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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Caçada da Noite (The Long Good Friday)



Um clássico policial inglês sai num Box da Versatil, Cinema Policial II. Procurem conhecer o filme abaixo. Cotação: quatro. 

Caçada da Noite (The Long Good Friday)
Inglaterra, 80. 114 minutos. Lançamento da Versátil em Box Cinema Policial II. Com Bob Hoskins, Helen Mirren, Paul Freeman, Pierce Brosnan, P.H, Moriarty, Derek Thompson, Bryan Marshall, Dave King, Eddie Constantine, Dexter Fletcher, George Coulouris.

Drama britânico, clássico policial de enorme sucesso de critica e público, mas que nunca foi lançado no Brasil (saiu bem atrasado apenas em VHS, sem repercussão). Mas é um filme importante ainda mais no gênero policial inglês, do qual é dos mais cultuados. Foi também a consagração do ator Bob Hoskins (1942-2014) que dali em diante teria uma carreira bem sucedida inclusive nos Estados Unidos (estrelou filmes como Uma Cilada para Roger Rabbit, Mona Lisa, Super Mario Bros, o último Branca de Neve e o Caçador, 118 créditos e uma indicação ao Oscar por Mona Lisa, que também lhe deu o Globo de Ouro (e mais duas indicações), e o Bafta (também 3 indicações inclusive por este filme). Foi ainda por Mona Lisa o vencedor do prêmio de melhor ator no Festival de Cannes. Ganhou Emmy da TV por The Street, 06. O beatle George Harrison chegou a comprar os direitos do filme para distribuir mas depois se arrependeu achando-o violento demais! 

Bob custou a fazer carreira e só por acaso que entrou para o teatro, já amadurecido. Mas era um mestre de passar do drama para a tragédia (o roteirista deste filme Barne Keefe, que é entrevistado, diz que se inspiraram em Bogart!). Aqui vai da comédia e doçura até a mais alta violência (considerando que na época o filme era ousado no gênero e a censura londrina era muito forte). Outro ponto importante é a presença da hoje super star Helen Mirren, que faz o interesse romântico e esta quase irreconhecível. Também interessante é a estréia no cinema do figurante e bonitão o irlandês Pierce Brosnan, que tem rápida aparição gay numa sauna! A historia é basicamente sobre Harold Shand, um gangster inglês que já está rico e prestes a assinar um contrato importante. Mas começa a ser vitima de ataques de bombas culpa de um sindicato do crime que esta atrás dele. Curiosamente tentaram dublar a voz de Bob para o mercado americano (achando que ninguém o entenderia). Ainda assim criaram para o filme um letreiro que traduzia as expressões mais difíceis! Isso teria influenciado Tarantino que fez algo parecido com Pulp Fiction. A cena final com a trilha musical de Francis Monkman ficou tão alta porque o diretor estava na hora dando instruções como o ator deveria representar. O ator americano Anthony Franciosa iria fazer o papel de um gangster, mas largou o filme depois de três dias alegando que não gostava das mudanças no roteiro. Houve planos para uma continuação que não deu certo. Foi votado em vigésimo primeiro lugar entre os melhores filmes britânicos de todos os tempos!

John Mackenzie (1932- 2011)  - O DIRETOR
Diretor inglês de origem escocesa, vindo da TV. Depois dos estudos, passou a trabalhar no teatro Gateway, em Edinburgh. Estabeleceu-se em Londres, onde iniciou carreira na BBC-TV, colaborando em produções de Ken Loach (de Vida em Família) e estreou na direção na TV em 1967, com Voices in the Park. Realizou sua primeira obra para o cinema em 1969, mas foi apenas em 1980, com The Long Good Friday, que conseguiu boa repercussão (mas não no Brasil, onde foi lançado e ignorado em Home Video). Foi considerado uma provocação ao governo inglês (e teve problemas com a censura), ao tratar tratava de um assunto tabu: o IRA (organização terrorista irlandesa separatista), numa espécie de suspense político envolvendo a Máfia. Sua versão de O Cônsul Honorário (baseado em romance de Graham Greene) desapontou. Prosseguiu uma honrosa carreira, principalmente em filmes feitos para a televisão. Sua morte em 8 de junho de 2011 em Londres passou desapercebida no Brasil. Também dirigiu episódios de séries The Jazz Age, The Wednesday Play, Centre Play, Play for Today e a ultima The Wright Stuff (09). 

