quarta-feira, 25 de abril de 2018
A Cidade do Futuro
A Cidade do Futuro
Brasil, 2016. 1h16. Direção e Produção: Cláudio Marques e Marília Hughes. Roteiro: Cláudio Marques. Fotografia: Gabriel Martins. Com Gilmar Araujo, Igor Santos, Milla Suzart.
Fico contente que a ação de uma assessora de imprensa que me mandou o Vimeo e me chamou a atenção para um filme que podia passar em branco. Seria um erro e uma pena, já que este A Cidade do Futuro chega com um certo atraso porque teve uma carreira internacional muito bem sucedida. E não é difícil entender porque. Este segundo longa da dupla de diretores baianos (fizeram antes Depois da Chuva, 1013, que não assisti) é um curto mas um sensível trabalho, que conta uma história muito brasileira. É uma boa ideia começar com imagens de arquivo revelando o fato histórico de populações inteiras foram retiradas de sua terra a força nas margens do rio São Francisco porque onde moravam iria se tornar apenas mais um lugar abandonado e sem futuro. O resumo oficial do filme é muito curto, talvez porque todo o filme é sobre gente que fala pouco, mas sabe o que quer. Dizem eles: em uma região marcado pelo machismo e a homofobia, Milla, Gilmar e Igor formarão uma família fora dos padrões. E basicamente é isso que acontece (embora o pôster do filme de certa forma já revela a conclusão, o que não é uma boa ideia. Ninguém gosta de não saber a conclusão antes de entrar no cinema).
Enfim, nada disso atrapalha a narrativa singela e tocante, sobre dois rapazes que se gostam e se namoram discretamente. Isso provoca a reação dos locais (embora o filme não toque mais profundamente sobre os fanáticos religiosos que hoje em dia são cada vez mais agressivos e frequentes). Há também uma moça que não tem problemas em ter relação ainda que passageira com outra garota, mas ela tem um caso com um dos rapazes que a engravida. Forma-se então um triângulo. Discreto (uma única cena de nudez masculina) talvez por isso mesmo que o filme funciona tão bem, difícil não se envolver com a história e sinceridade da intriga. O que também explica a quantidade de prêmios que incluem Melhor filme Latino-Americano no BAFICI, Buenos Aires, Melhor filme internacional no Newfest New York LGBT Film Festival's, Melhor filme Prêmio do Público no Olhar de Cinema Curitiba International Film Festival, Melhor filme brasileiro e melhor direção no 10º For Rainbow - Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual. Mas na verdade merecia, graças a sua sensibilidade, ainda mais.
Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War) por João Felipe Marques
Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War)
Antes de mais nada, o contexto. Argumenta-se que todo e qualquer filme é mero produto de seu contexto, e deve ser analisado como tal, mas este é um caso diferente. A Marvel Studios vem construindo suas franquias com uma abordagem inédita no cinema, onde se estabeleceu um universo propriamente compartilhado, com referências e interligações que, por mais singelas que possam ter sido, contribuíram para a criação de uma única propriedade. Foram 10 anos de produção, 18 filmes, uma inestimável legião de fãs que percorre todos os quadrantes, e tudo isso torna "Vingadores: Guerra Infinita", um filme único.
"Vingadores: Guerra Infinita" é a prometida "conclusão" do Universo Marvel nos cinemas, com diversos personagens compartilhando a tela, pela primeira vez, para combater uma ameaça de escalas megalomaníacas. Os riscos, as consequências e as recompensas foram elevados ao máximo para, finalmente, proporcionar um sentimento de completude para o espectador que acompanhou o crescimento destas franquias com fervor. Era com certeza uma aposta arriscada, cujas expectativas geradas dificilmente seriam satisfeitas, afinal... é apenas um filme.
O quê mais me fascina nesta experiência de acompanhar este verdadeiro evento da cultura pop, é o fato de que "Vingadores: Guerra Infinita" trará uma discussão que ainda deve perdurar muito dentro do cenário cinematográfico. Digo isso, pois o primeiro instinto após assistir ao filme foi dizer: "Isto não é um filme normal".
Há diversas maneiras por onde se poderia analisar esta culminação de diversas franquias em uma única obra. Em uma perspectiva mais conservadora, enxergo "Vingadores: Guerra Infinita", na verdade, como um episódio de série de televisão. São diversos personagens em tela e diversas narrativas que já estão sendo acompanhadas há anos, pouco a pouco. Como se fosse um típico "season finale" (último episódio de uma temporada de televisão), o filme procura agregar todos estes fios narrativos em uma grande e recompensadora conclusão. Se na TV, isso já é algo dificilmente conquistado à primeira vista, no cinema então, sempre foi visto como um movimento arriscado demais para qualquer grande produção.
