paoula.
Refim

Walt nos Bastidores de Mary Poppins /Saving Mr. Banks de Thomas Newman -È uma trilha interessante e já esperava que fosse indicada. É divertida de ouvir. Gosto da mistura do passado e presente, segmentos e trechos cantados.  Basicamente uma trilha tradicional de Hollywood mas no estilo de Thomas Newman, então tem um pouco de tudo na orquestração.
Rubens – Este é o primo pobre da ilustre família de compositores de Hollywood (seu pai Alfred, chefe musical da Fox, seu tio Lionel Newman, seu primo Randy, o irmão David Newman, só para lembrar os mais famosos). Já foi indicado aos Oscars 12 vezes e nunca levou (podia emWall-E, Procurando Nemo, Beleza Americana etc).

Ref fim.

O Oscar de canção

O Oscar de canção

      Todo ano é uma categoria muito polemica e difícil (no numero de possíveis indicados, as vezes inclusive nem são apresentados no show, o que a meu ver é ofensivo. Se não são boas então melhor nem selecioná-las!). Este ano também teve uma polemica que ainda repercute novamente por um lapso ético! A Academia tenta ser honesta logo numa eleição quanto todo mundo sabe como as eleições políticas transcorrem. 
Cancelada indicação a uma canção: a Quinta.

      Uma das grandes polemicas deste ano sucedeu com uma canção que depois de ter sido selecionada foi  “cassada” pela Academia. A diretoria resolveu rescindir a indicação para a canção “Alone Yet Not Alone” , musica de Bruce Broughton e letra de Dennis Spiegel. A decisão foi porque descobriram que  Broughton (mais famoso como maestro condutor Bruce compôs trilhas musicais medíocres com as de Bambi II e Perdidos no Espaço o filme) , que hoje é executivo do Departamento Musical e já foi chefe dele, mandou emails para diversos colegas informando de sua canção (o que é estritamente proibido pela Academia). Isso pareceu desonesto para a Academia que exige que todos os candidatos sejam tratados da mesma forma. Nenhuma outra canção irá substituí-la. A decisão provocou, porém polemicas porque o filme tem uma temática religiosa, cristã. O filme tem o mesmo nome, Alone yet not Alone, foi dirigido por Ray Bengston e George D. Escobar, com Kelly Greyson,  Natalie Racoosin e Jenn Gotzon. A ação se passa em 1755 quando as colônias de emigrantes no Vale de Ohio são devastadas pelos efeitos da Guerra. Foi interpretada no filme por Joni Eareckson Tada. A produção custou 7 milhões de dólares e sua estréia no cinema foi um desastre, sem chegar aos 400 mil dólares de renda. Musicalmente a canção é mediana, sem nada de extraordinário.

      Pedi ajuda a minha amiga Paoula Abou-Jaoude , correspondente do Telecine em Los Angeles e votante no Globo de Ouro. Ela é maestrina e especializada em musica e vai opinar sobre as canções finalistas. Abre falando sobre Alone yet not Alone:  “O compositor postou  no facebook o email que ele mandou para os amigos insistindo que não pediu para votarem mas simplesmente  para prestarem atençao  a canção. A  justificativa dele é que não queria que a canção #55 se perdesse no meio dos outros CDs com nomes mais famosos e melhor divulgação. Mas .não e a função do sócios da Academia que fazem parte da comissão de seleção  ouvir TODAS as canções e trilhas ??? Então o que ele esta dizendo é que o pessoal não leva muito a serio o trabalho e ouve somente alguns dos cds?? De qualquer forma é uma coisa ruim! Sua eliminação que tirou o espaço da canção da Lana Del Rey,‘ Young & Beautiful” de Grande Gatsby e outras que poderiam ter entrado como Atlas do Hunger Games, mesmo surgindo no fim dos créditos.

As outras indicações
Eis a opinião de Paoula, seguida da minha para as outras quatro:
Happy (de Meu Malvado Favorito 2 )de Pharrell Williams.
Paoula : Muito fofa, muito divertida, assim como aquele montão de  minions!!! Rubens: O filme de animação que foi o maior sucesso inesperado do ano, amado pelas crianças. Mas a Academia tem feito o possível para evitar prêmios para desenhos animados. A não ser claro quando são da Disney!.
Let It Go (FROZEN) -Musica e Letra de Kristen Anderson-Lopez e Robert Lopez (este é o premiado com o Tony por sua trilha nos shows da Broadway, The Book of Mormons e Avenue Q, ao lado de sua esposa). É a canção favorita embora tenha perdido o Globo de Ouro para de Mandela.
Paoula:  A musica & letra tem tudo a ver com a cena e a transformação da personagem. Acho que e uma das favoritas e que aparece numa bonita cena no filme. Rubens: Tem grande poder dramático na tela e lembra muito show da Broadway.

