Depois do super lançamento de quase todos os grandes filmes do mestre Ingmar Bergman, fiquei temendo pela crise que perambula os admiradores dos clássicos disponíveis em DVD, cada vez mais raros (inclusive por causa da crise das livrarias que estão fechando!). Para gente como eu, viver sem DVDs e sem livros novos é viver no inferno. Ou até coisa pior... Como vocês conhecem meu passado de publicar livros sobre VHS e DVDs certamente entendem meu sofrimento em sair correndo atrás da qualidade e antiguidade dos produtos. Sempre revelei que meu hobby maior é sair procurando os filmes mais antigos que por uma razão ou outra não consegui assistir. Ou porque era criança demais, ou os filmes eram proibidos naquela ocasião, enfim, essa era a dor da gente, não ter conseguido assistir uma dessas p[erolas, ou terem acabado com as sessões abertas de minha infância (vocês não acreditam, mas o máximo era ficar na sala, revendo o filme - o mesmo - um após o outro!). E como é bom, a gente ainda conseguir ter em casa a nossa disposição os clássicos da Versátil que tem a coragem de enfrentar a crise (agradeço por sinal a gentileza em ter me enviado o Box Filme Noir vol 12), no chamado Digistack sem esquecer que tem um extra, um clássico britânico excepcional chamado Encontro em Londres, de Basil Dearden (preciosidade histórica!). Sem esquecer as entrevistas (depoimento de Martin Scorsese) e a qualidade remasterizada dos 6 filmes disponíveis, todos eles notáveis e Cults. Começo pelo mais incrível, o vilão genial e desconhecido Laird Cregar em Concerto Macabro (música de Bernard Hermann), Golpe do Destino com Rhonda Fleming (ainda bela e viva hoje em dia!), Mickey Rooney demonstrando que é grande ator em Os Valentões, a estreia de Sidney Poitier em O Ódio é Cego com o mais admirado dos vilões Richard Widmark, Kirk Douglas e Burt Lancaster em Estranha Fascinação e Uma Vida Marcada de um gênio do suspense policial Robert Siodmak, com Victor Mature e Shelley Winters. Acredite: para quem gosta de cinema de verdade é um prazer navegar por esses tesouros.
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domingo, 9 de dezembro de 2018
Voltam os filmes Noir da Versátil
Depois do super lançamento de quase todos os grandes filmes do mestre Ingmar Bergman, fiquei temendo pela crise que perambula os admiradores dos clássicos disponíveis em DVD, cada vez mais raros (inclusive por causa da crise das livrarias que estão fechando!). Para gente como eu, viver sem DVDs e sem livros novos é viver no inferno. Ou até coisa pior... Como vocês conhecem meu passado de publicar livros sobre VHS e DVDs certamente entendem meu sofrimento em sair correndo atrás da qualidade e antiguidade dos produtos. Sempre revelei que meu hobby maior é sair procurando os filmes mais antigos que por uma razão ou outra não consegui assistir. Ou porque era criança demais, ou os filmes eram proibidos naquela ocasião, enfim, essa era a dor da gente, não ter conseguido assistir uma dessas p[erolas, ou terem acabado com as sessões abertas de minha infância (vocês não acreditam, mas o máximo era ficar na sala, revendo o filme - o mesmo - um após o outro!). E como é bom, a gente ainda conseguir ter em casa a nossa disposição os clássicos da Versátil que tem a coragem de enfrentar a crise (agradeço por sinal a gentileza em ter me enviado o Box Filme Noir vol 12), no chamado Digistack sem esquecer que tem um extra, um clássico britânico excepcional chamado Encontro em Londres, de Basil Dearden (preciosidade histórica!). Sem esquecer as entrevistas (depoimento de Martin Scorsese) e a qualidade remasterizada dos 6 filmes disponíveis, todos eles notáveis e Cults. Começo pelo mais incrível, o vilão genial e desconhecido Laird Cregar em Concerto Macabro (música de Bernard Hermann), Golpe do Destino com Rhonda Fleming (ainda bela e viva hoje em dia!), Mickey Rooney demonstrando que é grande ator em Os Valentões, a estreia de Sidney Poitier em O Ódio é Cego com o mais admirado dos vilões Richard Widmark, Kirk Douglas e Burt Lancaster em Estranha Fascinação e Uma Vida Marcada de um gênio do suspense policial Robert Siodmak, com Victor Mature e Shelley Winters. Acredite: para quem gosta de cinema de verdade é um prazer navegar por esses tesouros.
sexta-feira, 16 de março de 2018
O Cinema de Luis Buñuel
Esta é outra excelente edição da Distribuidora Versátil, com 6 cards e 6 filmes do genial diretor. Eis um resumo crítico dos seus trabalhos contidos no digistack com 3 DVDs.
