quinta-feira, 29 de maio de 2014

LIMITE DO AMANHÃ

LIMITE DO AMANHÃ (EDGE OF TOMORROW) EUA, 14. 113 MIN. Direção de Doug Liman. Com Tom Cruise, Emily Blunt, Bill Paxton, Brendan Gleeson, Jonas Armstrong, Noah  Taylor, Charlotte Riley. Warner.

      Não se pode dizer que seja exatamente original, já que a situação básica do filme (o fato que vai se repetindo ate o herói encontrar uma saída é inspirado por Groundhog Day, 93, Feitiço do Tempo com Bill Murray), os ETs parecem os de Guerra dos Mundos e o ponto de partida, um oficial de gabinete ser forçado a lutar é completamente ilógico e inconvincente (curioso: mais o diretor teve medo de deixar claro que certos elementos são de comédia e devem ser encarados como tal. O fato de Cruise ir forçado a lutar naquele começo de filme só mesmo como piada).

      O incrível é que este é outra produção de e com Tom Cruise que é ficção cientifica (logo depois de outro do gênero, Oblivion, bem inferior a este) ou fantasia (como se ele evitasse papeis mais humanos e sinceros, são já 18 anos desde Jerry McGuire! Teria desistido de conseguir um Oscar? Pois aos 52 anos, Tom ainda segura em filme de ação e algumas cenas ainda é ele que cai e apanha! ). Desta vez temos dois bons roteiristas chamados por ele :Christopher McQuarrie (Os Suspeitos e para Cruise, Jack Reacher, Operação Valquiria) e Jezz Butherworth (Jogo de Poder, A Isca Perfeita).  E o primeiro encontro com o diretor Doug Liman (que quase se arruinou com Sr e Sra Smith mas antes fez bons trabalhos no primeiro Bourne, a Identidade, Vamos Nessa).

      E sem mais retórica: este No Limite do Amanhã é divertido, super bem produzido, interessante e mesmo um pouco difícil de seguir ao menos pelo espectador casual e desatento. Cruise faz Cage, oficial de relações publicas, que é  obrigado a ir lutar no que pode ser a batalha final e decisiva com seres extraterrestres que dominaram a Terra e estão ganhando a guerra. Graças a uma grande guerreira Rita ( a inglesa Emily Blunt, cada vez mais encantadora) eles partem otimistas. Mas é uma cilada e Cage cai numa praia (lembrando o Dia D) e por acaso entra em luta contra um ET graduado que lhe passa um possível segredo, que lhe permitirá ate mesmo vencer a luta. 

      Mas isso depois de  muitas reviravoltas ou melhor dizendo repetições, de novo, de novo e de novo até finalmente encontrarem um solução e a saída. Ou não. Não sei se as soluções chegam a fazer absoluto sentido mas é  Guerra dos Mundos mais sofisticado e vitaminado. Achei um filme de ação de primeira linha e dos melhores da temporada. Vamos ver só se Cruise ainda tem o carisma de atrair e segurar sua antiga platéia.

Ref fim.

MALÉVOLA

MALÉVOLA (MALEFICENT).EUA,14. Disney.97 min.Direção de Robert Stromberg. Com Angelina Jolie, Elle Fanning, Sharlto Copley, Lesley Manville, Imelda Staunton, Juno Temple, Sam Riley,Brenton Thwaites.  

     Há alguns anos atrás eu duvidaria do sucesso desta versão com atores do desenho animado de Disney, A Bela Adormecida , simplesmente por que a faixa etária  que mais freqüentava cinema eram adolescentes masculinos de 12 a 14, que não é o publico alvo desta produção. Ao contrário este é um filme para mulheres de todas as idades, pré adolescentes em particular e crianças pequenas podem se assustar com a figura de Malévola (houve uma proposital busca de semelhança entre aquele filme de 1959, famoso justamente pela presença marcante  da bruxa Malevola e o uso na trilha musical de Tchaikowsky- justamente o balé da Bela Adormecida e que influencia também a musica tema Once Upon a Dream, interpretada agora por Lana Del Rey, nos letreiros finais escolhida por Angelina  Jolie. Todo o elenco foi escolhido de forma que lembrasse justamente as figuras originais, sendo que  Aurora jovem é feita pela filha de Angelina e Brad Pitt).

     Não me sinto muito a vontade para comparar com o desenho (dos mais reputados da Disney, feito em widescreen) simplesmente porque o assisti uma única vez em vídeo  e assim não pertenço ao culto de admiradores da Malévola. 

      Mas se servir para alguma coisa sou fã de Angelina Jolie, que faz um belo trabalho,  ate sutil e controlado, ainda que um pouco prejudicado por aquela maquiagem que a deixa com duas batatas nas maçãs do rosto, como se fosse obra de um cirurgião plástico desastrado! Ao contrário de outras escolhas da escalação de elenco que pouco acrescentam. Não gosto e não vejo o que trazem  de novo esse super estimado Sharlto de Elysium  e Distrito 9 (ele faz apaticamente o vilão que rouba as asas de Malévola, diminuindo seu poder e provocando sua vingança que seria a maldição dela dormir aos 16 anos ate ser beijada por príncipe).Por falar em príncipe o rapaz escolhido e desconhecido é outra figura opaca , que nada acrescenta. Assim como o britânico Sam Riley que faz o corvo Diaval (outro que não diz a que veio). Também esperava mais graça e alivio cômico por partes das três fadinhas. 

       Em  compensação, Elle Fanning é uma graça como a princesa (bem mais talentosa que a irmã Dakota Fanning). E a produção é de primeira, sempre convincente e adequada. O roteiro de Linda Woolverton (que escreveu a Bela e e Fera, o Rei Leão, Mulan ) faz o possível para tornar menos previsível as mudanças no caráter da heroína. O que eu posso dizer é que as mulheres saíram exultantes da pré estréia, adorando o filme. Os homens foram bem menos expansivos.

Ref fim.  

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Anos Felizes

Anos Felizes (Anni Felici) Itália, 13. Direção e roteiro de Daniele Luchetti. 106 min. Com Kim Rossi Stuart, Micaela Ramazotti, Martina Gedeck, Samuel Garofalo, Pia Engleberth, Ivan Castiglione.

     Este é o filme mais recente de um dos bons diretores do cinema italiano atual infelizmente mal conhecido por aqui apesar de ser amigo e sócio de Nanni Moretti.  Luchetti  fez sucesso com a excelente comédia Meu Irmão é Filho único, 07 e acerta novamente com esta historia assumidamente autobiográfica onde relembra como era sua família, nos anos 70, quando tudo parecia virar de cabeça para baixo. Seu pai era um artista plástico confuso mas bonitão (feito por Kim Rossi Stuart, que é filho de um astro dos spaghetti Western,  Giacomo Rossi –Stuart (1925-94)  e por isso ator desde os cinco anos). Entrou na mania de fazer performances onde tiram a roupa em museus ou na rua mas é incapaz de ser fiel e se entender com sua mulher Serena (a atriz é casada com o já famoso e ascendente diretor Paolo Virzi e se chama Micaela Rammazotti).

     De qualquer forma, o filme foi injustiçado agora há pouco no festival de Pernambuco talvez porque fosse tudo uma “mistureba” indigesta  de produções nacionais (naturalmente favorecidas) com estrangeiras. Ficou apenas com prêmios de consolação (atriz coadjuvante empatada com a atriz que faz a mãe, e montagem). Quando merecia muito mais. 

      Isso é fácil confirmar já que é uma historia terna, divertida, com as melhores qualidades do cinema italiano, com bons atores jovens e que se assiste com muito prazer.
Ref fim.      
     

Gata Velha Ainda Mia

Gata Velha Ainda Mia ( 2013-14). Direção e roteiro de Rafael Primot. Com Regina Duarte, Barbara Paz, Gilda Nomacce. 89 min.

       Este é um momento ruim para lançar filmes brasileiros por causa das salas lotadas com blockbusters e (mais chegando) e a proximidade da Copa e suas conseqüências. Mas este é um filme particular, de baixo orçamento (realizado num único set, pedaço de um apartamento, financiado pelo Canal Brasil ) e que não se preocupa em esconder a narrativa televisiva (não faz nem um único plano externo). Seu maior trunfo é a rara presença estrelar de Regina Duarte madura, que sempre foi uma boa atriz que nem sempre teve as oportunidades de demonstrar seu talento. A facilidade com que interpreta em particular na televisão,  domínando o veiculo, a deixou sempre num segundo plano no cinema apesar de alguns bons trabalhos (Além da Paixão). Menos do que merecia.

