Filme será exibido nos dias 25,26 e 29 no Cinemark
Touro Indomável (Raging Bull)
EUA, 1980. 128
min. Produzido por United Artists/Chartoff-Winkler. Direção de Martin Scorsese.
Roteiro de Paul Schrader e Mardik Martin (e também Peter Savage, Robert Martin)
baseado na autobiografia de La Motta. Fotografia de Michael Chapman. Elenco:
Robert De Niro, Cathy Moriarty, Joe Pesci, Frank Vincent, Nicholas Colasanto, Theresa
Saldana, John Turturro. Preto e branco.
Sinopse: A vida de Jake La Motta, campeão
mundial de peso-médio: sua ascensão, apogeu e queda. Ele Teve 83 vitorias, 19
derrotas e 9 empates. Ficou famoso por vencedor Sugar Ray Robinson.
O impacto já
começa nos letreiros iniciais (repare como está grafado o titulo original, ou
seja, a maneira certa seria por tudo junto como esta ali, “RagingBull”, tudo
junto (naturalmente este é o apelido do biografado La Motta. Aliás, há noticias
de que se produz para 2014 nova cinebiografia dele The Bronx Bull, de Martin
Guigui, com William Forsythe. Em Portugal, o filme se chama O Touro
Enraivecido, feio mas mais correto!). Mas a imagem de De Niro lutando, ou
melhor se exercitando no ringue sozinho, num clima sombrio e enevoado, é
antológica . Não há trilha musical original. Mas o uso frequente e brilhante do mesmo tema
musical tirados da obra do compositor italiano Pietro Mascagni (1863-1945), que
são os trechos da Ópera Cavalaria
Rusticana: Intermezzo, e também durante o filme Silvano: Barcarolle,
Guglielmo Ratcliff: Intermezzo, e cerca de 33 canções antigas em gravações
originais (entre elas a musica brasileira Não
Tenho Lágrimas, de 1933, interpretado por Patrício Teixeira). Essas canções
populares são usadas de forma incidental, são executadas no rádio ou em night-clubs mas é musica operística de
Mascagni que dá pompa e clima ao filme (Scorsese a escolheu por ser muito
“triste” e para aumentar o efeito fez um ringue maior do que o tamanho normal).
Indicado
para Oito Oscar® (coadjuvantes Pesci e Moriarty, fotografia, direção, filme e
som) ganhou apenas de melhor ator (o
segundo para De Niro, o primeiro como protagonista) e montagem (que é da
celebre Thelma Schoonmaker que acompanha
Scorsese até hoje por toda sua carreira incluindo o recente “Hugo”. Mas este
foi o primeiro trabalho deles juntos, desde a estreia de Martin, no
independente e experimental Who's That
Knocking on My Door? quando eles eram ainda colegas de escola de cinema . O
problema é que na época o Sindicato dos Montadores negou o ingresso dela,
porque não havia mulheres entre eles). Mas Touro
Indomável acabou sendo votado o melhor filme da década pelos críticos
americanos e atualmente está em quarto lugar na lista do American Film
Institute dentre “Os Melhores filmes americanos de todos os tempos” e em
primeiro dentre os filmes de esporte. É considerado também a maior injustiça da
História do prêmio Oscar® (que naquele ano privilegiou Gente como a Gente/ Ordinary
People, estreia na direção de Robert Redford. Um bom filme mas inferior a
este). Há outra razão porque o filme não levou mais Oscar®: na época, a produtora
United Artists estava em estado de pré-falência por causa dos problemas com O Portal do Paraíso/ Heaven´s Gate de Michael Cimino e não tinha dinheiro para fazer campanha
promocional (esse filme realmente provocaria o fim do regime da United, que
nunca mais teria o brilho de antes).
Scorsese
parou as filmagens durante quatro meses para que De Niro pudesse engordar de
160 para 215 libras, quase trinta quilos, um fato inédito no cinema, só
semelhante ao de Tom Hanks em Náufrago
em 2000, sendo que neste caso o filme ficou parado um ano e o ator teve que
perder e não ganhar peso. Cathy Moriarty, indicada ao Oscar® como coadjuvante,
estreou neste filme e era uma modelo de 19 anos descoberta por Joe Pesci (que
anos mais tarde ganharia Oscar® de coadjuvante noutra fita com De Niro e
Scorsese, Os Bons Companheiros). Ele
na época não tinha qualquer sucesso e dirigia um restaurante no Bronx. Depois de virar astro
por uns tempos, teve que se afastar do trabalho por problemas graves de saúde
(ainda assim aparece nos extras do Blu-ray dando depoimento). Cathy tem um
jeito meio amador que é cativante e hoje resiste bem a uma revisão (ela fez
outros filmes mas nunca chegou a emplacar). Reparem também como ela esta
vestida como se ela fosse uma fã e imitadora de Lana Turner. O pai do diretor
Charles Scorsese (1913- 93) faz pontinha como homem que está com Tommy Como, na
mesa dos mafiosos e depois apareceria também em outros filmes do filho. Martin
também aparece muito rapidamente como o empregado do Barbizon que pede para La
Motta entrar em cena. O hoje famoso John Turturro estreia no cinema em ponta,
como homem na mesa no Webster Hal.