Tristana, Uma Paixão Mórbida (Tristana) ****
França, Itália, 1970, 95min. Diretor: Luis Buñuel. Elenco:
Catherine Deneuve, Fernando Rey, Franco Nero, Lola Gaos, Antonio Casas, Jesús
Fernandéz.
Sinopse: Após ficar órfã a jovem Tristana é levada para
morar com seu tutor, um velho livre-pensador e parasita. Aos poucos a paixão
doentia dele vai destruindo a pureza da moça.
Pouco depois da obra-prima A Bela da Tarde (Belle de
Jour, 1967) o mestre espanhol Luis Buñuel (1900-83) se reuniu novamente com
Catherine Deneuve num de seus filmes mais sóbrios e lineares (e, no entanto,
chocante em seus meandros). Buñuel constrói com muito rigor o filme em duas
partes, a primeira esquemática e até didática na crítica impiedosa de Don Lope
(o notável ator espanhol Fernando Rey, 1917-94, de Operação França, Esse
Obscuro Objeto do Desejo, O Discreto
Charme da Burguesia, todos eles de Buñuel!). Mas não destituída, porém, de
uma certa simpatia pelo personagem e sua destruição de Tristana (uma das suas
inesperadas e impiedosas reviravoltas). Repare na sutileza com que Buñuel
insere seu sempre obrigatório ataque ao clero.
Um dos grandes filmes do diretor, cheio de ironia e bom
elenco. Foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro. Rey foi premiado como
melhor ator em Cannes, o filme foi premiado em Biarritz, e da revista Fotogramas
de Plata. Buñuel contava que as idiossincrasias de Tristana foram baseadas nos
hábitos da própria irmã dele! Quando foi indicado ao Oscar, Buñuel declarou: ”nada
me deixaria mais aborrecido moralmente do que ganhar um Oscar!”. E o filme que
ganhou acabou sendo o italiano Investigação
sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita também muito bom. Catherine
Deneuve sempre declarou que este era um de seus filmes favoritos. Na época
ainda havia uma forte censura na Espanha do ditador Franco (que proibiu o filme
duas vezes quando ainda estava em roteiro) e o filme só conseguiu ser feito
quando chamou atores internacionais. Buñuel era grande admirador de Perez
Galdós, o autor do romance original e origem do filme. Mas ainda assim achava a
novela “kitsch” , previsível e dos piores trabalhos do escritor. Mudou a
historia de Madrid para Toledo, e a ação do fim do século 19 para 1920, quando
o diretor ainda era muito jovem! Apesar disso lutou durante anos para conseguir
realizar o filme. Mais de vinte anos, desde os anos 50, quando morava no
México. A censura de Franco havia implicado com o filme anterior dele, Viridiana (61) e foram 8 anos para
convencê-los a autorizar o filme. Eles eram contra a sedução e corrupção da
heroína além das criticas à Igreja. Reza a lenda que La Deneuve teve um romance
com o galão italiano Franco Nero, atual marido de Vanessa Redgrave.
O Estranho Caminho de São Tiago ou A Via Láctea (La Voie
Lactée) ****
Espanha/,França, 1969. 102 min. Direção e musica de Luis
Buñuel. Produção de Serge Silberman. Roteiro de Jean-Claude Carrière e Buñuel.
Fotografia de Christian Matras. Com Laurent Terzieff, Paul Frankeur, Delphine
Seyrig, Edith Scob, Alain Cuny, Muni, Bernard Verley, Michel Piccolli, Pierre
Clementi, George Marchal, Claudio Brook, Delphine Seyrig, Jean Claude Carriére,
voz de Buñuel (na cena em que o Papa é assassinado por revolucionários).
Sinopse: Dois peregrinos que estão viajando pelo caminho
para São Tiago de Compostela passam por todas as grandes heresias da Igreja
Católica.