       Seu retorno agora é conduzido por um diretor talentoso  Rafael Primo (agora Primot) que anos atrás me chamou para fazer uma aparição num curta dele, Manual para Atropelar Cachorro que me deixou bem impressionado.Desta vez ele envereda num drama que coloca em conflito duas mulheres. Carol (Barbara Paz boa atriz , outra subestimada) faz um jornalista que vem entrevistar uma escritora Gloria Polk (Regina) que foi famosa feminista e que agora esta preparando um retorno com novo livro depois de ausência de anos. Só depois que descobrimos que elas são aparentadas, já que Carol vive com o ex-marido de  Gloria, a quem deu um filho (Gloria teria três filhos mais velhos que são apenas citados  e uma ligação afetiva com outra mulher que não é desenvolvida. Seu problema atual é  encontrar um final para seu livro e exercitar seu talento para cozinhar comidas exóticas). 

       As conversas entre eles (com muitos closes) segura bem o espectador mas Primot não resiste a tentação de citar seus filmes favoritos (de Gata em Teto de Zinco Quente a Crepúsculo dos Deuses, só que os escritores que ficaram menores não os atores). Pior que isso envereda pelos caminhos de Baby Jane  caindo num terror duvidoso.

       Não acredito que o final seja satisfatório e teria preferido um pouco mais de humor no caldo. Regina foi escolhida melhor atriz no Festival do Rio do ano passado e com toda razão e justiça. Agora que façam para ela outro filme e personagem maior que a vida, que Regina merece.

Ref fim.  

X- Men: Dias de um Futuro Esquecido

X- Men: Dias de um Futuro Esquecido (X Men : Days of Future Past) EUA, 14. Fox. Direção de Brian Singer. 131 min. Com Patrick Stewart, Ian McKellen, Hugh Jackman, James MacAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Halle Berry, Nicholas Hault, Anna Paquin, Ellen Page, Peter Dinklage, Shawn Ashmore, Omar Sy, Michael Lerner, Fakmke Janssen, James Marsden.

      Não acredito que o atual escândalo envolvendo o diretor Brian Singer (acusado de violência sexual a um menor numa festa há alguns anos atrás) tenha maior interferência  na resultado deste novo filme da Marvel com os X – Men. Ele não é suficientemente famoso ou importante para interferir com uma franquia que já tem vida própria . E que mais uma vez dá certo. 

      A cronologia excluindo os vídeo-games, é X-Men, o Filme, 2000;  X-Men2, 03;  X-Men, o Confronto Final ( 06);  X-Men Origens: Wolverine, 09;  X-Men, Primeira Classe , 11 e Wolverine Imortal, 13). No final da projeção deste filme tem um clip pequeno do que seria o próximo X Men: Apocalypse, 16). 

     O fato é que a turma toda esta de volta porque o filme começa com uma guerra selvagem que esta acontecendo  e esta liquidando os mutantes. Eles percebem que serão destruídos a não ser que tomem uma atitude radical. Mandam Wolverine de volta ao passado, mais exatamente aos anos setenta (o governo de Richard Nixon) para tentar impedir a ação de um cientista Dr. Bolivar Trask (Peter Dinklage, de  Game of Thrones) que conseguiu uma maneira de aprisionar Raven/Mystique (Jennifer Lawrence) e extrair seu DNA para construir um exercito de robots que serão justamente os guerreiros desse atual conflito. 

       Então a maior parte da ação vai se transcorrer justamente num momento em que esta terminando a Guerra do Vietnã e acontece a conferencia de Paz em Paris, nos bastidores do governo com várias surpresa e reviravoltas,  mas onde o maior obstáculo é justamente conseguir que os professores Magneto e Charles Xavier deixem de ser inimigos para se unirem na luta contra o mal em comum.

     Assim Wolverine encontrará o jovem Xavier (o bom e jovem James MacAvoy) e terá dificuldade de convencê-lo   a ajudá-lo.  Mesmo porque Erik também tem suas idéias próprias. 

      Não gosto de ficar relatando fatos do enredo, tirando o prazer de surpresas e neste filme sucedem varias delas, sempre com senso de humor e bons efeitos especiais (a luz do dia como em Capitão America II) chegando a uma conclusão bastante satisfatória. Embarquei no filme com bastante prazer, alguma surpresa, apreciei o elenco (fui dar uma olhada na coletiva de Patrick Stewart e James MacAvoy  e nenhum deles me decepcionou. James acho dos melhores atores jovens do momento e Patrick, é um respeitável senhor shakespereano). Alias o elenco todo é bom, unindo Jennifer Lawrence com o seu ainda namorado Hoult (A Besta), mesmo que ela use um maiô escondendo a nudez coisa que a atriz anterior não fazia! Outro acerto da Marvel! 

Ref fim.
     

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Godzilla

Godzilla (Idem) EUA, 14. Direção de Gareth Edwards. 123 min. Com Aaron Taylor Johnson, Elizabeth Olsen, Dave Callaham, Ken Watanabe, Bryan Cranston, Sally Hawkins, Juliette Binoche, David Strathaim.

     Faz tempo que não via um filme tão ruim, tão escuro, tão errado e equivocado quanto este novo Godzilla que faz a versão anterior de Matthew Broderick e Jean Reno parecer um grande divertimento. Foi produzido pela Legendary a firma que fez 300, Circulo de Fogo, Homem de Aço, a serie Se Beber não Case, Jack Caçador de Gigantes, Fúria de Titãs II, Sucker Punch, ou seja, já cometeu muitos crimes em sua existência. Mas nenhum tão chocante quanto este realizado por um novato de tudo britânico Gareth Edwards  (que tinha feito antes um certo Monsters, 2010, que nunca vi (era ficção científica sobre fim do mundo) que parece não ter noção de coisa  alguma. Não adianta chamar Juliette Binoche para matá-la depois de alguns minutos em cena, nem usar o ator do momento Bryan Cranston (um milagre  até ele parece perdido e não chega sequer a convencer mas não chega a estar tão ruim quanto o protagonista (em termos) do filme que é Aaron Taylor Johnson (Kick Ass, Anna Karenina) que parece ausente ou dopado, completamente fora do ar. Personagens aparecem e desaparecem sem deixar sua marca ou terem ao menos um diálogo mais sensato e que não seja explicando alguma coisa. 

     Realmente para transformar Godzilla, celebre monstro japonês em coadjuvante em seu próprio filme precisa ser muito desligado. Ele aparece praticamente no meio do filme e desta vez resolveram levar ele a sério, mal se vê seu rosto, os seus olhos, ou seja não tem expressão. Chegou a me parecer aqueles transformers de Noé, todo pedregoso. Pois é, a historia é uma confusão nada, querendo ir beber nas experiências atômicas americanas, que teriam despertados outros monstros que não sei por que  diabo são inimigos de Godzilla que passa a enfrentar eles (são um casal de um bicho esquisito radioativo que parece usar bengala e não tem cara!). Tenho que confessar que nunca fui fã deste dinossauro japonês da Toho que teve 28 diferentes produções (! )mas  me  divertiu ocasionalmente o fato de ser um homem de borracha que destruía maquetes de cidades, puro precursor do Trash e daqueles seriados tipo Jaspion e que tais. Eram ingênuos e tão mal feitos que por isso divertiam. Talvez seja justamente o maior erro da nova versão. É respeitosa com um Monstro feio e inexpressivo demais. 

       Mas aqui custo a encontrar palavras para descrever a abominação, começando pela falta de humor. Caindo depois na direção de arte, o design. Uma das razões porque curti tanto Capitão America 2 foi pelo fato de realizarem os efeitos especiais a plena luz do dia, quando a regra é sempre ter um fundo escuro e sombrio porque facilita muito o resultado.  Mas se aquele filme já chegou a esse ponto, este resulta feio,  grotesco, disparatado (lembra um pouco o que Guilheme del Toro fez com Circulo de Fogo). Custa a começar, as cenas de ação são fracas e confusas, o galã é um incompetente em todos os sentidos. Nem a destruição em massa impressiona. Sabe quando da vontade de se beliscar para ver é verdade? Não foi alucinação minha!! Realmente até agora o pior filme do ano. 

