quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Questão de Tempo

Questão de Tempo/About Time. Ingl, 13. Direção e roteiro de Richard Curtis. Com Donhall Gleeson, Rachel McAdams, Bill Nighy, Lydia Wilson, Lindsay Duncan, Tom Hollander. 123 min.

      Tenho sido grande admirador do roteirista e diretor britânico Richard Curtis, que escreveu os roteiros da serie Mr. Bean,  Quatro Casamentos e um Funeral, O diário de Bridget Jones e O II No Limite da Razão, Um Lugar Chamado Notting Hill, Cavalo de Guerra,  e como diretor-roteirista fez o Cult natalino Simplesmente Amor,  o médio Os Piratas do Rock e agora este filme sobre “família” como ele gosta de afirmar.  Que infelizmente não pegou nos Estados Unidos (não passou dos 15 milhões de dólares). Talvez porque sem a menor necessidade teve cotação R (proibindo teens) e que alguns tenham feito confusão já que Rachel McAdams fez há pouco tempo outro filme de viagem no tempo (que foi o Te Amarei para Sempre/The Time Traveler´s Wife, 09).Sem esquecer que também esteve em Meia Noite em Paris.  O papel originalmente iria ser feito por Zoey Deschanel, que era muito mais adequada.

     Embora seja charmoso, o filme tem algo que ainda não entendi bem porque não funciona como devia.Talvez seja a figura esdrúxula do protagonista- que é filho do excelente Brenda Gleeson- mas tem um tipo bizarro mais adequado para hobitt do que herói romântico. Acho outro erro colocar com a namoradinha dele que a principio  o rejeita, uma loira belíssima e que é muito melhor que a heroína  (não a conhecia, Margot Robbie que esta em Lobo de Wall Street). Outra que deixa boa lembrança é Lydia Wilson, que faz a irmã instável.

      O Fato é que Curtis não estava inspirado. Fez uma comédia em 3 atos, caprichando nas confusões e o desajeitadamente do herói a principio (curioso: ninguém envelhece no filme!!!). Mas estica demais ao final ao ter que lidar com morte e o máximo que consegue são piadinhas mais ou menos engraçadinhas. A Historia: Aos 21 anos, Tim Lake descobre que sua família tem um dom especial, tratado como naturalidade por seu pai (Bill Nighy). Eles podem viajar no tempo.  Mas não podem mudar a História mas pode tentar tornar o mundo um lugar melhor (para eles) realizando seu sonho de conseguir uma namorada. Só que isso é bem mais difícil do que ele pensava. Encontra Mary (Rachel), se apaixonam mas depois se perdem, tem que se encontrar outras vezes (e o filme Feitiço do tempo já contou isso de forma melhor). Tim usa então seu poder para criar uma proposta romântica e salvar a situação. Outra vez é completamente desperdiçado o fato de que ela é americana e teria outros costumes, ainda mais com os pais deles que logo somem...

Não conseguem tornar um filme memorável, mas a fotografia é bonita o papel de Rachel é muito fraco , não devia mesmo tê-lo aceitado. O galã ruivo é indigesto e o resultado acaba sendo o pior trabalho do diretor.  Um fracasso justificado.
Ref 

O Jogo do Exterminador

O Jogo do Exterminador.  Ender´s Game EUA, 13. Direção de Gavin Hood. Com Harrison Ford, Asa Butterfield, Hailee Steinfield, Abigail Breslin, Viola Davis, Ben Kingsley, Aramis Knight.

      Há muito anos que se falava na adaptação para o cinema do livro de ficção científica de 1985 que foi escrito por Orson Scott Card (que escreveu um monte de vídeo-games) que é mórmon e que inclusive morou no Brasil alguns anos como missionário. O livro mais que Cult tinha porém um problema. Era caro (custou 110 milhões de dólares) e há alguns anos atrás falou muito mal dos gays, que em represália e sempre unidos resolveram boicotar o filme. Dito e feito. Já que americano é muito organizadinho. E o filme rendeu apenas 60 milhões , o que significa que não teremos uma continuação. 

      Não acho que foi só por isso. Não fez dinheiro porque não é nenhuma maravilha mas dizia uma amiga, não é de assistir correndo nem de jogar fora. Tem um elenco de qualidade embora eu achasse que eles estavam bastante constrangidos com aquelas roupas e apetrechos. Em particular Harrison Ford, que envelheceu muito mal, ficou com cara daquilo que exatamente é, um velho azedo, mal humorado e azedo. O herói é aquele garoto de olhos vivos que trabalhou com Scorsese em A  Invenção de Hugo Cabret e o Menino do Pijama Listrado. E esta cercado por duas meninas estrelinhas de sua idade, a chata de Haille Stenfield (de Bravura Indômita) e  Abigail Breslin (Little Miss Sunshine).

      A Terra do Futuro foi atacada e quase destruída por uma raça de ETS chamada  os Formics, determinados a destruir a Humanidade.  70 anos depois os que restaram se uniram para enfrentar um novo ataque que promete ser apocalíptico. Mas os responsáveis pela defesa do planeta chegam a conclusão que os melhores pilotos de defesa seriam os adolescentes, muito jovens . E Dentre, já se sabe desde o começo o que tem mais chance é um certo Ender Wiggin , um rapaz calado mas brilhante, que parece ser o rei do vídeo game. Claro que tem bullying entre os colegas, e todos os clichês de filme de treinamento militar. Dizem  mesmo que os fuzileiros navais americanos  recomendou o filme para seus oficiais, dizendo que ele traz lições  em treinamento, metodologia e ética. 

       Na verdade, tudo é razoável, as cenas de luta e efeitos especiais, a direção sem brilho (do sul africano Hood que levou Oscar por Infância Roubada). Mas o filme resultou  banal, sem senso de humor, sem tensão, uma fantasia futurística que se leva a serio demais. Difícil de gostar, fácil de esquecer. 

Ref fim.

A Vida Secreta de Walter Mitty

A Vida Secreta de Walter Mitty; The Secret Life of Walter Mitty. EUA, 13. Direção de Ben Stiller. Com Ben Stiller, Sean Penn, Kristen Wiig, Adam Scott, Shirley Mac Laine, Olafur Olafsson, Kathryn Hann. Fox. 114 min.

     Fazia tempo que eu não sai do cinema, ainda mais em um filme comercial americano, tão feliz e emocionado. Também surpreso porque não imaginava que o astro e comediante Ben Stiller demonstrasse tanto talento como realizador já que os filmes anteriores dele não justificavam essa esperança. Ele aqui foi procurar um filme favorito dele que era do produtor Samuel Goldwyn (que não por acaso  produziu este remake). Na época foi sucesso como O Homem de Oito Vidas/The Secret Life of Walter Mitty, 48, estrelado por Danny Kaye (Natal Branco), um comediante ruivo e exagerado, famoso por falar rápido e parecer sempre exagerado.  Por sua vez a historia era inspirada em famoso conto de James Thurber ( 1894-1961), que teve sua vida filmada  em 72, como Guerra entre Homens e Mulheres com Jack Lemmon onde essa obra virava desenho animado (ao menos num trecho). 

      O problema com o original é que se repete demais, é sempre a historia de um homem tímido e desajeitado que na vida real faz tudo errado. No caso ele trabalhava numa editora de livros baratos, pulp fiction e isso o influenciava porque ele se imaginava em perigosas aventuras, sempre salvando a mocinha (que era Virginia Mayo). O roteiro de Steve Conrad (À Procura da Felicidade,  O Sol de Cada Manhã) usa isso como ponto de partida mas depois de três sequencias rápidas nesse tom (uma delas homenageando Hancock) logo pega outro caminho, não vou entrar muito nisso. Mas é uma excelente solução. Assim como é ótima idéia situar a ação nos bastidores da revista Life, famosa por seu foto jornalismo e tornar Mitty o preservador dos negativos e contatos (Provas de fotos), homem de confiança do maior fotografo do mundo(agradável mas curta aparição de Sean Penn).Só Life vai acabar (como sucedeu) e virar apenas revista on life (coisas dos dias que correm) e chegou o cara antipático que vai fechar tudo e mandar as pessoas embora. E Walter sumiu com o negativo da foto que ele quer para a capa da ultima edição.  Como fazer para recupera-la?

      Há também o suave romance com uma garota do escritório a surpreendentemente muito doce  Kristin Wiig e também a registrar a aparição discreta e humana de Shirley MacLaine, muito envelhecida  mas sempre eficiente . Não é a toa que este filme foi selecionada para o rigorosíssimo Festival de Nova York  onde foi muito bem recebido.

