quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman)


Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman)
EUA, 18. Direção de Spike Lee. Com Alec Baldwin, John David Washington, Isiah Whitlock Jr, Robert John Burke, Brian Tarantina, Arthur J. Nascarella, Ken Garito, Frederick Weller, Adam Driver, Michael Buscemi, Laura Harrier, Damaris Lewis, Corey Hawkins.

O Festival de Cannes fez um grande erro quando muitos anos atrás, em 1989, não souberam dar ao filme de Spike Lee, o merecido grande prêmio para Faça a Coisa Certa (Do the Right Thing). Ao contrário, ignorou o trabalho que viria se tornar um sucesso mundial e certamente o filme mais forte na denuncia da perseguição aos negros. Com enorme impacto e ate chocante. Lee tentaria outros filmes, sejam comédias (Febre da Selva), sejam biografias, como Malcolm X, sejam denúncias (Mais e melhores Blues). É verdade que ele teria outros prêmios (como aqui quando Cannes procurou se corrigir dando a este filme, o Grande Prêmio do Júri e o Ecumênico). Mas naquele filme básico estava a explosão de toda uma longa denúncia do conflito entre brancos e negros, que até hoje continua grave e na verdade cada vez se piorando mais (Lee, que é muito vaidoso, já levou o Oscar especial da Academia por sua carreira, Emmy pelo documentário e conseguiu produzir grande número de documentários - tentou fazer isso inclusive aqui no Brasil). Seu grande retorno porém não chegou a acontecer por uma razão triste, seu melhor momento, sua, digamos por vezes, maldade hoje já o deixou com amargor. E certamente com toda razão, diante do que ficamos vendo diariamente. O filme atual começa muito de propósito com a cena mais famosa de E o Vento Levou com Vivien Leigh, com ela atravessando a praça toda cheia de mortos e feridos. Depois disso, o sempre irônico Alec Baldwin acentua ainda mais a história do passado cinematográfico com O Nascimento de uma Nação (e justamente no filme mais clássico da história americana vemos toda a tragédia da perseguição de Negros,a ação da KluKlux Klan e assim por diante).

Desta vez inspirado em fato real (no lugar de Denzel Washington, que iria interpretar justamente o autêntico Ron Stallworth, que no final das contas passou a ser feito por seu próprio filho). Melhor assim, ainda que tantos anos depois talvez alguns não sintam o rigor da tragicomédia (já que Ron nunca falava em “voz de branco”). Lee mexeu na história 7 anos de 1979 para 72, para lembrar da moda de então que era fazer filmes sobre negros, os chamados blaxpoitation e o então presidente Nixon apoiando a Klan. Um detalhe: no final do filme tem uma música do falecido Prince, Mary, Don´t You Weep. O filme foi dedicado a Heather Hever, que foi atingida por um carro enquanto protestava no movimento “uma a Direita” em agosto de 2017 em Charlottesville. O título de exportação do filme faz de propósito o uso de três Ks para não confundir com o Clan espanhol! A música usada durante a cena final e montagem também final, foi Photo Ops, originalmente composta por Terrence Blanchard para Lee que a usou em outro filme Inside Man. A cena final do filme é uma bandeira norte-americana de cabeça para baixo,nos EUA, uma bandeira assim é sinal de vergonha e emergência ou um sinal de protesto.

Agora que me dei conta que faz muitos anos, mais de trinta, que de uma forma ou outra tive contato com Spike Lee, que nunca perdeu seu jeitão polêmico, por vezes provocador mais que artista, se é que isso possa ser dividido. Já disseram mesmo que sua intenção como artista é ser um provocador que não permite que os outros fiquem confortáveis demais, caindo na mera diversão. Ou seja, o filme esta perfurado de ironias e criticas, e, se fosse possível, ainda mais. Porque o básico do filme é contar a estranha historia de Ron Stallworth, um negro que se infiltrou na KKK! Por pura ironia e sacanagem se preferirem. E Adam Driver é o policial que irá se tornar seu parceiro escondido. É tudo isso que torna o filme ironicamente divertido e tristemente adequado para o mundo e momento que vivemos. A luta nunca passou, nem de longe deixou de existir. Só por isso já consagra o filme e o momento histórico. E finalmente torna Spike Lee outra vez grande.

A Rota Selvagem (Lean on Pete)


A Rota Selvagem (Lean on Pete)
EUA, 2017. 121min. Direção de Andrew Haigh. Roteiro de Haigh baseado em livro de Willy Vlautin Com Charlie Plummer, Travis Fimmel, Amy Selmetz, Steve Buscemi, Chloe Sevigny, Dennis Fitzpatrick, Steve Zahn.

Francamente esta continua a ser uma temporada infeliz para se ir as salas de cinema o que na verdade é uma velha tradição, quando se esperam os filmes do Oscar do Natal em diante, e parece descarregar com produções medíocres e de origem duvidosa. Mas aqui está um caso mais raro, e que vem abençoado por boa repercussão. No caso, o diretor Haigh é britânico e embora desconhecido por aqui têm alguns bons créditos (como o humano “45 anos” com Charlotte Rampling, que foi indicado ao Oscar, dirigiu o telefilme gay chamado Looking (o filme), e fez outro também do gênero que não passou aqui (Weekend) e Greek Peek (também sobre o mesmo tema). E este filme teve uma honra de passar nos Festivais de Toronto e também Veneza onde o premio foi para o jovem ator Charlie Plummer (ele pode ser conhecido porque fez o papel do garoto sequestrado de Todo o Dinheiro do Mundo onde fez o papel Paul Getty, e tem já uma carreira bem longa (esteve entre os que passaram aqui O Jantar, a série Boardwalk Empire, Música e Rebeldia).

O filme também traz no elenco nomes mais famosos como o australiano Travis Fimmel (mais famoso por séries de TV como Os Vikings e Warcraft alem do Tarzan da TV). E dois atores de prestígio como Steve Buscemi e Chloe Sevigny. O filme apresenta a paisagem rural de estados fotogênicos (Oregon, Idaho, Wyoming) e, o mais curioso de tudo, fez carreira em praticamente toda parte, com respeito da critica. Ou seja, é uma história respeitável sobre um drama eqüino e uma aventura de um jovem. Charley, tem 15 anos e nas férias vai para Portland com seu complicado pai (Travis), mas encontra um veterano criador (Buscemi) que lhe oferece trabalho no estábulo. Vai aprendendo a cuidar de cavalos, do lado triste do negócio (os cavalos que não podem mais correr, são vendidos como comida no México!). O que provoca uma reação e deverá tocar os espectadores. Apesar dos elogios da crítica no exterior, o filme acabou fracassando em bilheteria, mal ultrapassando um milhão de dólares de bilheteria. O que acaba sendo uma pena...