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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Mostra Internacional do São Paulo 1013 - Filme: Tom na Fazenda

 Critica de Francisco Cannalonga.
Tom na Fazenda / Tom à la Ferme, 2013, Canadá. Dirigido por Xavier Dolan. Com Xavier Dolan, Pierre-Yves Cardinal, Lise Roy, Evelyne Brochu.

     É realmente impressionante: Xavier Dolan (Eu matei a minha mãe, Amores Imaginário, Laurence Anyways) tem apenas 24 anos e Tom na Fazenda é seu quarto filme, Também é impressionante a maturidade e confiança em suas habilidades que o diretor canadense vem demonstrando filme após filme. Se alguns maneirismos e artifícios estéticos do diretor incomodavam em seus primeiros esforços, aqui são contidos e sufocados em prol de uma narrativa mais plana. O que é necessário já este é o primeiro filme de “gênero” do diretor. Segue uma clara formatação do ‘gênero de suspense/thriller “- Informações importantes sobre os personagens são fornecidas apenas no terceiro ato quando já caminha para seu clímax, a trilha sonora angustiante a pontua os momentos de tensão e há sempre a sensação de que algo importante pode acontecer a qualquer momento depois do primeiro ato.

      Tom (Xavier Dolan) dirige até uma fazenda no interior do Canadá para o funeral de seu namorado Guillaume e, para sua surpresa, nenhum membro da família de Guillaume sequer sabia da existência de Tom. Para piorar a situação o irmão mais velho Francis (Pierre-Yves Cardinal) começa uma serie de jogos físicos e mentais que torturam Tom e degradam sua mente, jogos esse que consistem em omitir o passado de Tom e Guillaume e criar uma realidade alternativa, para agradar a mãe, Agathe (Lise Roy). Francis é fundamentalmente uma alegoria para o machismo e homofobia bucólica, mas Dolan é sensível o suficiente para construir mais camadas para esse personagem, é possível vislumbrar indícios de sexualidade reprimida e uns instinto paternal doentio. Ao longo dos jogos violentos de Francis, Tom aparentemente desenvolve uma variação da “síndrome de Estocolmo”.

      O grande texto do filme é a observação sobre a realidade, o que é real e ou o que faz sentir real? Francis é homofóbico e bruto, mas há momentos em que ele aparenta sentir desejos homoeróticos por Tom, mas que logo são reprimidos, ou seja, ele vive uma mentira. Assim como ele obriga Tom a mentir sobre seu passado para agradar Agathe, que, por sua vez, vive na mentira de que seu filho era um jovem perfeito.

     Apesar desse filme não ter a mesma potência dramática do anterior “Laurence Anyways” é mais maduro e consistente em seu desenvolvimento. Também é corajoso em algumas das escolhas estéticas, como a mudança de janela (para uma menor) nas sequências de tensão. Vem sendo um processo interessante acompanhar o desenvolvimento desse jovem diretor, que, aparentemente, só tem a melhorar.

Ref fim

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Mostra Internacional do São Paulo 1013 - Fime: Cães Errantes

 Critica de Francisco Cannalonga.
Cães Errantes.  Jiao You, 2013, Taiwan. Dirigido por Tsai Ming Liang. Com Shiang-Chyi Chen, Kang-sheng Lee, Yi Cheng Lee, Yi Chieh Lee.

      O novo cinema taiwanês, movimento que se originou em meados da década de 80-90, é caracterizado por seus diretores transgressores, que procuravam subverter todas as possíveis convenções estéticas e dramatúrgicas do cinema americano. Diretores como o já falecido Edward Yang (Yi Yi, Os Terroristas), Hou Hsiao-Hsien (Cidade das Tristezas, The Puppetmaster) foram longe  nessa intenção.  Mas  nenhum transgrediu tanto quanto Tsai Ming Liang, o caçula do grupo, que se afirmou como uma potente voz no cinema taiwanês em 1994 com seu magnífico Vive L’Amour, filme que venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza daquele ano. Hoje, quase 20 anos depois, Liang segue quebrando regras e entrega, talvez, seu filme mais desafiador, Cães Errantes, premiado com o grande prêmio do Júri no Festival de Veneza desse ano.

