sexta-feira, 17 de julho de 2015

Revisitando Carrie, a Estranha (Carrie)

Em exibição no Cinemark dias 18,19 e 24 de julho.

EUA, 1976. 78 min. Diretor: Brian De Palma. Produção de Paul Monash. Música de Pino Donnagio. Foto Mario Tosi. Direção de arte de Jack Fisk e Bill Kenney. Figurino de Rosanna Norton. Montagem de Paul Hirsh. Elenco: Sissy Spacek, John Travolta, Piper Laurie, William Katt, Amy Irving, Nancy Allen, Betty Buckley, Priscilla Pointer, P.J. Soles.

Sinopse: Carrie é uma jovem tímida e desajustada, que tem uma mãe fanática religiosa. Desprezada pelos colegas, se vinga deles usando seus poderes telecinéticos.

Comentário: É difícil descrever o impacto que teve no Brasil este filme, numa época em que ainda se conhecia pouco a obra de Stephen King (esta foi sua primeira adaptação para o cinema) e menos ainda o diretor Brian De Palma (nesse momento, ele já tinha feito o cult O Fantasma do Paraíso e os dois filmes onde já começara a homenagear (ou parafrasear, ou imitar) Hitchcock: Trágica Obsessão e Irmãs Diabólicas. Mas nenhum deles tinha sido exibido no Brasil, isso só iria acontecer posteriormente quanto ele ficou famoso. Exibido em circuito liderado pelo Gazetinha em São Paulo, o filme foi daqueles que provocou escândalo e discussões se tornando grande sucesso de bilheteria (não esqueçam também que os filmes de terror eram raros por aqui e só depois de A Hora do Espanto em meados dos anos 80 é que eles encontrariam um espaço entre os jovens, mesmo assim depois da popularização do Home Video!). Nunca vou me esquecer do impacto que foi assistir pela primeira vez o filme, um terror (na falta de outro nome) que nada tinha a ver com aquele exercido pela Hammer inglesa (que era nossa referencia passada) ou com os antigos clássicos da Universal. Era de assustar mas também de ganhar prêmio, sua estrela Sissy Spacek (já então meio conhecida pelo filme de Terrence Malick, Terra de Ninguém/Badlands, 74, e conhecida como prima de Geraldine Page) chegou a ser indicada ao Oscar de atriz. Perdeu para Faye Dunaway por Rede de Intrigas, mas levaria o Oscar logo depois em 81 por O Destino Mudou sua Vida. Assim como a veterana que fazia sua mãe fanática religiosa, a ruiva Piper Laurie, que havia sido estrelinha e parceira de Tony Curtis na Universal, no começinho dos anos 50. Depois virou atriz séria (Famintas de Amor, indicada ao Oscar por Desafio à Corrupção) quando se casou com um critico de cinema! Esta foi indicada como coadjuvante.

Ou seja, o filme era um espanto e um enigma. Será que alguém tinha o direito de fazer um filme que fosse ao mesmo tempo delirante e comercial? E ainda por cima se dando ao luxo de revelar vários astros jovens que logo depois iriam estourar (como John Travolta, que faz um adolescente irresponsável e que a seguir já engataria Embalos de Sábado a Noite e Grease)! O fato é que nunca tínhamos visto antes alguém saber usar tão bem a câmera lenta e as telas múltiplas para conseguir efeitos tão barrocos quanto um verdadeiro banho de sangue que praticamente destruía todo o elenco principal! Até alguns inocentes e bonzinhos...

Uma sensação aliás que se repetiu das outras vezes em que assisti novamente este Carrie inclusive numa edição em Blu-Ray que devia ser das primeiras a ter saído no mercado porque foi lançada sem qualquer extra, a não ser um trailer. Podiam ter aproveitado algo já existente: houve uma versão americana lançada em agosto de 2001, que incluía “Como Stephen King Escreveu Carrie”, dois documentários de 45 min., "Acting Carrie", com entrevistas da época de quase todos os atores e "Visualizing Carrie", mais "Carrie: The Musical" com Betty Buckley e L.D. Cohen (sobre a tentativa frustrada de transformar o filme em show da Broadway. Um material que eu e todos os fãs gostariam de ver).