Isso significa que "Vingadores: Guerra Infinita", na verdade, ignora diversos aspectos que constituem uma obra cinematográfica apropriada. Não se importa com apresentações ou contextualizações, estrutura narrativa e construção de personagem convencionais, ou mesmo recompensas emocionais universalmente eficientes. É um emaranhado de tudo que funcionou durante a trajetória do Universo Marvel e, ciente desta eficácia comprovada, joga pelas suas próprias regras.
Sendo assim, por uma perspectiva menos tradicional e mais contemporânea, "Vingadores: Guerra Infinita" é a prova de que a Marvel Studios faz parte de uma revolução na maneira como estes grandes blockbusters devem ser consumidos pelo público nos próximos tempos, sempre em busca de um investimento emocional alongado, assim como as grandes séries atuais da televisão vem conquistando. Não importa, por este lado, que o filme efetivamente não tenha final. A maneira confiante com que os Irmãos Russo e Kevin Feige decidiram encerrar este longa só comprova o quanto a Marvel está caminhando fora dos parâmetros comuns pelos quais obras cinematográficas são julgadas pela crítica especializada.
O real parâmetro para esta ambiciosa produção está em seu público apaixonado, imediatista e que busca o prazer na sensação de pertencimento que estes filmes proporcionam. Se todo filme deve ser julgado por sua proposta, "Vingadores: Guerra Infinita" deve cumprir seus objetivos mais imediatos e ser considerado um sucesso. No entanto, ao invés de sacar os lucros desta enorme aposta, o filme resolve dobrá-la, e deixar a verdadeira conclusão, a verdadeira recompensa que tanto o público quanto a crítica buscam, para o ano que vem (com VIngadores 4).
Há de se notar um mérito particular da Marvel Studios, evidenciado em "VIngadores: Guerra Infinita": Não há nenhum estranhamento ou falta de naturalidade na maneira como estas franquias e personagens acabam se relacionando. Seja na fotografia, na trilha sonora ou na própria narrativa, a sensação é de que tudo isso sempre fez parte do mesmo universo.
Essencialmente, "VIngadores: Guerra Infinita" é parte de um esquema ainda maior. Suas principais ambições só poderão ser conclusivamente criticadas após o resultado propriamente dito. Por hora, deve satisfazer a todos aqueles que já acompanham este universo e se sentem parte dele. Já para todos aqueles que não costumam se empolgar com filmes da Marvel Studios, não é aqui que serão convencidos de que estas franquias merecem sua atenção. Um cenário interessante está por vir, e devemos passar a nos perguntar se a maneira como encaramos os grandes blockbusters até hoje ainda é válida diante deste novo modelo, ou se a distância entre a crítica e o público atual só irá aumentar ainda mais.
João Felipe Marques - Crítico e Redator de cinema em www.plugou.com
Vingadores: Guerra Infinita
Por Adilson de Carvalho Santos
Leitores de quadrinhos foram conquistados pela continuidade
no Universo Marvel quando a editora nasceu ainda na primeira metade da década
de 60. A ideia de que eventos na história de um herói seriam conectados a
eventos de outros ajudou a reforçar o tom dramático pretendido, além de prender
a atenção do leitor. Reproduzir essa conexão em filmes sequenciados foi um
desafio vencido pela editora, hoje um estúdio dos mais bem sucedidos, e agora
prestes a entregar um dos mais aguardados filmes do gênero, que ajudou a
consolidar na Hollywood moderna.