      Tudo nele deu certo, a belíssima trilha musical (a gente sai impressionado com a canção que esta tocando), a excepcional fotografia,  a direção precisa e sem nenhum exagerado comum em comediantes.  Sem esquecer as cenas no Himalaia, na Islândia,  de tirar o fôlego. 

      Talvez o ritmo pudesse ser mais intenso, a trama podia começar mais cedo mas para que? Embarquei inteiramente neste filme belíssimo e divertido. 

Ref fim.

Uma Estranha Amizade

Uma Estranha Amizade (Starlet) EUA, 12. Direção de Sean Baker. 103 min.  Com Dree Hemingway, Besedka Johnson,Stella Maeve, Boone, Sheri Vecchio,Robert  Malmuth, James Ramsone.

      São tantas as estréias que a tendência é não prestar atenção em certos filmes pequenos que podem ter qualidades. 

      É o caso desta produção independente de um certo Sean Baker, que tem alguma reputação por fazer filmes realistas, quase semidocumentários, que me parece não foram exibidos comercialmente aqui (como Taken Out, 04, Prince of Broadway, 08). Este aqui teve muita repercussão ganhando o Independent Spirit de elenco (indicado também como direção), a atriz como revelação em Hampton, premio dos jovens em Locarno, critica de Reykjavik.

      O estilo do diretor é aquele que esta começando a me irritar, deixa a câmera perseguir os atores, captando as conversas e os momentos mortos, sem qualquer dialogo preparado ou maior profundidade. Por isso mesmo dependente muito da escolha dos atores, começando pelo próprio cachorro de estimação da heroína (que é o cachorro do próprio diretor do filme, Boone, e que é apelidada de Starlet). Quem faz a protagonista é Dree Hemingway, bisneta sim do escritor e filha da famosa Mariel Hemingway e do diretor Stephen Crisman. Fiquei surpreso no meio do filme quando aos cinquenta e poucos minutos se revela que a moça é atriz de filmes pornográficos e fica-se na duvida se ela participou mesmo das cenas explicitas de sexo que aparecem ou foi usado uma dublê. 

      De qualquer Dree é uma loirinha aguada, de nariz comprido e com total falta de expressão. Começa o filme mostrando-a morando com um casal de amigos que vivem se drogando e tentando montar o apartamento comprando coisas em yard Sales (vendas em quintais caseiros) até quando encontra dentro de um garrafa de água quente um montão de dinheiro que uma velha escondeu e não lembra mais. Intrigada se aproxima dessa mal humorada e relutante senhora, de quem eventualmente irá ficar amiga. Há esta o ponto mais comovente do filme, já que essa velha é feita por uma certa  Besedka Johnson que sempre sonhou em ser atriz e logo depois morreu aos 87 anos! Era astróloga antes disso e saber do fato torna o filme mais interessante e comovente. Há para quem gosta pontinhas de porn star verdadeiras. 
Ref fim.

Eu e Você

Eu e Você (Io e Te) Direção de Bernardo Bertolucci. Itália, 12. 103 min. Com Jacopo Olmo Antinori, Tea Falco, Sonia Bergamasco,Veronica Lazar.

     Fiquei profundamente decepcionado com este filme pequeno que marcou a volta ao cinema de um dos maiores diretores do cinema europeu de sua geração, o lendário Bertolucci que ganhou inúmeros Oscars por O Ultimo Imperador mas deixou sua marca com clássicos ousados como O Ultimo Tango em Paris, O Conformista ou La Luna. Mesmo nos mais recentes, mas ainda interessantes Beleza Roubada e Os Sonhadores (o filme anterior justamente que foi de 2003, ou seja ele passou nove anos afastado também com problemas de saúde. Sofreu uma queda que machucou suas costas e o obriga a andar de cadeira de rodas. Todos imaginavam que ele não voltasse a dirigir ).

      De qualquer forma eu tive dificuldades para justificar este projeto, interpretado por desconhecidos e praticamente todo feito num único ambiente fechado, um porão (Isso não quer dizer muito já que Assédio, de 98, se passava numa única casa velha de Roma e resultou numa obra –prima). O que teria se passado com Bertolucci para ter um filme com atores  tão mal dirigidos, uma fotografia escura e uma trama que aponta para varias direções e não pega nenhuma.

     Para começar é baseado num romance (de Niccoló Ammaniti) que foi adaptado pelo autor e como é costume na Itália, três outros, Bertolucci, Umberto Contarello e Francesca Marciano. O elenco central traz um garoto estreante e nada fotogênico que não justifica sua presença. Um equivoco que ajuda a abalar o filme.Foi a revista inglesa famoso Foi a famosa revista inglesa Sight and Sound que disse que o filme parece apenas um exercicio em claustrophobia (ou claustrophilia, como chamou o diretor) A historia é sobre um garoto adolescente e sua meia- irmã mais velha que passam uma semana juntos, acampados no porão da casa da família. (Já houve outra adaptação do mesmo autor por Gabriele Salvatores, que foi Eu não tenho Medo, de 03) e que termina em tons religiosos (aqui Bertolucci não chega a tanto mas ao menos deu um final mais feliz do que no livro). Varias vezes ele brinca com a possibilidade de incesto mas não tem a coragem de ir até o fim. Mas deixa isso mais na cabeça do espectador do que na tela (Lorenzo de 14 anos e Olivia de 25 se gostam e dormem perto um do outro mas só isso). Outra dica já tinha ocorrido num restaurante onde Lorenzo estava com a mãe Arianna e levantava questões embaraçosas sobre o tema.

     Mas para quem já foi o grande provocador e estilista do cinema é muito pouco. Não dá para escondermos a decepção.

Ref fim.

Somos o que Somos

Somos o que Somos (We Are What We Are). EUA, 12. Direção de  Jim Mickles. Com Michael Parks, Bill Sage, Kelly McNichols ,Julia Garner, Ambyr Childers, Kassie Wesley DePaiva.

      Não assisti a versão original Mexicana que passou aqui com o mesmo nome (com a diferença é que no México o titulo tinha outro significado já que se referia também a uma campanha local de auto-orgulho!). Mas foi feita por Jorge Michel Grau e contava basicamente a mesma historia (mas era o pai que morria no começo e não a mãe, tudo ficava por conta das crianças). O mesmo roteiro serve de base mas foi muito modificado pelo diretor Mickles (Stake Land, amanhecer violento, 10, Mulberry Street Infecção em Nova York, 06). Não me parece que para melhor porque aqui tudo tem qualidade: a fotografia é boa, a produção parece cuidada e ate o elenco tem nomes famosos de antigamente (Parks faz um policial, ele foi o Adão de A Biblia de John Huston e voltou com Tarantino, Kelly McGillis foi a heroína de Top Gun). Mas o filme não chega a provocar qualquer susto, surpresa ou mesmo horror. 

       Começa no meio de uma tempestade quando vemos uma mulher morrer de alguma doença esquisita. Seu marido informa as crianças, um menino pequeno ainda (a melhor cena é quando ele começa a chupar um dedo de Kelly e depois o morde, dando a dica que já tínhamos percebido, eles são todos canibais). Assim as duas garotas loirinhas terão que assumir a alimentação da casa, ou seja matar e descarnar os visitantes, geralmente garotas jovens. O resumo fala que a chuva ameaça revelar a verdade mas não é bem isso que acontece. Dali em diante, vamos acompanhando o comportamento anormal da família, que são cristãos devotos mas o filme não sabe explorar direito os outros possíveis pecados (como incesto) limitando-se a algumas visitas ao porão onde há ainda prisioneiros/vitimas. Como nenhum personagem é bem desenvolvido, o espectador simplesmente não se envolve ou se interessa. E o final mais ou menos inesperado também não acrescenta muito. 

Ref fim.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Um Estranho no Lago

Um Estranho no Lago (L´Inconnu Du Lac). França, 13.  Direção e roteiro de Alain Guiraudie. 100 min. Com Pierre Deladonchamps, Christophe Paou, Patrick D´Assumpção,Jérome Chappate, Mathieu Vervisch.

