Sempre tive uma relação tardia com o filme Cantando na Chuva porque ele custou a ser descoberto em sua estreia no Brasil, na verdade foi desprezado (não consegui descobrir por que), o descartaram como se fosse um musical qualquer e não o clássico de hoje em dia (Isso era muito comum no Rio de Janeiro e São Paulo porque a Metro tinha dois circuitos, a o A e o B, no primeiro passava os grandes êxitos num cinema muito luxuoso e no B, os filmes B menores nos bairros. Deve ter sido isso que sucedeu por aqui (em Portugal ele foi chamado de “Serenata à Chuva!”) e também pode se explicar essa falha porque naquele momento Gene Kelly estava numa fase ruim de sua carreira (seus filmes da época foram exageradamente em cima de balés e fracassaram. E a canção dele na chuva, só foi ganhar teor de clássico quando fizeram o documentário Era uma vez em Hollywood/ That´s Entertainment, 1974 (não se esqueçam que as canções dos filmes eram quase todas composições da produtora do projeto e já haviam sido utilizadas em outros filmes!).
Gene veio inclusive a São Paulo e Rio para promover o documentário, saindo-se bem já que nunca brilhou pela simpatia. Agora em retrospecto que percebo que antipático fui eu, que estava na coletiva. Enquanto todo mundo o celebrava com elogios, me lembro que fiz apenas duas perguntas e justamente sobre os dois fracassos dele: porque e como fez Hello, Dolly (ele enrolou e não assumiu que tinha errado com La Streisand, o elenco de coadjuvantes, o excesso de canções etc e tal. Mas fez uma cara de triste como se já tivesse consciência disso). Depois, perguntei sobre Duas Garotas Românticas (Les Demoiselles de Rochefort ,1967), o filme francês de Jacques Demy que eu gostava muito. Sua resposta foi coerente: que era um filme bonito, que gostou de fazer, mas o problema é que as duas moças, irmãs, não tinham preparação para o balé e dança, e Catherine Deneuve e sua irmã Françoise Dorleac (Ele estava certo!). Depois não tirei foto com ele (tinha dessas coisas e acho que agora em retrospecto não vibrei com Kelly como faria alguém de bom senso porque eu era admirador do rival dele, ao menos na minha cabeça, que era o Fred Astaire. Esse sim, a perfeição. Kelly era mais uma atleta. Para vocês verem que quando a gente é muito jovem ao menos pensa muita bobagem.
De qualquer forma, Cantando na Chuva foi votado pelo American film Institute como o melhor musical de Hollywood. Donald O´Connor ganhou o Globo de Ouro (o filme também foi indicado). Os diretores Stanley Donen e Gene Kelly foram indicados ao Sindicato dos Diretores. E os roteiristas Betty Comden e Adolph Green ganharam no Sindicato dos Roteiristas. Foi indicado ainda ao Oscar de trilha musical (para o pouco famoso Lenny Hayton, uma espécie de arranjador) e atriz coadjuvante, uma contratada da Metro, Jean Hagen (1923-77), numa das composições humorísticas melhores de toda a história do cinema. Por aquelas injustiças custaram a reconhecer isso, embora ela tenha feito alguns filmes bons (O Segredo das Jóias de John Huston, A Costela de Adão com Tracy e Hepburn, Meu Amor Brasileiro com Lana Turner, passado aqui, mas filmado em estúdio). Nada que explique sua incrível criação nesse musical! Um Fenômeno! Fazendo o papel de Lina Lamont, a parceira de Kelly nos filmes mudos de aventura romântica, mas que tinha uma voz horrível e impossivelmente desafinada. Uma das grandes sacadas da montagem nacional foi justamente Claudia Raia ter preferido fazer o papel justamente de Lina e não o da heroína Kathy Selden que seria Debbie Reynolds no filme. Encantadora sem dúvida, mas Claudia fica com as melhores situações e piadas.
De qualquer forma, só fui assistir finalmente o filme, em meados dos anos 70, quando viajei para o Rio especialmente para ver a cópia que o Cinema Um conseguiu (era um circuito de filmes de arte ou reprises que teve enorme sucesso, e até uma cópia em Santos). Levei junto minha namorada, a Leilah Assumpção, que na época tinha antipatia por Debbie num momento muito especial. Como com frequência sucedia, eu era do contra, gostei do filme, mas não o achei tão genial. Revendo outras vezes, inclusive em Atlanta, dias depois da morte de Debbie, numa excelente projeção, consegui pôr as coisas no lugar certo. É genial e inesquecível.
Mas é curioso também e ser justo que houve várias tentativas de se fazer um Cantando na Chuva no palco, em especial em Londres e Nova York, e sempre malsucedidos. Por isso, que fiquei tão emocionado com a ousadia do casal de amigos, Claudia Raia e Jarbas Homem de Mello. É impossível não amar a Claudia, com todo seu talento e generosidade (imagine que a conheci num taxi indo para o Rio, logo no começo em que ela estreava no musical A Chorus Line!). Com o Jarbas, já velho conhecido da classe teatral, tivemos o maior sucesso no palco quando o dirigi na montagem do texto do Fallabella, “Querido Mundo” que ficou cerca de 4 anos em cartaz. Como diz meu amigo Claudio Erlichman, Jarbas é sem dúvida o melhor astro do gênero musical no Brasil. Assino em baixo.
Mas já vi muita gente boa tentar e fracassar. Mas não é o caso desta encenação no Teatro Santander, primorosa em todos os detalhes sob a visão do diretor americano Fred Hanson. Na verdade, é uma versão extremamente fiel a todos os detalhes a ponto de encerrar como no filme com um número especial, Gotta Dance (e é quando Claudia tem seu momento Cyd Charisse!). E embora o que os mais jovens acham divertido é quando chove realmente nas fileiras iniciais, que ganham capas e guarda chuvas. Ou seja, a farra que elas querem.
Mas é extremamente difícil lidar com uma lenda como é este musical cinematográfica (pense bem, que são duas visões e criações diferentes, na tela e no palco, cada um com recursos diferentes). O incrível é que conseguiram transpor toda a magia para a cena (logicamente o show ficou maior no palco, o filme é bem mais curto e isso não incomoda, ao contrário, deixa o espectador mais feliz). Foi isso também o que eu senti quando tentei ir aos bastidores, mas fui abordado por uma grande quantidade de público que adoraram a montagem e queriam compartilhar a sensação comigo.
Nem precisavam. Aquele rapaz impertinente dos tempos de Kelly continua rigoroso hoje e não facilita nem os amigos. Mas que fica feliz quando eles lutam, batalham e acertam. É uma enorme alegria ver um espetáculo do coração como este feito com tanta alegria e prazer. Parabéns Claudia e Jarbas.
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