Filmografia
Diretor: 1969 – One Brief Summer (Clifford Evans, Felicity Gibson). 1971 – Escola de Sádicos (Unman, Wittering and Zigo. David Hemmings, Carolyn Seymor). 1975 – Made (Carol White, John Castle). 1979- A Sense of Freedom ( David Hayman, Jack D´Arcy). 1980 – Caçada na Noite (The Long Good Friday. Bob Hoskins, Helen Mirren). 1981 – A Sense of Freedom (TV. David Hayman, Alex Norton). 1983 – O Cônsul Honorário (Beyond the Limit ou The Honorary Consul. Richard Gere, Michael Caine). 1985 – The Innocent (Tom Bell, Kika Markaham). Sindicato da Violência (Act of Vengeance. Charles Bronson, Ellen Burstyn. TV). 1987 – O Quarto Protocolo (The Fourth Protocol. Michael Caine, Pierce Brosnam). 1990 – Vingança Infernal (Blue Heat ou Last of the Finest. Brian Dennehy, Bill Paxton. TV). 1992 – Caso Kennedy – Uma Conspiração (Ruby. Danny Aiello, Sherilyn Fenn). 1993 – Uma Viagem ao Inferno (Voyage. Rutger Hauer, Eric Roberts). 1995- – Infiltrator – Em Busca da Verdade (The Infiltrator. Oliver Platt, Peter Riegert. TV). 1996 – Viagem da Morte (Deadly Voyage. Omar Epps, Joss Ackland. TV). 1998 – Perfil de um Espião (Aldrich Ames: Traitor within. Timothy Hutton, Joan Plowright. TV). Looking After Jo Jo (Robert Carlyle, Patricia Brake. TV). 2000 – Alto Risco (When the Sky Falls. Joan Allen, Patrick Bergin. TV). 2001 – Armadilha Internacional (Quicksand .Michael Caine, Michael Keaton).

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Revisitando Touro Indomável



Filme será exibido nos dias 25,26 e 29 no Cinemark

Touro Indomável (Raging Bull)
EUA, 1980. 128 min. Produzido por United Artists/Chartoff-Winkler. Direção de Martin Scorsese. Roteiro de Paul Schrader e Mardik Martin (e também Peter Savage, Robert Martin) baseado na autobiografia de La Motta. Fotografia de Michael Chapman. Elenco: Robert De Niro, Cathy Moriarty, Joe Pesci, Frank Vincent, Nicholas Colasanto, Theresa Saldana, John Turturro. Preto e branco.

Sinopse: A vida de Jake La Motta, campeão mundial de peso-médio: sua ascensão, apogeu e queda. Ele Teve 83 vitorias, 19 derrotas e 9 empates. Ficou famoso por vencedor Sugar Ray Robinson.

Comentários: Esta foi a primeira vez que assisti integralmente este filme desde sua estreia (disponível em Blu-Ray). Embora o tenha colocado no meu livro sobre os Cem Melhores do Século XX, tenho que confessar que mantinha uma certa antipatia contra De Niro (infelizmente hoje confirmada pela repetição de caretas e personagens, em filmes que não o merecem) e por tabela o filme. Para se ver que mesmo estando atentos, a gente às vezes cria preconceitos ou mesmo conceitos errados e injustos. Na vida e com o cinema. Rever o filme foi para uma epifania, como dizem os católicos, uma revelação, um momento de redescoberta e alegria. Sem dúvida, este é o melhor filme sobre boxe já feito pelo cinema (e por tabela, também filme de esporte) e provavelmente o melhor trabalho de Martin Scorsese que nunca fez algo tão marcante e memorável. 

