quarta-feira, 5 de dezembro de 2018
A Excêntrica Família de Gaspard (Gaspard va au Marriage)
A Excêntrica Família de Gaspard (Gaspard va au Marriage)
França, 2017. 1h43. Direção de Anthony Cordier. Roteiro de Cordier, Julie Peyr, Nathalie Lajem. Com Félix Moati, Laetitia Dosch, Christa Théret, Marina Fois, Johan Heldebergh, Guillaume Gouix, Élodie Bouchez, Vincent Derniard.
Não vai ser a primeira vez que eu vou reclamar o estado infeliz do cinema francês, em particular com atores pouco conhecidos e pouco interesse para o público. Quem sabe quem é o diretor Cordier? O pouco que soube do moço é um filme erótico de grande atração gay chamado À Flor da Pele (2005), e outro de 2010 chamado sintomaticamente de Para Poucos (Happy Few ou Four Lovers, 2010. Neste caso com atores do filme atual como a roteirista Julie, a já veterana Elodie Bouchez, sobre a vida sexual de casal parisiense !). Agora se fala de Gaspard, aos 25 anos, passa a ter problemas quando o pai se casa de novo e ele precisa retornar para o zoológico da família. Com medo de lidar com seus irmãos, ele convence uma desconhecida chamada Laura para se passar como sua namorada. E encontro os bichos, macacos e tigres que havia conhecido quando jovem. O pai dele é um mulherengo, um irmão por demais quadrado e a irmã é demasiado bela. Não vai demorar muito para passar os últimos anos de sua infância. De qualquer forma, a mais curiosa surpresa é que o filme foi muito elogiado por sua fotografia brejeira, certo erotismo e senso de humor. Os franceses ao menos o apreciara bastante.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2018
Robin Hood - A Lenda & os Filmes
Por Adilson de Carvalho Santos
Antes dos super-heróis, o cinema trazia aventureiros de capa,
máscara, chapéu e espadas. Um desses ícones frequentemente revisitados é
ladrão, rebelde, herói e bandido com aventuras foram imortalizadas na
literatura, na Tv, no cinema e mesmo nos quadrinhos.
O personagem, que
entrou para a história como aquele que rouba dos ricos para dar aos pobres,
nasceu na época dos grandes trovadores que narravam grandes feitos em cantigas
passadas de geração a geração, até que o poema Piers Plowman de 1377 tornou-se
o primeiro registro escrito da lenda, de autoria de William Langand. A
referência ao herói é breve, através de rimas, mas não o suficiente como prova
de sua existência. O problema é que as várias versões que se seguiram divergem
entre si, e isso dificulta o trabalho de historiadores em determinar o que é
fato e o que foi ficção na história de Robert Locksley, um nobre privado de
suas terras pelo Príncipe John que usurpou o trono do Rei Ricardo Coração de
Leão, enquanto este participava das cruzadas. Na floresta de Sherwood adotou o
nome de Robin Hood, sendo este uma referência a um tipo de chapéu com pena.
Nottingham, a cidade
inglesa em que se desenrola a história, hoje homenageia o herói com estátua,
museu, passeio pelos locais citados pela lenda e até mesmo uma bandeira
ostentando a silhueta do herói desde 2010. Na literatura, Alexandre Dumas
(autor de “Os Três Mosqueteiros”) escreveu dois volumes intitulados “Robin
Hood, o Príncipe dos Ladrões” (de 1872) e “Robin Hood, o Proscrito” (de 1873). Dez
anos depois o escritor e ilustrador americano Howard Pyle publicou “The Merry
Adventures of Robin Hood of Great Renown in Nottinghamshire”, revistando os
vários feitos que entraram para o cânone da lenda como a luta de bastões com
João Pequeno, o torneio de arco e flecha entre outras. Maid Marian, o interesse
romântico do herói, não aparece em nenhuma das cantigas originais da lenda,
aparecendo pela primeira vez em versões mais tardias, a partir do século XVII. Em
1820, Robin Hood ainda apareceu como um personagem menor na obra de Sir Walter
Scott “Ivanhoe”, considerado primeiro romance histórico do romantismo. Nessa
como em outras encarnações, Hood é retratado como elemento fundamental na
guerra entre Saxões e Normandos na Inglaterra medieval.
Nos primórdios do
cinema, começando em 1908, a lenda foi inicialmente adaptada no curta inglês “Robin
Hood & His Merry Men” dirigido por Percy Stow, ainda no período silencioso.
Em 1912, uma nova adaptação da lenda foi feita na America intitulada apenas “Robin
Hood” com Robert Frazer no papel título. Ainda haveriam mais três versões entre
1912 e 1913, além de uma adaptação de “Ivanhoe” em 1913 até a versão mais
famosa do período, de 1922 igualmente chamada “Robin Hood” e estrelada por
Douglas Fairbanks, que no período do cinema mudo incorporou vários heróis
similares. Acreditava-se que esta pérola tivesse sido perdida mas foi
redescoberto nos anos 60, sendo restaurado em 2009 pelo Museu de Arte Moderna.