Bastidores: Um dos filmes mais ousados e anti-católicos de
Buñuel. Depois de Belle de Jour, o
surdo e alcoólatra diretor ameaçou abandonar o cinema, mas retornou com este
trabalho, anterior à Tristana. São
dois peregrinos que fazem uma viagem até São Tiago de Compostela na Espanha (a
palavra vem do latim, Campus Stella, ou seja A Via Láctea ou Caminho das
Estrelas). É por isso que o filme tem dois títulos. Trata-se de um passeio
pelas heresias da História, o filme de um espanhol ateu que nunca conseguiu se
livrar da super estrutura da Igreja, e que sempre se considerou “ateu, graças a
Deus”. Ele e o roteirista Carrière pesquisaram tudo que se referia às Heresias,
e fizeram a história de dois mil anos de Heresias, em dezenove sequências. Os
dois mendigos (Paul e Laurent) - que parecem estar esperando “Godot” !
No seu caminho
encontram os mais estranhos personagens, todos eles discutindo problemas e falando
frases rigorosamente autênticas, retiradas de livros da época. O filme mostra
as seis mais importantes Heresias: Cristo ao mesmo tempo como Homem e Deus, A
Santíssima Trindade, a Transubstanciação, a Imaculada Conceição, a sabedoria e onipresença
de Deus e as origens do Diabo. A ironia de Buñuel contando piadas das Bodas da
Canaã e usando barba somente porque barba inspirada confiança. O efeito é
salutarmente cômico, quase surrealista. Sem mais nem menos, se discutem
heresias da forma mais engraçada possível. É claro que essa velha fobia
anti-clerical, só se poderia aceitar de um homem como ele, que em toda sua vida
combateu os absurdos do catolicismo, sem nunca conseguir libertar-se de suas
marcas. O maior problema é a dificuldade de identificar personagens e símbolos.
O espectador não tem obrigação de saber todas as heresias para identificar
“quem é quem”. O mais facilmente reconhecido é o Marques de Sade (Piccoli) que
parece ter sido levado às suas práticas sexuais diante de uma mulher que
histericamente afirmava a existência de Deus. Responde Sade: “ Se Deus existe, eu o detesto”.
A peregrinação começa
com um encontro com um desconhecido (Cuny), que dá uma esmola ao menos pobre
dos dois. Porque somente quem tem fé tem direito a tudo. Faz também uma
profecia: “terás o filho de uma prostituta”. Mesmas palavras feitas por Deus ao
profeta Oséias. Esta prostituta (Seyrig) surge no final e Buñuel sugere que ela
talvez seja um anjo. Depois a Transubstanciação é defendida por um padre saído
de asilo de loucos que conclui, “Deus está para a hóstia assim como o carneiro
está para o patê de Carneiro”. A dupla natureza de Cristo é debatida entre
garçom e “maitre” de um restaurante. A origem do diabo se revela numa orgia “prisciliana”
em que o Bispo de Ávila põe em prática sua tese de que se deve tirar o mal do
corpo através dos excessos sexuais. O Livre Arbítrio serve de tema para um
duelo entre um Jansenista e um jesuíta, que no fim saem de braços dados.
Enquanto numa capela próxima, uma freira se crucifica. A Santíssima Trindade é
criticada por um bispo que profana um túmulo, a Imaculada Conceição é discutida
numa cena em que um casal se tranca no quarto enquanto um padre começa a falar
sobre sexo e casamento, conseguindo finalmente inibir o casal. Buñuel mostra o
padre dentro do casal mostrando que a Igreja está sempre interferindo nas
relações de alcova.
A mais importante de todas as conclusões é de Cristo que
anuncia que veio a Terra não para trazer a paz, mas a Espada. Mais tarde ele
faz um milagre, para que dois cegos voltem a ver. Quando Jesus e os discípulos
pulam uma vala, a câmera mostra os dois cegos examinando as valas com suas
bengalas, apesar de terem recobrado a visão, eles conservam o velho hábito da
bengala. O homem é moralmente cego, quer dizer Buñuel, e sua única saída é sua
liberdade espiritual. Os episódios surrealistas se sucedem, num deles, um carro
se espatifa porque recusou carona, dentre dele, está o diabo (Clementi) que dá
um conselho muito prático “Roubar os sapatos do morto” . Mais tarde, quando são
interrogados pela polícia por suspeita de roubo, desta vez de comida, os
policiais acabam aceitando uma resposta estereotipada “de acordo com a visão
que eles próprios têm da coisa”. Outros episódios são também muito engraçados.
Numa festa de colégios de garotas, estas recitam “anátemas”, enquanto há
flashes de um grupo de revolucionários, preparando para fuzilar o Papa. Ouve-se
barulho de tiros e um dos espectadores pergunta o que foi. O vagabundo explica
que era ele imaginando a execução do Papa, o outro responde: “Isso só vai
acontecer em sua imaginação”.