Ref fim .

terça-feira, 13 de maio de 2014

GODZILLA & OS MONSTROS DO CINEMA

GODZILLA & OS MONSTROS DO CINEMA
 POR ADILSON DE CARVALHO SANTOS 

        Desde tempos imemoriais, a crença em monstros faz parte do folclore de várias civilizações. Como a  figura do Kraken (uma espécie de lula gigante). Na época das grandes navegações, eram incontáveis os relatos de serpentes marinhas. Até hoje, turistas viajam a Escócia à procura de algum sinal do lendário monstro de Loch Ness. Por isso é lógica que a ideia de um animal de proporções colossais que destrói tudo por onde passa sempre foi explorada no cinema. 

         A estreia da nova versão de “Godzilla” chega no ano em que este completa exatos 60 anos. No filme original, um gigantesco lagarto pré-histórico cujo hálito pode cuspir fogo foi despertado pela ação de testes com armas nucleares que provocaram uma mutação em sua natureza jurássica. O rastro de destruição que acompanha seus passos acaba com Tóquio até que o sacrifício de um cientista põe um fim na marcha mortífera da criatura. Dirigido por Ishiro Honda, “Godzilla” representou para a terra do sol nascente um demônio a ser exorcizado: A radiação nuclear e a queda da bomba atômica em Hiroshima & Nagasaki eram como um flagelo incutido na memória coletiva do povo japonês e personificado na figura de Godzilla, ou no original “Gojira”, aglutinação de duas palavras nipônicas : Gorira (Gorila) e Kujira (baleia). O filme da Toho company chegou a ser indicado para melhor filme pela ‘Japanese Academy Awards’, mas perdeu o prêmio para “Os Sete Samurais” de Akira Kurosawa. Curiosamente, os efeitos especiais não receberam a mesma honraria, apesar da competência do técnico Eiji Tsuburaya, o mesmo que anos depois criaria o herói “Ultraman” para a TV. Tsuburaya se recusou a empregar a técnica de stop-motion (usada no clássico “King Kong”, por exemplo) e fez uso do que foi depois chamado de “suitmotion”, ou seja, um ator usa uma fantasia especial se movimentando com auxílio de aparatos mecânicos por um cenário de miniaturas e maquetes mescladas a cenas de multidão. A roupa de Godzilla pesava em torno de 90 kilos e o ator que a vestia, Haruo Nakajima, se movimentava com grande dificuldade pelos cenários, não conseguindo andar mais que 9 metros com a vestimenta.

            Em 1956, o mesmo Ishiro Honda dirigiu “Rodan, o Monstro do Espaço” (Sora no daikaju Radon) em que um pterosauro mutante aterroriza Tóquio. Primeiro filme japonês de monstro a cores, o pterosauro teve o nome modificado no ocidente, do original Radon (redução no Japão para puteranodon) para Rodan porque havia nos Estados Unidos um sabonete com o mesmo nome. Outra mudança na versão americana foi a voz do Professor Kashiwagi que foi redublado (embora sem ter sido creditado por isso) por George Takei, o Sr.Sulu de “Jornada nas estrelas”. Mudanças como esta se tornaram comuns para a ocidentalização dos monstros japoneses. Sendo assim, a mariposa gigante “Mosura” do filme de 1961 virou Mothra, a Deusa Selvagem”, novamente dirigida por Ishiro Honda, nesta altura já reconhecido em sua terra como um especialista em “Kaiju Eiga” ou “Daikaiju Eiga” como são chamados no Japão os filmes de monstros. Mothra foi o primeiro filme japonês de monstro em que a criatura surge não como um avatar do mal, mas com uma divindade idolatrada pelos habitantes da ilha Beiru, onde cientistas exploram a região e sequestram duas mulheres nativas, despertando assim a ira de Mothra que parte em seu resgate. Sua popularidade não demorou para que os produtores a colocassem em um mesmo filme que “Godzilla”. Não demoraria também para que além da Toho, outro estúdio se interessasse pelo gênero. Em 1965, os estúdios Daiei lançam “Gamera” , uma tartaruga gigantesca vinda do ártico para destruir Tóquio, último filme do gênero no Japão a ser filmado em preto e branco. O sucesso dele também seria seguido por uma série de outros filmes.           
  
                Alegorias da mente humana, defensores ou destruidores, essas criaturas ganharam imensa popularidade a medida que expurgavam os fantasmas da radiação atômica que atormentavam os japoneses. No ocidente a aparição dessas criaturas, bem como de alienígenas, espelhavam seus outros medos, mais adequados ao temor da guerra fria. Assim, os Estados Unidos tiveram o homem-peixe de “O Monstro da Lagoa Negra” (The Creature Of The Black Lagoon) de 1954, o gigantesco polvo de “O Monstro do Mar Revolto” (It Came From Beneath the Sea) de 1958, criado com a técnica de stop-motion do mestre Ray Harryhausen, a geleia disforme e devoradora de “A Bolha Assassina” (The Blob) de 1959 – tendo este revelado o talentoso Steve McQueen. A Inglaterra também embarcou no gênero e criou seu próprio lagarto gigante em “Gorgo” (1961) de Eugene Lourie, praticamente uma cópia britânica de “Godzilla” com Londres no lugar de Tokio. O mesmo diretor já havia filmado em 1953 “O Monstro do Mar” (The Beast from 20000 Fathoms) , baseado em uma história curta de Ray Bradbury, e que trazia a mesma premissa de Godzilla: a do monstro pré-histórico despertado por testes atômicos no Atlântico Norte e que vem a atacar a cidade de Nova York. Por ter sido feito um ano antes de Godzilla, muitos o consideram a inspiração para o filme de Ishiro Honda.

              O sucesso e a popularidade de Godzilla sempre foi superior a dos demais tendo retornado em diversas continuações e refilmagens em um total de 30 filmes, sendo que 7 deles tiveram a direção de Honda incluindo os curiosos “King Kong vs. Godzilla” (1962) , “Mothra vs. Godzilla” (1964), “Ghidrah, o Monstro Tricefálo” (1964) que também trazia Rodan, “A Guerra dos Monstros” (1965) e “Terror Contra Mechagodzilla” (1975). Com exceção do primeiro Godzilla de 1954, o lagartão com barbatanas dorsais e pele cinzenta e áspera que deu vida aos pesadelos dos japoneses deixou de ser seu algoz para ser defensor da humanidade nas sequências feitas, entrando em combate com outros monstros, e até com alienígenas, para salvar a Terra. Dessa forma, Godzilla tornou-se um fenômeno popular tanto no oriente quanto no ocidente onde foi americanizado com uma nova versão dois anos depois de seu lançamento original. O filme de Ishiro Honda foi remontado para lançamento internacional e com acréscimo de um novo personagem, o repórter Steve Martin (Raymond Burr) que é enviado ao Japão para cobrir o ataque de Godzilla. O processo que incluía dublagem das vozes originais se repetiu constantemente com Mothra e os demais filmes do gênero que ganhariam lançamento internacional.

             Mesmo que na década de 70 e 80, o gênero já estivesse desgastado na América; no Japão o rei dos monstros é recriado para uma nova geração em “The Return of Godzilla” (1984) , muito antes que o reboots se tornassem comum. Dirigido por Koji Hahimoto, esse filme recupera a figura da fera como vilão. O ator Akhiko Hirata, que no filme original interpretou o Dr. Serizawa, que cria a fórmula usada para matar Godzilla, foi quase incluído nesse novo filme, mas infelizmente um câncer de garganta o matou antes. O filme, contudo, não teve um impacto tão grande assim apesar de outros exemplares continuarem a ser feitos no Japão. Uma nova tentativa de  ocidentalizar o monstro foi feita em 1998 pelo diretor Rolland Emmerich, que havia realizado o blockbuster de sucesso “Independence Day”. Emmerich aceitou recriar “Godzilla” depois de garantir a liberdade de promover as mudanças que desejasse, incluindo no visual da criatura já que admitira na época nunca ter sido fã do personagem. Apesar do bom elenco que incluía Matthew Broderick e Jean Reno, o resultado foi insatisfatório com um roteiro que mais parecia um amálgama de toda a série “Jurassic Park”. A perseguição dos filhotes de Godzilla no estádio, por exemplo,  lembrava a perseguição dos velociraptores.  Embora em termos financeiros o filme não tenha sido ao contrário do que se pensou desastroso, não agradou ao público e muito menos a critica. As sequências de ação não empolgavam e abusavam demais do bom senso como Godzilla desfilando por entre os edifícios de Nova York , a perseguição na ponte suspensa ou a criatura cavando tuneis, todas extremamente exageradas para um animal de tais dimensões. A decepção com o resultado desestimulou os planos do estúdio para continuações. Em 2000, o Japão retomou o personagem ignorando o filme de Emmerich em “Godzilla 2000”, que teve lançamento internacional, mas não o impacto esperado. A fórmula do grande monstro, no entanto,  nunca se esgotou no cinema sendo ocasionalmente revisitada como J. J.Abraams em “Cloverfield” (2008) ou Guilhermo del Toro em “Círculo de Fogo” (2012). 

