Não sei se Roger Ebert era o melhor critico americano. Mas era sem duvida o mais popular, o mais querido. E sem fazer concessões .Escrevia bem, tinha bom senso, gostava do que fazia, era inteligente, bem informado... o que mais se pode querer. A pedidos eu volto a publicar um artigo que escrevi sobre sua recente autobiografia, sem mudar nada.
Livros EUA:Life Itself, Roger Ebert, a Memoir.Grand Central Publishing. 438 páginas.
Não sei se vocês já ouviram falar em Roger Ebert. Ele é basicamente o mais importante e famoso critico norte-americano, principalmente porque fez durante muitos anos um programa de televisão sobre estréias de cinema Siskel & Ebert at the Movies (de 86 a 2006, o parceiro era Gene Siskel, já falecido de câncer ). Eu tentei algumas vezes emplacar esse programa, ou uma versão dele por aqui. São dois críticos falando das estréias de cinema ou lançamentos ou livros sempre sobre o assunto. A idéia é que um seja a favor, outro contra e eles discutam (amigavelmente) e ao final dêem uma cotação , a deles era basicamente o thumbs up, ou down (como em Gladiador, aprovando ou condenado o filme). Há pouco José Wilker e eu ate tentamos levar adiante este projeto (porque ao contrário do que as pessoas imaginam somos amigos e eu gosto muito dele) mas ate agora não tivemos sucesso.
Enfim, Ebert se tornou graças a ele uma figura nacional embora sua base seja Chicago (por isso é amigo de Oprah,que também vem de lá), uma cidade bela e gelada, sempre um pouco por fora do ápice do show business que é centrada em LA e NY. Mas ele conseguiu não apenas esse feito como também o de ser respeitado e ganhar mesmo um premio Pulitzer dentre outros. Também publicou livros, tem site e tudo atesta que ele antes de tudo escreve muito bem, tem esse talento. E diante da média baixa dos colegas americanos ele é certamente dos melhores (perde segundo meu ponto de vista para Martin Scorsese, que eu admiro mais) menos superficial e festivo que o Leonard Maltin (daqueles famosos guias).
Conheço Ebert dos Festivais, principalmente Cannes e Veneza, onde ele é celebrado e onde sempre aparece ao lado de sua mulher (é casado com uma advogada afro americana e segundo conta deve muito a ela, que tem sido excelente companheira). Tentei entrevista Roger para a teve mas recusou. A grande tragédia de sua vida é que há alguns ele teve há muitos anos atrás câncer nas glândulas salivares. Da primeira vez deu certo mas o câncer voltou a aparecer e foram forçados a fazer outra operação, onde ele perdeu as cordas vocais e depois o próprio queixo. Vocês imaginam a tragédia : um critico que não pode falar! E nem engolir, nem comer nada que não seja liquido, até porque perdeu o sentido do gosto, sabor. Uma tristeza que foi se agravando porque as operações (acho que três) para solucionar o problema falharam. E ele teve que colocar uma espécie de prótese que o deixou deformado e esquisito (ele mesmo admite isso).
Felizmente ainda continua em ação já que tem o dom de escrever bem (coisa menos comum do que se pensa!). E sempre de forma inteligente o que se comprova neste seu livro de memórias.
Onde eu tive a surpresa de descobrir que ele nunca foi apaixonado por cinema mas só foi se aprofundar quando meio acidentalmente ganhou esse emprego (outra coisa muito comum, critico por acidente de redação!) e dali em diante é que foi pesquisar e ajudado pelo fato de ter acesso mais fácil as pessoas famosas (afinal mora nos EUA e não em um pais qualquer emergente) se tornou muito amigo de alguns importantes, sendo o primeiro a apoiar Martin Scorsese (se encantou com o primeiro filme dele), Werner Herzog (alias nos livros temos as entrevistas com estes e mais encontros memoráveis com Lee Marvin, John Wayne,seu ídolo Robert Mitchum, Ingmar Bergman,Woody Allen mas não Ingrid Bergman a quem ele considera sua atriz preferida). Nascido em 18 de junho de 1942 em Urbana, Illinois, filho único, teve um infância normal, fez faculdade no Colorado e teve um inicio sexual tardio (ele conta tudo isso mas não envolve tanto famosos quanto Piper Laurie).Teve problemas graves com o alcoolismo (que conseguiu vencer) e não tem filhos (mas um casal de enteados). Chegou a ir estudar na África do Sul em Capetown e escreveu para o cinema o roteiro de De Volta ao Vale das Bonecas de Russ Meyer, uma espécie de sátira ao filme anterior, nem sempre compreendido. Aí me identifico também porque ambos temos um pezinho na porno chanchada!
Sempre com excesso de peso (olha outra coisa semelhante a mim!) neste livro Roger se conta e se explica sem qualquer auto piedade. A verdade é que é muito bom ler um bonito texto, fluente, culto, inteligente, sem excesso de sentimentalismo e com aparente sinceridade (embora raramente ou nunca fale mal de alguém). Mais sobre um ser humano do que um cinéfilo.
Ref fim.