Buñuel não chega a concluir. Quando os peregrinos chegam à
Santiago descobrem que há suspeitas de que não ele que está enterrado lá, mas
um Prisciliano. Então, todas as peregrinações e milagres nunca tiveram sentido.
Então, “meu ódio pela ciência e a tecnologia, talvez me faça cair no absurdo de
cair de acreditar em Deus”, diz ele. A Via Láctra é o filme de um jovem velho contestador
que faz brincadeiras à maneira de Godard e que defende suas idéias, as mesmas
desde A Idade do Ouro (L´Age D´Or), no início de sua carreira
até o fim. Ainda que um pouco “quadrado” em matéria de linguagem, é um grande
show-man. Mesmo que não se entenda os detalhes de sua fita, é uma brilhante e
instigante diversão, provando que idade é uma coisa muito relativa (foi
realizado depois de Bela da Tarde e
antes de Tristana). Em sua
autobiografia o diretor afirma que resolveu fazer o filme ao ler Historia de
los Hetereoxos españoles de Marcelino Menendez Y Pelayo.
O Fantasma da Liberdade (Le Fantôme de la Liberté ) ****
França, Itália, 1974. 104 min. Diretor: Luis Buñuel. Elenco:
Adriana Asti, Adolfo Celi, Jean Rochefort, Michel Lonsdale, François Maistre,
Michel Piccoli, Monica Vitti, Pierre Lary, Marie-France Pisier, Jean-Claude
Brialy.
Sinopse: Uma série de episódios cotidianos interligados,
vistos de forma surrealista e inesperada.
O grande mestre espanhol Luis Buñuel (1900-83), então recém
agraciado com a Palma de Ouro em Cannes por O Discreto Charme da Burguesia (Le
Charme Discret de la Bourgeoisie, 1972) tencionava encerrar sua carreira
como diretor com este filme, o mais radicalmente surrealista desde seu começo
de carreira nos anos 20 e 30 com Um Cão
Andaluz e A Era do Ouro (ele
acabaria voltando a dirigir mais outro, Esse
Obscuro Objeto do Desejo, convencido pelo produtor e amigo Serge
Silberman). É uma sucessão de episódios todos casualmente entrelaçados por
algum personagem, sempre intrigantes e desconcertantes e que, bem no espírito
surrealista, desafiam e ao mesmo tempo impossibilitam explicações racionais.
Ajudado no roteiro por seu colaborador habitual Jean-Claude Carrière, o diretor
tem algumas sacadas como quando nos mostra um jantar onde as pessoas sentam-se
à mesa em privadas e se trancam em um pequeno cômodo para comer; monges que
após rezarem para um doente jogam cartas e bebem; uma menina dada como
desaparecida que está o tempo todo à vista dos pais; fotografias obscenas
presenteadas a duas meninas em um parque que se revelam surpreendentes e
principalmente um franco atirador que mata pessoas à esmo do alto de um prédio
de Paris.
Buñuel (que aparece rapidamente no episódio inicial espanhol
sob os créditos como um dos condenados à morte) novamente despeja ironia feroz
e sarcasmo sobre seus alvos prediletos: a burguesia, a autoridade constituída,
o clero, a hipocrisia, as convenções sexuais. A falta de trama não torna o
filme vazio. Pelo contrário, a sucessão de surpresas cativa o espectador e a
trivialidade dos acontecimentos tornam os desenlaces surreais ainda mais
desconcertantes. Fazendo-nos, como em grande parte objetivava o movimento surrealista,
enxergar a realidade com outros olhos. Um filme especial que envelheceu um
pouco, se tornando por momentos lentos e irritantes (e não é para todos os
públicos) de um dos mais autorais diretores da história do cinema. O título,
uma citação do início do Manifesto Comunista de Marx e Engels, pode tanto ser
uma crítica ao comodismo burguês quando ao radicalismo esquerdista. Ambiguidade
bem típica de Buñuel. Só há registro de prêmios de direção pelos críticos
italianos e O National Board of Review. O titulo é uma referencia ao Manifesto
Comunista e o título original, traduziu em vez de Especreto com Fantasma. O que
o torna uma sátira a mentalidade burguesa que tem medo da liberdade, mas também
uma critica aos partidos comunistas rígidos da época.
A Morte neste Jardim (La Mort en ce Jardin) ***
México,França , 1956. 100min. Direção: Luis Buñuel. Elenco:
Simone Signoret, Georges Marchal, Michel Piccoli, Tito Junco, Charles Vanel,
Michele Girardon. Adaptação: Luiz Alcoriza. Baseado em livro de José-André Lacour.