Robert De
Niro e Joe Pesci, a pedido de Scorsese, passaram muito tempo juntos e acabaram
se tornando até hoje grandes amigos. Mas na cena em que eles brigam tudo é para
valer e num momento de treino De Niro acidentalmente quebrou uma costela de
Pesci (a cena esta no filme e Pesci grunhe e câmera corta para outro ângulo).
Embora durem pouco no filme, cerca de 10 minutos, elas eram tão coreografadas
que levaram 6 semanas para serem filmadas. O diretor não queria o uso de
câmeras múltiplas preferindo seguir a coreografia pré determinada em story board. Ela seria uma espécie de
terceiro lutador no ringue. Ao final, quando Jake (De Niro) ensaia trechos para
seu show, Scorsese queria usar trechos de Ricardo III de Shakespeare mas seu
amigo o veterano diretor Michael Powell insistiu para ele aproveitar diálogos
do filme Sindicato de Ladrões, com
Marlon Brando, de que o verdadeiro La Motta gostava muito e tinha tudo a ver
com o tema da história. Mas pediu a interpretação mais sem expressão possível
para não pensarem que este estava se referindo ao próprio irmão (curiosamente a
autobiografia de La Motta nunca menciona o irmão). Outro detalhe curioso: o
palavrão "fuck" é usado 114 vezes no filme. O personagem chamado no
filme de Tommy Como (feito por Nicholas Colasonto), é baseado no gangster real Frankie
Carbo, que controlava todo boxe em Nova York nos anos 1940 e 50. Eventualmente
foi mandado para prisão por chantagem e
extorsão por Robert Kennedy. Há também uma proposta clara no filme, ele não
quer ser confundido ou comparado com outro sobre boxe da época, Rocky, o Lutador de Stallone. A
montagem já começou ainda durante a rodagem do filme no apartamento do diretor
a noite. Um trabalho lento porque Scorsese achava que aquele seria seu ultimo
filme e o queria perfeito. A cena da
ultima luta na teve são imagens autenticas.
Avaliando o Filme: Sempre desconfio da avaliação
contemporânea de uma obra de arte, quando ela é muito especial, inovadora, em
geral é mal compreendida. Há casos frequentes em que a crítica não soube fazer
justiça, sendo que aqui, De Niro ganhou o Oscar® mais por ter mudado fisicamente
de forma tão óbvia. Enquanto revendo agora sua interpretação não é apenas o
auge de sua carreira, sua composição mais perfeita, como realmente ele se
transforma inteiramente, “encarnando” um personagem distante de sua
personalidade na vida real. E ainda por
cima fazendo uma figura antipática, violenta, grosseira, com quem a gente é
impossível de se identificar ou as vezes ate mesmo gostar. E, no entanto, ele
mergulha no papel, sem medo de se expor, sem cair nos extremos, nem o critica
(era fácil cair na caricatura), nem o defende ou justifica (apenas procura
torná-lo humano, sem esconder suas fraquezas ou limitações, o que é muito bem
explicitado nas cenas em que prepara as piadas, que abre a narrativa e depois
conclui o filme). De Niro aparece na parte final completamente deformado dando
vida a esse protagonista tão desagradável e chauvinista chamado Jake La Motta,
campeão de peso-médios nos anos 40 e 50. Ele é péssimo marido, mau caráter,
atraiçoa o irmão e aliena todas as pessoas próximas. No ringue, luta como um
touro enfurecido, sua decadência é tão drástica quanto merecida. O filme já
começa com ele como apresentador de um “night-club” em 1964, para depois
retratar sua ascensão e decadência, mas nunca chega a ser uma biografia
convencional.