            A popularidade de Godzilla sempre foi diretamente proporcional, um ícone da cultura pop, que ganhou espaço em animações e Hqs. No imaginário popular, todos aprendemos a temer e a adorar o monstrengo, e por isso mesmo justifica-se sua alcunha de “Rei dos Monstros”.

A Recompensa

A Recompensa (Dom Hemingway) Inglaterra, 13. Direção e roteiro de Richard Shepard.  93min. Com Jude Law, Richard E. Grant, Demian Bichir, Kerry Condon, Emily Clarke (Game of Thrones).

     Aqui esta a melhor interpretação de toda a carreira de Jude Law,  que é sempre confiável mas era prejudicado por ser bonito demais (o que leva as  pessoas a não levarem a sério). Aos 41 anos, ele  não disfarça as entradas e esta gordinho no papel titulo, um ladrão, especialista em abrir cofres que passa 12 anos na cadeia recusando-se a revelar que foi seu chefe na expectativa de que no dia em que saísse seria recompensado com dinheiro. Pena que o filme tenha um final abrupto e caia de ritmo na segunda parte quando reencontra a filha e o neto (mulato). Ate que evita sentimentalismo mas não se compara com a brilhante primeira parte. 

      Isso talvez possa explicar o fracasso do seu lançamento nos EUA onde teve bilheteria insignificante  e Jude não teve qualquer indicação a premio como merecia. Quem duvidar que entre para ver os primeiros três minutos quando ele faz um monologo para a câmera, em altos brados fazendo o elogio da beleza e eficiência do seu órgão sexual, a quem compara a uma obra de arte de Picasso ou Renoir. Não posso dar mais detalhes mas é o começo de uma aventura muito bem humorada, quando ele reencontra um amigo (Grant) e vai ate um refugio que parece ser na França, onde vive o chefão (o mexicano Bichir) Mr. Fontaine. Bebe demais, fala demais, dá em cima da garota do patrão,e mas mais ou menos na metade do filme acontece um incidente que muda toda a situação. 

      Pena que essa parte final não tenha mais o ímpeto e originalidade deste roteiro muito inteligente feito pelo diretor americano Shepard (tem feito muito tevê recentemente com episódios de Girls, Salem, mas fez algo parecido com O Matador com Pierce Brosnan). De qualquer forma, vale a pena conferir. 

Ref fim  
     

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Praia do Futuro.

Praia do Futuro.  Brasil, 14. Direção de Karim Ainouz. 106 min. Roteiro de Karim e Felipe Bragança. Com Wagner Moura, Clemens Schick, Jesuita Barbosa, Savio Igor Ramos, Sophie Charlotte Conrad, Thomas Aquino.´

     Nem todo mundo sabe que Praia do Futuro fica no Ceará e existe mesmo, fica relativamente perto de Fortaleza e foi criada artificialmente (como o aterro do Rio) para ser um bairro elegante da cidade, com uma praia mais bonita (as melhores da região ficam muito distantes) embora hoje em dia tenham sido prejudicadas pela presença de favelas próximas e violência. E também pelo mar bravio, o que explica a necessária presença de salva vidas. (ou guarda vidas como costumam dizer no Nordeste). Disso tudo partiu a inspiração para o diretor cearense Karim (famoso por Madame Satã, nunca vi o outro longa dele muito elogiado, O Abismo Prateado) realizar este filme misturando também sua experiência na Alemanha (tem vivido em Berlim há  algum tempo).

      Foi uma decisão corajosa como ator e campeão de bilheteria do astro Wagner Moura aceitar este papel que foge aos anteriores. Vai causar alguma polemica mas também ajudar na luta contra a homofobia, já que há algumas cenas fortes (nada explicito porém sugestivas e como se sabe, as pessoas escondem mas são muito preconceituosas. Ate  os brasileiros). Ele faz um salva vidas Donato que trabalha ali na praia e logo no começo do filme tenta salvar um banhista estrangeiro que esta morrendo afogado. Apesar de lutar muito, a vitima esta em pânico e dificulta o resgate, acaba morrendo. Donato fica desolado assim como o companheiro dele, um alemão que fala português chamado Konrad (Schick, que esteve em filmes famosos como Circulo de Fogo, Cassino Royale, Largo Winch II, num total de 51 créditos).

       Pior ainda quando o corpo não aparece. Mas os dois iniciam uma relação sexual. O filme então dá um salto e os dois já estão na Alemanha, onde Donato luta conta o frio e uma sociedade diferente (não se aborda, porém questão de papéis ou emigração!). Experimentam viver juntos, mas há altos e baixos. O filme prossegue tão frio quanto a paisagem enquanto o diretor prefere perseguir personagens, evitar muitos diálogos ou explicações e estende seu gosto pelos planos fechados . Chega mesmo a ficar um pouco distanciado demais.

      Felizmente há um terceiro capitulo que começa sem explicações falando de um fantasma que fala alemão mostrando  um rapaz bem jovem que perambula pela cidade em busca do não se sabe o que. Mas há uma finalidade nisso e o curioso é que o próprio filme fica mais bonito, com imagens mais estéticas enquanto se caminha para uma solução interessante e humana (ainda que prolongada).  Sem duvida é um filme para publico de arte mas ainda assim me pareceu o mais acessível e bem resolvido do diretor. Mas que não terá recordes de publico. 

Ref fim.

Heli


Heli [México/França/Alemanha/Holanda, 2013] de Amat Escalante. Drama. Com Armando Espitia, Andrea Vergara, Linda González. 105 min.

    Não conhecia o diretor Escalante, de origem mexicana mas nascido na Espanha, a não ser pela sua polemica vitória como melhor diretor por este filme no Festival de Cannes. Muita gente achou exagero ainda mais se considerando que é um filme modesto, de poucas palavras, duro, frio, violento mas não em excesso. E que no fundo não conta nada de novo. 

     Heli é um rapaz que já tem um bebe com sua namorada e vive com a irmã mais novo,  Estela que tem 12 anos mas está apaixonada e fazendo sexo com r um jovem cadete. Só que ele desvia pacotes de drogas para que eles possam fugir e se casar. Por causa disso, todos serão vitimas da violência.

      Este foi o filme indicado pelo México para concorrer ao Oscar de produção estrangeira mas não emplacou. Acho que porque simplesmente não é excepcional e deve ter sido premiado apenas porque Spielberg nunca deve ter visto algo semelhante antes. Mas esse tipo de historia é já tradicional no cinema latino e em qualquer Festival. Novamente é aquele estilo de perseguir atores com a câmera, ou então entrar numa camionete e caminhar pelo deserto, entremeado de diferentes formas de violência (morte de cachorro, tortura com crianças jogando videogame, enforcamentos, tortura etc). Só que a realidade desta vez é ainda mais crua e cruel do que a ficção.

Ref fim.  

O Passado

O Passado (Le Passé) França, 13. Le Passé. Direção e roteiro de Agshar Farhadi.130 min. Com Bérénice Bejo, Tahar Rahim, Ali Mosaffa, Pauline Burlet, Sabrina Ouazani.