Sinopse: Na Guiana Francesa, em 1945, fronteira do Brasil,
um golpe militar obriga garimpeiros a fugirem, um velho com sua neta, uma
prostituta, um padre e um aventureiro que se embrenham pela selva tropical.
Esteve inédito durante anos no Brasil, este pouco conhecido
trabalho do espanhol Buñuel na época ainda exilado no México. Ele ainda não era
tão famoso, mas mesmo assim conseguiu reunir um ótimo mas heterogêneo elenco.
Para compensar o canastrão central Marchal (1020-97), tem o veterano Vanel, a
estrela Signoret e o ainda coadjuvante Piccoli, todos como vítimas de uma
violência militar que os obriga a fugir para a fronteira através da selva, que
seria o jardim. Buñuel volta a trabalhar a cores (tinha feito antes Robison Crusoe) com o sistema Eastmancolor
com resultado bem interessante. Mas o roteiro é fraco e mal desenvolvido, com
alguns toques estranhos (como a cobra que é devorada pelas formigas gigantes),
alguma filosofada, tudo narrado da forma clássica que o diretor gostava.
Insatisfeito com o script, ele o reescrevia todos os dias de madrugada e tudo
durou apenas 3 semanas. Parece ter tido pretensões comerciais em meio a certos
temas subversivos (a igreja colonialista, a exploração de diamantes, a policia
atirando nos manifestantes, depois o fuzilamento, personagens ambíguos e
complexos, certo toque de Tesouro de
Sierra Madre). A estreante francesinha Michele Girardon que também fez Hatari de Howard Hawks e interpretou
uma jovem muda, se suicidou em 75, quando tinha apenas 37 anos. Segundo o
diretor Simone Signoret estava tão apaixonada por seu marido Yves Montand que,
a caminho do México, colocou documentos comunistas no passaporte na esperança
de ser impedida da imigração americana!
O Diário de Uma Camareira (Le Journal d’une Femme de Chambre)
***
França, Itália, 1964. 95min. Diretor: Luis Buñuel. Elenco:
Jeanne Moreau (1928-2017), Georges Géret, Michel Piccoli, Daniel Ivernel,
Fançoise Lugaigne, Jean Ozenne, Muni, Jean Claude Carrière. Baseado em livro de
Octave Mirbeau (1850-1917). Houve versões da mesma história como Segredos de Alcova com Paulette
Goddard, 46, de Jean Renoir, uma versão homônima de 2015, de Benoit Jacquot,
com Lea Seydoux, Vincent Lindon. Uma outra desconhecida de 2011 de Bruno
François Boucher.
Sinopse: Jovem camareira
vai trabalhar no interior da França, em casa de família rica repleta de taras e
esquisitices, e acaba se envolvendo também na investigação do estupro e morte
de garotinha da região.
Após uma sucessão de filmes realizados no México, Luis
Buñuel (1900-83) realizou na França essa adaptação livre do livro de Mirbeau. É
uma história muito erótica, cheia de ambiguidades e subentendidos, bem ao gosto
do diretor, e cujas ironias cruéis sobre as relações entre patrões e empregados
lembram justamente o cinema de Jean Renoir. Não faltam aspectos tipicamente
buñuelianos: a crítica mordaz às elites, o anticlericalismo, o fetiche por pés,
o final irônico e inesperado. E há ainda a beleza e o talento de Jeanne Moreau
(em sua autobiografia, aliás, Buñuel diz que a escolheu para o papel justamente
pelo modo como ela caminhava usando saltos altos!). Uma pequena obra-prima do
genial diretor. O Chiappe que é visto sendo saudado aos gritos pelos fascistas,
numa sarcástica homenagem de Buñuel, era o chefe da polícia parisiense que,
entre muitos outros gestos autoritários, proibiu a exibição do filme do diretor
A Era do Ouro (L’Âge d’Or, 1930) e fascistas destruíram a sala de cinema que o
exibia.
Simão do Deserto (Simón del Desierto ) ***
México, 1965. 43 min. Diretor: Luis Buñuel. Elenco: Claudio
Brook, Silvia Pinal, Enrique Álvarez Félix, Hortensia Santoveña.
Sinopse: No século IV, o santo Simão vive sobre uma
altíssima coluna no meio do deserto, penitenciando-se porque deseja estar mais
perto de Deus e fica por lá durante 37 anos consecutivos. Mas é tentado pela
falta de fé das pessoas e pelo próprio Satanás.
