quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Birdman (ou A Esperada Virtude da Ignorância)



EUA, 14. 119 min. Direção de Alejandro Gonzage Iñarritu. Com Michael Keaton, Edward Norton, Naomi Watts, Emma Stone, Zach Galifianakis, Andrea Riseborough, Edward Norton, Amy Ryan, Lindsay Duncan.

Não sei se vai ganhar o Oscar® de melhor filme, porque a concorrência nos últimos tempos se exacerbou com o ingresso do americanista American Sniper, de Clint Eastwood (nunca desprezável), mas não há outra interpretação tão forte e carismática este ano do que a de Michael Keaton (além de tudo Hollywood adora um comeback, uma volta por cima, e é justamente o que ele esta fazendo). Sua história no filme é extremamente autobiográfica e por isso ousada. Ele faz um ator que já foi famoso ao fazer uma série de aventuras como o Homem Pássaro (como vocês lembram Michael Keaton, que não é parente de Diane, estrelou os dois primeiros filmes de Batman, em 89 e o Retorno em 92. Sempre dirigido pelo Tim Burton, em começo de carreira. Pena não terem continuado, é com outro herói o momento mais interessante da dupla, que foi justamente em Os Fantasmas se Divertem, 88, onde fazia Beetlejuice!).

De qualquer forma, Birdman, foi indicado para 9 Oscars: ator, filme, coadjuvante Norton, diretor, coadjuvante Emma Stone, roteiro, fotografia de Emmanuel Lubezki, o mesmo que ganhou ano passado por Gravidade, mixagem e edição de som. Ganhou Globo de Ouro de roteiro e ator (e teve mais 5 indicações, diretor, filme, trilha musical, coadjuvantes Norton e Emma, ganhou o prêmio SAG (do sindicato dos atores) pelo mais importante, que foi  melhor elenco (teve 3 indicações como ator), prêmio Gotham (ator e melhor filme) e ainda teve 4 prêmios menores pelo Festival de Veneza (o Bafta ainda não foi  votado mas tem 9 indicações). Nada mal para o que é um filme anormal, fora da rotina mas que talvez por causa disso teve um enorme impacto.

Basicamente é sobre esse ator “has been” decadente, Riggan, que tenta a sorte de voltar ao sucesso se arriscando muito uma peça de teatro na Broadway. É um retorno atormentado que provoca reações diferentes de sua filha rebelde e carente (Emma, que talvez seja a mais interessante de sua geração) e sócio Zach Galifianakis, já que colocaram todo o dinheiro que ainda tinham no Projeto. Os ensaios vão caminhando de forma conturbada e difícil um ator tem que ser mandado embora e entra outro ainda mais complicado, que saiu do estilo Actor´s Studio e bota tudo de pernas para o ar. É a melhor coisa que Edward Norton fez nos últimos tempos, sabendo ser irritante ou brilhante, ou ambas as coisas. Em volta deles temos as atrizes (uma delas diz estar grávida, mas parece sempre que esta mentindo).

O notável do filme é que ele foi rodado em Digital e com planos longos (às vezes ate de vinte minutos, se alguém errou tinham que recomeçar tudo de novo), sem luz artificial, isso quer dizer que a luz é a natural do ambiente, sem reforços ou truques, pode chamar de naturalista se preferir, mas hoje em dia com os recursos das câmeras a maior parte dos filmes tem sido feito assim. Ainda que não de forma tão radical. E bem sucedida.

Não sei se vai suceder com todo mundo, mas eu fiquei absolutamente envolvido na situação, que vai crescendo dramático (vou dar uma dica, o dito Birdman, o Homem Pássaro, aparece!) e chega ao clímax num par de sequências onde Riggan vai conversar com a critica do jornal New York Times (tão poderosos que com uma nota negativa fecham um espetáculo) feita brilhantemente por uma atriz britânica que ainda não tinha me marcado, Lindsay Duncan (Questão de Tempo, Sob o Sol da Toscana). A conversa entre eles não é realista (isso jamais aconteceria ao menos não dessa forma), mas tem um impacto inegável assim como a solução final (que não podemos entrar em detalhes!). Uma curiosidade: a Academia de Hollywood rejeitou a trilha musical dizendo que eram apenas ruídos de bateria. Realmente mas isso só mostra como são atrasados, é por ser de bateria que resulta tão forte e interessante.