      Sempre achei o filme anterior do diretor iraniano super estimado, sem chegar a ser a obra-prima que todo mundo decantou e que levou o Oscar de filme estrangeiro. Mas sem duvida era forte, contundente, humano, e sem papo furado. O momento da verdade chega agora com este seu sexto longa que ele foi rodar sabiamente na França (já que a situação da censura no Irá esta de mal a pior). Se não chega a ter o mesmo impacto, ainda se sente uma mão segura por trás das situações (e chegou a dar a argentina Bérénice, a estrela de O Artista, o premio de melhor atriz em Cannes. E também o premio Ecumênico, uma indicação ao Globo de Ouro, ao César em 5 categorias (mas não levou nada). Foi indicado oficialmente pelo Irã para o Oscar estrangeiro mas não ficou entre os finalistas.  Ou seja não teve a consagração que se previa. 

     Não há duvida que mesmo sendo inferior ao anterior, O Passado sem trazer nada de novo (mesmo a protagonista esta especialmente brilhante) ainda interessa e prende a atenção. Quem iria fazer o papel central era Marion Cotillard, que teve que largar o filme por causa de compromissos anteriores com Ferrugem e Osso. Uma rodagem complicada porque o diretor não fala francês e teve que se comunicar com a equipe por interpretes assim como o ator central Ali Mosaffa (filho de famoso poeta iraniano, ele não é conhecido fora de seu país e aqui usa obviamente uma peruca! Já que é careca). O filme levou quatro meses em rodagem porque o diretor insistiu em dois meses de ensaio!!! Na verdade não faz grande diferença que tenha sido rodado na França, porque quase tudo ocorre em ambientes interiores dentre portas e janelas de um subúrbio pobre de Paris.

      Bérénic é Marie, que esta separada há quatro de Ahmad (Mosaffa) que vem do Irã para finalizar o divórcio deles. A principio ele é o observador tranquilo de tudo, principalmente de Marie com seu novo namorado, Samir (Rahim, que desde O Profeta virou um dos galãs favoritos da Europa) e os três filhos que vivem com eles. E como sempre são as crianças os maiores perdedores nesse tipo de conflito familiar. E vai se criando a tensão entre os dois homens. Samir cuida de uma lavandeira perto do farmácia onde trabalha Marie. Um dos filhos Fouad não é de Marie ex-de Samir que esta em coma há alguns meses. Ahmad é mais próxima de Lucie de 16 anos, que parece esconder algo. A critica elogiou muito o filme porque o roteiro vai aprofundando os fatos sem tomar partido. De fato, quem aprecia o gênero e os filmes orientais, é muito capaz de embarcar neste. 

Ref fim.

domingo, 27 de abril de 2014

Florbela

Florbela (Idem) Portugal, 12. Direção de Vicente  Alves do Ó. Com Dalila Carmo, Ivo Canelas, Albano Jerônimo, José Neves, Antonio Fonseca. 119 min.

    Adoro o país mas não sou muito admirador dos filmes de Portugal e tenho que me controlar para não fazer piadinha com o nome melhor dizendo o sobrenome deste diretor. Já que no Brasil não durava uma semana sendo apresentado como o Senhor Ó!!! Enfim, eu acho o cinema deles quadrado, pesado, lento, formal mais ou menos alias como quase tudo que os portugueses fazem, tudo muito ao pé da letra. Ate mesmo sua esplendida literatura.  Fiquei muito curioso de ver o filme sobre uma lenda justamente da literatura portuguesa que é a poetisa Florbela Espanca de quem sempre ouvi falar na classe teatral e nunca tive chance de ler. Alias sai do filme também sem conhecê-la direito.

    Toda critica portuguesa que eu li fala da cena de sexo que abre o filme que para nos é básica, sempre de roupa e ate desagradável porque ela aparece toda machucada, depois de Levar uma surra. O filme parece ser bem cuidado, rodado em grandes mansões antigas, com móveis, jardins e figurinos encantadores. Mas tudo é tão falso, tão posado, os atores são tão duros que parecem.. parecem... ah, parecem muitos filmes brasileiros.  Mesmo a moça que faz o papel central não tem nem a garra, nem a presença física que justifique o resultado.

     Florbela Espanca (1894- 1930) batizada como Flor Bela de Alma da conceição Espanca era filha bastarda que se matou com apenas 36 anos. O pai ficou rico com varias profissões inclusive antiquário e dono de cinema. Sua mulher legitima era estéril e teve filhos em caso extraconjugal, Flor e 3 anos depois o irmão Apeles registrados como filhos de pai incógnito.  Ele só reconheceu a filha 18 anos depois de sua morte (e nunca o filho). 

        Flor foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar o curso secundário e se casou com colega de escola. Sua produção poética só iria encontrar algum sucesso após sua morte. De qualquer forma casou-se 3 vezes e manteve uma paixão incestuosa por seu irmão que iria morrer num acidente(ou não) de aviação , só que o ator que o interpreta é tão desagradável que provoca total rejeição da platéia.  Logo depois ela tenta a primeira vez suicídio. Eventualmente morreria de overdose  de barbitúricos.Ou seja, essa historia sem duvida da margem a um bom filme. Só que não é este.  Seu único mérito é provocar uma intensa vontade de conhecer a obra de Florbela.

Ref fim.    

Espetacular Homem Aranha 2: a Ameaça de Electro

Espetacular Homem Aranha 2:  a Ameaça de Electro (The Amazing Spider Man 2) EUA, 14. Direção de Mark Webr. 142 min.Com Andrew Garfield, Emma Stone, Sally Field, Jamie Foxx, Dane HeHaan, Colm Feore, Felicity Jones, Paul Giamatti, Embeth Davidtz, Campbell Scott, Marton Csokas, Stan Lee.

      Ainda mal nos recuperamos dos últimos blockbusters, o Capitão America e quem diria, o Noé e já temos que consumir o Segundo filme do Reboot (retomada?) do Homem Aranha, que de qualquer forma eu prefiro ao original. Basicamente porque o ator é melhor, não é bonito, não tem cara de galã mas é sincero, convincente e competente também na  comédia (a primeira parte felizmente curta traz ele fica fazendo piadinhas e fiquei com medo de que tivesse pegado a síndrome de Iron Man! Ainda bem que é passageiro e serve para o espectador se acostumar de novo com o personagem após o hiato de dois anos). Afinal, este Marvel é que foi o pioneiro da onda dos heróis de quadrinhos, antes que a companhia fosse comprada pela Disney e mantivesse o seu alto padrão de qualidade (como nada perfeito, eu bem que tentei assistir a serie de teve mas é mesmo muito fraca!).

      O surpreendente aqui é que eles tentam ser diferentes, nem tanto de muitos quadrinhos mas ao menos no cinema e de certa maneira correm riscos. E não sei bem porque não promovem a presença de outro super vilão muito querido, que é o Goblin.  Enfim, tem uma coisa que eu não gosto que é a mania americana de insistir nessa tecla da falta de pais e a falta que os filhos sentem de seus pais. Isso é coisa do tempo do Spielberg e ET e vive sendo reprisada e refeita. Não tem mais cabimento achar que um adulto vá viver a vida inteira sofrendo porque o pai teve que o deixar, já que não é difícil imaginar uma boa razão. Aqui, o Peter Parker seria a vitima, que derrama lágrimas junto com a tia (a sempre ótima Sally Field e as cenas entre eles estão entre as melhores do filme). O que reclamo é que existem milhões de pessoas que tem uma vida estável e completa porque há muita gente nessa situação, inclusive no Brasil e nas favelas, já que pais com freqüência não gostam de responsabilidades!  No caso deste Dr. Richard Parker  então ainda mais claro que houve problemas já que era cientista, trabalhava numa empresa de gente perigosa e com segredos de estado! Era óbvio que esse segredo serviria alem de tudo para neste exemplar explicar as loucuras que se passam na empresa.

      Fora isso, o filme é muito bem amarrado, com uma historia de amor convincente, já que o casal se formou na High School (Stan Lee tem piadinha na festa de formatura) agora parece que vai se separar porque Gwen Stacy (Emma Stone) esta para ganhar uma bolsa de estudos em Londres e ela quer muito ir para lá, custe o que custar. Mas tudo isso vai sucedendo também junto com o surgimento de outro super vilão, no caso o Electro ,feito em grande parte digitalmente por Jamie Foxx, o curioso é que ele começa com um fã do Homem Aranha, que vai virando a casaca quando sofre um acidente e vira uma espécie de monstro que absorve a eletricidade e pode provocar apagões e ate coisas piores!