Comentários: Buñuel realizou no México, com dinheiro do
produtor Gustavo Alatriste, marido da estrela Silvia (que havia sido
Viridiana), este filme muito pessoal, que lança um olhar novo sobre os seus
proverbiais ateísmo e anticlericalismo. Era um projeto tão próximo ao diretor
que, quando o dinheiro acabou, ele abandonou a idéia inicial (que teria
metragem normal) e finalizou o que tinha com seus próprios recursos, adicionando
um epílogo inesperado e mesmo assim deixando o filme com menos de uma hora de
duração. Baseado na vida de São Simão Estilita, que teria vivido no século VI e
passado sessenta e quatro anos no alto de uma coluna, Buñuel relê a sua moda o
santo, feito pelo mexicano Claudio Brook. Com muita ironia, mas simpatia e até
respeito, ele mostra as dificuldades do santo para levar a cabo sua penitência.
Não pelo desconforto físico ou pelo sofrimento, mas pelo que ocorre embaixo, ao
pé de sua coluna. Seus milagres são recebidos com indiferença pelo povo, os
monges têm dúvidas sobre ele e o próprio Satanás (sugestivamente feito por
Silvia) o tenta de diversas maneiras e procura fazê-lo descer para o chão e
abandonar seu suplício.
O filme tem um clima de comédia, mas é
basicamente uma reflexão filosófica séria sobre o contraste entre a fé pura e
desinteressada e a religião estabelecida, que traz a reboque a indiferença, o
fanatismo, a idolatria. Buñuel ganhou o prêmio especial do júri e o da crítica
em Veneza. Curiosamente o então já consagrado Glauber Rocha faz breve figuração
no filme. A fotografia é do mestre mexicano Gabriel Figueroa. Ganhou premio do
Júri e da Crítica no importante Festival de Veneza. O santo que inspirou o
filme era chamado de Simeon Stylites o Sírio. Este foi o último filme do
diretor no México onde fez 20 filmes em seu período de exílio da ditadura na
Espanha. Foi inspirado no livro The Golden Legend, uma biografia de santos do
século 13.
A Arte de Robert Bresson
Edição em Digistack pela Versátil. Com 2 DVDs, 4 Cards,
em versões restauradas, uma hora de extras incluindo documentário sobre o
cineasta.
Diretor francês, nascido em 25 de setembro em Bromont-Lamothe, na Auvergne.
Os críticos o adoravam, o público o detestava. Seus filmes não fazem
concessões, são rigorosamente concebidos e montados, quase sempre sem utilizar
atores profissionais (sua única descoberta que se tornou profissional foi
Dominique Sanda). Chamado de o "jansenista" do Cinema francês, pelo
rigor e disciplina de seus trabalhos, que também podem ser chamados de
“minimalistas”’. Suas fitas são difíceis, mas irrepreensíveis. Começou como
pintor e passou mais de um ano como prisioneiro de Guerra. Apesar de ter
trabalhado como roteirista e dirigido em 1934 um média-metragem, Les Affaires
Publiques, uma sátira burlesca cujas cópias desapareceram, Bresson considerava
que sua carreira começou com O Diário de
um Padre (embora tenha feito apenas 14 filmes em 50 anos!) onde passou a
usar amadores como modelos (não os chamava de atores). Os títulos em português
via IMDB, traz versão nem sempre original que passou em cinemas comercialmente,
mas também titulo usado em festivais! Morreu aos 98 anos em Paris (só estreou
no cinema aos 42 anos). Mas se aposentou antes na década de 1980 quando não
conseguiu fundos para a produção de um desejado Livro do Genesis.
Dir.: 1934 – Les Affaires Publiques (Média Metaragem. Comédia).
