segunda-feira, 4 de junho de 2018

Em um Mundo Interior


Em um Mundo Interior
Brasil, 17. 75 min. Documentário de Flávio Frederico e Mariana Pamplona. Distribuição Elo Company.

Cada vez mais eu aprecio o trabalho que muitos jovens cineastas têm realizado com documentários. É verdade que existem alguns que se limitam perder tempo com temas superficiais (embora eu tenha que confessar que gosto muito de assistir também aqueles que fazem biografias de cineastas, informativos e curiosos, como um recente que me tocou muito sobre a carreira de Hugo Carvana!). Mas há também os corajosos (e sensíveis) que realizam filmes como este que se apresenta como um dos pioneiros a abordar um assunto tão importante e verdadeiro quanto o autismo, acompanhando durante dois anos a rotina de sete famílias de classes sociais diferentes e também de regiões distintas do Brasil.

Embora o filme tenha me deixado muito emocionado, em momento algum cai no exagero, ou no fácil, ou simplesmente didático. Realizado com delicadeza e sensibilidade, faz  um retrato necessário do que seria o autismo e suas diversas faces, fugindo do melodrama mas também abrindo as portas para as lições de vida e superação. Afinal, como informam os autores, segundo a Organização Mundial de Saúde, no Brasil, cerca de 2 milhões de pessoas apresentam algum grau do transtorno e ele segue considerado uma das mais enigmáticas desordens neurológicas já conhecidas.

Em um Mundo Interior é o primeiro longa-metragem brasileiro sobre o tema, e nos convida a acompanhar o dia-a-dia de Enzo, Julia, Roberto, Igor, Isabela, Mathias e Eric, cujas idades variam entre 3 e 18 anos. Como afirmam os autores, o autismo não tem cura e nem origem definida - há apenas hipóteses, algumas mais aceitas, outras menos - e é  justamente isso que mais atinge o espectador, até porque é triste constatar como diz a diretora “As pessoas de um modo geral não sabem o que é o autismo e muito menos como lidar com ele”.

O filme é uma porta aberta para essa conquista tão importante. Tomara que tenha uma vida longa pelo país todo e seja consagrado pelo que merece.

Eu Não Sou um Homem Fácil (Je ne suis pas un Homme Facile)


Eu Não Sou um Homem Fácil (Je ne suis pas un Homme Facile)
França, 18. 1h38 min. Direção de Eleonore Pourriat. Roteiro de Ariane Fert e Pourriat. Com Vincent Elbaz, Lucie Leclerc, Alan Maxson, Céline Menville, Blanche Garden e Marie Sophie Ferdanne.

Não tenho certeza se este é o primeiro longa-metragem francês da Netflix disponível por aqui (não consegui ainda descobrir outro, até por causa da polêmica recente com o Festival de Cannes e briga com os exibidores locais que exigem três anos de janela para um filme sair de cartaz nas salas de cinema. Curiosamente os críticos locais o rebaixam chamando de “TV movie” quando, na verdade, a televisão tem apresentado produções de qualidade e mesmo de melhor qualidade que a maior parte dos filmes previstos para cinema).

De qualquer forma, achei esta comédia feminista um trabalho bem curioso e divertido dessa atriz (23 filmes) e realizadora Pourriat (fez antes apenas um curta) que me impressionou pelas imagens da cidade atual de Paris (por exemplo, os emigrantes em geral negros em plena ação). E somente reconheci como o astro o Vincent Elbaz (talvez um pouco veterano para o personagem, ele nasceu em 1971, mas tem 56 créditos, pouco deles memoráveis por aqui (O Amor Está no Ar, O Resgate, A 100 Passos de um Sonho). Ele se sai bem como o protagonista de uma situação inspirada numa série de “indian web” sobre o comportamento masculino!

Ele interpreta Damien, um solteirão paquerador mal sucedido, que se apaixona por Alexandra, uma mulher forte e dominadora. Mas será um romance difícil de dar certo, até porque o filme é assumidamente feminista que questiona justamente o comportamento machista do herói. Então no filme sucede o oposto do costumeiro, com as mulheres dominando as relações amorosas em especial contra o chauvinista (me incomoda um pouco a atriz central, que desconheço, Marie Sophie Ferdanne, que é membro do lendário grupo teatral La Comédie Française!), ou seja, as mulheres o tratam como antes ele fazia com o sexo feminino. Não esperem nada muito profundo, mas eu sempre acho os filmes europeus, mais em particular os franceses, mais interessantes e profundos, ainda mais quando abordam esse tipo de relacionamento. Chega perto da sátira, onde as mulheres dominam nos empregos, modas, sexo, família, atitudes. Se estiver disposto, pode ser bem divertido.

Chega de Fiu Fiu



Confesso que muitas vezes por falta de tempo ou disponibilidade, costumo dar preferência para os filmes de ficção (que alcançam um maior público que me cobra os comentários e críticas). Chegou a hora do mea culpa. Ao assistir o documentário “Chega de Fiu- Fiu, o Filme”, de Fernanda Frazão, é que fui realmente perceber o que parecia tão distante e, no entanto é escandalosamente antiquado, grosseiro e atual. Em cada cinco minutos diz o IBGE uma mulher é agredida no Brasil. E denunciar quase sempre não resolve nada.

