O Mordomo da Casa Branca. Lee Daniels´The Butler. Direção de Lee Daniels. Eua, 13. Com Forest Whitaker, Oprah Winfrey, Vanessa Redgrave, Mariah Carey, John Cusack, Alex Petyfer, Terrence Howard, Cuba Gooding Jr, Lenny Kravitz, Robin Williams, Jane Fonda, James Marsden, Liev Schreiber, Alan Rickman.

A Revista Veja definiu este filme como sendo uma propaganda do governo Obama e não há a menor duvida que é uma maneira cínica e verdadeira de definir este novo trabalho do polemico Lee Daniels (o nome dele esta no titulo porque a Warner criou polemica afirmando que era um nome registrado em 1919 por ela e foi dessa forma que os Weinstein resolveram o caso). Famoso por “Preciosa” (duas indicações ao Oscar, por direção e filme), fez o recentemente exibido, “Obsessão” (outro que tinha suas ousadias) e retorna aqui num filme que tem trilha musical do português Rodrigo Leão, famoso por sua participação no Grupo Madredeus e nos filmes de Wim Wenders. E curiosamente é assinado por 41 produtores (deve ser algum recorde) e 21 maquiadores (que tiveram o difícil trabalho de transformar astros famosos em políticos celebres). E foi um êxito de bilheteria nos EUA (custou 30 milhões de dólares e rendeu por lá 115 e por enquanto no exterior apenas 14, embora seja evidente que terá menos interesse para o resto do mundo).
O roteiro foi escrito não pelo diretor mas por Danny Strong (que não é negro, é ator, já ganhou Emmys pelo telefilme Game Change, escreveu bons filmes como A vida em Preto e Branco, Seabiscuit e agora a série os Jogos Vorazes). Ele se inspirou num artigo de revista de Will Haygood chamado “A Butler well Served by this Election”, publicado no Washington Post em 7 de novembro de 2008, que foi inspirado numa figura real. O personagem de Cecil Gaines, foi baseado em Eugene Allen, que serviu como mordomo na Casa Branca por 3 anos, de Eisenhower a Ronald Reagan, ou seja de 1957 a 86 e morreu em 2010. O script originalmente tinha cena com o presidente Obama e foi rodada com um ator para ser finalmente descartada na edição final (ai sim tudo mundo iria perceber seu “parti pris”). Matthew MacConaughey iria fazer John Kennedy mas não pode e o papel foi parar com James Marsden. Na verdade, todos os presidente aparecem muito pouco e o que deixa pior impressão é John Cusack como Nixon (que esta bêbado). Jane Fonda tem aparição breve como a Sra Reagan, Liev Schreiber faz Lyndon Johnson, Robin Williams é Eisenhower (Melissa Leo fazia a mulher dele Mamie mas foi cortada) .Alguns outros aparecem em cenas de arquivo.
Também alguns famosos surgem rapidamente Mariah Carey como a mãe que ficou louca, Vanessa Redgrave como a velha bondosa, e principalmente Oprah pela primeira vez desde Bem Amada (de 98, onde não faz ela mesma). Fala-se de premio para ela, mas sua interpretação não é muito marcante e o único que parece ter previsão de ser indicado ao Oscar é mesmo o já vencedor por O Ultimo Rei da Escócia Forest Whitaker. Isso num ano onde há varias outras interpretações notáveis de atores negros.
Apesar de muito badalado não espere muito do filme, porque seu roteiro é extremamente convencional, sem nunca aprofundar coisa alguma deixando o protagonista como testemunha muda da historia americana. Que não é assim tão honrosa. A observar sua obscura política racial só me deixou perturbado em perceber quanto tempo demoraram para cair em si e ir terminando com o racismo, ao menos com as absurdas leis segregacionistas. Uma mancha na Historia do país que eles não se apressaram a corrigir. E no final se tratam o protagonista com respeito, não fazem mais nada do que a obrigação. E já tarde. Não é tampouco uma direção inspirada.
A parte mais tocante da historia seria quando o herói é criança ainda numa fazenda de algodão em Macon, Georgia, onde o jovem patrão usa a mãe dele como escrava sexual (o que deixa louca) e não deixa para o rapaz outra solução se não fugir. Os ingênuos produtores acham que seria uma boa lição de vida para o espectador que pensaria que só mesmo na America poderia alguém tão pobre e desafortunado chegar a um emprego tão bom. Que seria algo inspirador. Só que tudo é contado meio rapidamente porque temos que acompanhar Forest por suas futuras aventuras. Vem para o norte, se tornando protegido de mordomo na Carolina do Norte, depois vai ser garçom no chique Hotel Excelsior de Washington e se casa com uma empregada do lugar. Eventualmente é recomendado por um amigo para a Casa Branca, onde sem muita dificuldade passa nos testes e fica nos bastidores do poder, com um lugar privilegiado para observar a Historia em marcha. Gosto mais do filme quando ele fica politicamente mais complicado, com as manifestações dos anos 60, um filho dele se engajando na luta dos Panteras Negras e assim são ao menos discutidos por alto fatos como a Guerra do Vietnã, as tropas que foram mandadas para Little Rock para forçar a integração das escolas,as marchas pelos direitos civis, o apartheid na África do Sul. Nesse sentido será uma boa aula de historia.
Erra em caracterizar muito mal (digo por maquiagens erradas, cenas ruins) os presidentes e só mesmo Forest consegue manter a dignidade e dar um foco ao filme. Sem duvida é manipulador (a melhor cena seria a de Oprah como a mãe que bate na cara do filho lembrando-lhe alguns fatos, ao menos tem força). E não é grande coisa como cinema.
Ref fim.