       Este foi um dos poucos filmes que causaram sensação no ultimo Festival de Cannes, onde foi apresentado na sessão paralela Un Certain Regard, onde levou os prêmios de direção e melhor filme gay. Não chega nem a ser novidade misturar uma trama policial com cenas de sexo explicito. Ainda assim alguma coisa no filme,talvez sua franqueza despudorada, a realidade com que expõe o comportamento de trocas sexuais e paqueras ou simplesmente o tratamento serio que o diretor dá a narrativa (que bem a moda francesa é lenta, arrastada, passa-se unicamente numa única locação -  um lago durante o verão, sendo que em vez de areia, tem aqueles pedregulhos das praias francesas que machucam as costas e tirariam todo o prazer de ser nudista!) . E para o meu gosto, ainda por cima tem um final aberto (ou quase).

       Esse lago é frequentado por gays, que se banham nus e aproveitam o mato em volta (parte da praia apenas é escondida , em outra é utilizada por pessoas comuns) para os encontros sexuais e casuais. O herói Franck (feito por  Pierre que tem pelo menos dez créditos com ator) vai lá em busca de sexo, mas não tem problemas em fazer amizade com um homem hetero e mais velho (Patrick), que terminou com a namorada mas que acabara se interessando por ele, mesmo sem ter esperanças, quase que viram amigos. O filme vai devagar e mais ou menos no meio, Franck encontra o homem de seus sonhos, o bonitão Michel (Paou, que tem 21 créditos) que já tem um companheiro. Fica perambulando pelo mato (não sei o que faria por lá quando escurece) e no lusco-fusco do anoitecer testemunha quando Michel sem muita explicação, afoga o namorado. E sai belo e formoso como se nada tivesse acontecido.

          Quando dias depois é encontro o corpo, isso naturalmente atrai a policia mas Franck em vez de fugir  de Michel, sente-se ainda mais atraído, passando a ter momentos de sexo e por fim se apaixonando. E até reclamando quando o outro não quer prosseguir a relação fora daquele ambiente. O filme é isso, cria um certo clima  mas não chega a ser um suspense. As cenas explicitas são frequentes mas não exageradas (naturalmente isso vai variar de espectador para espectador e o grau de familiaridade que tem com o gênero) e por vezes me pareceram simuladas. Não sei dizer se nunca houve outro filme igual ou simplesmente não os conheci. Mas pela reação da sessão de imprensa eu fui dos poucos que não me choquei nem gostei especialmente.

Ref fim.

O Hobbit : A Desolação de Smaug

O Hobbit : A Desolação de Smaug The Hobbit: The Desolation of Smaug. Nova  Zelândia EUA, 13. Direção de Peter Jackson.161 min. Com Martin Freeman, Ian McKellen, Richard Armitage,  James Nesbitt, Stephen Fry, Orlando Bloom, Evangeline Lily, Lee Pace, Benedict Cumberbatch (voz do Smaug), Luke Evans, Ken Stott, Aidan Turner. Warner/New Line/MGM 

     O Primeiro filme do Hobbit era legal mas pouco mais que isso, parecia esticado (e não vi ainda a versão com 16 minutos que esta saindo agora em Home Video). Mas este capitulo do meio é tudo aquilo que se esperava de uma série que impôs um padrão de qualidade no gênero difícil de superar.

      Ele começa com um piscar de olhos para a platéia mostrando um close de Peter Jackson, o próprio diretor/produtor saindo de uma casa. E já começa a aventura que não vai parar mais, ao contrario muita coisa vai ficar em suspenso para ser resolvida apenas no próximo capitulo (não quero dar detalhes mas nenhuma trama principal é solucionada, quase como em O Império Contra Ataca). É verdade que tem tanta ação que teve momentos que me faltou fôlego e me perguntei, não será excessivo? Não em violência felizmente, que esta na medida adequada. Mas são enormes e longas batalhas (e mais o clímax com o tão esperado dragão que leva a voz do Cumberbatch ), varias delas  eletrizantes e o suficiente para me deixar com vontade de assistir de novo (suspeito que alguns detalhes faltam ser  observados).

      Desta vez, Martin Freeman (Bilbo) desaparece de vez em quando (embora já esteja sob a influencia do anel que lhe serve para se tornar invisível quando as aranhas atacam!) e mesmo Ian McKellen (Gandalf) é tirado de cena por um longo período. Há muita ação com os Orcs mas o episódio mais interessante talvez seja justamente com os elfos arqueiros que  a principio não são nada amigáveis aprisionando o que chamam de anões. Todo mundo já leu a respeito de que no texto original havia poucos personagens femininos e os adaptadores, Jackson e sua mulher, resolveram inventar uma mulher elfo chamada Tauriel e que é interpretada por Evangeline Lily, revelação da serie de teve Lost. Ela briga bastante com seu superior (Orlando Bloom maquiado para ficar melhor do que na vida real e outros filmes embora eu aprecie mais Lee Pace, de Pushing Daisies como o rei Thranduil). Ainda assim, meio sem explicação a moça fica desatinada quando conhece a cara de bicho (isso é elogio) de Kili (Aidan Turner), e por amor fará tudo para salva-lo de um envenenamento (que por sinal custa a fazer efeito). 

      Na hora final, os heróis pegam carona num barco cheio de peixe conduzido pelo capitão Luke Evans (Girion) e vão parar no reino de Laketown onde Stephen Fry é o líder. Dali partem para o luta com o dragão... Como já disse, achei tudo tecnicamente brilhante e ao contrario do primeiro filme mergulhei nas imagens, na exemplar direção de arte e agora já aguardo com ansiedade o próximo e suponho ultimo capitulo previsto para o ano que vem. Ainda.
ref fim

A Musica Nunca Parou

A Musica Nunca Parou (The Music Never Stopped) EUA, 13. Direção de Jim Kohlberg. Roteiro de Gwyn Lurie, Gary Marks. 105 min. Drama. Com Lou Taylor Pucci,  J. K. Simmons, Julia Ormond, Scott Adsit, Cara Seymour, James Urbaniak. Europa. 

       Estreia na direção de um produtor (Trumbo, Marcas de um Passado) contando uma historia real e ate interessante. Mas nos tempos que correm, de festas natalinas, com um elenco quase desconhecido fica difícil convencer alguém a entrar numa sala para se envolver em algo tão bem intencionado e tão antiquado. 

        Tudo é meio fora de moda na historia de um pai (o conhecido Simmons, que certamente você recorda a cara mas não sabia o nome) que gosta muito de musica popular e criou seu filho dessa forma. Mas o rapaz viveu anos fora e ao retornar esta sofrendo de uma doença no cérebro, são tumores talvez não malignos mas que ao serem retirados provocam ausência de memória. Uma professora (a inglês Ormond) é quem traz a sugestão de fazer renascer o rapaz (o também veterano Pucci, mas também ainda não conhecido aqui por filmes como Toda Forma de Amor, A Morte do Demônio). Usando a musica. Ainda que seja a musica que o rapaz gostava, naturalmente rock (eles vão a um concerto do Grateful Dead). O resto claro que é previsível e sentimental, com o aproximamento de pai e filho, um final para chorar. 

      Achei o filme correto e num dia em casa, vendo teve certa muita gente terá prazer em se divertir com suas boas intenções. Mas temo que não exista mais publico que vá a salas para conferi-lo.

Ref fim  

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Um Corpo que Cai

Um Corpo que Cai. Blu Ray (Vertigo, EUA, 1958). Suspense. Na Edição Alfred Hitchcock a Obra-prima (Masterpiece). Universal (originalmente Paramount).128 min. Cor. Vistavision. Roteiro de Alec Coppel, Samuel Taylor baseado em livro D´entre les Morts, de Pierre Boileau e Thomas Narcejac. Música de Bernard Hermann. Fotografia de Robert Burks. Direção de arte de Hal Pereira e Henry Burnstead. Com James Stewart, Kim Novak, Barbara Bel Geddes, Tom Helmore, Henry Jones, Ellen Corby, Lee Patrick.  

        Sinopse: Um policial passa a sofrer de acrofobia, medo das alturas quando quase morre ao ficar dependurado numa calha (e um colega morre em seu lugar). Mesmo assim é contratado por um milionário que pede que siga a esposa que está se comportando de maneira estranha,  aparentemente dominada pelo espírito de uma mulher já morta. O detetive se envolve com a cliente, mas não pode salvá-la quando esta se joga de uma torre. Tempos depois, encontra uma garota parecida e tenta transformá-la na mulher que amou e perdeu.