O impacto já começa nos letreiros iniciais (repare como está grafado o titulo original, ou seja, a maneira certa seria por tudo junto como esta ali, “RagingBull”, tudo junto (naturalmente este é o apelido do biografado La Motta. Aliás, há noticias de que se produz para 2014 nova cinebiografia dele The Bronx Bull, de Martin Guigui, com William Forsythe. Em Portugal, o filme se chama O Touro Enraivecido, feio mas mais correto!). Mas a imagem de De Niro lutando, ou melhor se exercitando no ringue sozinho, num clima sombrio e enevoado, é antológica . Não há trilha musical original.  Mas o uso frequente e brilhante do mesmo tema musical tirados da obra do compositor italiano Pietro Mascagni (1863-1945), que são os trechos da Ópera Cavalaria Rusticana: Intermezzo, e também durante o filme Silvano: Barcarolle, Guglielmo Ratcliff: Intermezzo, e cerca de 33 canções antigas em gravações originais (entre elas a musica brasileira Não Tenho Lágrimas, de 1933, interpretado por Patrício Teixeira). Essas canções populares são usadas de forma incidental, são executadas no rádio ou em night-clubs mas é musica operística de Mascagni que dá pompa e clima ao filme (Scorsese a escolheu por ser muito “triste” e para aumentar o efeito fez um ringue maior do que o tamanho normal). 

Indicado para Oito Oscar® (coadjuvantes Pesci e Moriarty, fotografia, direção, filme e som) ganhou apenas  de melhor ator (o segundo para De Niro, o primeiro como protagonista) e montagem (que é da celebre Thelma Schoonmaker que  acompanha Scorsese até hoje por toda sua carreira incluindo o recente “Hugo”. Mas este foi o primeiro trabalho deles juntos, desde a estreia de Martin, no independente e experimental Who's That Knocking on My Door? quando eles eram ainda colegas de escola de cinema . O problema é que na época o Sindicato dos Montadores negou o ingresso dela, porque não havia mulheres entre eles). Mas Touro Indomável acabou sendo votado o melhor filme da década pelos críticos americanos e atualmente está em quarto lugar na lista do American Film Institute dentre “Os Melhores filmes americanos de todos os tempos” e em primeiro dentre os filmes de esporte. É considerado também a maior injustiça da História do prêmio Oscar® (que naquele ano privilegiou Gente como a Gente/ Ordinary People, estreia na direção de Robert Redford. Um bom filme mas inferior a este). Há outra razão porque o filme não levou mais Oscar®: na época, a produtora United Artists estava em estado de pré-falência por causa dos problemas com O Portal do Paraíso/ Heaven´s Gate de Michael Cimino  e não tinha dinheiro para fazer campanha promocional (esse filme realmente provocaria o fim do regime da United, que nunca mais teria o brilho de antes). 

Scorsese parou as filmagens durante quatro meses para que De Niro pudesse engordar de 160 para 215 libras, quase trinta quilos, um fato inédito no cinema, só semelhante ao de Tom Hanks em Náufrago em 2000, sendo que neste caso o filme ficou parado um ano e o ator teve que perder e não ganhar peso. Cathy Moriarty, indicada ao Oscar® como coadjuvante, estreou neste filme e era uma modelo de 19 anos descoberta por Joe Pesci (que anos mais tarde ganharia Oscar® de coadjuvante noutra fita com De Niro e Scorsese, Os Bons Companheiros). Ele na época não tinha qualquer sucesso e dirigia um  restaurante no Bronx. Depois de virar astro por uns tempos, teve que se afastar do trabalho por problemas graves de saúde (ainda assim aparece nos extras do Blu-ray dando depoimento). Cathy tem um jeito meio amador que é cativante e hoje resiste bem a uma revisão (ela fez outros filmes mas nunca chegou a emplacar). Reparem também como ela esta vestida como se ela fosse uma fã e imitadora de Lana Turner. O pai do diretor Charles Scorsese (1913- 93) faz pontinha como homem que está com Tommy Como, na mesa dos mafiosos e depois apareceria também em outros filmes do filho. Martin também aparece muito rapidamente como o empregado do Barbizon que pede para La Motta entrar em cena. O hoje famoso John Turturro estreia no cinema em ponta, como homem na mesa no Webster Hal. 