The Moon Song (Ela) Musica de Karen O. Letra de Karen O e o diretor Spike Jonze (Karen nasceu na Coreia do Sul de pai polonês mãe coreana. Canta na banda Yeah Yeah Yeah. Chama-se Karen Lee Orzolek).
Paula : LINDA!!!!! como o resto da trilha!! Acho que revela a crescente intimidade no filme quando eles cantam juntos. Rubens: Doce, delicada, encantadora, é a minha favorita.
Ordinary Love (de Mandela- Mandela:Long Walk of Freedom) . Musica de Bono, The Edge, Adam Clayton, Larry Mullen Jr, Brian Burton. Paoula: O music “branch” não indica muitas canções que passam apenas nos créditos finais porque acham que elas não são relevantes para a Historia. Mas o esperto produtor Weisntein colocou a musica do Bono no final do filme durante uma “photo- montage” do Mandela que é  muito relevante para a cena e para a história.  Se tivesse passado em cima dos créditos finais s teria tido menos chance. Mas na cena da montagem arrepia! Rubens: Os fãs do U2 aguardam o Oscar para o grupo tão bem amado (mesmo depois do desastre que foi a trilha que Bono e Edge fizeram para a Broadway com o Homem Aranha!). A canção de qualquer forma é boa e ajuda o filme mediano.

Ref fim.
     

Ela

Ela (Her) EUA, 13. Direção e roteiro de Spike Jonze. 126 min. Com Joaquin Phoenix, a voz de Scarlett Johansson, Olivia Wilde, Amy Adams, Rooney Mara, Chris Pratt, Bill Hader, voz de Kristin Wiig.

     Apesar de gostar de praticamente todos os finalistas para o Oscar de melhor filme deste ano, meu favorito -  uma escolha muito pessoal - é este primeiro filme de Spike Jonze onde ele também escreveu o roteiro sozinho (havia co-roteirizado seu filme mais fraco o anterior Onde Vivem os Monstros, 10 e um curta I´m Here, 2010, que estreou em Sundance (mas não conheço). Antes disso a tendência era conhecê-lo como diretor de music vídeos, produtor de programas juvenis grossos (da série Jackass, inclusive o recente Vovô sem Vergonha). Na verdade, ele tem uma carreira muito diversificada (foi marido de Sofia Coppola que pintou um retrato dele em Encontros e Desencontros) e seus longas de maior sucesso foram escritos por Charlie Kaufman (Quero ser John Malkovich, 99) e Adaptação (2002). Então a tendência seria admirar Kaufman (que passou a direção com o confuso e complexo Sinédoque, Nova York, 08) e atualmente dirige uma animação (Anomalisa). 
    
       Tudo isso é para explicar que apesar de seu prestigio não imaginava Jonze capaz de fazer um filme tão sensível, tão bonito e intrigante quanto este “Her” que provavelmente vai ganhar o Oscar de roteiro original (já levou o Globo de Ouro), e também esta indicado como filme, trilha musical e canção (The Moon Song, que é uma joiazinha!). A historia se passa num futuro próximo em Los Angeles onde vive Theodore (Joaquin Phoenix),”um homem solitário, complexo e sentimental que ganha a vida escrevendo cartas pessoais e comoventes para outras pessoas. Inconsolável após o fim de um longo relacionamento, ele se interessa por um novo e avançado sistema operacional  que promete lhe dar uma única pessoa como companheira de conversas e amizade. Logo após instalado (que é como um pequeno fone), ele tem o prazer de conhecer “Samantha”, uma voz feminina vibrante (Scarlett Johansson), perspicaz, sensível e surpreendentemente engraçada. À medida que as suas necessidades e os seus desejos crescem, juntamente com os dele, a amizade se aprofunda e acaba se transformando num amor um pelo outro.” (eu copiei o material do press release para não correr o risco de distorcer algo).

