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terça-feira, 7 de novembro de 2017

A Melhor Montagem Musical no Brasil: Cantando na Chuva!


Sempre tive uma relação tardia com o filme Cantando na Chuva porque ele custou a ser descoberto em sua estreia no Brasil, na verdade foi desprezado (não consegui descobrir por que), o descartaram como se fosse um musical qualquer e não o clássico de hoje em dia (Isso era muito comum no Rio de Janeiro e São Paulo porque a Metro tinha dois circuitos, a o A e o B, no primeiro passava os grandes êxitos num cinema muito luxuoso e no B, os filmes B menores nos bairros. Deve ter sido isso que sucedeu por aqui (em Portugal ele foi chamado de “Serenata à Chuva!”) e também pode se explicar essa falha porque naquele momento Gene Kelly estava numa fase ruim de sua carreira (seus filmes da época foram exageradamente em cima de balés e fracassaram. E a canção dele na chuva, só foi ganhar teor de clássico quando fizeram o documentário Era uma vez em Hollywood/ That´s Entertainment, 1974 (não se esqueçam que as canções dos filmes eram quase todas composições da produtora do projeto e já haviam sido utilizadas em outros filmes!).

Gene veio inclusive a São Paulo e Rio para promover o documentário, saindo-se bem já que nunca brilhou pela simpatia. Agora em retrospecto que percebo que antipático fui eu, que estava na coletiva. Enquanto todo mundo o celebrava com elogios, me lembro que fiz apenas duas perguntas e justamente sobre os dois fracassos dele: porque e como fez Hello, Dolly (ele enrolou e não assumiu que tinha errado com La Streisand, o elenco de coadjuvantes, o excesso de canções etc e tal. Mas fez uma cara de triste como se já tivesse consciência disso). Depois, perguntei sobre Duas Garotas Românticas (Les Demoiselles de Rochefort ,1967), o filme francês de Jacques Demy que eu gostava muito. Sua resposta foi coerente: que era um filme bonito, que gostou de fazer, mas o problema é que as duas moças, irmãs, não tinham preparação para o balé e dança, e Catherine Deneuve e sua irmã Françoise Dorleac (Ele estava certo!). Depois não tirei foto com ele (tinha dessas coisas e acho que agora em retrospecto não vibrei com Kelly como faria alguém de bom senso porque eu era admirador do rival dele, ao menos na minha cabeça, que era o Fred Astaire. Esse sim, a perfeição. Kelly era mais uma atleta. Para vocês verem que quando a gente é muito jovem ao menos pensa muita bobagem.

De qualquer forma, Cantando na Chuva foi votado pelo American film Institute como o melhor musical de Hollywood. Donald O´Connor ganhou o Globo de Ouro (o filme também foi indicado). Os diretores Stanley Donen e Gene Kelly foram indicados ao Sindicato dos Diretores. E os roteiristas Betty Comden e Adolph Green ganharam no Sindicato dos Roteiristas. Foi indicado ainda ao Oscar de trilha musical (para o pouco famoso Lenny Hayton, uma espécie de arranjador) e atriz coadjuvante, uma contratada da Metro, Jean Hagen (1923-77), numa das composições humorísticas melhores de toda a história do cinema. Por aquelas injustiças custaram a reconhecer isso, embora ela tenha feito alguns filmes bons (O Segredo das Jóias de John Huston, A Costela de Adão com Tracy e Hepburn, Meu Amor Brasileiro com Lana Turner, passado aqui, mas filmado em estúdio). Nada que explique sua incrível criação nesse musical! Um Fenômeno! Fazendo o papel de Lina Lamont, a parceira de Kelly nos filmes mudos de aventura romântica, mas que tinha uma voz horrível e impossivelmente desafinada. Uma das grandes sacadas da montagem nacional foi justamente Claudia Raia ter preferido fazer o papel justamente de Lina e não o da heroína Kathy Selden que seria Debbie Reynolds no filme. Encantadora sem dúvida, mas Claudia fica com as melhores situações e piadas.

De qualquer forma, só fui assistir finalmente o filme, em meados dos anos 70, quando viajei para o Rio especialmente para ver a cópia que o Cinema Um conseguiu (era um circuito de filmes de arte ou reprises que teve enorme sucesso, e até uma cópia em Santos). Levei junto minha namorada, a Leilah Assumpção, que na época tinha antipatia por Debbie num momento muito especial. Como com frequência sucedia, eu era do contra, gostei do filme, mas não o achei tão genial. Revendo outras vezes, inclusive em Atlanta, dias depois da morte de Debbie, numa excelente projeção, consegui pôr as coisas no lugar certo. É genial e inesquecível.

Mas é curioso também e ser justo que houve várias tentativas de se fazer um Cantando na Chuva no palco, em especial em Londres e Nova York, e sempre malsucedidos. Por isso, que fiquei tão emocionado com a ousadia do casal de amigos, Claudia Raia e Jarbas Homem de Mello. É impossível não amar a Claudia, com todo seu talento e generosidade (imagine que a conheci num taxi indo para o Rio, logo no começo em que ela estreava no musical A Chorus Line!). Com o Jarbas, já velho conhecido da classe teatral, tivemos o maior sucesso no palco quando o dirigi na montagem do texto do Fallabella, “Querido Mundo” que ficou cerca de 4 anos em cartaz. Como diz meu amigo Claudio Erlichman, Jarbas é sem dúvida o melhor astro do gênero musical no Brasil. Assino em baixo.