        Bastidores: Embora tivesse sido recebido com restrições em sua estréia- foi indicado apenas ao Oscar de direção de arte  e som  e esqueceram absurdamente  a trilha musical, embora tenham premiado em 2012 a de O Artista eu usava parte importante desta trilha dizendo que era homenagem e citação!). Mas  acabou virando o favorito da crítica dentro da obra do diretor (em parte porque durante 20 anos Hitchcock não permitiu que ele fosse reapresentado). E estranhamente foi escolhido pelos críticos de todo o mundo reunidos pela revista inglesa Sight & Sound, também em 2012 como o melhor filme de todos os tempos superando o anterior Cidadão Kane! 

        Eu o assisti ainda criança e desde logo adorei o resultado também em parte porque era encantado por Kim Novak, paixão esta que nunca passou mesmo agora quando ela é octogenária ainda a acho linda e misteriosa (só recentemente ela passou a confessar que o filme é seu preferido e Hitchcock também virou seu diretor preferido, porque o personagem que fez tem dentro de si muitas facetas, assim como ela própria que se assumiu bi-polar!).Não foi porém o que me disse quando conversei com ela em Berlim (num momento inesquecível) quando preferia o ex-namorado Richard Quine e rejeitava George Sidney. De qualquer forma, naquele momento Kim  era a maior estrela de Hollywood e infelizmente não fez outro filme da mesma qualidade, se afastando cedo demais (em parte porque precisava de um diretor forte como Hitch para conduzi-la, em parte porque acabou o sistema de estúdios e não se deu bem como free lancer).

        Enfim, depois daquela exibição original do filme Um Corpo que Cai nunca mais passou no Brasil e acabou virando um mito e me lembro muito bem que o Silvio de Abreu, via Carlos Manga conseguiu dos Estados Unidos uma cópia de colecionador em formato Scope (não havia na época os conceitos de widescreen ou de pirata). Que a gente via com admiração diante das ousadias estilísticas e narrativas do diretor, que fugia completamente do normal, inclusive na ausência de um final feliz (até hoje o considero um pouco abrupto e até confuso). Quando criança não acreditava que pudesse terminar daquela maneira. Na estreia assustou os críticos americanos (sempre tontos e prontos a fazerem besteira, tendo custado 2 milhões 479 mil dólares e rendido bruto 5 Milhões e 300 mil dólares) que reclamaram que James Stewart era velho demais para o papel e tinha o dobro da idade de Kim, uma besteira que hoje não incomoda (mesmo porque ela não parece jovem demais, tem idade indefinida já  que todo o filme tem uma estrutura onírica). Também me lembro que Stewart esteve no Rio para apresentar a Reprise dos filmes que Hitchcock havia escondido e participei da entrevista com ele (naturalmente muito simpático e afável como todos, já o conhecia também de Cannes e “Musica e Lágrimas”). Hitchock tinha um contrato com a Paramount que fazia com que os direitos de seus filmes para o estúdio revertessem para ele depois de certo tempo e assim ele os negociou com a Universal (porque ele era também um grande acionista dela e foi onde ficou trabalhando em seus últimos anos). Dessa forma, os direitos foram para sua única filha Patricia (Pat) Hitchcock (1928- ainda viva) com quem também tive uma informativa entrevista (ela participou como atriz, alias boa, em papeis quase humorísticos, de vários trabalhos do pai). Foi assim que voltamos a ter acesso a este filme junto com os outros raros (O Terceiro Tiro, Janela Indiscreta, O Homem que Sabia Demais, Festim Diabolico que era da MGM).

       Vertigo (Vertigem, literalmente) foi também um dos filmes mais imitados e homenageados de todos os tempos principalmente na obra do hoje decadente Brian De Palma que o recriou várias vezes ( em Vestida para Matar, Estranha Obsessão, Doublê de Corpo ).
O papel central foi planejado para a descoberta de Hitch, Vera Miles (com quem este fez O Homem Errado e mais tarde Psicose).  Ela chegou a fazer os testes de guarda-roupa ,pousou para o quadro que aparece na historia mas a filmagem foi atrasada (inclusive porque Hitch foi operado) quando chegou a hora, ela anunciou que estava grávida e não podia fazer o filme. Este nunca a perdoou por ter perdido sua chance (Vera era casada na época com Gordon Scott, o halterofilista e Tarzan). A atriz ainda viva há muitos anos não se deixa fotografar.

       Foi assim que  Kim Novak estrela maior da Columbia e que realmente queria ser uma atriz de verdade mas Hitch não gostava de conversas. Como todo mundo sabe, ele preparava antes tudo minuciosamente e nunca olhava pela câmera, porque já sabia tudo o que havia previsto, as filmagens inclusive o entediavam. E nunca se enganava, já que tinha permanecido meses fazendo os story-boards e cuidando dos detalhes. Quando Kim pedia explicações ou a motivação para tal cena, ele dizia “é apenas um filme, interprete” (estava na moda na época ele comparar os atores como gado). Enfim, nunca gostou de Kim e nunca a ajudou. Ele já tinha feito antes vários trabalhos com James Stewart – na verdade, o quarto - mas este foi o ultimo, talvez porque tivesse ouvido os críticos que o acharam velho (se foi isso, burrice dele). Correm lendas sobre a crueldade que ele teria tratado a atriz obrigando-a pular várias vezes na água do estúdio, que passava pela Baia de San Francisco. Mas isto não se fala aqui nesta edição. As locações foram em duas missões famosas na região da Califórnia, Mission Dolores e  San Juan Bautista (sendo que não existia a Torre que foi construída em estúdio para as cenas importantes que foram feitas lá, em parte inclusive em maquete/miniatura). A ponta do diretor é aos 11 minutos,  muito rápida,  passando rapidamente carregando a caixa de um instrumento  por uma loja onde Jimmy entra, bem no começo da trama. Um Corpo que Cai não é propriamente um suspense no sentido tradicional da palavra. A irônica que este omais celebrado de Hitchcock, o mestre do suspense, é uma história de obsessão, amor , traição e falsa identidade.A trama policial e mesmo a espiritualista são meras pistas falsas, para tornarem mais intrigantes as reviravoltas de um amor proibido. O clima inusitado já começa com os letreiros de apresentação do mestre Saul Bass, que procuram mergulhar o espectador num turbilhão de vertigens, já que o protagonista nunca está em controle da situação. Embora seja um policial honesto, fica intrigado quando acredita que a mulher que está espionando poderia estar possuída  pelo espírito de uma outra, uma certa Carlota, cujo retrato está num museu e que teria ficado louca. Comete o erro de se apaixonar por essa mulher e quando esta morre, aparentemente por sua culpa, se jogando de um Torre ( ele é incapaz de mesmo subir os degraus para ir salvá-la), isso só acentua a gravidade de sua neurose e culpa . Ao mesmo tempo, o faz desconfiar de que há algo errado, quando encontra uma garota muito parecida com a falecida. Só que com outro jeito, cabelos e roupas diferentes. E não resiste a tentação de aos poucos transformá-la na outra. Mesmo que as consequências sejam trágicas, com o risco de perdê-la novamente. Embora haja elementos de “thriller” e mesmo policial, o que realmente importa é a história de amor e justamente deve ser por causa disso que o filme manteve seu impacto. É um filme de sonho, de obsessão, de fantasia (varias cenas foram rodadas com um pano na frente da lente para lhe dar a impressão de que foram feitos com a nevoa de San Francisco). Na verdade, em todos os filmes de Hitch existem menos experiências técnicas por vezes atrevidíssimas. Elas persistem aqui mas com outra intenção, a de acentuar o clima de amor arrebatador (a sensação de vertigem presente  no começo e depois em todo o filme e principalmente o beijo do casal a beira do mar explodindo nas rochas). Tudo conduzido de forma brilhante através da trilha musical de Bernard Hermann, que praticamente fornece o tom e o ritmo da narrativa. O filme tem alguns problemas não solucionados (a maquiagem de Kim , em particular as sobrancelhas que ficaram pesadas demais, a cena final que é precipitada demais, faltaram alguns planos ali que deixassem mais patentes a ação e reação que provoca o desfecho). Mas o filme é tão absorvente e atormentado como um pesadelo, que numa revisão em Blu Ray (naturalmente de boa qualidade já que foi feita a partir da restauração original que levou dois anos e rodado com película usada no Vistavision) que emoldura a beleza inacreditável de Kim (mesmo um pouco gordinha para os padrões atuais, seria por essa razão que Hitch dizia que a mulher dela Alma não gostava do filme, o que é desmentido aqui) e a empatia de Jimmy Stewart. Importante: praticamente todos os interiores foram recriados em estúdios e houve apenas 16 dias de filmagem em locação. 