No final dos anos 30
a Warner e a MGM disputavam realizar a primeira versão falada, mas foi a Warner
quem acabou levando a cabo sua realização. Convidando Douglas Fairbanks Jr para
o papel central, mas este não estava disposto a repetir os feitos de seu pai.
Foi então que o papel ficou com Errol Flynn, então com 28 anos, vindo do
sucesso estrondoso alcançado em fitas como “Capitão Blood” (1935) e “A Carga da
Brigada Ligeira” (1936), ambos dirigidos por Michael Curtiz e co-estrelado por
Olivia DeHavilland. Curtiz foi chamado pela Warner para concluir as filmagens
de “As Aventuras de Robin Hood”, iniciadas por William Keighley cuja lentidão
nas filmagens ameaçava inflar orçamento e atrasar seu lançamento que veio a
acontecer em maio de 1938.
Curtiz e Flynn se
odiavam e, segundo o renomado site imdb, certa vez Flynn teria se ferido
superficialmente quando um dos dublês, em cena de duelo, teria lutado sem a
proteção na ponta da espada, isso sob ordens de Curtiz. Os duelos foram exímios
e coreografados com perfeição sob a supervisão do especialista Fred Cavens, que
também teria treinado Flynn e Basil Rathbone em “Capitão Blood”. Apesar de
Flynn ter corpo atlético e de notável elasticidade para o manejo da espada,
Rathbone era um espadachim superior em cena. A bilheteria do filme encheu os
cofres da Warner e, além do público, a crítica deu sua benção ao filme com 4
indicações ao Oscar, levando 3 (melhor edição, trilha sonora e direção de arte).
O elenco de coadjuvantes também brilhou: Claude Rains foi um odioso Príncipe
John; Alan Hale repetiu o papel de João Pequeno que também fizera na versão de
Fairbanks, e que repetiria anos depois em “O Cavaleiro de Sherwood” (1950) e
Olivia DeHavilland estava adorável como Marian. O filme foi um prodigioso
roteiro equilibrando momentos cômicos com pura ação. Nos diálogos do roteiro de
Norman Reilly Raine e Selton Miller momentos memoráveis como Robin (Flynn)
dizendo “Normandos ou Saxões não importa, o que odeio é a injustiça”. A Warner
chegou a cogitar fazer uma sequência, mas acabou não acontecendo.
No entanto várias
versões renovaram o ícone perante o público como Cornel Wilde, que interpretou Robert
de Nottingham em “O Filho de Robin Hood” (The Bandit of Sherwood Forest) de
1946; John Hall em “Prince of Thieves” de 1948, adaptado do livro homônimo de
Alexandre Dumas; e John Derek em “O Cavaleiro de Sherwood” (Rogues of Sherwood
Forest) de 1950 com Derek também interpretando um descendente direto do lendário
herói.
Entre 1955 e 1960
Richard Greene viveu o herói na TV inglesa em “As Aventuras de Robin Hood” (The
Adventures of Robin Hood) tornando-se a primeira série inglesa a fazer sucesso
nos Estados Unidos. Em 1976, o ex-007 Sean Connery viveu um Robin Hood maduro
ao lado de Audrey Hepburn como Maid Marian em “Robin & Marian”, com os
personagens lidando com a inevitável passagem do tempo. Um ano antes o
comediante Renato Aragão arrancou deliciosas risadas no filme “Robin Hood O
Trapalhão da Floresta”. A Disney também fez sua versão animada personificando o
herói como uma raposa em “Robin Hood”, segundo longa animado realizado após a
morte de Walt Disney, trazendo em sua versão brasileira as vozes de Claudio
Cavalcanti, Orlando Drummond e Juraciara Diacovo. Alguns anos antes o animador
Ralph Bakshi realizou a versão futurista “Super Robin Hood” (Rocket Robin
Hood), extremamente popular na Tv com 52 episódios.
Em tempos mais
recentes coube a Kevin Costner trazer a lenda para novas gerações em “Robin
Hood o Príncipe dos Ladrões” (1991) em uma super produção com trilha pop de
Bryam Addams. O efeito da câmera na flecha reproduzindo a visão do disparo
desta causou sensação entre o público e o destacou de outra produção parecida
lançada na mesma época chamada “Robin Hood o Heroi dos Ladrões” com Patrick
Bergin e Uma Thurman nos papeis centrais. Ainda é digno de nota a parodia de
Mel Brooks “A Louca História de Robin Hood” (1993) com Cary Elwes e “Robin Hood”
(2010) com Russell Crowe e Cate Blanchet dirigido por Ridley Scott.
Robin Hood também foi
a fonte de inspiração para Mort Weisinger criar o herói das hqs “Arqueiro Verde”
em 1941, que originou a série de sucesso “Arrow” que já está em sua sétima
temporada. Tamanha popularidade mostra que o mito sobrevive a várias
reinterpretações e que não reste dúvida de que Taron Egerton não será o último
a apontar aquela flecha no coração dos amantes da aventura pois esse alvo
continua na mira dos que se identificam com um rebelde que decide se erguer
contra as injustiças de seu tempo. Nada mais atual!
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