      Ao retratar o cotidiano de uma família miserável em Taipei, Liang usa a estética ultra-minimalista que marcou sua carreira - Planos fixos extremamente longos em que cada gesto dos personagens ou do cenário tem importância fundamental, pouquíssimo diálogo, personagens sozinhos sob o pano de fundo de uma cidade decadente, edifícios antigos escuros e abandonados e uma sempre presente aura de extrema melancolia. Cães Errantes é ao mesmo tempo clássico Tsai Ming Liang, mas também é completamente diferente de tudo que ele já fez. Se em filmes como O Buraco (Que mistura sua estética clássica com sequências musicais inusitadas, que marcam os “episódios do filme), Vive L’Amour e Não Quero Dormir Sozinho, Liang ainda se utilizava de uma estrutura narrativa clássica, divida em três atos, começo, meio e fim, em Cães Errantes essa estrutura é completamente ignorada em função da tentativa de construir um filme que não é um filme, mas uma instalação, pura poesia. Podemos entender algumas coisas do enredo - O pai das crianças é um homem problemático, que não consegue se manter em qualquer emprego e gasta o dinheiro que ganha com cigarros e bebidas (tanto que o filho tem que guardar o dinheiro em suas coisas), há uma mulher que aparentemente é a mãe das crianças ou quer ser e ajuda a família ao longo do filme e mora em um prédio abandonado e dá comida aos cachorros que por ali transitam, há o desejo das crianças por ter uma mãe (elas criam uma “mulher repolho” e a colocam para dormir ao lado do pai). Mas o que prevalece, além do enredo, são as sensações, a atmosfera de pura melancolia.

     Quando digo que é um filme desafiador, não é hipérbole, Tsai Ming Liang não é conhecido por realizar filmes de fácil digestão e esse é talvez seu filme mais indigesto. Só os espectadores pacientes serão recompensados. Há momentos em que planos fixos estendem-se por até 10-13 minutos e pouca coisa acontece, aparentemente - O pai, trabalhando segurando uma placa que faz propaganda de imóveis, canta uma canção triste sobre a antiga China, o plano enquadra seu rosto e permanece imóvel por volta de cinco minutos, a intensidade dessa sequencia é quase intolerável, através da música, da sonoplastia (o barulho ensurdecedor do vento e dos carros em movimento) e do belo trabalho do ator, podemos sentir na pele toda a dor que esse homem sente, a perdição e a falta de rumo. Há vários desses momentos, os quais não vou mencionar para não estragar a experiência dos que vão assistir a esse filme único.

      Talvez esse não seja o melhor filme para fazer alguém se interessar pelo trabalho de Tsai Ming Liang. Mas  aqueles que tem interesse de descobrir novas formas e um cinema completamente único e inigualável, dêem uma chance à Tsai Ming Liang.
 Fim

domingo, 27 de outubro de 2013

Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2013 - Filme: Instinto Materno

Critica de Francisco Cannalonga.

Instinto Materno.  Pozitia copilului, Romênia, 2013. Dirigido por Calin Peter Netzer. Com Luminita Gheorghiu, Bogdan Dumitrache, Natasa Raab, Ilinca Goia.

       Este é o terceiro longa do diretor romeno Calin Peter Netzer , mais um grande nome da badalada “New Wave” do cinema romeno, movimento protagonizado por nomes com o Cristian Mungiu (4 meses, 3 semanas, 2 dias), Cristi Puiu (A Morte do Sr. Lazarescu) e Cristian Nemescu (California Dreamin). E que teve a honra de levar o prêmio maior do Festival de Berlim, O Urso de Ouro.

        Instinto Materno discorre sobre o período de pouco mais de três dias, em que Cornelia (Luminita Gheorghiu) é impelida a ajudar seu filho, Barbu (Bogdan Dumitrache), em questões judiciais quando este atropela e mata um adolescente ao tentar ultrapassar outro carro na estrada. Esse conflito desencadeia diversos eventos e revela conflitos internos e familiares e  a partir daí se filme um poderoso estudo sobre o mal-estar social da família burguesa na Romênia. Barbu é uma criança em corpo de homem, mimado, que despreza sua mãe, que por sua vez é narcisista e alto-centrada, tenta fazer de tudo para ajudar o filho para tentar suprir um vazio em sua existência. Ambos formam duas forças que vão entrar em colisão.

         A estética do filme é quase documental, todo o filme  usa a câmera na mão, cujo movimento e “tremedeiras” conferem grande realismo à obra. A montagem imprevisível, que ora corta duas vezes no mesmo plano (jump-cut) ou segue por bastante tempo sem cortar (plano sequencia), também ajuda a construir essa sensação. A performance dos atores é impecável, com destaque especial para a protagonista, Luminita, que está perfeita pintando um retrato de uma mulher idosa, narcisista, determinada, mas também extremamente frágil.

Ref fim.