        Foi inspirado no livro Francês , “D’Entre les Morts” (Among The Dead/Dentre os Mortos foi o titulo de rodagem, de Pierre Boileau e Thomas Narcejac, os mesmos autores de “As Diabólicas”. Reza a lenda que eles teriam escrito especialmente para Hitch que havia tentado comprar os direitos daquele outro clássico e não conseguido. O roteiro passou por três mãos, primeiro o poeta  Maxwell Anderson (segundo o coprodutor Herbert Coleman não fazia sentido, depois Alex Coppel (só esta creditado por causa de contrato) e finalmente do dramaturgo Samuel Taylor, conhecido como autor de Sabrina (mas também de Papai Playboy, O Amor, Eterno Amor, Avanti, Promessa ao Amanhecer, Topázio,  Mais uma vez Adeus, Três em um Sofá e Melodia Imortal. Não se pode esquecer que Hitch participava de todo roteiro que filmava sem crédito, assim como sua mulher Alma Revill que raramente também era creditada mas era a pessoa que ele ouvia e respeitava. Era quase uma co-autora de tudo que ele fez.    

       Os extras desta edição datam de 2008 e já sairam antes em  semelhante antes em vídeo) e incluem o documentário Making-of de 29 minutos, Obsessed with Vertigo, New Life for the Film (produzido pelo canal AMC, narrado por Roddy McDowall,  fala da restauração, a filmagem pelo processo Vistavision). Há um outro featurette raro sobre um final alternativo. Acontece que este foi o único filme de Hitch em que o criminoso não é capturado ate porque ele na trama não tem maior importância. Mas em alguns países havia problema com a censura local e ele muito a contragosto fez um final alternativo com James Stewart chegando na casa da namorada Barbara Bel Geddes que esta ouvindo o radio que diz que o bandido foi capturado. Ele entra se senta no sofá e ela sem trocar palavra vai lhe levar uma bebida e The End. Traz ainda trailer original dos cinemas, os arquivos da filmagem de quase uma hora com detalhes técnicos), um comentário em áudio com o diretor de O Exorcista William Friedkin  e o extra mais interessante e que dura uma hora ao todo, falando dos Partners in Crime, os melhores colaboradores que Hitch tinha 1)Saul Bass,1920-96 o gênio que revolucionou os títulos de apresentação e por tabela toda o design gráfico do cinema. O de Um Corpo que Cai é considerado dos melhores assim como a cena do chuveiro de Psicose que ele planejou (mas não realizou). 2) A figurinista  Edith Head  1897-1981 que trabalhou na Paramount e Universal e fez 11 trabalhos com ele. Campeã de Oscars, ela trabalhou com Hitch para dar ao personagem de Madeleine um tom meio fantasmagórico, por exemplo, usando um conjunto cinza, cor que não cai bem para loiras. Ou o casaco branco com lenço preto. Sua carreira, sua habilidade para atender os pedidos dos diretores é muito bem explicado aqui assim como o fato dela ter se tornado uma lenda na categoria. 3)o compositor Bernard Herrmann (1911-75) é outra lenda, famoso por sua parceria também com Welles em Cidadão Kane, (no mesmo ano ganhou o Oscar mas por outro filme All the Money Can Buy/O Homem que Vendeu a Alma e por sua passagem pela Fox (onde escreveu a trilha de As neves de Kilimanjaro, O Dia em que a Terra Parou, Jardim do Pecado .Também famoso por ter composto o tema de Taxi Driver para Scorsese e morrido naquela Noite. Trabalhou com frequência com Hitch (Intriga Internacional, Psicose, Marnie, O Homem Errado, O Homem que Sabia Demais,O Terceiro Tiro. Os Pássaros não tem trilha musical somente efeitos eletrônicos mas ele assina como consultor musical). Porém cedendo as pressões do estúdio Hitch recusou a trilha para Cortina Rasgada- queriam algo mais pop e assim terminaram a parceria, lamentavelmente. Um Corpo que Cai existe e funciona por causa da trilha sinfônica (que teria sido inspirada em Tristão e Isolda de Wagner, que é também sobre obsessão romântica). Há por exemplo uma sequencia inteira de vinte minutos em que James segue Kim sem diálogos apenas conduzida pela musica! Ele era mesmo o maestro que enriqueceu o suspense e também o injustiçado. 4) Alma Reville (1899-1982) é vivida por Helen Mirren no recente filme Hitchcock (2012) e tem sido inclusive indicada para prêmios por isso. Já falamos dela aqui mas os depoimentos confirmam que Hitchcock era apaixonado por ela em mais de 60 anos de união. Começou no cinema ate antes dele e sempre esteve junto dando palpite e aprovando tudo (ou não). Era a entidade por trás do criador.

        Trivias notáveis: o cameramen sem crédito no filme Irmin Roberts inventou o famoso "zoom out e track in" shot (também chamado de "contra-zoom" ou "trombone shot") para dar impressão de vertigem na plateia.  Ainda hoje em San Francisco você pode contratar tours que o levam nas principais locações do filme como o The Empire Hotel que é agora o  Hotel Vertigo (em  940 Sutter St.  No coração de San Francisco). O quarto  Room 501, ainda se parece com o filme. O exterior do apto esta localizado em 1000 Mason St., diante do  Fairmont Hotel. Foi o artista John Ferren que planejou a sequencia de Pesadelo e tambem pintou o Retrato de Carlotta. Nas pesquisas do American Film Institute o filme se saiu bem ficou em primeiro lugar dentre os filmes de mistério e suspense, seu pôster foi em terceiro (dentre os melhores posters de todos os tempos) e ficou em nono lugar dentre todos os filmes.  Não é verdade o boato que Kim Novak teria dublado a voz da freira no final. Hithcock mudou a ação do livro de Paris para San Francisco e também a conclusão, já que o herói do livro estrangulava a misteriosa mulher. 

       Será que Um Corpo que Cai merece seu titulo de melhor filme de todos os tempos? Acho irônico porque no fundo é um premio para esse diretor digamos comercial, que procurou a publicidade e a fama justamente para poder continuar fazendo seus experimentos. Um dos poucos cujo nome e função era conhecida do publico. Eu gosto pessoalmente mais dele do que de Cidadão Kane mas não acho que tenham a mesma importância histórica ou na linguagem do cinema.

         Ref fim

O Azul é a Cor mais Quente

O Azul é a Cor mais Quente  (La Vie d´ Adéle )França, 13. 179  min. Direção de Abdellatif Kechiche. Com Léa Seydoux, Adèle Exarchopoulos, Salim Kechiouche, Aurélien Recoing, Catherine Salée, Benjamin Siksou.

      Apesar do júri deste ano do Festival de Cannes ter tido Steven Spielberg como presidente, o filme vencedor da Palma de Ouro do Festival foi esta produção franco-belga-espanhola, que se tornou  famosa por causa de suas cenas de sexo lésbico, quase explicito (o caso esta ainda aberto para discussões, as cenas são longas, duram de 6 a nove minutos e mostram as duas moças em ação, no que me pareceu mais uma encenação  representada do que factual. Não há closes de órgãos sexuais, e embora seja convincente - afinal essa é a função de mostrar aqueles momento-  não lembra nada o equivalente de filmes pornográficos). O fato é que este é outro daqueles filmes franceses duro de assistir, com quase três  horas de projeção, com pouco alivio e a historia praticamente toda narrada em closes e widescreen.

      Estou reclamando não. Só prevenindo que é preciso ter paciência e não entrar por engano. O diretor tunisiano Abdellatif Kechiche tem um estilo particular, que já foi possível antes se perceber no seu premiado O Segredo do Grão (não vi o Venus Negra por descuido mas já estou providenciando). Narrativa longa, cheia de detalhes, dando atenção para personagens secundários que no final das contas não interferem tanto na trama. No caso deste filme ele se baseou numa famosa historia em quadrinhos para adultos homônima que alias já saiu no Brasil em livro (a Livraria Martins Fontes a editou !). Mas ele aproveitou muito pouca coisa do livro (que já começa com a decisão da heroína de se suicidar,coisa que é esquecida na tela) e partiu para outra experiência. Chegou a começar com outra atriz quando parece ter se apaixonado pela quase desconhecida Adèle (com o sobrenome mais impossível de se dizer dos últimos anos) ,que pessoalmente (esteve no Brasil promovendo o filme) não é nada demais mas na tela cresce e vira uma figura apaixonante e uma excelente atriz, que passa no rosto tudo que sente e pensa. O fato é que a câmera perseguiu as duas moças de maneira implacável rodando cerca de 600 horas de copião, inclusive fazendo  cenas em que vomitavam e urinavam! Tanto que a relação entre o diretor e atores é bem estremecida e cheia de queixas. O diretor pessoalmente fala baixo, foge de respostas e parece mais um capataz. 

