Reality - A Grande
Ilusão /Reality, Itália, 12. Direção de Matteo
Garrone. 116 min. Com Aniello Arena, Loredana Simioli, Nando Paone, Nello Ioro,
Nunzia Schiano, Rosaria D´Urso, Claudia Gerini.
Vencedor do Grande Premio do
Júri no Festival de Cannes, este é o novo filme do diretor Garrone que fez
sucesso com Gomorra (08), e que já tinha atrás de si uma longa carreira de 9
outros longas metragens inéditos no Brasil (que tal uma retrospectiva?) Na verdade, se havia alguma duvida quanto ao talento do
diretor estão resolvidas com esta comédia escachada e inteligente, que consegue
ser moderna (embora seja difícil satirizar a televisão já que por si só ela já
é uma paródia ainda mais a italiana) e ao mesmo tempo faz lembrar a velha
tradição do neo-realismo e das antigas comédias napolitanas (se passa em praça
publica onde o herói tem uma peixaria, ele e toda a família mora num velho
casarão e naturalmente todos são gordos, gritam muito, são cafonas mas nem por
isso deixam de ser humanos e com sentimentos).
Um dos problemas do cinema
italiano para nós é que não conhecemos mais os atores e assim fica difícil nos
identificarmos com eles e entender sua persona, seu estilo. É o caso do
estreante Aniello Arena que tem um incrível e perfeito trabalho como
protagonista . A surpresa foi pesquisar sobre ele e descobrir que ele estava
cumprindo pena de prisão perpetua (!) na Prisão de Volterra por causa de seu
envolvimento quando adolescente num esquadrão do crime organizado e duplo
assassinato. Garrone o conheceu porque o pai é um critico de teatro e foi
assistir uma peça na cadeia (parece que montam uma por ano) e ficou tão
impressionado que começou a gravar o monologo que Aniello fazia e tentou
consegui-lo para Gomorra mas não lhe deram liberação, que veio finalmente para
Reality. Garrone rodou as cenas na ordem
cronológica do roteiro o que facilitou embora ainda achasse cinema frio
em oposição a Teatro. A historia é inspirada em fato real mas ele não é fã do
Big Brother como o personagem de Luciano.
Embora o filme tenha estreado
em março nos EUA e não tenha feito sucesso, o brasileiro tem tudo para se
identificar com a historia alem de ter a surpresa em saber que o programa Big
Brother, mais ou menos nos mesmo moldes que o brasileiro, é um enorme êxito faz
anos na Itália onde pela própria
estrutura local provoca ainda maior impacto do que entre nós.
O herói Luciano é um pai de
família, trabalhador mas que tem o hobby de ser artista, se vestindo de drag
Queen para uma festa de casamento que será prestigiada por um dos participantes
do antigo Big Brother . Assim começa a ilusão de que ele poderá ser também um
astro da televisão. Pressionado pela família, se inscreve no programa e parece
ter sido bem na entrevista-teste (não vemos essa cena, temos que acreditar
nele). Mas com a pressão de todo o bairro e fama repentina só por estar
concorrendo, ele aos poucos vai perdendo a noção das coisas, passa a achar que
o estão vigiando, baixa os preços, começa a dar aos pobres, os moveis de sua
casa. Sem esquecer também que para melhor sobreviver fazia também um esquema
ilegal com aparelhos domésticos.
Pode parecer exagerado mas
claro que é comédia e quem conhece o meio e o ser humano, pode crer que não é
muito diferente. As pessoas piram quando querem ficar famosas a qualquer preço.
Sem qualquer moralismo, o filme pinta esse retrato sem lhe tirar ate mesmo uma
certa ingenuidade. O trabalho do ator prisioneiro é incrível, um perfeito
artista e eu gostei de reencontrar os atores aparentemente amadores, os tipos
que tornaram o cinema italiano tão memorável. É um filme para ser descoberto e
curtido.
Ref.

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