       E junto com Theodore (Joaquin de bigode de português, esta em seu melhor momento no cinema, uma pena não ter sido indicado) a gente vai mergulhando no relacionamento do casal, se encantando com o envolvimento deles (também a voz de Scarlett esta perfeita e  adorável. É incrível também que o filme tenha sido todo rodado com outra voz, ainda nos sets. ate Spike chegar a conclusão de que Samantha Morton (uma atriz inglesa que fez Minority Reporter, John Carter, Terra de Sonhos) não era a voz adequada mudando na ultima hora por Scarlett. 

       Ao mesmo tempo em que Theodore vai se relacionando com a voz (Samantha) também experimenta outros relacionamentos que permitem o brilho de outras mulheres interessantes, um encontro as cegas com a belíssima Olivia Wilde, uma amizade com uma  vizinha (outra vez a sempre encantadora Amy Adams), Rooney Mara (um antigo amor). O que me impressionou especialmente foi como o diretor conseguiu utilizar a direção de arte/desenho de produção de maneira criativa, deixando sempre a cidade invadir os apartamentos, com sua luz (e muito vidro) de tal forma que ao assistir o filme (eu estava em Los Angeles) no dia seguinte sai com amigos na tentativa de descobrir onde ele filmou aqueles lugares tão fotogênicos. Só agora descobri que na verdade se tratam de efeitos digitais unindo alguns lugares de “Downtown L.A” com outros  que ele foi buscar em cidades recém criadas na China, tendo também o cuidado de sumir com os carros das ruas!). Enquanto isso o figurino cria seu próprio estilo (reparem na calça do herói, cintura alta, que por sinal já foi lançada agora nas lojas americanas na tentativa de fazer moda).

       Muito mais que um simples historia de amor, “Ela” já acontece no presente que vivemos. Nos facebooks anônimos, nas pessoas que não conversam e não largam seus celulares dito inteligentes, na tirania da Internet, na solidão das grandes cidades ou pequenas vilas, no estilo daquilo que convencionamos chamar de vida.  

Ref fim.

Oscar 2014- Os Indicados como documentário de longa metragem.

Oscar 2014- Os Indicados como documentário de longa metragem.

     A Academia tem mudado tanto as regras que por enquanto esta difícil entender se foi para melhor ou pior. De qualquer forma, atualmente todos os associados podem votar na categoria (e não mais uma pequena comissão  de voluntários especializados). Não sei se tem relação, mas houve uma queda de nível, no seguinte sentido: os filmes deste ano são bons e polêmicos (quase todos)  mas apenas uma obra-prima. Todos inéditos no Brasil comercialmente por enquanto.

      São O Ato de Matar ( The Act of Killing)  de Joshua Oppenheimer, Signey Byrge Sorensen e Anonimos. Se houver alguma lógica este será o vencedor, já que é um dos grandes documentários que assisti em toda minha vida. Nada parecido foi realizado antes. Ganhou em  Berlim o premio de melhor filme do Panorama e melhor doc. Já foi descrito como se fosse um registro dos Nazistas e a  SS mostrando como matavam e agiam no Holocausto . Com a diferença que aqui os assassinos ainda estão no poder e se acham intocáveis. Mais que isso,  foram eles que fizeram a encenação se inspirando em filmes americanos de John Wayne e Sidney Poitier.  Então abre e fecha, como se fosse um grande musical (brega) onde bailarinas dançam e entram na cabeça de um grande peixe. É absolutamente incrível e assustador assistir a  frieza como matadores de milhares de pessoas (em geral comunistas, uma espécie de esquadrão da Morte a serviço do governo da Indonésia. Um milhão de pessoas seria o numero calculado de vitimas! ). Ditando regras, pedindo senso de humor, entrando em detalhes, realmente eles discorrem sobre a arte de matar. Pelo menos 20 membros da equipe tiveram que assinar como Anônimos (inclusive um dos co-diretores) com medo das represálias futuras já que tudo é confessado com a maior empáfia e orgulho. E a certeza e continuarem ilesos mas querendo agora se tornarem famosos  (falam sobre Bush, Crimes de Guerra). Um filme realmente inacreditável (não explicito demais para chegar a limite da tolerância). Obrigatório para qualquer pessoa preocupada com a natureza humana. Teve outros prêmios (30).    