O fato é que o filme foi saudado com gritos, sustos e outras manifestações de medo e até histeria. Nunca antes aquela geração tinha visto um filme tão surpreendente, tão envolvente e revelador. E que até hoje não perdeu sua força e impacto. Desde a primeira sequência em câmera lenta no chuveiro da escola, De Palma não perde o controle da situação. Quem viu na televisão, certamente pegou alguma cópia censurada. Mas o filme começa com uma sequência com a câmera no alto mostrando um jogo de vôlei entre as garotas de uma High school (é preciso ter compreensão, elas todas deveriam ser teens, bem adolescentes e na verdade nem conseguem esconder que tem vinte e tantos!). Na cena seguinte, De Palma já usa a câmera lenta para dar um tom lírico a sequência das meninas no chuveiro, com nudez frontal e frequente (inclusive de Nancy Allen, com quem ele se casaria, e no resto da história fará a vilã maior! Já falamos dela aqui aliás noutro filme da dupla, Um Tiro na Noite). Os letreiros em vermelho vão em cima dessas imagens até a câmera conseguir encontrar Carrie (Sissy) nua se banhando num chuveiro com musica romântica de fundo. Ela passa sabonete no corpo, até bem sensual, quando num desses movimentos, a mãe vem com sangue. Custamos um pouco até a entender que ela esta menstruando (pela primeira vez, a mãe da moça é uma fanática religiosa cristã e não permite que se fale no assunto). Coisa jamais vista no cinema até então e mesmo hoje muito pouco frequente. As colegas não a entendem e lhe jogam absorventes na cara, enquanto Carrie em pânico grita desesperada por ajuda! Sem dúvida, uma das sequências de abertura mais fortes de todo o cinema.

A professora vem ajudá-la (o papel é feita por Betty Buckley, que depois se tornaria famosa na Broadway cantando a musica mais famosa do musical Cats e como vimos acima estrelaria a desastrosa versão musical da Broadway, mas o mal já esta feito. Só falta a gente entender que ainda por cima, além de sardenta, desajeitada, infeliz e atormentada pela mãe, Carrie também é paranormal, ela tem um dom, poderes telecinéticos (segundo a Wikipédia a telecinésia é a capacidade de mover fisicamente um objeto com a força psíquica da mente, fazendo-o levitar, mover-se ou estourar, como lâmpadas). A telecinese, telecinésia, telecinesia ou telecinética, é também conhecida como TK (do grego, telekinesis).

Ou seja, Carrie não é só estranha, ela é um perigo. Mas as incautas resolvem brincar com ela. Depois de fazer estourar um cinzeiro na sala do diretor da escola, Carrie irá derrubar da bicicleta um garoto que zomba dela (feito por um sobrinho do diretor mas estranhamente dublado por Buckley) e começar a treinar em casa sua concentração. Uma das moças (Amy Irving, futura mulher - agora ex - do brasileiro Bruno Barreto) é mais compreensiva (ou não?) e elabora um plano para o seu namorado loiro e irresistível (William Katt, na vida real filho de dois antigos Barbara Hale e Bill Williams, e que teve um certo tempo de fama, já passada). Este convida Carrie para a Senior Prom, algo como uma festa de formatura e os dois são votados Reis da Festa. Mas eles não sabem o que planejou Nancy e Travolta, no auge da festa (quando tudo novamente volta a ter a música envolvendo na trilha e a câmera lenta), acompanhamos com total tensão e suspense, o balde de sangue de porco que eles dependuraram no alto e que irá cair na cabeça da moça.

Para que mexer com o vespeiro. Carrie enlouquece e manda ver, trancando portas, fazendo mangueiras voar e provocando um enorme e diabólico incêndio. Mais tarde irá transformar também a louca da mãe numa cópia da imagem de São Sebastião que tinham em casa e provocará desabamento. Outra coisa nova, um susto final que hoje parece banal e fácil de prever, mas que naquela época era totalmente novo. Esse susto final acabou virando um clichê absoluto do gênero, mas naquela ocasião foi um sucesso.