Mostra Internacional de São Paulo 2013 - Filme: Rio Ano Zero

 Critica de Francisco Cannalonga

Rio Ano Zero - Rio Anné Zero  França, 2013. Dirigido por Aude Chevalier-Beaumel. Com Marcelo Freixo, Marcelo Yuka.

     Imaginem viver na cidade do Rio de Janeiro e não poder ir à praia, nem aos finais de semana, nos dias mais quentes. “Eu invejo eles”, diz Marcelo Freixo, deputado estadual do Rio de Janeiro, num tom de piada, porém melancólico. Essa é a sina de ser um homem sério nos meandros da política no Brasil. Freixo, em 2008, presidiu a CPI das milícias, que encarcerou cerca de 700 milicianos. Segundo pesquisa da UERJ, as milícias dominam aproximadamente 41% das favelas do Rio de Janeiro (Freixo foi a inspiração para o personagem Diogo Fraga, no filme Tropa de Elite 2). Após a entrega do relatório, em 2011, Freixo viu-se vítima de diversas ameaças contra sua vida, chegando até a morar no exterior por um curto período de tempo com a ajuda da Anistia Internacional. Desde então, ele não pode sair de casa sem uma escolta policial fortemente armada. Essa é a sina de ser um homem sério.

     Marcelo Freixo candidatou-se à prefeitura do Rio de Janeiro em 2011, competindo cabeça-a-cabeça, mesmo que em condições adversas, contra Eduardo Paes, então o  prefeito da cidade. O documentário é o primeiro longa da francesa Aude Chevalier-Beaumel e acompanha a trajetória da campanha de Marcelo, tão audaciosa e corajosa, indo contra a corrente das campanhas financiadas por empresas privadas, ao mesmo tempo que mostra, com grande sensibilidade, o homem simples por trás do paletó e da CPI das milícias. Estes momentos do cotidiano, que abrangem a nossa empatia pelo personagem, talvez sejam os melhores do filme, momentos como quando Marcelo volta para o seu pequeno apartamento e come um pedaço de queijo, enquanto sua mulher está num show de Caetano Veloso e Chico Buarque, show este dedicado a ajudar a financiar a campanha do deputado, show este que ele foi proibido de ir ou quando uma mulher, interrompe uma gravação da propaganda eleitoral e o chama de “canalha” e Freixo não consegue manter a compostura e discute com a mulher, afinal, ele sabe que não é um canalha, sabe que não é como “os outros”. A presença de Marcelo Yuka, ex-baterista da banda O Rappa e vice de Marcelo Freixo, também é sempre emocionante em sua fé e em seu sonho por um futuro melhor para a população do Rio de Janeiro. 

     Outro aspecto interessante, são os momentos de bastidores que o documentário consegue capturar e mostrar, com grande clareza, as adversidades que Freixo e sua equipe tiveram que combater - As redes de comunicação completamente parciais, A falta de apoio financeiro para a campanha e claro, a insegurança e o medo que permeiam a vida do personagem, medo que o impede de ir em certas regiões da cidade dominadas pela milícia. 

      Rio Ano Zero é certamente um documento importante que, infelizmente, não pode sequer ser veiculado no Rio de Janeiro (no Festival Internacional de cinema do Rio de Janeiro), mas que deveria ser assistido por todos aqueles que tem interesse de vislumbrar a coragem e a audácia de um homem, que foi até as últimas consequencias em busca de um ideal. 

Ref fim

Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2013 - Filme: The Grand-Master

Critica de Francisco Cannalonga.

The Grand-Master (Yi dai zong shi), 2013. Hong Kong. Dirigido por Wong Kar Wai. Com Tony Leung, Ziyi Zhang, Chen Chang.

      Representante oficial de Hong Kong na corrida do Oscar de filme estrangeiro deste ano, o “novo” filme de Wong Kar Wai, foi, na verdade, anunciado como projeto, cerca de dez anos atrás e só agora começa a chegar às nossas salas. Além do perfeccionismo do diretor, os motivos para tamanha demora ainda são misteriosos, conta-se que o filme foi editado por mais de um ano e que foram feitos três edições diferentes (O corte “chinês” de 130 minutos, o corte do festival de Berlim de 123 minutos e o corte da Weinstein, de 108 minutos. Além disso corre a lenda de que existiria a versão realmente oficial com 4 horas que ele esta recusando liberar!). Tanto demorou a conclusão do filme, que foram lançados, não um, mas dois outros filmes sobre a mesma história e personagem (Ip-Man, o lendário mestre de Kung-fu, mestre de ninguém menos que o lendário Bruce Lee). Infelizmente, a espera não traduz a qualidade do filme, que, apesar de visualmente esplendoroso, peca pela progressão narrativa confusa e sem foco.