      Cutie and the Boxer – de Zachary Heinzerling, Lydian Dean Pitcher. O mais fraco da lista e que não devia estar nela. Não chega a interessar a historia da dupla de artistas de origem japonesa que vive em Nova York, casados ha 40 anos, Ushio Shinohara,e sua mulher Noriko. Ele faz obras de arte (duvidosas) dando socos com tintas numa tela e por isso mesmo não chegou a fazer grande sucesso. Ganhou Sundance, Full Frame e Londres. 

        Guerras Sujas  (Dirty Wars) de Rick Rowley e Jeremy Scahill. O jornalista e correspondente de Guerra Jeremy que esta em missão no Afganistão começa a suspeitar que há algo errado como o Exercito Americano. Terroristas aparecem mortos sem justificativa (a noite, tudo é dominado pelos talibans) assim como as vezes menores de idade ou inocentes. Ele finalmente tenta denunciar que há uma conspiração para matar mesmo sem julgamento ou qualquer formalidade, qualquer suspeito de ser rebelde ou nacionalista. Este é o melhor realizado, editado, como se fosse um filme de suspense . um thriller de ficção e não deixa de usar cenas de debates na teve americana.  Mas é incrível como americano custa a perceber o óbvio ! Ganhou Boston, Little Rock, foto em Sundance, Telluride, Varsóvia.  

     The Square (A Praça) de Jehane Noujaim, Karim Amerc (Egito). A diretora é mesmo Jehane, uma jovem (1974) egípcia que fez Star.up, Control.  E que conta a historia das manifestações de rua no Cairo que conseguiram por um tempo derrubar o governo. Mas aos poucos foram infiltradas por organizações religiosas extremistas, que tomaram conta do movimento, desvirtuando. Da a palavra aos que lutaram nas ruas mas não consegue entrevistar membros do governo nem  os radicais islâmicos. Mesmo assim impressiona (feito com câmera não profissional). Ganhou também Sindicato dos Diretores, Dubai , Hamptons, Sundance (World  cinema), indicado ao Independent Spirit.

     A um Passo do Estrelato (20 Feet from Stardom) de Morgan Neville. Com Stevvi Alexander, Patti Austin, Chris Botti, Carole Childs, Lou Adler, Sheryl Crow, Darlene Love, Mick Jagger, Cissy Houston, Sting. 

       Assisti meio sem querer no avião Delta que me trazia de Atlanta e foi uma boa surpresa. O único que trata de musica e um tema agradável ainda que triste : a saga de cantoras excelentes, de vozes incríveis mas que não conseguiram fazer carreira solo. Quase todas tentaram mas não deram certo e ainda hoje tem que ficar de background, como diz o titulo original a 20 pés do estrelato. Tem muita musica,  depoimentos importantes, apoio de astros famosos e interpretações de arrepiar. Como explicar que gente de talento não consiga por vezes o êxito que merecem? O diretor produtor é veterano e tem curriculum de 28 docs. Inclusive para a serie Biography. Indicado ao Independent Spirit, ganhou Seattle, San Francisco, River Run, Phoenix, National Board of Review. 

Ficaram de Fora: Em 3 de dezembro a Academia revelou uma lista de pré-candidatos na categoria. Assim na listagem final ficaram de fora os seguintes indicados:
The Armstrong Lie - The Kennedy/Marshall Company
Blackfish - Our Turn Productions
The Crash Reel - KP Rides Again
First Cousin Once Removed - Experiments in Time, Light & Motion
God Loves Uganda - Full Credit Productions
Life According to Sam - Fine Films
Pussy Riot: A Punk Prayer - Roast Beef Productions
Stories We Tell - National Film Board of Canada
Tim's Vermeer - High Delft Pictures
Which Way Is the Front Line from Here? The Life and Time of Tim Hetherington - Tripoli Street

      As ausências mais sentidas são as de Historias que Contamos/ Stories We Tell ,premiado drama da atriz e excelente diretora Sarah Palley, que com a ajuda de sua família relembra velhas historias em busca da verdade. Também gostei de Blackfish:Fúria Animal, de Gabriela Cowperthwaite. Sobre acidente com treinadora de baleia assassina em parque aquático e o perigo de suceder de novo. Foi super elogiado e admirado Tim´s Vermeer  feito pelo famoso mágico Teller, onde o inventor Tim Jenison, procura entender as técnicas de pintura do lendário pintor Holandês Johannes Vermeer. The Armstrong Lie foi produzido pelo casal Kathleen Kennedy e Frank Marshall amigos de Spielberg (ela é a chefona hoje do império George Lucas!) e mostra as mentiras do campeão de ciclismo Lance Armstrong.  Pussy Riot é sobre o grupo punk russo que foi mandado para a cadeia. 