Robert De Niro e Joe Pesci, a pedido de Scorsese, passaram muito tempo juntos e acabaram se tornando até hoje grandes amigos. Mas na cena em que eles brigam tudo é para valer e num momento de treino De Niro acidentalmente quebrou uma costela de Pesci (a cena esta no filme e Pesci grunhe e câmera corta para outro ângulo). Embora durem pouco no filme, cerca de 10 minutos, elas eram tão coreografadas que levaram 6 semanas para serem filmadas. O diretor não queria o uso de câmeras múltiplas preferindo seguir a coreografia pré determinada em story board. Ela seria uma espécie de terceiro lutador no ringue. Ao final, quando Jake (De Niro) ensaia trechos para seu show, Scorsese queria usar trechos de Ricardo III de Shakespeare mas seu amigo o veterano diretor Michael Powell insistiu para ele aproveitar diálogos do filme Sindicato de Ladrões, com Marlon Brando, de que o verdadeiro La Motta gostava muito e tinha tudo a ver com o tema da história. Mas pediu a interpretação mais sem expressão possível para não pensarem que este estava se referindo ao próprio irmão (curiosamente a autobiografia de La Motta nunca menciona o irmão). Outro detalhe curioso: o palavrão "fuck" é usado 114 vezes no filme. O personagem chamado no filme de Tommy Como (feito por Nicholas Colasonto), é baseado no gangster real Frankie Carbo, que controlava todo boxe em Nova York nos anos 1940 e 50. Eventualmente foi mandado para prisão por chantagem  e extorsão por Robert Kennedy. Há também uma proposta clara no filme, ele não quer ser confundido ou comparado com outro sobre boxe da época, Rocky, o Lutador de Stallone. A montagem já começou ainda durante a rodagem do filme no apartamento do diretor a noite. Um trabalho lento porque Scorsese achava que aquele seria seu ultimo filme e  o queria perfeito. A cena da ultima luta na teve são imagens autenticas.

Avaliando o Filme: Sempre desconfio da avaliação contemporânea de uma obra de arte, quando ela é muito especial, inovadora, em geral é mal compreendida. Há casos frequentes em que a crítica não soube fazer justiça, sendo que aqui, De Niro ganhou o Oscar® mais por ter mudado fisicamente de forma tão óbvia. Enquanto revendo agora sua interpretação não é apenas o auge de sua carreira, sua composição mais perfeita, como realmente ele se transforma inteiramente, “encarnando” um personagem distante de sua personalidade na vida real.  E ainda por cima fazendo uma figura antipática, violenta, grosseira, com quem a gente é impossível de se identificar ou as vezes ate mesmo gostar. E, no entanto, ele mergulha no papel, sem medo de se expor, sem cair nos extremos, nem o critica (era fácil cair na caricatura), nem o defende ou justifica (apenas procura torná-lo humano, sem esconder suas fraquezas ou limitações, o que é muito bem explicitado nas cenas em que prepara as piadas, que abre a narrativa e depois conclui o filme). De Niro aparece na parte final completamente deformado dando vida a esse protagonista tão desagradável e chauvinista chamado Jake La Motta, campeão de peso-médios nos anos 40 e 50. Ele é péssimo marido, mau caráter, atraiçoa o irmão e aliena todas as pessoas próximas. No ringue, luta como um touro enfurecido, sua decadência é tão drástica quanto merecida. O filme já começa com ele como apresentador de um “night-club” em 1964, para depois retratar sua ascensão e decadência, mas nunca chega a ser uma biografia convencional. 