      A outra trama central é o antigo amigo de escola de Peter  que é  o complicado Harry Osborn  e que vem a ser o mesmo personagem vivido na trilogia anterior pelo James Franco. Fizeram bem em escolher outro ator mais fraco e sofrido, com uma aparência de vitima (o Dane de Haan que surgiu de repente na terceira temporada da serie Em Terapia/In Treatment, passou por True Blood, Poder sem Limites, Os Infratores, aquele O Lugar onde tudo Termina com Ryan Gosling, uma pontinha em Lincoln,  e faz James Dean agora num novo filme chamado Life). Ele consegue trazer um pouco de neurose que ira resultar num Goblin (Verde) muito mais sinistro do que da serie anterior. 

      Movimentado, cheio de efeitos (não sei como eles podem ir sendo superados, já que estão bons há muito tempo!), com confrontos finais a la Video-game, com tudo isso o novo Homem Aranha corre riscos. E acho isso bom. Diferente e ousado. Acredito que irão aprovar. Mesmo com que inicial relutância. 
Ref fim.                    

Inch'Allah

Inch'Allah (Idem). Produção Canadense/Francês Dirigido e escrito por Anais Barbeau-Lavalette. 101 min. Com Evelyne Brochu, Sabrina Ouazani, Sivan Levy, Yousef Sweid.


    Não fez em São Paulo boa carreira no circuito de arte este drama que foi premiado na mostra paralela Panorama de Berlim (pela critica e ecumênico), também indicado a 5 Genies, o Oscar canadense, levou o Jutra de coadjuvante (para Sabrina), ganhou Festival de Phoenix.

     Naturalmente não é um filme fácil ou digestivo e a diretora de Quebec fez antes o Making of do Premiado Incendios.  Voltando mais uma vez a falar dos conflitos sem solução entre Israel e Palestinos durante a Ocupação.

      A historia é narrada pelo ponto de vista de uma jovem obstetra que trabalha para as Nações Unidos numa clinica no campo de refugiados em Jerusalem. Ela tem uma vida pacata, indo trabalhar passando por inúmeros controles e a noite saem para beber e dançar com uma vizinha Ava . Na clinica fica amiga de um paciente grávida Rand (Sabrina, que rouba o filme) cujo marido esta esperando ser sentenciado numa prisão israelense e seu irmão ativista. Quando Rand perde o bebe, Chloe não pode ir lhe ajudar mas a situação se complica fazendo com que ela viole seu juramento de Hipocrates. Talvez a atriz que faz a protagonista seja inexpressiva demais mas ainda assim dá uma visão convincente de uma situação que parece insolúvel e sem esperança. A fotografia curiosamente foi feita pelo pai da diretora.  O titulo é uma expressão que quer dizer “ Se Deus Quer”. 

Ref fim.

Temporada de Caça

Temporada de Caça (Killing Season) EUA/Belgica, 2013. California. Direção de  Mark Steve Johnson. Com Robert De Niro,John Travolta, Milo Ventimiglia, Elizabeth Olin, Diana Luybenova. Em DVD.

     A estréia próxima de  Profissão de risco, um filme B que nunca mereceria a participação de Robert De Niro me fez procurar este outro filme já do ano passado que eu tinha deixado passar.  Culpa destes tempos complicados onde ha poucos lançamentos nas locadoras que estão conseguindo sobreviver (assim mesmo com problemas, se eu quero comprar um Blu Ray de “Gilda”, por exemplo,  não tem disponível, sou obrigado a fazer pedido e esperar dias!). Antigamente eu tinha o habito de deixar alguns filmes menores, inclusive nacionais, para assistir depois em casa, em DVD, já que eles saiam regularmente. Hoje não mais. Difícil fugir da pirataria e se habituar com Netflix e Now, ambos sucessos retumbantes. Ou seja, não da mais para eu fazia antes trazia uma dúzia de filmes em DVD para assistir em casa em dois dias!

     Não tem como não ficar triste em ver De Niro, que já foi o maior ator do mundo, na opinião de todos perdendo seu tempo em filmezinhos de terceira categoria (as vezes com outros em decadência com Stalone no recente Ajuste de Contas). Eu tenho a teoria de que ele esta trabalhando em qualquer coisa para juntar dinheiro para deixar fortuna para seus filhos já que antes trabalhava ganhando menos que a concorrência porque fazia projetos pessoais quase sempre independentes e sem grana. E isso deve ter começado no dia em que se descobriu mortal e com uma ameaça de câncer. Laurence Olivier fez a mesma coisa provando que ser bom pai pode ser uma qualidade deles. Mas o risco é imenso.  Acabar com sua reputação. Tenho certeza que se um cineasta brasileiro quiser bancar a vinda de De Niro para um projeto médio aqui, não teria muitos problemas (não nesta época de Festival do Tribeca que ele dirige,  já que foi um dos salvadores de Nova York depois dos atentados). 

      Acho bem capaz que ao ler o roteiro deste filme europeu ele pensou que poderia ter uma chance melhor dramática e pensando bem esta menos ruim do que em outros recentes, inclusive o já citado Profissão de Risco.  O filme tem certa densidade e ao menos ele não tem que usar aquela infeliz barbichinha que porta o Travolta. Para não falar no sotaque esquisito que tem que fazer. Esse nunca foi muito bom nem na época das discotecas. Mas o roteiro alem de lembrar The Deer Hunter (O Franco Atirador, titulo alias errado, do mesmo De Niro) mexe na ferida da guerra da Servia e a tragédia de uma quase guerra civil cheio de estupros e abusos.

     Assim pelo que se entende, De Niro era um mercenário que participou dos crimes e agora Travolta vem em busca da vingança, caçando ele na região montanhosa onde vive caçando cervos. Consegue se aproximar, ficam meio amigos, mas no fundo é uma caçada humana e os dois ficam se atirando um no outro jogando verdades entre si. O diretor Johnson (O Demolidor, O Motoqueiro Fantasma)  não tem boa reputação mas segura a historia com certo interesse.  Aquela historia de De Niro ter um filho que mesmo brigado quer lhe mostrar sua netinha é outra coisa que também não funciona. Mas só se perde  mesmo no final, que é prolongado, estendido e mal resolvido.  Mas é triste se ver dois astros que lutam para manter sua fama cair nessa (Travolta aqui não repercutiu mas na festa do Oscar chamou a cantora Idina Menzel, por um nome completamente diferente que inventou na hora (Adele Dazeem). E foi um escândalo.

     Enfim, queria também contar para os leitores que não estou vendo menos filmes que costume, só escrevendo menos e por uma boa razão: estou terminando de revistar e estender o Dicionário de cineastas que deve sair no segunda semestre deste ano em edição Digital! É um projeto de vida que esta ficando muito bacana!.

Ref fim            

A Grande Vitória

A Grande Vitória. Brasil, 14.  Paris filmes. Direção  e roteiro de Stefano Capuzzi Lapietra. Com Caio Castro, Sabrina Sato, Tato Gabus Mendes, Suzana Pires, Domingos Montagner, Moacyr Franco, Felipe Folgosi, Tuna Dwek e Felipe Falanga.

     É muito difícil o Brasil realizar filmes que escapam das formulas tradicionais: a comédia (a chanchada), o filme de favela, o drama rural /social, a biografia de artista pop. Este A Grande Vitória (que já se chamou antes Aprendiz de Samurai) é uma experiência nova em outra possibilidade  um  filme sobre campeão esportivo, no caso de um campeão  treinador de judô, Max Trombini, baseado em uma biografia de Wagner Hilário. 

      Não há nenhuma garantia de que o tão arisco publico para cinema brasileiro vá assistir o filme mesmo com o chamariz de jovem astro de televisão que é Caio Castro, meio tosco, baixinho, barbudo, limitado, mas que vem com aquela naturalidade de novela.  É uma velha tradição de nosso cinema que nenhum astro de novela leva qualquer um aos cinemas, nem mesmo Antonio Fagundes no apogeu da juventude. Por outro lado, eu que vivo reclamo dos péssimos roteiros não posso me queixar deste que é alias como tudo no filme extremamente correto e profissional. Talvez as crianças no começo sejam meio fracas, e como sempre não parecem o similar adulto, mas fora isso tudo é bem feito e demonstra que o diretor não faltou demais as aulas da FAAP ou da  faculdade americana que cursou. 