Ref fim.
 

12 anos de escravidão

12 anos de escravidão. 12 Years a Slave. EUA, 13. Direção de Steve McQueen. 134 min. Com Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Brad Pitt, Quzevanné Wallis, Benedict Cumberbatch, Paul Dano, Sarah Paulson, Lupita Nyongo, Alfre Woodard.Roteiro de John Ridley baseado em Livro de Solomon Northop.

       Este ainda continua a ser o favorito para vencer o Oscar de melhor filme do ano (embora Gravidade deva ganhar o de melhor diretor). Ao menos tem sido assim nos últimos meses. Realmente fica difícil a Academia deixar de lado, mesmo num ano rico em bons lançamentos (vários deles com temática negra, inclusive a vida de Nelson Mandela, que já não vai passar em nossos cinemas, sai direto em Home Video- o que hoje em dia significa muito pouco!).  O problema dele é algo difícil de combater: todo mundo aprecia e elogia suas boas intenções, sua sinceridade, sua discrição e notáveis interpretações. Mas quando ficam sabendo do que trata a historia não demonstram a menor intenção de assistir o filme. Dizendo que não querem ver sofrimento, ou historias tristes. 

        Além de não divulgar o orçamento, o filme rendeu no mercado americano ate agora (já saiu das salas e esta para ser lançado em Blu Ray) apenas 46 milhões de dólares  (no mercado externo esta por volta de 50!). Talvez porque o diretor Steve McQueen (todo mundo já sabe que é  negro e apenas homônimo do famoso astro falecido nos anos 80). Produzido por Brad Pitt (que faz papel pequeno para ajudar na comercialização), foi indicado para 9 Oscars: filme, ator (o britânico de origem nigeriano Chiwetel), coadj (o alemão/irlandês Michael Fassbender), atriz coadj (Lupita Nyongo, nascida no México de pais do Quênia, formada em Harvard!), figurino, diretor, montagem, desenho de produção (ex-direção de arte) e roteiro.

         Como a maior parte dos concorrentes deste ano é baseado em fato real: por volta de 1853,  antes de Guerra Civil americana, Solomon é um negro livre com família constituida que reside no estado de Nova York, mas que mesmo assim é seqüestrado e vendido como escravo. Tenta se defender mas é recebido com brutalidade por vários donos, em geral fazendeiros.  Durante 12 anos, luta para se  manter vivo passando por muitas tragédias e finalmente ajudado por um abolicionista canadense (Brad). O que narrou depois em livro.

          McQueen não abdicou do estilo seco dos filmes anteriores ( O mais famoso foi Shame). Filma quase tudo a distancia,  com uma única câmera, num período muito rápido de 35 dias na Louisiana, fugindo de grandes emoções , sem nunca forçar o sentimental ou o suspense, ou enfatizar demais as cenas de tortura. Por outro lado o cinema norte-americano tem uma historia curta de produções sobre o tema (a mais famosa foi feita para a teve, a minissérie Raizes/Roots, 77). Nunca encararam os fatos e as vergonhas e culpas que hoje só vêem a tona por causa da presidência de Obama. E dessa forma este aparece como um divisor de águas, na sua honestidade e até mesmo coragem.

           A revelação do filme não é tanto Chiwetel, conhecido já de outros trabalhos mas a bela Lupita que tem chances de levar seu Oscar apesar de estreante (já fez outro filme com Liam Neeson , Sem Escalas). O importante como vários críticos acentuaram é que  evitam-se as lagrimas exageradas,  prefere-se a racionalização. Solomon não é apenas uma pessoa, mas um povo subjugado e vilipendiado. De toda uma instituição, que custa a desaparecer em suas diferentes formas. Ainda que disfarçadas. 

          Acho que o cinema tem o dever e a obrigação de produzir filmes como este e a Academia em prestigiá-los. Ainda mais quando feitos com tamanho respeito e dignidade.
Ref fim.

Tango Libre

Tango Libre (Idem) .Bélgica,França,Luxemburgo, 2012. Direção de Fréderique Fontayne. Com Sergi Lopez, François Damiens,  Jan Hammenecker, Anne Paulicevich, Zacharie Chasseriaud, Christian Kmiotek, David Murgia.