O roteiro de Paul Schrader (Taxi Driver) e Mardik Martin (iraniano, homem de confiança de Scorsese que trabalhou em vários filmes como New York, New York, Caminhos Perigosos) fez a primeira versão do roteiro contando tudo de maneira mais convencional. Mas teve que largar por exaustão de forma que Scorsese e De Niro passaram 5 semanas trabalhando no roteiro final como eles desejavam, sem crédito. Parece a primeira vista ter o hábito de se fixar apenas em episódios violentos e gritados, lembrando muito os filmes italianos do Neo-Realismo. Deixa no ar inclusive as motivações e justificativas do personagem, tanto de Jake quanto de seus comparsas. Mas é a maior ousadia do filme, justamente isso. As cenas são longas e esticadas, parecem improvisadas, como se fosse na vida real, com muita verdade (e uma delas o primeiro encontra de Jake com Vicky, foi inteiramente improvisada). O que confere um tom naturalista, especial ao filme, fugindo dos clichês dos filmes de boxe (ainda que existam vários e muitos sobre o tema, em geral eles se fixam na corrupção e bastidores do esporte mais do que na personalidade dos lutadores. Como Trágica Farsa, inspirado na vida do lutador Primo Carnera e Marcado pela Sarjeta, sobre Rocky Graziano), mas este é certamente o mais bem filmado deles todos. Contam que quando Paul Schrader trabalhou no script, ele acrescentou momentos chocantes de propósito (como cena de masturbação e colocar o pênis num saco de gelo). Scorsese reduziu isso (agora De Niro coloca gelo dentro de sua  cueca). 

Outra ideia interessante é os filmes caseiros propositalmente riscados. É a única parte da fita que é em cores, alias a escolha do preto e branco é extremamente acertada. Parece que Scorsese fez como Hitchcock em Psicose, recusou o colorido que faria o sangue jorrando tudo se tornar um filme de terror barato e “gory”. Alias o sangue aqui é feito de chocolate para dar maior efeito! Scorsese também teria se inspirado na cena do chuveiro daquele filme para decupar a luta final com Robinson. As sequências de lutas de boxe nunca são menos do que empolgantes. O PB tem um efeito extraordinário numa montagem rápida, envolvente. Tudo espetacularmente fotografado, em especial na luta final com Sugar Ray Robinson. O excelente Michael Chapman filmou tudo com muita luz, vazando inclusive na lente, muito brilhante, pegando detalhes do suor ou sangue voando na plateia, as vezes em câmera lenta. Assim como é excepcional o uso do som (os técnicos estouraram melões e tomates e o pipocar das câmeras dos fotógrafos eram o barulho de revolveres disparando. Quando terminaram a mixagem, eles jogaram fora o material com medo de que outros pudessem reutilizá-lo). Só essas cenas já justificariam o filme mas há uma explicação ao final do diretor católico, citando São João: La Motta estava cego para o que se passava à sua volta. Por isso, perde família, amigos, tudo. 

Diz Scorsese: “Dediquei este filme a um velho professor armênio, Haig Manoogian, que tinha morrido recentemente, porque foi ele também que me abriu os olhos”. A citação é a seguinte: “Os que não veem, isto é, os humildes de coração, vejam iluminados pela minha doutrina, mas os sábios, os orgulhosos, os fariseus se tornem cegos espiritualmente....” A razão de tudo isso é que o filme seria um renascimento cinematográfico dele. Por isso a dedicatória foi “com amor e resolução”. Manoogian havia ajudado Scorsese a conseguir produção para o seu primeiro filme. Talvez se possa fazer uma leitura do personagem de La Motta nas suas repressões católicas da sexualidade, que acabam se desenvolvendo numa forma de sadomasoquismo e autodestruição. Mesmo assim, isso fica mais na cabeça dos realizadores do que na tela. O filme basicamente é um retrato de um sujeito repulsivo que o público não consegue gostar. Contam que quando viu o resultado pela primeira vez numa tela, o verdadeiro La Motta ficou surpreso que o personagem fosse tão negativo, percebeu pela primeira vez que pessoa horrível ele tinha sido. Perguntou a ex esposa Vicki: “Eu era realmente assim?”. E Vicki lhe respondeu: ”Você era pior".

Não acho que o filme julga ou condena o protagonista. Ao contrário, o observa com distância crítica. E nisso ajuda muito a interpretação antológica de De Niro e as magníficas cenas de luta, até hoje ainda não suplantadas. Há realmente uma história bonita de redenção provocada pelo filme. Em 1978, Scorsese não queria fazer o filme e o recusou várias vezes preferindo documentários (e afirmando que não gostava de filmes sobre esportes). Mas na verdade estava tentando se libertar de um terrível vício de cocaína. De Niro foi procurá-lo num hospital onde se tratava, e finalmente o convenceu a aceitar. De certa maneira o filme salvou não apenas a carreira dele, mas também sua própria vida.