O roteiro de
Paul Schrader (Taxi Driver) e Mardik
Martin (iraniano, homem de confiança de Scorsese que trabalhou em vários filmes
como New York, New York, Caminhos Perigosos) fez a primeira
versão do roteiro contando tudo de maneira mais convencional. Mas teve que
largar por exaustão de forma que Scorsese e De Niro passaram 5 semanas
trabalhando no roteiro final como eles desejavam, sem crédito. Parece a
primeira vista ter o hábito de se fixar apenas em episódios violentos e
gritados, lembrando muito os filmes italianos do Neo-Realismo. Deixa no ar
inclusive as motivações e justificativas do personagem, tanto de Jake quanto de
seus comparsas. Mas é a maior ousadia do filme, justamente isso. As cenas são
longas e esticadas, parecem improvisadas, como se fosse na vida real, com muita
verdade (e uma delas o primeiro encontra de Jake com Vicky, foi inteiramente
improvisada). O que confere um tom naturalista, especial ao filme, fugindo dos
clichês dos filmes de boxe (ainda que existam vários e muitos sobre o tema, em
geral eles se fixam na corrupção e bastidores do esporte mais do que na
personalidade dos lutadores. Como Trágica
Farsa, inspirado na vida do lutador Primo Carnera e Marcado pela Sarjeta, sobre Rocky Graziano), mas este é certamente
o mais bem filmado deles todos. Contam que quando Paul Schrader trabalhou no
script, ele acrescentou momentos chocantes de propósito (como cena de
masturbação e colocar o pênis num saco de gelo). Scorsese reduziu isso (agora
De Niro coloca gelo dentro de sua
cueca).
Outra ideia
interessante é os filmes caseiros propositalmente riscados. É a única parte da
fita que é em cores, alias a escolha do preto e branco é extremamente acertada.
Parece que Scorsese fez como Hitchcock em Psicose,
recusou o colorido que faria o sangue jorrando tudo se tornar um filme de
terror barato e “gory”. Alias o sangue aqui é feito de chocolate para dar maior
efeito! Scorsese também teria se inspirado na cena do chuveiro daquele filme
para decupar a luta final com Robinson. As sequências de lutas de boxe nunca
são menos do que empolgantes. O PB tem um efeito extraordinário numa montagem
rápida, envolvente. Tudo espetacularmente fotografado, em especial na luta
final com Sugar Ray Robinson. O excelente Michael Chapman filmou tudo com muita
luz, vazando inclusive na lente, muito brilhante, pegando detalhes do suor ou
sangue voando na plateia, as vezes em câmera lenta. Assim como é excepcional o
uso do som (os técnicos estouraram melões e tomates e o pipocar das câmeras dos
fotógrafos eram o barulho de revolveres disparando. Quando terminaram a
mixagem, eles jogaram fora o material com medo de que outros pudessem reutilizá-lo).
Só essas cenas já justificariam o filme mas há uma explicação ao final do
diretor católico, citando São João: La Motta estava cego para o que se passava
à sua volta. Por isso, perde família, amigos, tudo.
Diz
Scorsese: “Dediquei este filme a um velho professor armênio, Haig Manoogian,
que tinha morrido recentemente, porque foi ele também que me abriu os olhos”. A
citação é a seguinte: “Os que não veem, isto é, os humildes de coração, vejam
iluminados pela minha doutrina, mas os sábios, os orgulhosos, os fariseus se
tornem cegos espiritualmente....” A razão de
tudo isso é que o filme seria um renascimento cinematográfico dele. Por isso a
dedicatória foi “com amor e resolução”. Manoogian havia ajudado Scorsese a
conseguir produção para o seu primeiro filme. Talvez se
possa fazer uma leitura do personagem de La Motta nas suas repressões católicas
da sexualidade, que acabam se desenvolvendo numa forma de sadomasoquismo e
autodestruição. Mesmo assim, isso fica mais na cabeça dos realizadores do que
na tela. O filme basicamente é um retrato de um sujeito repulsivo que o público
não consegue gostar. Contam que quando viu o resultado pela primeira vez numa
tela, o verdadeiro La Motta ficou surpreso que o personagem fosse tão negativo,
percebeu pela primeira vez que pessoa horrível ele tinha sido. Perguntou a ex esposa
Vicki: “Eu era realmente assim?”. E Vicki lhe respondeu: ”Você era pior".
Não acho que o filme julga ou condena o
protagonista. Ao contrário, o observa com distância crítica. E nisso ajuda
muito a interpretação antológica de De Niro e as magníficas cenas de luta, até
hoje ainda não suplantadas. Há realmente uma história bonita de redenção provocada
pelo filme. Em 1978, Scorsese não queria fazer o filme e o recusou várias vezes
preferindo documentários (e afirmando que não gostava de filmes sobre esportes).
Mas na verdade estava tentando se libertar de um terrível vício de cocaína. De
Niro foi procurá-lo num hospital onde se tratava, e finalmente o convenceu a
aceitar. De certa maneira o filme salvou não apenas a carreira dele, mas também
sua própria vida.
Outro filme que eu nunca assisti.
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