      Wong Kar Wai, um dos mais respeitados cineastas da Asia e autor de alguns dos melhores filmes chineses dos últimos vinte anos como Felizes Juntos (1997), Amor a Flor da Pele (2000), Amores Expressos (1994), nunca foi, tecnicamente, um contador de histórias. É um esteta por natureza e um dos melhores. Em seus filmes de maior sucesso, o enredo e o roteiro eram apenas pretexto para a feitura de algumas das imagens mais bonitas e audaciosas do cinema. Kar Wai fazia uso de todas as possibilidades para criar suas imagens do monocromo para cores ultra-saturadas, lentes grande-angular ou olho de peixe, movimentos de câmera vertiginosos, closes e câmera lenta. E, o mais importante, através das imagens, sons e mise-en-scene, o diretor conseguia aquilo que é mais importante, extrair emoções e sensações verdadeiras do espectador, sem nunca ter que se preocupar muito com o enredo.

      Infelizmente, The Grand-Master além de ser, de certa forma, uma cine-biografia, é um filme que apresenta um roteiro denso, repleto de personagens, tramas e sub-tramas e, como dissemos, a narrativa nunca foi um dos maiores talentos do autor chinês. Combinada ainda com uma montagem paralela de diversas dessas tramas, sub-tramas, que se passam em épocas diferentes e se focam em personagens diferentes, fica bem difícil entender onde o filme está nos levando e porquê.

      No entanto, o esteta Won Kar Wai voltou à velha forma e o filme apresenta uma das fotografias mais bonitas deste ano e as sequências de combate são coreografadas impecavelmente, e o grande talento do diretor fala alto nessas cenas, em que é possível ver muito mais do que duas ou mais pessoas lutando. Tais sequencias são pura poesia visual e despertam uma vasta gama de sentimentos e sensações. Won Kar Wai como contador de histórias, é um grande esteta.

Ref Fim.

Mostra Internacional de Cinema São Paulo 2013 - Filme: Inside Llewyn Davis

Critica de Francisco Cannalonga

Inside Llewyn Davis – Inside Llewyn Davis- Balada de um Homem Comum (Inside Llewyn Davis), Estados Unidos, 2013. Dirigido e roteirizado por Ethan Coen, Joel Coen. Com Oscar Isaac, Carey Mulligan, Justin Timberlake, John Goodman, F. Murray Abraham.105 min. Preto e branco. 

  É notável como, após 20 anos de carreira e 16 filmes no currículo, os irmãos Joel e Ethan Coen conseguem continuar se reinventando, filme após filme, e na maioria das vezes, mantendo um nível de qualidade excepcional. Também conseguem manter as peculiaridades e qualidades que os fizeram únicos, basta apenas alguns minutos para sabemos que estamos vendo um filme dos Coen, tudo isso sem jamais perder o frescor e explorando novos horizontes, temáticas e gêneros. Não é nenhum exagero dizer que é  uma das melhores duplas de toda a história do cinema (Assim como os irmãos Taviani, os Dardenne e claro, os lendários britânicos Michael Powell e Eric Pressburguer).

Inside Llewyn Davis não é apenas mais um bom filme dos irmãos, é um grande filme que, no decurso do tempo, figurará como um de seus melhores esforços, ao lado de clássicos já consagrados como Onde Os Fracos Não Tem Vez (2007), Fargo (1996), Gosto de Sangue (1984), Barton Fink (1991) . Discorre uma semana  em 1961, na vida do músico folk, Llewyn Davis, interpretado magnificamente por Oscar Isaac (o latino de Drive). Mas não parece apenas uma semana, da a sensação de uma odisséia, uma longa jornada, com a trajetória deste personagem tão fascinante e ao mesmo tempo tão comum, Llewyn Davis. A fotografia fantasmagórica e desnorteante de Bruno Delbonnel (Fausto, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain), que usa e abusa do “soft-focus” (foco suave) conferindo um “glow” belíssimo nos contornos e linhas das imagens, amplificam essa sensação de viagem espiritual, todo o filme, de certa forma, tem o ritmo de um sonho.