        Preste atenção no nome do diretor Fontayne e procure se lembrar do sucesso que ele fez com um filme anterior chamado  Uma relação pornográfica, 1999, com o mesmo ator Lopez.  Pois com este levou o Grande Premio em Varsóvia e Menção especial no Horizons de Veneza. Só isso já recomendaria o filme. Que ainda me surpreendeu com uma belíssima fotografia e uma narrativa intrigante e inusitada.

    Mais uma vez o cinema revela que o tango é a dança mais cinemática de todas , extremamente fotogênica, sensual e eloquente.  Se o filme anterior tinha boa historia e boa direção de atores, aqui ele expande isso para uma narrativa inspirada, com câmera moderna e imagens bonitas (confesso que ainda gosto de cinema que traz bonitas imagens,não deixei de ser esteta). E aqui isso já começa com uma sequencia de abertura meio enigmática mostrando um assalto a carro forte. Logo após isso os envolvidos estando servindo pena na cadeia enquanto a mulher de um deles (na verdade, parece se dividir entre os dois, já que o roteiro foi escrito pela atriz que faz esse papel, que não é nada boba.  Anne Paulicevich, por que ainda por cima se envolverá com uma guarda da prisão com quem ira dançar numa aula de tango).

        Então é um quadrilátero (ao qual se pode acrescentar o filho pré adolescente e naturalmente revoltado) que será sempre embalado pelo tango. Porque um dos assaltantes ( o bom Sergi) vai procurar na cadeia os argentinos com o pedido de aprender a dançar o tango e eles o atenderão no que irá se tornar um tango macho, dançando com virilidade  por prisioneiros(inclusive numa longa mas bela sequencia que funciona de background para os letreiros finais). Engraçado que a dança –uma manifestação libertária- faz toda diferença, do que poderia ser um policial de prisão.  Vale a pena descobrir.

Ref fim.

Memórias de Salinger

Memórias de Salinger (Salinger)EUA, 13. Direção de Shane Salerno. 120 min.

      Sou um daqueles fãs que se tornaram obsessivos quando leram “O Apanhador no Campo de Centeio” e que ficou dando o livro de presente para todo mundo na expectativa de que se identificassem e gostassem tanto do livro de J. D. Salinger quanto eu (preciso confessar que muitas vezes em vão).  Por isso meu interesse especial por este documentário recente, que não conseguiu ficar entre os 5 finalistas do Oscar da categoria, realizado por um escritor jovem (31 anos), um rapaz chamado Salerno que tem estado envolvido em roteiros nada brilhantes de Armageddon, Shaft (2000) e Alien VS. Predador.

       Mas se sai melhor nesta tentativa de tentar realizar um perfil deste que foi o escritor mais recluso de todos os tempos, J.D. Salinger (1919-2010) ,que fugiu de câmeras e entrevistas, que recusou que suas obras fossem vendidas para o cinema  (porque odiou o que fizeram com My Foolish Heart/Meu Maior Amor, 49 com Susan Hayward e desde então estabeleceu uma ordem de bloquear as obras, mesmo as póstumas deverão sair num ordem que ele determinou antes de morrer).

      Salinger é e foi durante anos objeto de culto porque viveu isolado em New Hampshire ao ser venerado pela geração de estudantes logo após a Segunda Guerra Mundial. Judeu por parte de pai, começou a escrever contos muito cedo (e brigou durante anos para tentar editá-los na revista New Yorker), estudou na Universidade de Columbia mas depois foi lutar na Segunda Guerra, participou do Dia D e de onde voltou traumatizado (também com o Holocausto) . O filme não conseguiu uma entrevista dele, no máximo mostra fotos antigas e duas recentes (inclusive uma ultima já com 90 anos) mas entrevista um numero grande de escritores famosos (entre eles, Gore Vidal,A.E.Hotche, Tomas Wolfe, John Guare, Robert Towne, Scott Berg, Doctorow, além de atores  como Martin Sheen e o recém falecido Phillip Seymour Hoffman). Também traz o depoimento de algumas mulheres de sua vida e faz um levantamento biográfico bastante completo (o detalhe mais curioso: foi apaixonado pela encantadora e jovem O´Ona Oniell, filho de Eugene e que  o deixou frustrado quando se casou com Charles Chaplin, bem mais velho que ela), ou seja, saem em busca de Salinger e na verdade não acrescentam muito e nem tentam resolver o enigma. O que acaba sendo bastante frustrante. 