     Isso porém não tem muito a ver com o resultado que francamente me envolveu e me interessou. Adèle é uma estudante de segunda grau,  que depois de experimentar com um colega, se desaponta e vai tentar uma relação com uma jovem de cabelo azul, assumidamente lésbica (feita pela já estrela Leia Seydoux). Mentindo aqui, fingindo ali, as duas começam um intenso affair sensual onde ambas se declaram apaixonadas. Naturalmente brigam mas Adéle não consegue esquecer assim tão fácil. Ver esse romance florescer e decair pode ser penoso (sabendo disso o filme não foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro no lugar entrou o bonito e fácil Renoir). Mas quem se interesse pelos caminhos novos do cinema tem que comparecer.

Ref fim.

Carrie, a Estranha

Carrie, a Estranha (a refilmagem) (Carrie) EUA, 13. Direção de Kimberly Peirce. Com Chloe Grace Moretz, Julianne Moore, Julianne Moore, Gabriella Wilde, Judy Greer, Alex Russell, Ansel Elgort. Sony.

      Tem sido sempre uma má idéia refazer os filmes clássicos de terror dos anos 70-80, que foram todos invariavelmente fracassos .  Mas são teimosos e incrédulos. No caso, de Carrie, a Estranha de Brian De Palma, de 1976, foi não apenas a revelação do cineasta então no auge de sua criatividade e mesmo loucura (uso de telas múltiplas, delírio de imagens) mas também do escritor Stephen King (seu primeiro êxito de uma brilhante e ate hoje espetacular carreira), da estrela Sissy Spacek (que virou estrela com o filme, que lhe deu indicação ao Oscar assim como a veterana que fez sua mãe Piper Laurie. Não espere nada disso por aqui).Ainda lembro bem da reação da platéia espantada com as novidades do filme, numa época apesar dos pesares bem mais liberal que agora, começando com a sequencia quase inicial quando Carrie sente-se menstruada pela primeira vez na vida. Sem saber do que se tratava porque a mãe era fanática religiosa, ela chorava e pedia socorro para ser alvo de zombaria. Tudo isso era mostrado no chuveiro, em câmera lenta, com quase todo o elenco feminino inteiramente desnudo. Ao mesmo tempo chocante, poético e erótico. Para se ver a diferença clara bvasta dizer que o filme nesta sua dispensável refilmagem começa com a mãe numa cama tendo sozinha o bebe e literalmente banhando-se em sangue. Que lhe mancha totalmente o lençol! Grita, sofre e pega uma tesoura com que pensa em matar a criança mas olhando nos olhos dela muda de idéia e corta o cordão umbilical. A diretor Kimberly  Peirce que só da certo com filmes sobre lesbianismo (Meninos não choram) deve ter pensado que era um grande achado. Depois que vem uma cena na piscina, com imagem meio disforme e a crise no chuveiro (todas vestidas!) mas a única coisa moderna é que a vilã da historia, a mau caráter vai tirar uma foto de Carrie e publicar nas mídias sociais (Quando chegar a hora do acerto de contas, a vingança será muito mais elaborada mas também mais banal do que a Carrie original).

      Não sei o que achar de Chloe Grace Moretz que é a única das interpretes de Carrie que ao menos é realmente adolescente (Sissy tinha 26, Angela Bettis que fez o papel na versão de 28 para a teve já com 28 enquanto Chloe chegara apenas aos 15. Mas isso não faz a menor diferença quando tudo o mais é inferior (fico pasmado com a celebre sequencia final da versão De Palma que criou escola e acabou virando mesmo clichê. A da aqui é semelhante mas muito fraca, parece mesmo ter sido feita na pos produção, na falta de coisa melhor). Pode-ser reclamar também do elenco onde a única figura simpática a professora é a competente e já conhecida Judy Greer (mesmo assim também apanha na vingança). A cena do baile da Prom, que era toda barroca, envolvente, parecendo que o mundo realmente enlouqueceu foi substituída por uma orgia inferior de destruição, sem aquele fluir de detalhes que tornaram o primeiro tão memorável. Custou 30 milhões de dólares e rendeu 35 ou seja  nem se pagou!  Apesar de ter sido lançada no Halloween! Outra idéia burra que deu errado.   

Ref fim

Anita e Garibaldi

Anita e Garibaldi  (2012) Direção de Alberto Rondalli. Com Ana Paula Arósio, Gilberto Braga Nunes, Alexandre Rodrigues. Leonardo Medeiros, Paulo Cesar Pereio, Adolfo Pimentel. Helio Cícero.


      É sempre trágico quando um filme é deixado inacabado, qualquer que tenha sido a razão. Aqui fizeram o possível de lhe dar algum sentindo e juntar os pedaços que foram rodados, mas esta historia sobre o lendário romance entre o guerreiro italiano Garibaldi e a brasileira Anita acaba por ficar a deriva, sem qualquer possibilidade de  lógica . Mas para não perder totalmente o dinheiro investido, foi feita uma montagem com o material existente. De forma que não tem razão para se criticá-lo. Fica apenas o registro. Não é bem um filme, é um copião, uma montagem sofrível do que foi possível salvar. O que não foi muito. Ana Paula Arósio mesmo naquela época já demonstrava sinais de desequilíbrio emocional Gabriel Nunes nem sequer tem chance de criar um tipo (fiquei pensando, Garibaldi não era ruivo? Porque não esta aqui assim ?). O diretor italiano tem vários trabalhos no exterior.  Rodado em 2005, em Santa Catarina, foi interrompido por falta de dinheiro e as cenas não rodadas fazem falta. 

Ref fim.

Como Não Perder Essa Mulher

Como Não Perder Essa Mulher  (Don Jon). EUA, 13. Direção e  roteiro de Joseph Gordon Levitt. Com Joseph Gordon Levitt, Scarlett Johansson, Julianne Moore, Tony Danza, Glenne Headley, Brie Larson, Anne Hathaway,Channing Tatum, Cuba Gooding Jr, Meagan Good.

      Quem quer que tenha sido o  orientador da carreira deste rapaz chamado Gordon Levitt fez um bom trabalho. Ele é neto do diretor Michael Gordon (Confidencias a Meia Noite com Doris Day e Rock Hudson), que foi perseguido pela Caça as Bruxas. Começou como ator infantil, depois conseguiu ser fixo num sitcom de sucesso (3rd Rock from the Sun, 96-2001). Foi estudar em Nova York na Universidade de Columbia e aos poucos começou a fazer papeis pequenos em filmes grandes e estrelar produções independentes, em papeis de assassino ou gay ou qualquer coisa polemica que passaram a  lhe dar reputação de ser cool e transado. Na verdade, não é nada especial. Não é bonito, não é forte, alto ou grande ator. Pouco expressivo, foi uma decepção como o recente e disfarçado Robin do Cavaleiro das Trevas. Mas nem por isso deixou de ser  prestigiado e cultuado como um astro jovem (32 anos) que agora se pode mesmo dar ao luxo de dirigir um filme Classe A (ou B menos).Co-estrelado pela bela e igualmente prestigiada Scarlett Johansson. 

       O titulo nacional não dá uma idéia correta do que se trata o filme, não é uma comédia romântica com tantas outras, não apenas porque lhe falte um “centro”, um ator forte o suficiente para justificar um personagem pouco simpático e que Levitt  deixa apenas enigmático. Rodado por apenas 6 milhões de dólares, rendeu 22 milhões, ou seja foi lucrativo ainda que não tenha tido boa repercussão. Não que já tenham descoberto que ele é uma fraude, simplesmente afastou o publico feminino que não gosta de pornografia (outros sobre o tema como “Lovelace” foram igualmente mal falados) sem agradar tampouco os que são viciados ou especializados nessa indústria. O titulo original parece se referir de forma irônica a figura do Don Juan, o grande conquistador de mulheres. O problema do protagonista é outro. Jon (Levitt) é obcecado por sexo, só pensa isso, só gosta de fazer isso. Mora em New Jersey,é muito católico (e se confessa com freqüência no filme), gosta da família (Tony Danza faz o pai dele em papel totalmente mal desenvolvido, alias com tudo no roteiro)  mas só é feliz mesmo se masturbando diante da pornografia que  consome de forma delirante (chega ao cumulo de depois de concluída a relação sexual com uma mulher partir para o lap top para se masturbar).  Depois de nos apresentar Jon após alguma ligações mal sucedidas com belas mulheres, ele finalmente se esforça para tentar conquistar a mais bela delas, Barbara (Scarlett) mas nem assim é capaz de se conter (e a moça descobre o monstro que ele esconde). E quando isso não dá certo, o script arranja um jeito de colocar no caminho dele uma mulher mais velha, que tem uma sequencia de romances infelizes mas com quem ele se diverte sexualmente (o papel pasmem é de Julianne Moore, que passando os cinquenta e apesar da pele delicada de ruiva, ainda esta um bela mulher e convence inteiramente num papel extremamente mal desenvolvido).