1943 – Anjos do Pecado (Les Anges du Péché. Rennée Faure, Jany Holt). 1944 – As
Damas do Bois de Boulogne (Les Dames du Bois de Boulogne. Maria Casarés, Elina
Labourdette). 1950 – O Diário de um Padre ou O Diário de um Paroco de Aldeia ( Le
Journal d'Un Curé de Campagne . Claude, Armand Guilbert). 1956 – Um Condenado à
Morte Escapou (Un Condamné à Mort s’est Echappé. Françoise Leterrier, Charles
le Claiche). 1959 – Pickpocket (Idem. Ou O Batedor de Carteiras. Martin
Lassale, Marika Green). 1962 –O Processo de Joana D´Arc ( Procès de Jeanne
D'Arc. Florence Carrez, Jean-Claude Fourneau). 1966 – A Grande Testemunha (Au
Hasard Balthazar. Anne Wiazemsky, Françoise Lafarge). 1967 – Mouchette, a
Virgem Possuída (Mouchette. Nadine Nortier, Jean-Claude Guilbert). 1969 – Uma
Mulher Delicada (Une Femme Douce. Dominique Sanda, Guy Frangin). 1971 – Quatro
Noites de um Sonhador (Quatre Nuits d’Un Rêveur. Isabelle Weingarten, Guillaume
des Forêts). 1974 –Lancelot do Lago ( Lancelot-du-Lac . Luc Simon, Laura Duke).
1977 – O Diabo Provavelmente( Le Diable Probablement (Antoine Monnier, Tina
Irissari). 1983 – O Dinheiro (L’Argent. Christian Patey, Sylvie Van der Eisen).
A Grande Testemunha (Au Hasard Balthazar)****
França, Suécia, 1966. 95 min. Diretor: Robert Bresson. Elenco:
Anne Wiazemsky, François Lafarge, Philippe Asselin, Nathalie Joyaut, Walter
Green, Jean-Claude Guilbert.
Sinopse: O burrinho Baltazar passa de bicho de estimação de um
grupo de crianças a animal de trabalho, maltratado por todos. Ao mesmo tempo
testemunha a infelicidade de sua primeira dona.
Comentários: Apesar de menos celebrado e famoso que O Processo de Joana d'Arc ou Pickpocket, esta é uma das obras-primas
do mestre francês Robert Bresson, um comovente e muito católico drama sobre o
sofrimento e desamparo dos inocentes. Tudo no estilo austero e sem artifícios
de Bresson em uma narrativa com o uso muito pessoal do realismo que
caracterizava o diretor. Basicamente é a exposição nua dos padecimentos do
burro Baltazar e de sua antiga dona (a talentosa estreante Anne Wiazemsky, que
seria depois por pouco tempo mulher de Godard, que seguiria carreira e se
tornaria também escritora). O filme já começa mostrando-o sendo batizado pelo
grupo de crianças que o cria com carinho. Quando elas crescem e ele é vendido
para uma sucessão de donos, encontram-se nas mais diversas situações, o animal
vítima de maus-tratos e crueldades pela sua condição, a moça de humilhações e
decepções por seu amor e carência, os outros indiferentes ou egoístas. Bresson
não se preocupa em desenvolver uma trama e sim em mostrar, sem se envolver,
como os fortes submetem e tiranizam os fracos. Fiel a sua regra de usar atores
amadores o diretor chegou ao extremo de recusar animais treinados (exceto na
breve sequência do circo), causando uma infinidade de transtornos nas
filmagens. Que, no entanto, não transparecem no delicado, ainda que chocante,
resultado final, tocante e surpreendente e fora de qualquer padrão dos filmes
sobre animais. Ganhou prêmios dos Críticos franceses, Premiado no Festival de
Veneza pelo Cineforum, Novo Cinema, OCIC e San Giorgio.
Mouchette, a Virgem Possuída (Mouchette) ****
França, Itália, 1967. 78 min. Diretor: Robert Bresson. Elenco:
Nadine Nortier, Jean-Claude Guilbert, Marie Cardinal, Paul Hebert, Jean
Vimenet. Baseado em romance de George Bernanos.
Sinopse: A jovem Mouchette vive na miséria com sua família,
sofrendo ainda com o descaso do vilarejo. Em uma noite chuvosa foge para o
bosque onde tem um estranho encontro com um caçador.
Comentários: O melodramático título brasileiro desse clássico do
francês Robert Bresson não podia ser mais inadequado, porque nada está mais
distante do cinema duro e seco de Bresson, com encenação rigorosa e sem
artifícios, do que o melodrama. Na verdade é uma descrição sóbria (e, por isso,
mais contundente) do efeito devastador da miséria sobre uma adolescente (a
marcante amadora Nadine Nortier, que nunca mais fez nada). Com o distanciamento
e isenção que eram sagrados para Bresson. Ele mostra a vida cinza de Mouchette
em um casebre com a mãe doente e o pai e o irmão alheios, cuidando sem recursos
do bebê, sofrendo com a crueldade dos colegas de escola, o sadismo dos
professores, a caridade temperada com desprezo mal-dissimulado das vizinhas.