Discorrer sobre o roteiro seria perder tempo e poderia castrar o espectador das melhores surpresas que esse filme lhe reserva, seja os momentos de humor característicos dos diretores, as decepções do personagem ou as belíssimas sequências musicais. Na verdade, a música desse filme merece uma menção especial, o produtor musical do filme, T. Bone Burnett não poderia ter sido mais certeiro na seleção musical, canções folk clássicas ganham um novo brilho nas afinadas vozes dos atores (destaque especial para 500 Miles de Hedy West). Os irmãos  já tinham demonstrado seu talento para trilhas sonoras ao utilizarem o silencio em Onde Os Fracos Não Tem Vez e tiveram extraordinário êxito de venda de discos com a trilha de E Aí, Irmão cadê Você (2000).Neste filme eles fazem questão de mostrar isso a todos que queiram ver (e ouvir).  (um detalhe: aparentemente, talento na seleção de trilhas sonoras parece ser uma qualidade herdada por diversos diretores que protagonizaram o ressurgimento do cinema independente americano na década de 90 como Paul Thomas Anderson, Quentin Tarantino, Steven Soderberg, entre outros).

Os Coen já haviam demonstrado grande empatia pela vida do homem comum, mas nunca exploraram esse sentimento com tanto bom gosto e sensibilidade como neste novo filme. Sentem-se nas poltronas, relaxem, deixem que a música invada os ouvidos, encham os olhos com o esplendor visual e permitam que os irmãos, mais seguros do que nunca de suas habilidades, te levem para dentro de Llewyn Davis.

Fim

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Mostra Internacional de São Paulo 2013 - Filme: A menina do 14 de Julho

Critica de Francisco Cannalonga.

A menina do 14 de Julho/La Fille Du 14 Julliet. França, 2013. Dirigido por Antonin Petertjako. Com Vimala Pons, Grégoire Tachnakian, Vincent Macaigne, Marie-Lorna Vaconsin. 88 min.

     Há alguns anos atrás , em 2001, houve um filme que parecia uma benção para o cinema francês e seu sucesso em todo o mundo.  Mas que de certa maneira também foi uma maldição.  O cinema Francês país de origem de alguns dos maiores transgressores das “normas” cinemáticas - Abel Gance e os impressionistas, Jean Renoir, Robert Bresson e os realistas-poéticos, os jovens críticos da Nouvelle Vague, entre outros.

      O que aconteceu foi um filme, O Fabuloso Destino de Amelie Poulain, de Jean-Pierre Jeunet,  na verdade de muitas qualidades mas que teve tanta repercussão no  mundo todo, que lançou uma espécie maldição. Todos os filmes de comédia querem ser “Amélie Poulain” e a personagem vivida Audrey Tautou se tornou que um arquétipo de personagem.  Esta sendo um duro golpe no gênero. 

     Esta nova comédia A menina do 14 de Julho, feita por um diretor estreante em longa, Antonin Petertjako talvez seja o único filme que mesmo apresentando sintomas da “síndrome de Amélie Poulain” (o arquétipo de Amelie é evidente na protagonista) consegue agradar. Não por seu roteiro, enredo ou personagens, mas porque é ao mesmo tempo, uma homenagem e uma sátira ácida dos filmes revolucionários da Nouvelle Vague, o famoso e aclamado movimento dos anos 1959-60 em diante, liderado pelos aprendizes de Andre Bazin – Jean- Luc Godard, François Truffaut, Claude Chabrol, Eric Rohmer, entre outros.

    O enredo em si já traz consigo alguns paralelos com o filme Weekend à Francesa de Godard - Um grupo de jovens parte para uma viagem na praia e como plano de fundo, a estabilidade econômica da França despenca e as férias são encurtadas em um mês. Vale mencionar que também há um “romance”, entre a protagonista Améli… digo Truquette (Vimala Pons) e Hector (Grégoire Tachnakian), mas, para ser sincero, isso pouco importa. Ah, eu mencionei que o filme é uma comédia? Sim, é, e bastante engraçada, apesar de empregar um humor “chucro”, nada sutil ou elegante. As “gags” geralmente provém de ações físicas completamente inesperadas ao invés de texto - O Dr. Placenta dá um tiro com “balas de clorofórmio” para botar o filho que se veste de barata gigante em homenagem ao livro “A metamorfose” de Franz Kafka para dormir, sem aviso algum.Mas o melhor do filme certamente é a brincadeira com algumas “constantes” da Nouvelle Vague - longos monólogos intelectuais, sobre o amor perdido, o amor que se foi, a solidão do homem e a hipocrisia da burguesia, em alguns momentos os personagens direcionam suas falas diretamente para o público e contam uma dessas histórias. São possivelmente as sequências de humor mais sutis e as melhores do filme. Como recurso estético (ou falta de dinheiro, já que são desconhecidos) , o filme foi rodado em 16mm, o que traz uma granulação maior da imagem e cores saturadas, de forma a emular os filmes do famoso movimento francês e sua falta de recursos financeiros.