São mais de 60
personagens em cena (entre principais, coadjuvantes e participações especiais)
reunidos em uma batalha épica que servirá de um longo epílogo para sua atual
fase. Inicialmente anunciado como um filme dividido em duas partes, ao menos
até que os irmãos Anthony e Joe Russo anunciaram que Vingadores 3 e 4 seriam
filmes independentes porem interligados. O desafio dos diretores é manter a
coesão em um elenco diverso, geralmente repleto de egos inflados, e a coerência
com um total de 18 filmes iniciado há dez anos quando Jon Favreau ressuscitou a
carreira de Robert Downey Jr entregando-lhe o papel de Tony Stark em “Homem de
Ferro” (Iron Man). Ao final deste, a presença de Samuel L. Jackson como Nick
Fury na primeira de várias cenas pós créditos que se tornaram marca registrada
dos filmes da Marvel. Como os personagens mais populares da editora já estavam
sendo filmado por outros estúdios (Homem Aranha na Sony, X Men na Fox), a
decisão foi aproveitar os outros heróis do catalogo e, na primeira fase, estes
foram apresentados ao público, nos filmes “O Incrível Hulk” (lançado dois meses
depois do filme de Jon Favreau), “Homem de Ferro 2”, já no ano seguinte,
seguido de “Thor” e “Capitão América: O Primeiro Vingador” (ambos de 2011). Ao
final deste, Steve Rogers desperta no mundo atual dando sinal verde para a
reunião de todos em “Vingadores” (2012), hábilmente dirigidos por Joss Whedon.
Mostrando que tudo era apenas uma pequena amostra do poder de fogo do estúdio,
Whedon só encerra o filme depois que após os créditos surge a figura sinistra
de Thanos como o arquiteto da batalha vencida pela equipe que ainda inclui em
suas fileiras o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), a Viúva Negra (Scarlett
Johansson) e o Hulk (Mark Ruffalo substituindo Edward Norton). Desde então o
confronto com Thanos tem sido uma ameaça constante, mas velada a medida que o
estúdio seguia deixando para trás uma série de adaptações mal sucedidas como o
“Quarteto Fantastico” de Roger Corman ou o seriado do “Homem Aranha” nos anos
70, período cuja única exceção foi a série do “Incrível Hulk” com Bill Bixby e
Lou Ferrigno.
A Marvel passou a colecionar sucessos com personagens desconhecidos do grande público como “Guardiões da Galáxia” (2014) e “Homem Formiga” (2015), além de construir trilogias individuais com Homem de ferro, Thor e Capitão América. Grande triunfo foi o acordo entre a Sony e a Marvel que permitiu que o Homem Aranha, seu herói mais popular, fosse integrado ao assim chamado “Universo Cinemático Marvel”, a partir de “Capitão América: Guerra Civil” (2016), e em seguida “Homem Aranha Volta ao Lar” (2016). A venda da editora para a Disney só aumentou o poder de fogo dos heróis da editora, mesmo que desentendimentos com a Universal tenham impedido a realização de mais um filme solo do “Hulk”, fazendo do gigante verde uma espécie de coadjuvante de luxo de filmes como “Thor Ragnarok” (2017), sub aproveitando a trama da hq “Planeta Hulk” diluída no filme do Deus do Trovão.
A Marvel passou a colecionar sucessos com personagens desconhecidos do grande público como “Guardiões da Galáxia” (2014) e “Homem Formiga” (2015), além de construir trilogias individuais com Homem de ferro, Thor e Capitão América. Grande triunfo foi o acordo entre a Sony e a Marvel que permitiu que o Homem Aranha, seu herói mais popular, fosse integrado ao assim chamado “Universo Cinemático Marvel”, a partir de “Capitão América: Guerra Civil” (2016), e em seguida “Homem Aranha Volta ao Lar” (2016). A venda da editora para a Disney só aumentou o poder de fogo dos heróis da editora, mesmo que desentendimentos com a Universal tenham impedido a realização de mais um filme solo do “Hulk”, fazendo do gigante verde uma espécie de coadjuvante de luxo de filmes como “Thor Ragnarok” (2017), sub aproveitando a trama da hq “Planeta Hulk” diluída no filme do Deus do Trovão.
A cada filme a trama
tecida apontava um plano maior com as joias do infinito, artefatos de grande
poder que reunidos em uma manopla, podem destruir o universo. O Tessaract é a
joia do espaço, a primeira mostrada em “Thor” e em seguida “Capitão América: O
Primeiro Vingador”; A joia da mente é a que foi entregue a Loki no cetro usado
pelo vilão asgardiano em “Vingadores” (2012) e que foi depois usada para criar
o sintozóide Visão em “Vingadores: A Era de Ultron” (2015); o éter de “Thor:
Mundo Sombrio” (2013) é a joia da realidade, introduzida pouco antes da joia do
poder em “Guardiões da Galáxia” (2014); e a joia do tempo é o olho de Agamotto
apresentado em “Dr.Estranho” (2016). Falta apenas uma, a joia da alma, cujo
paradeiro certamente será revelado agora com a chegada de Thanos na Terra.