Ref fim.

Jovem e Bela

Jovem e  Bela  (   Jeune & Jolie) França, 13. Direção e roteiro de François Ozon. 95 min.Com Marine Vatch, Géraldine Pailhas, Fredérique Pierrot, Charlotte Rampling, Fantin Ravat, Johan Leysen, Natalie Richard.

       Exibido em Cannes, premiado em San Sebastian e indicado ao César de revelação, este novo filme de Ozon continua a demonstrar que ele é o mais interessante cineasta de sua geração, alternando gêneros (mas procurando ser fiel a sua musa Charlotte Rampling que tem aqui uma participação especial bem eficiente). Sem nunca cair em moralismo mas nem por isso deixando de abordar temas atuais e polêmicos. Como aqui onde apresenta a historia de Isabelle (Martine, que por vezes lembra Julia Roberts com um toque de Brigitte), uma adolescente de 17 anos de pais de classe média confortável, que durante as férias de verão na praia resolve perder a virgindade para um alemão, assim como se livra de um problema.

        Retornando as aulas, mais por curiosidade do que necessidade de dinheiro, usando as facilidades da Internet começa a se prostituir encontrando em geral com homens mais velhos em hotéis. Até o dia em que se envolve ternamente com um deles que tem a sorte ou azar de morrer em seus braços. É assim que a policia descobre e chega a sua família (o pai é distante e com outra família e o padrasto meio desligado). Não havia razão para ela se arriscar a ter a “difícil vida fácil” (ate então só teve um cano de um freguês). Por que então quis passar por isso...

        Hoje em dia filmes não dão mais explicações únicas ou definitivas. Mas ao menos este filme traz um psicólogo e levanta questões, se não respostas. Este já é 35º filme de Ozon (contando os curtas) que já tem outro pronto (Une Nouvelle Amie, com Romain Duris) e aos quarenta e poucos anos (é de 67), se ainda não teve sua obra-prima é sempre confiável. Gostei do filme, que sempre me interessou.

Continua em cartaz no Rio, Florianópolis e São Luiz.

Ref fim.

O Ultimo Amor de Mr. Morgan

O Ultimo Amor de Mr. Morgan (Mr Morgan´s Last Love) Ingl, 13. Direção e roteiro de Sandra Nettelbeck. Com Michael Caine, Clemence Poesy, Jane Alexander, Michel Goddet, Gillian Anderson, Justin Kirk. Baseado no Livro La Doceur Assassine de Françoise Dorner, adaptado por Nettelbeck.

      Embora tenha participado de alguns festivais e estreado em novembro nos EUA, passou em branco sem despertar qualquer emoção ou renda, esta produção européia que foi dirigida e escrita pela interessante alemã Sandra Nettelbeck que fez o sucesso  Simplesmente Martha (depois refeito pelos americanos com Sem reservas). Mas acho que foi uma questão de intensidade, frieza, tem bons, ate grandes atores mas alguma coisa deixa a platéia ausente e desatenta. Embora as estatísticas demonstrem que cada vez há mais espectadores nas salas com mais de cinquenta anos (e cada vez mais adolescentes) este é daquelas que se vê e se esquece. 

     Rodado em Paris, o que sempre é um prazer visual, traz o sempre convincente Michael Caine como um viúvo que por acaso conhece uma professora de dança que o impressiona e lhe traz um pouco de alegria. Na verdade estaria mais para Quarteto ou Marigold do que o Amor,  mas o ritmo poderia ser mais eloquente ate usando a trilha musical de Schubert, adaptada por Hans Zimmer. Talvez o problema seja sua própria origem alemã que não tem pratica ainda em conquistar mercado estrangeiro e realizar filmes em inglês (o anterior Helen, 09,  com Ashley Judd nem passou aqui até onde eu sei ). 

       Na adaptação a diretora mudou o protagonista que era um Francês para um expatriado americano, ex-profedssor de filosofia que se mudou para lá com a falecida esposa (Jane Alexander em pequena ponta), morta já há 3 anos.  Chega a fazer tentativa de suicídio mas se interessa pela moça (a francesa Poesy, de dois Harry Potters, Na Mira do Chefe, 127 horas)  e logo esta dançando o cha cha cha. Mas em vez de desenvolver melhor um romance, o filme opta por outra tentativa o que obriga a presença dos dois filhos do protagonista, Justin Kirk e Gillian Anderson que chegam com suas duvidas e questões,  discutindo o que fazer com a casa de férias da mãe em Saint-Malo. Gillian ao menos tem certa energia (assim como felizmente Poesy) enquanto Caine como já disseram poderia fazer um papel desses dormindo. E as vezes parece que faz isso mesmo. 