De qualquer forma, Keaton é uma unanimidade. Inteiramente exposto, sem maquiagem, sem artifícios, ele da um show e uma lição de vida, não confundir papel/personagem com ator. Ele ajuda a tornar o filme único e ainda mais extraordinário.

2 comentários:

  1. Rubens, você cita em sua crítica uma particularidade desse filme que me surpreendeu...os planos sequências. Longos e extremamente bem filmados - méritos para o diretor Alejandro González Iñárritu e, com certeza, ao diretor de fotografia e ao editor. Michael Keaton está mesmo soberbo. Não dá para imaginar outro ator para o mesmo personagem. Talvez até perca a estatueta dourada para Eddie Redmayne, uma vez que a Academia encanta-se com personagens que apresentam limitações físicas ou mentais, mas, tal como Benedict Cumberbatch, é responsável por uma atuação sincera e isenta de maneirismos e exageros. Emma Stone é mesmo o principal nome de sua geração. Parece que nos últimos anos uma parte dos melhores papéis chegaram até ela ou a atriz os transformou em bons personagens. Seja como for, Oscar para ela é questão de tempo, certamente pouco tempo. Mas o mérito maior é mesmo de Iñárritu. O diretor mexicano acertou em quase tudo que fez. "Amores Brutos" continua no posto de pequena obra-prima com suas tramas paralelas e intrincadas. "21 gramas" ainda é o meu preferido - Naomi Watts impressionante. Não gostei muito do seu segmento no filme "11 de Setembro". Há quem divise ali originalidade ou genialidade. Eu ficaria mais com sensacionalismo, mas isso é mais uma opinião pessoal do que qualquer outra coisa. "Biutiful" é palco para Javier Bardem, mas o filme pesou a mão na melancolia. E "Babel" parece o irmão mais fraco na filmografia. "Birdman" é impressionante e merecerá todos os prêmios ou menções, assim como seu regente.

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  2. 3 - Legal

    De cada 10 "grandes" filmes recentes, 8 são baseados em super-heróis. Christopher Reeve morreu SENDO o Superman. A grosso modo é disso que "Birdman" fala : crítica voraz, corajosa e sem concessões sobre o que o cinema americano está se tornando e o que, este mesmo cinema está fazendo com seus atores. Em meio a "Homens formiga", "Homens de ferro", novas versões de "Batman" e "Superman", "Birdman" salta aos olhos como um cinema mais adulto e menos "fábrica de sabão". Então "Birdman"(o filme) veio salvar o cinema com seus superpoderes ? NÃO. A "forma" não resulta em "conteúdo". O filme de Alejandro Gonzalez Iñarritu chega atrasado ao fazer teatro filmado; "Agnes de Deus"(1985), "Questão de honra"(1992) já o fizeram com mais força; e chega atrasado ao "invadir" os bastidores do teatro; "O fiel camareiro"(1983) e Woody Allen, com seu "Tiros na Broadway"(1994) já o fizeram com mais verve e sem pedantismo. O Sr. Keaton e o Sr. Norton entregam performances poderosas ( e pensar que poderiam ser enterrados como "Batman" e "Hulk"); a montagem é criativa e alucinante; o filme parece um longo plano-sequência e a direção de atores de Iñarritu é digna de Oscar; mas a vontade de fazer "arte", atrapalha. Dizer que está fazendo um "filme cabeça" é MUITO diferente de realmente fazer um filme profundo. André Belarmino - No "Adoro cinema"

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