quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Caçadores de Emoção: Além do Limite (Point Break)

EUA, 15. 104 min. Direção de Ericson Core. Roteiro de Kurt Wimmer. Com Edgar Ramirez, Ray Winstone, Luke Bracey, Teresa Palmer, Matias Varela, Clemens Schick, Max Thieriot, Delroy Lindo, Nikolas Kinski, James Le Gros, Tobias Santelmann.

Este é um caso estranho de uma super produção (feita quase que totalmente por atores e diretores desconhecidos) e que custou cerca de 110 milhões de dólares e até agora não rendeu mais de 27 milhões, no que se constituiu num imenso fracasso para o que vem a ser a refilmagem de um filme Cult que o estúdio achou que daria muitos frutos. Fui procurar o que escrevi a respeito do original Caçadores de Emoção (1991). Foi dirigido pela única mulher a ganhar um Oscar de diretora, Kathryn Bigelow. O elenco tem o já falecido Patrick Swayze, Keanu Reeves, Lori Petty, Gary Busey, John C. McGinley e os únicos que retornam aqui são James LeGros e o Bojesse Christopher, como diretor do FBI. Não é a toa que virou cult. Olha só que história: é sobre um grupo de ladrões de banco que na verdade são surfistas. E para complicar há neles infiltrado um jovem agente do FBI (Keanu na fase pré Matrix). E para aumentar a emoção há várias cenas com os mais variados esportes radicais (algumas de tirar o fôlego). Esse é daquele exemplar raro: um filme de verão no formato e no espírito.

A refilmagem começa com um erro grave, reúne um elenco desconhecido, começando pelo venezuelano Edgar Ramirez que ficou mais ou menos conhecido pelo telefilme Carlos, o Chacal (2000), o australiano Luke Bracey e Teresa Palmer (que estrelou Meu Namorado é um Zumbi e agora que deve estrear semana que vem, A Escolha). O diretor era um fotógrafo que fez carreira em filmes de ação como Velozes e Furiosos (o primeiro) e realizou antes o pouco visto O Invencível, 06, com Mark Wahlberg. Originalmente Gerard Butler ia fazer o protagonista. Levou quase um ano para ser rodado em locações exuberantes e difíceis em 10 países (em particular na famosa Angel Falls na Venezuela). Tudo fica valorizado pelo 3D ainda que por vezes se sinta claramente o uso de efeitos digitais. Mas é um milagre que ainda que com dublês profissionais, não tenha morrido alguém.
Enfim, o que era uma aventura bem humorada e com vaga mensagem política acabou se tornando um filme inflado e exagerado, mais um que divulga a filosofia do Bromance (é assim que eles chamam a amizade entre homens que embora não seja gay fica com cara de romance!). O primeiro erro é situar a ação agora, enquanto o outro se passava na era logo depois do Presidente Reagan. E eles estavam cercado de mulheres que jeito de supermodels. Não era para ser levado a sério, tinha senso de humor (que faz muita falta aqui) inclusive nos nomes que se repetem aqui Johnny Utah e Bodhi. Para não ressaltar o fato de que o elenco aqui é praticamente desconhecido, menos atraente e carismático. Originalmente eles eram surfistas e ladrões de banco, mas aqui ganharam uma outra dimensão meio Robin Hood, que vai se tornando cada vez menos verossímil.

O filme começa com Utah (o louro e nada carismático Bracey) que estão no alto de uma montanha no meio do deserto com um grande amigo e resolvem fazer uma corrida que culminará com um salto absurdo para um outro pico. O herói consegue fazer o feito, mas o amigo morre! Por alguma razão nada clara, isso o inspira a entrar para o FBI (orientado pelo melhor do elenco Delroy Lindo). E apresenta um teoria difícil de provar que existem ladrões que viajam pelo mundo. Isso além de absurdo é confuso e pretensioso quando ainda se acrescenta uma mítica figura chamada Ozaki 8, sobre uma série de esportes radicais em diversos lugares do mundo. Quando Utah vai surfar numa mega onda, é salvo pelo Bodhi (Ramirez, que tem cara de bandido Mafioso) e assim tão fácil ele já entra para a bendita quadrilha. Então vem snowboarding, voando de “wingsuit” e escalar montanhas pelo jeito para fortalecer a amizade. Para ser justo, o roteiro inclui ainda algumas citações do original mas nada ajuda a tornar a história convincente e que não passa de pretexto para incríveis cenas de ação de envergonhar a ESPN! Mas a amizade não chega a convencer assim como o interesse romântico com Samsara (Teresa Palmer).

Na versão de 91, eles eram surfistas aloirados com algum propósito, enquanto aqui o filme “overproduced”! Viaja pela França, Austrália, Suíça, Venezuela, Canadá e EUA. Desta vez quem rejeitou o filme não foi a critica, mas os próprios fãs.