     O maior problema talvez seja o fato de que o filme, apesar de algumas tentativas, jamais consegue criar uma verdadeira empatia pelo romance do casal, ou seja, o “problema” proposto pelo enredo, no fim, pouco importa. O que poderia tornar a projeção extremamente cansativa, depois que todos os artifícios cômicos já fossem revelados. O que não acontece porque o filme tem apenas 88 minutos de duração, talvez oito minutos longo demais, mas vale a sessão.

fim

Mostra Internacional de São Paulo 2013

Critica de Francisco Cannalonga.

Paradjanov 2013, Ucrânia. Dirigido por Serge Avedikian, Olena Fetisova. Com Serge Avedikian, Yulia Peresild, Karen Badalov, Zaza Kashibadze. 95 min.

     A pretensão é fazer uma cinebiografia de Sergei Paradjanov (1924-90), o excêntrico e genial diretor georgiano. Mas o resultado  não poderia ser menos excêntrico. Bem que tentam  mas não o suficiente. Paradjanov é possivelmente  dos grandes diretores o menos conhecido e subestimado, tanto em sua época quanto no presente. Seus filmes tem um estilo impossível de copiar , singular, e podem ser descritos da seguinte forma: São uma tela em branco, onde o diretor pinta suas belíssimas imagens, sem dar muita atenção à trama ou diálogos.

     Sobre a cinebiografia… O diretor é vivido por Serge Avedikian (que também assina a direção do filme ao lado de Olena Fetisova), que é extremamente convincente em sua interpretação, conseguindo equilibrar a caricatura com momentos mais serenos. No entanto, isso não é o suficiente para tornar o filme realmente especial. A trama se desenvolve a partir das filmagens de Os Cavalos de Fogo e procura mostrar diversos momentos da vida do cineasta, seu relacionamento amoroso com o filho de um homem importante do partido comunista, as difíceis filmagens de A Cor de Romã, sua prisão decretada pela União Soviética devido a sua chamada “subversã” e excentricidade e mais importante de tudo, seu infinito amor pela arte, beleza e por sua esposa.

      Há momentos de grande inventividade, em que vemos Paradjanov “dirigindo” seus filmes, através de manipulação digital. Há também algumas sequencias em stop-motion, que procuram com sucesso retratar como a mente do cineasta operava. Mas não é o suficiente, o filme nunca se aprofunda realmente na personalidade do diretor e esses artifícios visuais tornam-se cansativos, quando não simplesmente desnecessários. O personagem central não é tão magnético quanto deveria ser e  assistindo o filme, é possível o espectador  se perder em pensamentos externos.

Apesar de seus méritos, a cinebiografia não consegue equilibrar a excelente atuação de Serge Avedikian com um roteiro mais sucinto tornando o resultado cansativo. 

Fim

Mostra Internacional de São Paulo 2013 - Filme: Hopper Stories

Critica de Francisco Cannalonga.

Hopper Stories. França/Dinamarca/Alemanha , 2013. Dirigido por - Mathieu Almaric, Sophie Barthes, Dominique Blanc, Martin de Thurah, Sophie Fiennes, Velérie Mréjen, Valérie Pirson, Hannes Stor.


O adjetivo mais comum para esse tipo de filme - antologia de curtas, de vários diretores diferentes, sobre um tema em comum, certamente é “Irregular”. Hopper Stories não é irregular. De certa forma, é bem regular em sua característica básica:. é péssimo. Oito curtas metragens, dirigido por jovens diretores, aparentemente talentosos, todos se encontram na limite entre ruim e péssimo. É uma serie de  8 curtas, cada um deles inspirado por uma pintura de Edward Hopper painting. A serie foi comissionada pelo canal de teve Arte France e produzida por Didier Jacob, En Haut des Marches. Elçs são The 8 shorts are 'Next to Last' do ator Mathieu Amalric com o famoso documentarista Frederick Wiseman como Edward Hopper, 'The Muse' de Sophie Barthes com Michael Stuhlbarg, 'Hope' da atriz  Dominique Blanc com Clemence Poesy, 'First Row Orchestra' de Sophie Fiennes, 'Conference at Night' de  Valerie Mrejen, 'Rupture'  pela diretora de animação Valerie Pirson, 'Berlin Night Window' do alemão  Hannes Stohr, 'Mountain' do dinamarques Martin de Turah.