      A historia começa com Sabrina Sato na piscina (o que é sempre fotogênico) comunicando ao rapaz que esta grávida, o que pode atrapalhar seus planos de se mudar para os EUA. Volta-se em flash back para a infância dele em Ubatuba, onde são muito pobres e ele é muito briguento em parte porque ressente a ausência de um pai que sumiu. Quem cuida mais dele, é o velho avô (a primeira experiência realmente dramática de Moacyr Franco, que está humano e convincente). Depois é seguir a carreira do moço, que arranja um bom mestre de judô (Tato Gabus Mendes, outro que convence e ajuda muito o filme) e vai para Bastos.  O pai é feito por  Domingos Montagner, um personagem mal explicado mas que ganha muito com sua figura carismática. Enfim, não chega a ter pretensões a ser um karate kid.É apenas uma interessante e bem contada historia real O protagonista faz um papel no filme e aparece na ceninha final nos letreiros). João Carlos Martins faz a trilha musical (pela primeira vez) embora não tenha visto  sua versão final.                    

Ref
 

Getulio

Getulio. Brasil, 14. Direção de João Jardim. Produção de Carla Camurati. Com Tony Ramos, Drica Moraes, Alexandre Borges, Clarice Abujamra, Leonardo Medeiros, Fernando Luis, Murilo Elbas, Marcelo Medici, Adriano Garib, Silvio Matos, Murilo Grossi, Paulo Giardini,  Thiago Justino, Claudio Tovar, Daniel Dantas. 

     Só mesmo num país como o Brasil é que se deixou para fazer  apenas agora uma biografia sobre o ex-ditador e ex-presidente Getúlio Vargas que morreu em 1954  que ate agora foi mostrado em um par de documentários longas (mas nos anos 60), em algumas series de teve Globo (ate bem feitas) e como coadjuvante em alguns longas (como Osmar Prado que o fez em Olga, Paulo Betti em Chatô, que naturalmente não vimos e provavelmente nunca o veremos), e o meu favorito Leon Cakoff numa aparição em O País dos Tenentes (era de todos o mais parecido).

     Tony Ramos não se parece fisicamente com a polêmica figura e curiosamente nem tenta.  De vez em quando muito de longe tem um leve sotaque gaucho.  Mas fala com o seu tom habitual, não usa o chapéu famoso (será só eu que vejo o Getulio de chapéu!), no máximo fuma charuto e tem uma barriga postiça. Estão ausentes frases características dele assim como a seu respeito (na verdade,  povo esta totalmente fora do filme, só é visto na cena final quando mostram cenas reais de seu enterro. As imagens de jornais de época só surgem do meio para o fim –e os protestos de ruas em fotos na mão de Alzirinha! O que mais eu senti falta: ele virou um bom ainda que impaciente velhinho. Não é em momento algum um ditador destronado. Tão educado, compreensivo, correto, obedecedor das leis (uma hora diz que rasgou duas constituições não iria fazer isso uma terceira vez. Eu contradigo, para quem vez não teria problema mais uma!). Mesmo a corrupção que rola solta pelo palácio e por sua família, o que fica claro quando se desmascara a figura do capanga Gregório Fortunato (e querem me dizer por que não há uma única cena entre Getulio e ele?? Seriam os dois protagonistas e fundamentais na tragédia que vai se desenrolar. Um teria de enfrentar o outro...).  

      A escolha de não procurar nem de longe imitar Getulio é parcialmente compensada porque obviamente ele existiu antes da televisão e não há muita gente viva que se lembre dele. Nem do seu jeito de agir e falar. Podem muito bem consumir Tony, já que graças a Deus ele é muito bom ator, tem a reações certas, pro meu gosto ate humaniza demais uma figura que sempre será um torturador simpatizante de fascistas/nazistas e não a vitima que esta neste roteiro, um desamparado velho (não se diz a idade dele, alias sonega-se informações de todos os tipos. Por exemplo, o que há entre ele e sua mulher  que mal se falam e obviamente estão separados de fato! E por que um filho esta viajando e não volta e não se fala mais nisso (será filho, como não explicam posso estar errando!). E a única figura que realmente deixa um pouco mais claro que esconde muita coisa, é a eminência parda, a filha Alzirinha, que Drica Moraes torna a melhor coisa do filme . Ao menos da para se ver que é ela que manobra tudo por trás, que tem segredos embora não digam quais são eles! (por isso o pai é tão pouco amoroso com ela, que insiste em ficar em cima dele. Porque esta conspirando com os militares, e coisas piores).

      Para dar maior clima e suspense ao filme, o roteiro inventa um par de vezes cenas de sonho para Getulio se imaginar saindo do Palácio do Catete preso e semelhante. Mas se fizeram isso bem que podiam ter mostrado uma situação onde a família que matava Getulio como a saída para eles todos, o que afinal foi o que sucedeu... É uma hipótese possível e interessante que ninguém ousa levantar  porque ainda há envolvidos por perto... Quem sabe no próximo século!

       Enfim, grande parte do filme foi rodado no Palácio do Catete  e em planos próximos, as vezes ate demais. A escalação do elenco é curiosa, porque coloca humoristas em papeis sérios, como Marcelo Medici de filho médico de Getulio. Até ai tudo bem, mas não consegui engolir  como chefe militar da Aeronáutica   conduzindo os inquéritos justamente o namorado do Crô! 

       No mais o confinamento no Catete que de certa forma seria um forte da trama acaba não  ajudando a trama cheia de “disse que me disse” que vão se complicando porque Getulio se recusa a bloquear a investigação ou mesmo dar um golpe (Isso merecia uma discussão maior!).  Mas vamos ser justos, o filme trata o assunto com dignidade, com alguns poucos erros de época (não se dizia nos anos cinquenta, “mau caráter”) e consegue manter o interesse. Senti certa falta de Brasil (podia ser uma conspiração em qualquer lugar do mundo), do mito de Getulio, de seu passado (não há flash- backs!), de canções de época. Louvo porém o respeito com que tudo é tratado (ate mesmo a figura de Carlos Lacerda  que tem um momento também de humanização, quando fica também aturdido!). 

     No final das contas, porém o problema é o de sempre, o roteiro falho.

Ref fim.

Entre Vales

Entre Vales Brasil, 12. Direção de Philippe Barcinski. Com Angelo Antonio, Daniel Hendler. Foografia de Walter Carvalho, Ines Peixoto, Melissa Vettore.80 min.

     O diretor fez alguns curta-metragens premiados e admirados. Não tem tido a mesma sorte ao passar para o longa mesmo trabalhando para a produtora O2 de Fernando Meirelles (realizou alguns dos episódios da serie de teve, A Cidade dos Homens) com Não por Acaso (97).Naquela ocasião eu escrevia: Phillippe  tem uma sensibilidade especial. Parece que ele tem medo de confrontos, de explicações (o filme tem poucos diálogos, ao contrário de personagens de telenovelas aqui todos são misteriosos e calados), de grandes cenas (nem mesmo numa seqüência de morte nos deixa ver ou explica direito como sucedeu).

     Engraçado que posso dizer a mesma coisa deste segundo longa, igualmente sucinto e com uma trama ainda mais discutível. Certamente a melhor coisa é a presença de Ângelo Antonio (Filhos de Francisco)  que faz o protagonista com intensidade, a única pessoa do elenco que parece sincera e empenhada. Mas é o tipo da historia que condena o filme Entre Vales a ter um publico reduzido. Faz Vicente, um economista pai de um menino Caio, que vive com Marina uma dentista. Ocorre um problema grave e toda sua vida se estraga (só vamos saber do que se trata ao final). Ele que já havia sido visto no lixão desde o começo do filme, só bem depois é que vamos ter finalmente a explicação para sua tragédia. O roteiro é incapaz de dar aos coadjuvantes (é co-produção com o Uruguai mas isso não adianta muito já que um ator ótimo com Daniel Hendler não tem absolutamente o que fazer). A questão é você embarcar ou não no conflito e no drama do Vicente. Mas há algo na visão do diretor que afasta a emoção e o resultado mais uma vez é frio e distanciado. Ou quem sabe pode ser apenas questão de gosto. 

Ref fim.  