Até que em uma noite de chuva estabelece uma estranha e até patética
cumplicidade com um caçador. É dos filmes de Bresson o que melhor dialoga com o
espectador, sem abusar dos maneirismos estranhos que por vezes dificultam a
apreciação de seus filmes. Além disso, o estilo do diretor, inclusive seu
hábito de usar atores não-profissionais, se encaixa a perfeição ao tema, e
Bresson jamais julga ou toma partido dos personagens, apenas mostrando-os sob a
lupa de seu implacável rigor. Cópia muito boa. Concorreu a Palma de Ouro em
Cannes (ganhou o prêmio católico da OCIC) e também recebeu o prêmio Pasinetti
em Veneza.
Diário de Um Padre (Journal d’un Curé de Campagne) ***
França, 1951. 115min. Diretor: Robert Bresson. Elenco: Claude
Laydu, Jean Riveyre, André Guibert, Nicole Ladmiral, Martine Lemaire, Rachel
Bérendt, Antoine Balpêtré
Sinopse: Jovem padre francês problemático, de paróquia do interior,
conta em seu diário suas atribulações no lidar com os fiéis, suas hesitações
relativas à fé, sua progressiva decadência física.
Comentários: Apesar de ser o terceiro longa-metragem de Robert
Bresson, este é o primeiro realmente Bressoniano. Ou seja, é o primeiro onde é
visível o estilo que tornaria Bresson lendário: a narrativa austera e seca, os
enquadramentos cuidados e geométricos, o uso dramático do som, a direção de
atores (geralmente amadores) voltada à economia e contenção. Como era habitual
em Bresson trata-se de uma adaptação literária, de livro do hoje pouco lembrado
George Bernanos. A opção de ser extremamente fiel ao texto, reproduzindo ao
máximo as palavras de Bernanos, aliada às idiossincrasias de Bresson, produziu
um filme que, como observou André Bazin, é até mais literário que o livro. Com
voz off constante (e que por vezes explica o que está implícito nas imagens) e
diálogos discursivos e longos, o resultado é de uma lentidão e um detalhismo
excessivos, que dilui o intimismo inerente aos conflitos e sofrimentos do jovem
padre frente aos mistérios de sua missão e sua fé em um conjunto pesado e
solene. Também a ambigüidade do personagem (cuja inabilidade em lidar com os
problemas mundanos pode ser vista tanto como elogio como também crítica a fé e
a religiosidade puras e idealizadas) não ajuda o filme para todos os públicos.
Mas os interessados em conhecer um cineasta muito peculiar, extremamente
influente e revolucionário, não se decepcionarão. Ganhou três prêmios da
crítica em Veneza.
Um Condenado à Morte Escapou (Um Condamné à la Mort s´est Échappé
ou Le Vent Souffle où Il Veut) ***
França, 1956. 99 min. 1956. Diretor: Robert Bresson. Elenco:
François Leterrier, César Gattegno, Jean Phillipe Delamare, Roger Treherne,
Charles Le Clainche, Roland Monot, Maurice Beerblocke, Roger Planchon (que
virou depois conhecido ator, diretor teatral e de cinema de filmes como
Lautrec, Dandin inéditos aqui).
Sinopse: Em Lyon, em 1943, André Devigni que luta pela Resistência
Francesa contra o domínio nazista do país é preso e levado para uma cadeia.
Quando recebe sua sentença de morte, também recebe em sua sala um jovem que
pode ser ou não, um espião/delator.
Comentários: Um dos primeiros grandes sucessos do diretor que a
edição abre com Bresson escrevendo “Esta historia é real, eu a conta como ela
acontecer, sem ornamentos”. Com pouca trilha musical (de Mozart), menos austero
que os posteriores, como sempre interpretado quase sempre por amadores. Tem um
ponto fraco: é excessivamente narrado em off, o que incomoda um pouco, mas ao
menos conduz o filme por uma narrativa cheia de cenas escuras. O herói narra
desde que é preso (começa tentando fugir no carro que o conduz para a cadeia),
mostrando sua luta cotidiana com as duvidas, as poucas amizades, a desconfiança
e finalmente a fuga (que é sem grandes lances). Na época teve grande
repercussão critica. O ator François Leterrier depois se tornaria diretor de 20
filmes (o mais conhecido foi Golpes da
Vida/Les Mauvais Coups, com
Simone Signoret, 61, os outros não passaram aqui). Ganhou melhor diretor em
Cannes, foi indicado ao Bafta, críticos franceses e o americano prêmio do
National Board of Review.
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