Oscar 2016: A Polêmica das Indicações

Sempre que me perguntam sobre o Oscar, faço questão de dizer que ele é honesto, você não pode comprar um prêmio e explico porque. Ele não tem a estrutura de uma órgão político, os votantes moram em diversas partes do mundo e nunca se encontram, votam por correio ou coisa que o valha. Mal se falam ou se conversam. Não conseguem trocar favores como sucede com frequência em júris de festivais de cinema e muito mais ainda em lugares onde se reúnem políticos, que no fundo vivem justamente desse toma lá dá cá. Por outro lado, a Academia é extremamente injusta, tem uma enorme tradição de dar Oscars no ano errado para a pessoa certa, mas que com frequência é consolação por omissões passadas. E deixar passar em branco nomes importantes do cinema, que vão de Greta Garbo e Hitchcock a casos mais recentes, como Spike Lee ou Gena Rowlands. Para isso que existem os Oscars especiais que agora infelizmente são realizados em um cerimônia à parte no fim do ano. É um cala boca muito discutível, mas melhor do que nada.

Não acho que a academia mereça ser crucificada como está sucedendo porque este ano não selecionou nenhum negro, em nenhuma categoria. Na verdade, com muita lógica, porque o problema não é esse. A verdade é que a indústria do cinema americano é branca e masculina (por que até hoje somente uma mulher ganhou o Oscar de diretora? E assim mesmo injusto!). As ditas minorias são justamente isso, apenas uma parte pequena e não tão crescente assim quanto deveriam ser... acho que o choque dos finalistas é mais porque a presidente da Academia atualmente é uma mulher e negra, que estava se esforçando abertamente para trazer mais igualdade a premiação e como já no ano passado tinham feito com o filme Selma (que levou apenas Oscar de Canção, embora fosse a denúncia mais poderosa do racismo que Martin Luther King teve que enfrentar em sua vida). Por isso mesmo tomou providências para que a festa deste ano tivesse um apresentador negro - o ótimo Chris - além de um produtor negro, o diretor Reginald Hudlin.

Mas não pensaram no mais importantes, na verdade os possíveis candidatos não eram assim tão fortes quanto se podia pensar. É só ver a lista: Samuel L Jackson está excelente no filme do Tarantino, mas acontece que o filme ficou pronto em cima da hora e em certas premiações não deu nem tempo para concorrer; Idris Elba, outro grande ator, estrelou um filme divulgado pelo Netflix que não é exatamente a cara da Academia; O Creed pelo jeito a Warner não achou que era filme de Oscar e não fez campanha publicitária e Stallone está concorrendo e ganhando agora justamente por uma dessas injustiças a corrigir. Ou seja, o fato é que ha uma série de circunstancias que não tem nada a ver com racismo, ao contrario, a Academia e o próprio cinema americano já deu sinais disso em toda sua História. Eu acho mesmo mais triste constatar que no Brasil os filmes sobre e para negros as vezes já saem direto em Home Video. DVD ou TV por assinatura. E são enormes fracassos de bilheteria desde sempre... isso sim se poderia chamar de uma forma de racismo.

O que a presidenta fez foi mexer nas regras da Academia, procurando arejar mais o sistema, por exemplo fazendo com que os votantes tenham cargos durante dez anos, dali em diante para renovar teriam que provar que estão em ação na indústria do cinema e não aposentados (não seria isso outro preconceito, agora contra velhos?) e aumentar o números de sócios que são convidados pela Academia e não podem se inscrever, principalmente com mais mulheres, negros, latinos e europeus.

Tudo bem, mas levaria anos para mudar e francamente não garante nada. Não quando se ouve atualmente nos EUA onde estou no momento um candidato imbecil a presidência que está sendo muito cotado, ameaçando expulsar todos os mexicanos para sua terra natal. Vejam que curioso ele faz isso, exatamente quando a academia ameaça premiar justamente um fotógrafo mexicano pela terceira vez consecutiva, um fato inédito no Oscar e um diretor mexicano Inãrritu por O Regresso (The Revenant), que ganhou ano passado.

Ou seja, como tudo na vida o buraco é mais embaixo e não será resolvido de forma simplória e simplista, ouvindo atores veteranos que não entendem do assunto, que precisa mudar sem dúvida é verdade. Agora como mudar é que são elas... que engraçado que não é só lá que isso acontece, né? Tanta coisa por aqui que precisa também mudar...


O apresentador , que é Chris Rock, claro que vai garantir tiradas muito irônicas! Será que não vão reclamar de deixarem de lado o lesbianismo porque não puseram na lista Carol? E por que não mudam logo essa besteira de variar o número de filmes a cada ano, deixa dez e pronto, porque desse jeito dá a impressão de que tem anos bons e anos ruins. Esqueci de mencionar  o mais importante,  que outro grande problema e a própria votação da Academia, que não é o sistema tradicional, mas um que eles trouxeram da Austrália, que é uma confusão danada e o sócio ao votar em dez na verdade apenas os dois primeiros em que votou tem algum peso. Eles tentam explicar e cada vez fica mais confuso e caótico. Isso que  deveria mudar dentre tantas outras coisas.

Rubens Ewald Filho direto de Atlanta, EUA.