      A situação piora ainda mais na segunda parte, ou Segundo ato, quando o filho decide ficar mais tempo em Paris, lavar a roupa suja com o pai e acaba se formando uma espécie de triangulo. Mas ai a maior parte da platéia já esta dormindo faz tempo...

Ref fim.

Philomena

Philomena (Idem) Ingl, 13. Direção de Stephen Frears. Roteiro de Steve Coogan e Jeff Pope. Baseado em livro de Martin Sixsmith, The Lost Child of Philomena Lee. Com Judi Dench, Steve Coogan, Mare Winningham, Sophie Kennedy Clark, Barbara Jefford, Ruth McCabe, Peter Hermann. Paris Filmes.

        Este é o filme da Weinstein deste ano no Oscar e para mim uma das melhores surpresas da temporada. Embora já credenciado pela presença do excelente diretor Stephen Frears (Ligações Perigosas. Alias quando vão finalmente lhe dar um Oscar e reconhecer seu talento?) , o filme dava uma impressão enganosa de ser uma historia romântica, sentimental e piegas. Nada mais longe disso (embora nem por isso deixe de ser comovente ). E por incrível que pareça é mais um dos indicados deste ano que também é inspirado num fato real.(Dos 9 finalistas a melhor filme apenas 3 são fictícios, Gravidade que provavelmente deve ganhar como diretor e efeitos especiais, Ela meu favorito para melhor roteiro original e ainda Nebraska, que é um roteiro original portanto deve ter sido influenciado pelos fatos reais que mostra). 

         Também é uma pena (relativa, claro) que Cate Blanchett esteja tão magnífica em Blue Jasmine porque Judi Dench, aos quase 79 anos, esta num de seus melhores momentos e papeis. Difícil porque ela interpreta uma pessoa doce e não vingativa por natureza, que não duvida de suas convicções religiosas embora tudo pareça levá-la a isso. Ou seja, e uma figura muito complexa na sua simplicidade e grandeza de alma. Não sei quem foi o responsável pela idéia de chamar o humorista Steve Coogan para co-escrever o roteiro e ser co produtor mas o fato é que seu humor sarcástico quebra tudo que o filme poderia ter lacrimoso ou novelesco.Lhe dá um necessário humor e distanciamento. 

          Steve faz um apresentador da televisão britânica bastante famoso mas que esta enfrentando uma fase difícil na profissão porque perdeu seu programa na TV e esta fora do ar, desacreditado. Com muita relutância, aceita a missão de acompanhar uma modesta senhora da classe trabalhadora  que tem um sonho de reencontrar o filho que foi lhe tirado das mãos por freiras. Naquela época as meninas que não tinham família e por acaso engravidavam tinham que se tornarem virtuais prisioneiras, trabalhando para o convento enquanto as crianças eram negociadas para adoção, em geral por gente que veio da America (a atriz Jane Russell foi uma dessas clientes).  Foi o caso do menino dela que foi levado embora e desde então, embora tivesse se casado e tido uma filha, nunca conseguiu esquecê-lo e seu sonho é um dia ao menos encontrá-lo.

          O repórter e a mãe começam então uma peregrinação (ele tem o direito de publicar o resultado e conseguiu o apoio de um jornal) que os irá levar ate os Estados Unidos, mais precisamente Washington onde lhes aguardam varias surpresas. Não posso revelar qual e peça as pessoas que façam o mesmo, porque tudo isso na conclusão é que torna o filme uma forte e dura denuncia contra fatos que raramente o cinema tem coragem de abordar. Com medo de ofender e ser censurado.  Mas é justamente o que diferencia o filme, dando-lhe um impacto fora do comum. Alguns flash-backs foram criados para o filme mas outros são verdadeiros, do próprio filho. Indicado para 4 Oscars (Judi, filme, roteiro e trilha musical), também levou em Veneza o premio de roteiro, e mais 8 prêmios paralelos para Frears!), indicado para 3 Globos de Ouro, 4 Baftas (ainda não entregues) e vários outros. Não deixe de ver. 

Ref fim.