Edward Hopper, famoso pintor e artista gráfico americano, certamente não apreciaria muito os curtas-metragens que se originaram a partir de sua obra. Ah, esqueci de mencionar, o filme como um todo presta homenagem a Hooper, não que isso queira dizer muita coisa, provavelmente nem os mais fanáticos pelo pintor vão conseguir apreciar as obras, tamanha pedantismo, falta de contexto e formatação desses filmes. É difícil até mesmo de tentar selecionar um ou outro que mais agradou  ou que desagradou mais. 

O maior desapontamento talvez seja o curta de Sophie Fiennes, irmã do ator Ralph Fiennes e diretora de dois filmes estrelados pelo filósofo marxista Slavoj Zizek - O Guia Pervertido do Cinema e O Guia Pervertido da Ideologia. Em ambos filmes, mesmo que Zizek roube completamente a cena, Fiennes consegue impor um divertido e inventivo estilo visual, misturando o filósofo com cenários de filmes que ele discute durante a projeção. Neste projeto, é um tédio total.Apesar de ter apenas 40 minutos. 

Apesar da proposta interessante - criar um curta metragem livremente a partir de uma pintura de Edward Hooper, o resultado não é nada menos do que constrangedor. Levem um travesseiro.
Fm

Mostra Internacional de São Paulo 2013 - Fime: Trem Noturno para Lisboa

Critica de Rubens Ewald Filho


Trem Noturno para Lisboa /Night  Train to Lisbon. Portugal/Alemanha/França, 13. 111 min. Direção de Bille August. Baseado em livro de Pascal Mercier. Com Jeremy Irons, Melanie Laurent, Jack Huston, Martina Gedeck, Tom Courtenay, August Diehl, Bruno Ganz, Charlotte Rampling, Christopher Lee, Lena Olin.

     Só pelo elenco dá vontade de assistir este filme mas eu aconselho a deixar passar em branco, não vale ver nem mesmo depois em casa, por acaso. Faz tempo que já se desistiu do diretor Bille August (que acertou no tempo de Pele, o Conquistador e deve ter gostado tanto de Lisboa, onde rodou A Casa dos Espiritos que aceitou retornar aqui num projeto furado, que lembra os filmes multinacionais feitos nos anos 80 que eram chamados de Euro Pudding (porque embora se passassem em determinado país, não se usava a língua local e o elenco de origem diversa, usava o inglês com sotaque e algumas palavras de português de Portugal e uma menção rápida de Brasil, melhor dizendo Amazonas). 

      Talvez o livro faça mais sentido porque a palavra escrita joga com a imaginação, mas quando encenado fica difícil ter alguma lógica a absurda historia de um professor suíço de Berna (Jeremy Irons, cuja idade o humanizou) que salva uma moça que vai se jogar de uma ponte. Depois descobre no casaco dela, um bilhete de trem noturno para Lisboa e um livro de um certo Almeida Prado, que tem citações pseudo filosóficas que o deixa intrigado (embora sejam frases feitas como “existe um segredo debaixo da superfície da atividade humana?. Se nós realmente apenas vivemos uma parte do que temos dentro de nós, o que é que acontece com o resto?”. Só que no final das contas a trama não é sobre o sentido da vida mas a denuncia da ditadura de Salazar (nem se menciona o nome dele direito) e a repressão que prendia, torturava e matava aqueles que faziam parte do que se chama no filme de Resistência (como nos filmes franceses feitos pelos americanos ). 

     Assim nosso herói vai de pergunta em pergunta fazendo amizades (há pouca ou quase nenhuma ação), chegando mesmo a conquistar um absurdo interesse romântico. Como filme político, suspense ou aventura, o filme é totalmente nulo. A única possível qualidade é a presença de um elenco internacional curioso que inclui Christopher Lee quase centenário, o jovem Jack Huston como o Almeida (é neto do diretor John Huston), a charmosa francesa Melanie Laurent (Bastardos Inglórios) e depois mais velha fazendo o mesmo personagem, Lena Olin (mulher do diretor Lasse Hellstrom), o excelente britânico Tom Courtenay, o alemão Bruno Ganz , a inglesa Charlotte Rampling, a alemã Martin Gedeck. Todos em papeis menores do que mereciam. Ah, sim, Lisboa continua fotogênica e adorável.

Ref fim.

Mostra Internacional de São Paulo 2013 - Filme: Grand Central

Critica de Francisco Cannalonga para o Fan Page de Rubens Ewald Filho


Grand Central. França, 2013. Direção - Rebecca Zlotowski. Com Tahar Ramin, Lea Seydoux, Olivier Gourmet, Denis Ménochet.