Mas já vi muita gente boa tentar e fracassar. Mas não é o caso desta encenação no Teatro Santander, primorosa em todos os detalhes sob a visão do diretor americano Fred Hanson. Na verdade, é uma versão extremamente fiel a todos os detalhes a ponto de encerrar como no filme com um número especial, Gotta Dance (e é quando Claudia tem seu momento Cyd Charisse!). E embora o que os mais jovens acham divertido é quando chove realmente nas fileiras iniciais, que ganham capas e guarda chuvas. Ou seja, a farra que elas querem.

Mas é extremamente difícil lidar com uma lenda como é este musical cinematográfica (pense bem, que são duas visões e criações diferentes, na tela e no palco, cada um com recursos diferentes). O incrível é que conseguiram transpor toda a magia para a cena (logicamente o show ficou maior no palco, o filme é bem mais curto e isso não incomoda, ao contrário, deixa o espectador mais feliz). Foi isso também o que eu senti quando tentei ir aos bastidores, mas fui abordado por uma grande quantidade de público que adoraram a montagem e queriam compartilhar a sensação comigo.

Nem precisavam. Aquele rapaz impertinente dos tempos de Kelly continua rigoroso hoje e não facilita nem os amigos. Mas que fica feliz quando eles lutam, batalham e acertam. É uma enorme alegria ver um espetáculo do coração como este feito com tanta alegria e prazer. Parabéns Claudia e Jarbas.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

No Teatro: Forever Young



Em cartaz no Teatro Fecomércio - Sala Raul Cortez - São Paulo. 

Show musical com Claudia Ohana, Jarbas Homem de Mello, Paula Capovilla, Marcos Tumura, Fafy Siqueira, Carmo Della Vechia, Maestro Miguel Briamonte. Direção de Jarbas Homem de Mello.

Não tenho o costume de escrever sobre musicais, embora confesse minha simpatia, ou se preferir paixão pelo gênero! Simplesmente acho injusto fazer restrições mesmo que pequenas a projetos tão ousados e caros mas quase sempre irregulares. Depois sou também discreto membro do prêmio Bibi Ferreira. 

Mas vou fazer uma exceção, simplesmente pela mais justa das causas, quero compartilhar a alegria que me deu ver e rever (numa segunda visão) o espetáculo Forever Young que felizmente faz enorme sucesso no Teatro Fecomércio com o público delirando e aplaudindo uma montagem extremamente alinhavada e um elenco excepcional.

Quero confessar que o espetáculo, ao contrario de muitos musicais que assisto, provocou em mim um enorme prazer. E olha que não sou exatamente um roqueiro. Mas para minha surpresa descobri que conhecia – e até cantarolava junto - quase todas as canções, cada uma delas provocando uma lembrança, uma saudade e muitas risadas. Originalmente britânico (e não se nega sua origem, só por lá existiria um retiro de artistas tão liberal e compreensivo) é sobre um grupo de artistas que tem por volta de 90 anos. Nas a montagem não pretende levar nada tão a sério, é uma farsa bem humorada, mas sempre dando uma visão simpática e afetuosa de todo o grupo (duas mulheres, três homens, um maestro e uma enfermeira). No encontro deles numa sala de recreação eles relembram os bons tempos, brigam entre si mas cantam com gosto velhos sucessos. Não teria dado certo, não fosse a feliz escolha do elenco que reúne alguns dos melhores atores do gênero musical no Brasil, em particular Jarbas Homem de Mello, como sempre excelente ator e cantor, mas se confirmando cada vez mais como também um ótimo diretor, prestando atenção a cada detalhe. E procurando deixar cada um do grupo ter seu momento de brilho.

Não é fácil tirar risos e aplausos de um grupo de velhos, sem ofender ninguém, ao contrário, assumindo a farsa e conquistando a plateia. Mas estaria mentindo se não admitisse a satisfação que tive ao ver o resgate de uma Claudia Ohana, que acompanho desde seu começo no cinema e que faz tudo com uma graça enorme (e o melhor: a voz estava super afinada e encantadora). E que o dizer de Paula Capovilla, monstro sagrado na melhor da definição. Assumindo um personagem ingrato que faz com notável perfeição. Conhecia menos Carmo della Vechia que tem o personagem mais ingrato, mas que nunca perde a luta e a presença. O maestro Briamonte tem momentos de perfeito ator e a minha querida Fafy Siqueira, conseguiu o equilíbrio perfeito de brincar com a enfermeira que podia ser a vilã, já com ternura quando todo mundo esperava uma megera. Outro prazer reencontrá-la.
Deixei para o fim o Marcos Tumura, que tem um personagem que fala pouco, que poderia ser ingrato, mas o homem é uma fera de talento e dá um show a parte quando faz seus “pot-pourri” misturando canções famosas e antológicas. 

Mas se é bom ter a chance de elogiar essa gente tão talentosa (e também a equipe) não custa acentuar um detalhe: um show que podia facilmente resvalar numa palhaçada é resgatado por um grupo de genuínos profissionais. Uma lição de como se montar um sucesso!