       No final das contas, é impossível gostar de Jon, mesmo quando o diretor não o julga nem o aprofunda (nem o psicanalisa). Nem sua obsessão sexual. Limita-se a ilustrar sua aventura, com muito ritmo, direção ágil, apontando o problema mas nunca resolvendo-o ou sequer discutindo-o. E o pior,  fazendo um drama que não da certo disfarçado de comedia romântica. Shane que de certa maneira abordava o mesmo tema foi melhor e mais interessante.  

Ref fim.  

Crô, o filme


Crô, o filme. Direção de Bruno Barreto. Roteiro de Aguinaldo Silva. Com Marcelo Serrado, Carolina Ferraz, Ana Maria Braga,Gaby Amarantos, David Alvarez, Milhem Cortaz, Carlos Machado, Ivete Sangalo, Alexandre Tigano.


    O Brasil é um país muito esquisito. No ano em que se derrotou ainda que parcialmente a Homofobia e foi liberado o casamento para pessoas do mesmo sexo, o máximo que a televisão conseguiu  fazer a respeito foi inventar o personagem de Crodoaldo Valério, uma triste caricatura e a mais recente presença de Felix, que não é exemplo para ninguém. Mais estranho ainda é que alguém tenha inventado transpor Crô para o cinema e entregá-lo nas mãos de Bruno Barreto, sem duvida um cineasta competente mas cujo ponto fraco sempre foi o senso de humor. Vide sua experiência americano no gênero, como Voando Alto (03). Depois ele fez O Casamento de Romeu e Julieta, 05, que era bem sucedido porque teve o bom senso de chamar para ajudá-lo os mestres da comédia Jandira Martini e Marcos Caruso. Alias prova da qualidade de Bruno temos no recente e delicado Flores Raras.

      Tivemos também faz pouco, a experiência de Giovanni Improta, uma comédia (melhor que esta por sinal) que tentou ressuscitar um personagem que veio de uma novela de 2004 e estava completamente esquecido. Crô é mais recente o problema é que fizeram um drama sobre trafico de escravas brancas bolivianas que são contrabandeadas para virem trabalhar no Brasil em fabricas de roupas, numa espécie de trabalho escravo. Então esta denuncia que poderia ser oportuna noutro tipo de filme acaba sendo a narrativa mais importante (porque acompanhamos a pobre sofredora da mãe e sua filha pequena, que tenta fugir de maneira absurda. E uma morte importante acontece fora de cena! Talvez porque não se mate ninguém em comédia, perceberam eles tarde demais!). Enquanto seguimos o drama dessa gente e temos que engolir dois vilões fora de ordem (Milhelm Cortaz ainda esta de acordo com os personagens que faz mas Carolina Ferraz dando uma de Cruela de Vil é outro equivoco). 

       É verdade que eu não assisti a telenovela e por isso alguns detalhes me escapavam (mas pessoas gentis me informaram depois porque a foto de Christiane Torloni, aquela historia de Deusa- outra vitima, Ivete Sangalo, mal maquiada e fotografada fazendo  a mãe de Crô, a ligação com seu motorista, que não consigo entender vive o insultando e todo mundo acha normal!). Conheço o Marcelo Serrado principalmente daquele bom trabalho em Malu de Bicicleta, 2010, com que foi premiado em Paulínia. Só que no filme que deveria ter sido dele, o coitado passa o tempo todo fazendo caras e bocas, ou seja, tenta fazer comédia quando nada o ajuda. A historia é absurda, o roteiro mal desenvolvido, o personagem se torna patético diante da besteira de querer arranjar uma noiva (seu homossexualismo é tratado de passagem, um grandão divide a cama com ele, mas é pura caricatura como se fosse feito para o publico não se ofender ou pensar nisso). Este ano tivemos uma safra irregular de comédias, e sintomaticamente as que deram maior bilheteria foram quase todas as  melhores. Não acredito que este seja perdoado. Não porque é ofensivo, apenas porque não tem nenhuma graça.

Ref fim.

Ensaio

Ensaio . Brasil, 13. Direção Tania Lamarca. Com Lavinia Bizzotto, Antonio Cunha, Ingra Liberato, Bruno Cesarop. Renato Turnes. Chico Caprario.

     Embora já estivesse pronto há algum tempo, só no ultimo Festival do Rio que teve sua estréia este novo trabalho da diretora catarinense Tania Lamarca (mais conhecida por ter feito o primeiro Tainá, e Buena Sorte. Mas este é sem duvida sem melhor trabalho. Um filme mais interessante do que você pode imaginar pelo nome (ele tinha originalmente um sub-titulo Segredos de uma Companhia de Danças) e muito mais bem realizado do que a média geral de nossas produções. 

      Não me lembro de outro filme nacional sobre esse tema e mesmo no exterior há poucos que se aventuram a contar (não como documentário) uma aventura artística de um grupo de dança (no caso regional, parece que de Florianópolis, capturado durante o inverno) que esta imersa na produção de um espetáculo sobre a vida de Anita Garibaldi. Assim há uma tentativa de capturar quem foi Anita, a rebelde lutadora (ate com depoimentos do povo) enquanto uma bailarina (a talentosa e estreante Lavinia Bizzotto) esta em pleno processo de acessar ao personagem, enfrentando um conflito entre seu companheiro e diretor do espetáculo (Chico) e o seu companheiro de palco, Bruno Cesareo (que fala com sotaque carregado e traz as marcas de sua infância difícil (só sugerida) e principalmente da ditadura argentina. Eventualmente Lavinia fica grávida  e sofre para tomar uma decisão. O roteiro não faz questão de explicar muita coisa mas também não foge de frases feitas pseudo profundas ou poéticas. Que são dispensáveis porque a fotografia é muito bonita, a câmera muito eficiente e os momentos de dança envolventes (mas porque não vemos afinal de contas o espetáculo pronto?). Embora não convença totalmente, tem bons momentos este Ensaio.

Ref fim.

A Floresta de Jonathas

A Floresta de Jonathas . Brasil, 2012. Direção de Sergio Andrade. Com Begê Muniz, Francisco Mendes, Viktoryia Vinyarska, Ítalo Castro e Socorro Papoula. Fotografia: Yure César.

      Foi uma boa idéia da distribuidora disponibilizar na Internet para os jornalistas este filme que já parecia intrigante, não tanto por ter sido feito inteiramente no Amazonas por gente de lá (o único que eu reconheci que era de fora era o Chico Diaz, numa participação pequena) mas pela qualidade de sua fotografia digital que ajudou o longa a ter uma reação positiva no Festival de Rotterdam, Holanda, ate porque qualquer estrangeiro morrerá de curiosidade em observar um ângulo novo e nada folclórico da região. O filme não revela que é inspirado num fato real e que existiu realmente um rapaz chamado Jonathas que se perdeu na floresta durante mais de 40 dias, onde tentou sobreviver sozinho. Apenas o pai insistiu em continuar procurando mas a conclusão me pareceu um pouco confusa. Simplesmente porque o diretor tem nas mãos uma historia interessante e curiosa mas que é narrada como se tivesse sido feita por um alemão mal humorado, que adora planos gerais e demoradíssimos. De vez em quando ela se move mas também de forma lenta. Que se dane o espectador que pode se cansar ou não se interessar, que ele continua nada dele (e de vez em quando sem mais nem menos a câmera vai caminhando com se tivesse vida ou ponto de vista de alguém, para buscar o jovem protagonista que toca /aprende violão). 