A estratégia
conduzida por Kevin Fiege, presidente da Marvel, foi aproveitar tramas oriundas
dos quadrinhos, mesclando material clássico (a origem dos heróis, o robô
Ultron, as joias do infinito) com histórias mais recentes (guerra civil, o
soldado invernal) reunindo atores renomados para papeis periféricos (Anthony
Hopkins, Michael Douglas, Cate Blanchett, Kurt Russell, Robert Redford) com
talentos mais jovens (Chris Evans, Chris Hemsworth, Tom Holland, Benedict
Cumberbatch, Chris Pratt) – incluindo claro a pedra fundamental do elenco,
Robert Downey Jr cujo salário de 44 milhões coroa seu carisma diante do público
que tem correspondido com devoção a cada sucesso do estúdio como o recente “Pantera
Negra”, cuja bilheteria doméstica já desbancou até mesmo filmes como “Titanic”
(1998). Tendo em mente o orçamento milionário do novo Vingadores, este estará à
altura da ameaça representada pelo vilão criado por Jim Starlin em “Iron Man
#55” de 1973. Thanos é um alienígena de Titã, lua de Saturno, apaixonado pela
morte e, que emprega todas suas ações homicidas com o propósito de agradá-la.
Os confrontos com os heróis se seguiram por vários anos até atingir seu ápice
em 1977, publicado pela primeira vez no Brasil, no título da Editora Abril “Grandes
Heróis Marvel #1”, seis anos depois. O apetite genocida do vilão voltou quando
este ressuscita em 1990 com a missão de apagar metade dos seres vivos do
universo, e aí surge a ideia da manopla com as joias do infinito reunida em “Thanos:
Em Busca do Poder” alcançando os poderes de um Deus, levando à mini-série “Desafio
Infinito” de 1991, onde estão todas as ideias exploradas no roteiro deste
terceiro filme dos Vingadores. Nos quadrinhos, Thanos só foi derrotado porque
inconscientemente ele assim desejou terminando por se aliar aos heróis contra
uma ameaça em comum nas sequências “Guerra Infinita” (1992) cujo plot é totalmente
diferente do filme homônimo, e “Cruzada Infinita” (1993). Anos mais tarde novas
histórias dariam prosseguimento à jornada do vilão em sua devoção à própria
morte, que aliás é o significado de seu nome vindo do grego Thánatos.
O novo filme ainda aproveita outras fases dos heróis da editora como a nova identidade de Steve Rogers, que depois dos eventos de “Capitão América: Guerra Civil” deixou a barba crescer, largou o escudo e assumiu o codinome “Nômade”, refletindo o que herói fizera originalmente em 1974 nas páginas de “Captain America #180”. Nos quadrinhos Steve Rogers ainda abandonaria sua famosa identidade heróica outras vezes. Mortes são esperadas para esse capítulo, um desfecho arquitetado desde o começo dos estúdios Marvel, mudanças serão sentidas, mas certamente a chegada do filme representará um novo patamar para o filme de super herói, um que nem mesmo o criativo Stan Lee teria imaginado quando criou a primeira hq do “Quarteto Fantástico”, o título que iniciou a casa das maravilhas e que ainda demonstra fôlego para muito mais, que dez anos depois do primeiro Homem de Ferro é celebrado com toda a pompa e circunstância que faz dos Vingadores, os maiores heróis do mundo.
O novo filme ainda aproveita outras fases dos heróis da editora como a nova identidade de Steve Rogers, que depois dos eventos de “Capitão América: Guerra Civil” deixou a barba crescer, largou o escudo e assumiu o codinome “Nômade”, refletindo o que herói fizera originalmente em 1974 nas páginas de “Captain America #180”. Nos quadrinhos Steve Rogers ainda abandonaria sua famosa identidade heróica outras vezes. Mortes são esperadas para esse capítulo, um desfecho arquitetado desde o começo dos estúdios Marvel, mudanças serão sentidas, mas certamente a chegada do filme representará um novo patamar para o filme de super herói, um que nem mesmo o criativo Stan Lee teria imaginado quando criou a primeira hq do “Quarteto Fantástico”, o título que iniciou a casa das maravilhas e que ainda demonstra fôlego para muito mais, que dez anos depois do primeiro Homem de Ferro é celebrado com toda a pompa e circunstância que faz dos Vingadores, os maiores heróis do mundo.
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