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Hoje eu Quero Voltar Sozinho

Hoje eu Quero Voltar Sozinho. Brasil, 14. Direção e roteiro de Daniel Ribeiro. 95 min. Com Ghilerme Lobo, Fabio Audi, Tess Amorim, Selma Egrei, Eucir de Souza, Lucia Romano, Isabela Guasco. 

      Vencedor do premio da critica (na Mostra Panorama) e o Premio Teddy (para o melhor filme gay) do recente Festival de Berlim , este primeiro longa de Daniel  Ribeiro já chega com a reputação de seu diretor que fez dois curtas temáticos muito bem sucedidos e que estão disponíveis no You Tube. Café com Leite (07) premiado como melhor curta também em Berlim, premio Cinema Brasil, Miami e Paulinia entre outros sobre a relação de casal gay, onde um deles tem que cuidar do irmão pequeno. Logo depois ele acertou novamente com outro filme que é uma pequena jóia, chamado Eu não quero Voltar Sozinho (2010), mais premiado ainda (Mix, Paulinia novamente, Torino, Seattle etc). 

      Reparem no detalhe importante: no curta o protagonista cego e adolescente não quer voltar para casa sozinho. No segundo e longa, já mudou de idéia. De qualquer forma, é uma extensão do original com o mesmo elenco, o que é certíssimo, já que estão todos naturais, simpáticos e eficientes. Tanto num quanto noutro. Trabalhando com grande parte de amadores o resultado é totalmente convincente.

      Admito que possa ser ate impressão errada, mas a gente fica com a sensação de que prolongado o filme perde parte de seu encanto. Talvez seja ausência de surpresa, o inusitado que não esta mais lá. Ainda assim será difícil não embarcar nesta situação, graças me parece a naturalidade e simplicidade com que o elenco é conduzido mesmo quatro anos depois. O diretor tem mão para cinema e sensibilidade que fica mais do que evidente ao descrever a personalidade do protagonista Leonardo (Lobo) que é um adolescente cego, que vive com os pais restritos que tentam não serem controladores demais. Com raras visitas a avó (um prazer ver Selma Egrei sempre linda e serena). Tem uma melhor amiga  ciumenta, Giovanna que freqüenta a mesma escola e Leonardo sofre bullying  por parte de colegas por ser deficiente (uma coisa que acho difícil acontecer naquele tipo  de escola, o rapaz perseguido por esse problema mas não por ser gay!).

      Enfim, a situação toda é criada aos poucos, quando surge Gabriel um novo aluno do interior que se junta a dupla e com relutância também se sente atraído por Leonardo. No desenvolvimento da relação, o personagem de Gabriel se explica pouco (acho que falta um pouco mais de conflito para dar mais força ao entrecho). 

       Tudo isso, porém não abala  o fato do filme ser tão ”gostável”, tão bem realizado e sucedido. Chamá-lo do melhor filme gay já feito no Brasil seria reduzi-lo injustamente. Prefiro apostar no talento do diretor que tenho certeza fará uma bela carreira. 

Ref fim.

Noé

Noé (Noah)EUA. 14. Direção de Darren Aronofsky. Roteiro de Darren e Ari Handel. 138 min. Com Russell Crowe, Jennifer Connelly, Anthony Hopkins, Emma Watson, Ray Winstone, Logan Lerman, Douglas Booth, Nick Nolte, Madison Davenport. Paramount. 

      Este é um filme bíblico diferente dos que estamos  acostumados a assistir, quase de autor. Nada a ver com a tradição do gênero praticamente inventado por Cecil B.De Mille (Sansão e Dalila) que misturava sexo e religião. Também é completamente oposto ao filme Bíblia (1966) de John Huston, que também utilizava o Genesis, deixando a parte final para o próprio diretor Huston fazer o Noé, ouvindo a voz de Deus (aqui chamado de Criador!)  e de forma relativamente tranqüila chamar os bichos (a novidade: para não ter problemas com eles, todos eles entram na arca aos pares, meio rapidamente, de tal forma que mal da para identificá-los. E caem dormindo! Talvez tenham feito isso para evitar comparações com outro filme de Arca de Noé, aquela comédia de Steve Carell, A Volta do Todo Poderoso (07),de Tom Shadyac que era caótico mas tinha momentos divertidos. 

      Este é o primeiro filme do diretor Aronofsky   desde Cisne Negro (sempre trabalhando com o mesmo roteirista de todos seus trabalhos) que tem um orçamento generoso (ao que parece 125 milhões tendo rendido 43 milhões de dólares no primeiro fim de semana  e foi rodado  na Islândia, no México (Durango). Houve uma controvérsia muito grande antes do lançamento porque o estúdio sofreu criticas de lideres religiosos cristãos  que o criticavam porque  o filme estaria fugindo da historia. A desculpa oficial era que o trecho que aborda Noé e o dilúvio na Bíblia era muito pequeno e sucinto, não entrando em detalhes. Portanto tomaram liberdades. Darren ficou muito aborrecido porque começaram a fazer diferentes versões do filme e exibi-las , sem consultar  o diretor. O mais curioso é que não perceberam que o trabalho de Darren é muito religioso,ainda que influenciado pelo visão judaica do Velho Testamento. Mas o final foi feliz porque isso serviu de publicidade para o filme que acabou tendo boas criticas e boa bilheteria (ate na Rússia estreou bem!).

      Mas fique preparado porque é um filme sombrio, nada technicolorido, mas não muito violento. Ao contrário é bastante místico, dando uma visão literal do dilema de Noé que acaba sendo um servo de Deus que tem que entender o que ele deseja, embora este nunca se manifeste tão abertamente quanto em filmes anteriores. Ele tem sonhos e precisa decifrá-los e às vezes o faz de maneira errônea. O titulo é correto porque o filme é todo em cima da figura de Noé,  desde jovem  quando relembra a expulsão do paraíso (Adão e Eva são  vistos  como figuras distantes e estilizadas, não dá para ter nudez ) e logo depois Caim matando Abel e dando origem a uma linhagem de homens maus e sem lei, que serão os vilões da História. O fato é que o roteiro fez tudo para tornar a historia mais intensa e conflitada. Assim temos o avô da família  o Matusalém (feito por Anthony Hopkins)  que chega a ter poderes mágicos e o chefão vilão da  tribo que descende de Caim, Tubal Cain (o bom ator Ray Winstone) que até mesmo se infiltrar na arca esperando o melhor momento para  atacar Noé. Além disso, Noé tem três filhos, o mais velho Shem (Douglas Booth, inglês bonitinho e dentuço que antes fez a mais recente versão de Romeu e Julieta, ainda inédita no Brasil) – será este Shem que pela Bíblia Dara  origem aos semitas, ou seja aos que chamamos de judeus. É o bom rapaz que namora uma jovem que convenientemente foi adotada pela família (o problema dela ser estéril será miraculosamente resolvido, alias o único milagre do filme! Por isso parece meio fora de lugar...).  Tem ainda o jovem Jafeth (Leo Hugh Carroll, que parece feminino demais) e o rebelde Ham (interpretado pelo já famoso Logan Lerman, o Percy Jackson) que  faz a linha adolescente rebelde, pensando com os órgãos sexuais e não a razão. Também quer uma mulher para si e entra em conflito com o pai quando não consegue, pensando então em traição.

       Talvez a melhor surpresa do filme seja ver que Russell Crowe  tem seu melhor momento nos últimos anos (na verdade, já o tinha dado como perdido  e canastrão ) mas olha outro milagre, sai-se muito bem num papel muito difícil, que por vezes se torna antipático e tem que tomar decisões muito difíceis, fazendo o filme pesar demasiado. Não é surpresa nenhuma, porém ter o prazer de ver Jennifer Connelly (novamente com em Russell de Mente Brilhante) fazendo a mulher de Noé, Naameh com toda discrição e delicadeza ate o momento em que tem seu grande desabafo. Outra boa figura é a de Emma Watson, que quem diria, amplia sua carreira como Ila, a filha adotada em cima da qual acontece o maior conflito do filme. 

      Outra coisa: gnão espere muitos efeitos de ação ou de 3D com a Arca ou a água da chuva ou da enchente sendo jogada no espectador.  Esta tudo ali a serviço de um drama inusitado, levado e discutido a sério. 

Ref fim.