       É basicamente a historia de dois irmãos, que trabalham ajudando o pai e a família a catar frutas da floresta que depois vendem numa barraca a beira da estrada. Um deles mais rebelde e mais velho, outro mais novo mais obediente. O mais velho briga com o pai e é expulso de casa, passando a fazer excursões com turistas, como é o caso de uma garota que veio da Russia, e que se interessa por Jonathas. Tudo poderia ter virado uma aventura erótica na selva (não há nudez) cheia de banhos no rio mas toma outro rumo quando o rapaz entra na floresta em busca de uma fruta que pretende presentear a garota e acaba se perdendo. Temos imagens interessantes e fora do comum dali em diante mas novamente não era preciso ser tão cerebral na direção, já que o final é coisa para satisfazer critico que gosta de filme chato. Uma pena porque o filme revela sinais de talento e originalidade. 

Ref fim.

Além da Fronteira

Além da Fronteira (Out in the Dark) Israel, 12. Direção de Michael Mayer .96 min. Roteiro de Michael Mayer, Yael Shafir. Com Nicholas Jacob, Michael Aloni, Jamil Khoury, Alon Pdut, Loai Noh.

      Tem sido surpreendente a posição liberal de Israel em relação aos direitos dos homossexuais, demonstrado em alguns filmes recentes e principalmente neste dramático e contundente filme de diretor estreante em longa Michael Mayer. Ganhou os Festivais de Haifa, Guadalajara, Miami, Nashville, Filadélfia,Rochester, San Francisco, Torino, Toronto.

       Uma variante do eterno Romeu e Julieta, conta-se a historia de um rapaz palestino, Nimir (o estreante Jacob) que tem problemas com sua família que nem pode saber de sua orientação sexual. De vez em quando ele consegue cruzar a fronteira e vai a alguma boate gay correndo risco de vida. Numa dessas vezes conhece um simpático e atraente advogado Roy (Michael Aloni, que lembra o jovem Michael Douglas e parece ser famoso lá, porque desde criança era apresentador de shows de teve).Aos poucos os dois se apaixonam;   

      Se há vilões nessa historia toda são a família de Nimir (o irmão dele faz parte de grupo terrorista e nenhum deles pode aceitar a homossexualidade, razão suficiente ate mesmo para matá-lo). Os israelenses são mostrados com maior compreensão, a família de Roy questiona e levanta os problemas que surgirão mas aceitam  a vida do filho e temem pelo romance tão arriscado.  O problema é que há um policia secreta que leva a ferro e fogo sua tarefa de impedir atentados e não tem paciência para ser compreensiva, encaminhando tudo para a inevitável tragédia. Felizmente os autores do filme tinham a consciência de que num filme assim é recomendável se dar uma esperança, uma possibilidade. Como pediam sempre os produtores de Fellini.

        Não há duvida que o filme (que lembra outro anterior, com a mesma mensagem, Bubble/Idem,  tem uma postura positiva e pode chegar a emocionar. Eu levanto uma questão apenas. O casal de rapazes é apresentado como apaixonado mas não será por causa do sexo (as cenas são extremamente discretas e não demonstram o fervor sexual como uma das razões para a paixão) nem senti essa tão grande emoção com a dupla (acho particularmente limitado o rapaz que faz Nimir, ele tem olhos mortos, e a verdade que tem olhos brilhantes e vivos é um fator definitivo para o sucesso no cinema. De qualquer forma, ele é árabe mas a mãe é italiana, não quer ser ator mas piloto da Lufhthansa, quem foi fazer o teste era sua namorada que o indicou na ultima hora!). Mas a gente sempre torce para que a versão militante de  Romeu e Julieta, que os heróis vivam felizes e superem os preconceitos e barreiras políticas e familiares. Como deveria ser sempre.

Ref fim.

Um Fim de Semana em Hyde Park

Um Fim de Semana em Hyde Park (Hyde Park on Hudson). EUA, 12. Direção de Roger Michell, Roteiro de Richard Nelson. 94 min. Com Bill Murray, Laura Linney, Olivia Williams, Samuel West, Olivia Colman, Elizabeth Marvel, Eleanor Bron, Elizabeth Wilson. Playarte.

      Deve ter sido por causa do sucesso de filmes sobre os bastidores da vida dos governantes e da família real britânica, que incentivou os norte-americanos a realizar esta contrapartida, que conta um caso quase desconhecido que teria sucedido com um presidente americano o famoso Franklin D. Roosevelt  que salvou os americanos da depressão econômica  e depois da Segunda Guerra Mundial. Lançado tão discretamente em nossos cinemas, poucos tomaram conhecimento da existência deste filme bobinho, ate mesmo chato. Mas delicado e bem feitinho, que poderia agradar talvez a alguns damas mais idosas e sensíveis. Mas é provável que seja rapidamente esquecido aqui como sucedeu lá fora, onde não conseguiu alcançar nenhuma de suas vagas pretensões a conquistar prêmios.  Mesmo a historia que poderia ser escandalosa é mostrada de forma discreta demais mesmo. Não impressiona ou assusta ninguém.

      Assim  nos anos 1930 em  Hudson Valley, Margaret "Daisy" Suckley reencontra seu primo distante o Presidente Franklin D. Roosevelt e vem ajudá-lo a relaxar um pouco na bela mansão que pertence a família. A relação logo se desenvolve quando eles se tornam amantes. Mas não espere nada de muito escandaloso ou chocante, ou especialmente divertido. O clímax é quando a prima Daisy (interpretada pela sempre encantadora e jovial Laura Linney)  tem que participar de receber o Rei e a Rainha da Inglaterra que em 1939 vieram para uma visita oficial . Era uma Época em que não iria demorar para o mundo explodir numa Guerra mundial terrível  e no entanto eles estão preocupados com regras e mesquinharias. O que poderia ter resultado num  filme muito mais divertido do que este.

       A culpa não é dos atores, nem da produção que é muito bem cuidada mas do roteiro que revela pouco, parece ter medo de mexer  em tabus ou vacas sagradas! Não é nem um pouco ajudado pela presença de Bill Murray no papel do Presidente, que ate tenta fazer uma caracterização aproximada dele. Mas  não consegue. Quando se sabe que o Presidente também era amante de sua secretaria e que a Sra Roosevelt mantinha uma ligação lésbica é que se começa a avaliar quão tímido é esta decepcionante sessão da tarde. Uma pena. Um desperdício de talento. 

Ref fim.

Tango Libre

Tango Libre (Idem) .Bélgica, França, Luxemburgo, 2012. Direção de Fréderique Fontayne. Com Sergi Lopez, François Damiens,  Jan Hammenecker, Anne Paulicevich, Zacharie Chasseriaud, Christian Kmiotek, David Murgia.

      Preste atenção no nome do diretor Fontayne e procure se lembrar do sucesso que ele fez com um filme anterior chamado  Uma relação pornográfica, 1999, com o mesmo ator Lopez.  Pois com este levou o Grande Premio em Varsóvia e Menção especial no Horizons de Veneza. Só isso já recomendaria o filme. Que ainda me surpreendeu com uma belíssima fotografia e uma narrativa intrigante e inusitada.

       Mais uma vez o cinema revela que o tango é a dança mais cinemática de todas , extremamente fotogênica, sensual e eloquente.  Se o filme anterior tinha boa historia e boa direção de atores, aqui ele expande isso para uma narrativa inspirada, com câmera moderna e imagens bonitas (confesso que ainda gosto de cinema que traz bonitas imagens,não deixei de ser esteta). E aqui isso já começa com uma sequencia de abertura meio enigmática mostrando um assalto a carro forte. Logo após isso os envolvidos estando servindo pena na cadeia enquanto a mulher de um deles (na verdade, parece se dividir entre os dois, já que o roteiro foi escrito pela atriz que faz esse papel, que não é nada boba.  Anne Paulicevich, por que ainda por cima se envolverá com uma guarda da prisão com quem ira dançar numa aula de tango). 

       Então é um quadrilátero (ao qual se pode acrescentar o filho pré adolescente e naturalmente revoltado) que será sempre embalado pelo tango. Porque um dos assaltantes ( o bom Sergi) vai procurar na cadeia os argentinos com o pedido de aprender a dançar o tango e eles o atenderão no que irá se tornar um tango macho, dançando com virilidade  por prisioneiros(inclusive numa longa mas bela sequencia que funciona de background para os letreiros finais). Engraçado que a dança –uma manifestação libertária- faz toda diferença, do que poderia ser um policial de prisão.  Vale a pena descobrir.

Ref fim.