     Grand Central é mais um daqueles casos em que o filme, em seu primeiro ato, apresenta uma temática e premissas interessantes, mas que se perde ao longo do caminho, mesmo contanto com um elenco de peso. Segundo longa da diretora francesa Rebecca Zlotowski, estreou e competiu na categoria "Un certain regard" no festival de Cannes desse ano. 

    No filme, Tahar Ramin (O Profeta) vive Gary Manda um "drifter" que em seu desespero, aceita trabalhar numa usina nuclear, onde os intensos níveis de radiação causam grande estresse físico e mental nos trabalhadores. que vivem numa pequena comunidade, em trailers ou quitinetes. Lá conhece Gilles (Olivier Gourmet, presença constante nos filmes dos irmãos Dardenne), o mais antigo e responsável pelos novos empregados, Toni (Denis Ménochet) e a bela Karole (Lea Seydoux), esposa de Toni, por quem Gary se apaixona e com quem tem um caso.

    O primeiro ato do filme é excelente em relação a fluidez dos eventos, os personagens e o texto  são apresentados de maneira eficiente. As sequencias na Usina são as mais interessantes, onde o emprego da camera na mão imprime urgencia às cenas e a sonoplastia auxilia na crescente tensão. Mas, após o primeiro ato, o filme desanda.  Diversos textos (e subtextos) interessantes que foram  apresentados no inicio  são esquecidos em função do aprofundamento do romance de Karole e Gary,  que é, certamente, o texto menos interessante da trama. 

      Grand Central apesar de tecnicamente eficiente, sofre pela grande carência de estilo na direção. Propositalmente ou não, por momentos parece que assistimos a um filme (mediano) de Jacques Audiard (O Profeta, Ferrugem e Osso), mas sem a mesma confiança em sua linguagem e intensidade.

   Contanto com um segundo ato mediano, um terceiro capenga e um desfecho forçado e sem nenhum poder, Grand Central é mais um na enorme lista de filmes que tinha tudo para ser bom, mas não o é.

Fim

Mostra Internacional de São Paulo 2013 - Filme: Escudo de Palha

Critica de Francisco Cannalonga para o Fan Page de Rubens Ewald Filho

Escudo de Palha – Wara No Tate. Japão, 2013. Dirigido por Takashi Miike, com Nanako Matsushima, Tatsuya Fujiwara, Takao Ohsawa.

     Para entender a inconstância e método do diretor cult japonês Takashi Miike, seria necessário compará-lo com músicos experimentais como Frank Zappa. Assim como era Zappa, Miike é extremamente prolífico em suas produções, chegando a dirigir até três ou quatro longas em um único ano e, assim como Zappa, nem todos os trabalhos gozam da mesma qualidade e dedicação. Escudo de Palha se encontra no meio termo entre os bons filmes de Miike como 13 assassinos e Audition e os ruins - Zebraman. 

    A trama gira em torno de uma equipe de quatro policiais cuja missão é escoltar Kiyomaru (Tatsuya Fujiwara), assassino da neta de um magnata das finanças que prometeu um bilhão de ienes ao homem ou mulher que assassinar Kiyomaru. A equipe se encontra encurralada contra praticamente toda a população do Japão e todos podem se tornar traidores, sem nenhum aviso. O enredo se desenvolve de forma episódica a medida que a equipe viaja rumo a Tóquio , escoltando Kiyomaru. Cada uma dessas sequencias carrega surpresas e novos testes de caráter aos personagens. E   apesar de inconsistentes em sua qualidade, são sempre divertidas. O protagonista, Kazuki Mekari (Takao Ohsawa) é certamente o personagem mais interessante e tridimensional do enredo e sua honra e caráter são colocados a prova, de formas cada vez mais intensas, a medida que a trama se desenvolve - a grande questão do filme é,”vale a pena proteger um homem que "merece morrer" em prol da honra e da justiça?”.

      O maior problema do filme toma forma em sua segunda metade. No primeiro ato, através de enquadramentos e planos "manjados", Miike brinca com clichês do cinema de ação norte-americano, brinca também com situações improváveis fomentadas pelo roteiro. No entanto, a medida que o filme se desenvolve, Miike comete o erro de levar a sério demais o roteiro esdrúxulo que tem em mãos, o que resulta em cenas contrangedoras, que deveriam ter algum poder emocional, mas não se justificam tamanha excentricidade do roteiro. 

     Apesar desses problemas, as sequencias de ação são  de tirar o fôlego e algumas cenas poderosas "escondidas" ao longo da trama fazem valer a sessão.
Ref fim .