O primeiro ponto que me atingiu é o fato de que o filme foi muito bem realizado, tecnicamente, como narrativa, como denúncia, mas principalmente dando a palavra as vítimas. As mulheres. Sem exagero ou excesso. Como nas cenas em que a câmera reflete a intromissão e o assédio de homens que passam cantadas nas mulheres o que está sempre apenas um passo de uma violência ou abuso (para evitar esses excessos, a câmera deixa desfocado o rosto do pseudo-galante intrometido).

Não há duvida que não é uma história nova, ao contrario, é banal e historicamente antiquada. Mas pouco mudou, algumas poucas vitórias chegaram a partir de 2003. E teoricamente qualquer homem digno desse nome teria que ter percebido a nossa lamentável tradição histórica que sempre deixou a mulher brasileira numa situação secundária e inferior. Finalmente as mulheres tomam a palavra (embora também haja a presença masculina discutindo as questões e procurando soluções). Gosto também do recurso narrativo de imagem mostrando com frequência a cidade de São Paulo revelada por “Drones”. Os depoimentos no filme são bem equilibrados, incluindo as mulheres negras, as trans, as professoras, as alunas e professoras e docentes, concluindo com dois momentos comoventes, a passeata das mulheres pelas ruas da cidade, seguido pelo poema em tom de “rapper”, cantado pela trans, Rosa Luz, a verdadeira estrela do filme concluindo numa bela paisagem de por de sol. Tenho consciência de que este mero e curto artigo, não é suficiente para resolver um problema tão grave e pernicioso. Mas acrescento minha voz nessa luta de tantas.

O Fellini Brasileiro



Pouca gente deve saber desta história, eu mesmo tinha esquecido. Mas outro dia, resolvi ler de novo o livro autobiográfico do diretor Paul Mazursky, chamado Show me the Magic. Paul (1930-2014), é um realizador famoso por filmes de sucesso como Uma Mulher Descasada, Harry e seu amigo Tonto, Bob, Carol, Ted e Alice, Luar sobre Parador (rodado no Brasil em 88 e estrelado por Sonia Braga, que ele elogia muito no livro). Eu o entrevistei num Festival de Veneza , onde ele apresentou um de seus trabalhos menos notáveis, Fiel mas nem Tanto, 96, com Cher e Ryan O´Neal. Era uma figura muito simpática, acessível, apaixonado pelo trabalho. Eu tinha esquecido de prestar atenção no livro dele ate reencontrar um capítulo muito interessante e que acho que nunca foi discutido no Brasil. Acontece que Mazursky era um grande amigo de Federico Fellini (1920-93), a quem conheceu visitando a Itália, num relacionamento que durou a vida inteira e o convenceu a participar num filme dele, por sinal muito raro, mal passou no Brasil e foi um enorme fracasso de bilheteria e crítica. Fellini faz uma cena onde esta montando um filme e encontra o protagonista Donald Sutherland (o filme se chama Alex in Wonderland/Um Doido Genial, 70) que é um diretor de cinema meio maluco- e autobiográfico que aliás encontra também Jeanne Moreau que canta para ele! Cá entre nós, não é bem sucedido e hoje vale apenas por pura nostalgia. Fellini naquela época já tinha feito sua obra-prima Oito e Meio (63), que é homenageada na história.

Mas o que eu acho interessante é o fato que Fellini e Mazursky se comunicaram a vida inteira por cartas (uma secretária traduzia a maior parte para ele, mas ocasionalmente arriscava o inglês!), mesmo quando Fellini ganhou o Oscar especial por sua carreira. O que nos interessa e vou traduzir, é uma carta da época em que Mazursky estava no Brasil rodando o filme Luar sobre Parador. Eis o que Fellini escreveu para ele:

“Roma, 19 de Outubro 1987

Querido Paul.

Obrigado por uma mensagem afetuosa, mesmo que eu esteja um pouco surpreso por seu entusiasmo pelas mulheres do Rio. O que está querendo dizer? Que, na sua idade, não sabia que elas eram assim? O que andou fazendo este tempo todo? Como pôde viver desse jeito? Eu tinha sete anos, estava numa escola interna em Rimini e a Madre Superiora era brasileira! Que emoções, Paul! Que ‘BUNDA’! (literal no texto!). Depois disso, todas as empregadas domésticas que acompanharam a minha infância e adolescência, até chegar na Universidade foram escolhidas pelo meu pai, que fez todas elas virem do Brasil! Que estranho que nunca conversamos sobre isso antes. E Norma, Fiammetta, de onde você acha que elas vieram? São Paulo, Rio, “Bundoya”, Brasília. Marcello (referência a Mastroianni) também é muito envolvido com o Brasil. É por isso que com frequência eu chamo ele para os meus filmes.

Preciso interromper esta carta e correr para o Grand Hotel, onde 24 dançarinas da Companhia do OBA-OBA estão impacientemente aguardando por mim. Bom, estou feliz por você, antes tarde do que nunca (mas talvez seja um pouquinho tarde demais).

Eu te abraço, Paulino, “e viva la bunda!’. Do seu Federicão.”

Traduzido por Rubens Ewald Filho