Sem dúvida influenciado por Hitchcock, mas encontrando seu próprio olhar, De Palma utiliza muita câmera na mão, uma trilha musical muito intensa e grande quantidade de câmera lenta. A trilha é de um italiano que fez 183 trilhas, deve empatar com Morricone. É Pino Donnagio (que já tinha musicado o excelente Inverno de Sangue em Veneza e voltou a se reunir com De Palma em Vestida para Matar, UmTiro na Noite, Double de Corpo, Síndrome de Caim). Sabe-se pouco do fotógrafo Mario Tosi (de O Substituto, mas ele não fez mais nada desde 82). A montagem é de Paul Hirsh (que fez o original Star Wars, Curtindo a vida Adoidado, Missão Impossível 1 e também Um Dia de Fúria). E a direção de arte é do diretor Jack Fisk que na vida real até hoje é marido de Sissy (esta foi a revelação dela, que levaria o prêmio depois por O Destino Mudou sua Vida em 1981). Na verdade, foi Fisk quem indicou a mulher para fazer o teste e acabou sendo escolhida (Amy era a finalista mas foi repassada para o segundo papel. Em compensação, o diretor De Palma era muito amigo de Steven Spielberg que veio ver a filmagem e começou a namorar Irving. Eventualmente se casaram, tiveram um filho , se divorciaram e ela ficou com a metade do fortuna de Steven (naquela época). Nada mal.

Amy esteve também nas continuações desnecessárias e mal sucedidas. A Maldição de Carrie (The Rage: Carrie 2) foi com Emily Bergl, Jason London e dirigida por Katt Shea. Não sabia porém que teve uma refilmagem para a TV em 2002, de David Carson, com Angela Bettis e Patricia Clarkson. Em 2013, houve outra refilmagem igualmente infeliz e censurada, ainda como Carrie, a Estranha (de Kimberly Peirce, com Chloe Grace Moretz e Julianne Moore como a mãe louca). Foi fracasso merecido. Mas não se pode deixar de mencionar a versão de Carrie como musical da Broadway, que por duas vezes foi um imenso fracasso de critica e bilheteria. Embora hoje seja visto como clássico kitsch. A primeira em 1988, quando foi estrelado por Betty Buckley que faz a professora no original. O remake já na off Broadway em 2012 foi com Marin Mazzie e Molly Ranson. Apesar disso houve novas montagens dele em Londres e Los Angeles.

Há varias curiosidades em relação ao filme. A High School por exemplo se chama Bates em homengem ao Norman Bates de Psicose. E na trilha repete várias vezes aquelas quatro notas famosas desse filme (não esqueçam que o compositor Bernard Hermann era quem iria compor a trilha, mas morreu antes!). A atriz que faz a mãe de Amy Irving é sua mãe na vida real, Priscilla Pointer. Melanie Griffith testou para o papel de Carrie e não foi escolhida, mas De Palma se lembrou dela depois por Duble de Corpo. Há um boato de que Carrie Fisher não teria querido fazer o papel porque teria que aparecer nua (ela nega inteiramente essa versão). Entre outras que testaram estão Linda Blair, Jill Clayburgh, Farrah Fawcett.

Ninguém do elenco de apoio acreditava muito no filme, Piper Laurie pensava que se tratasse de uma comédia e Nancy Allen pensava que seu personagem fosse alivio cômico. Amy disse odiar o script e quando viu o filme o considerou “Mágico”. Stephen King baseou o personagem de Carrie White em duas garotas que conheceu na escola, quando era professor. Ambas eram desajustadas e vindas de famílias religiosas e morreram quando estavam ainda com vinte e poucos anos.

A única coisa que eu posso garantir é que se há alguns momentos em que De Palma para o gosto de hoje parece exagerar, pisar um pouco forte. Isso é mais questão de gosto e sabor da época. Em termos gerais porém não perdeu sua força e talento.

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