quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A Qualquer Custo (Hell or High Water)


EUA, 16. 112min. Direção de David MacKenzie. Roteiro de Taylor Sheridan. Com Jeff Bridges, Chris Pine, Dale Dickey, Ben Foster, Buck Taylor, Kristin Berg.

Embora tenha passado em branco quando estreou nos cinemas, este filme acabou sendo resgatado por alguns críticos que chegaram a ameaçar com prêmios para Jeff Bridges e mesmo para o diretor. Na verdade, não é ruim, talvez um pouco americano demais para o atual gosto. Jeff esta se repetindo desde que levou o Oscar, fazendo boca mole e jeitão de caipira, aqui no papel de um velho xerife do deserto do Texas, que ajuda a investigar uma serie de assaltos a bancos, realizados por uma dupla de irmãos, um completamente maluco (Ben Foster, está acostumado a esse tipo de personagem, mas não conseguiu até hoje emplacar) e outro relutante e menos bandido (o bonitão Chris Pine é certamente hoje o mais esforçado astro de Hollywood, tentando provar que não é apenas galã de blockbuster, mas versátil o suficiente até como cantor. E aos poucos tem conquistado a boa vontade geral). Assim, embora previsível, o filme é curioso para quem gosta desse tipo de ação rústica.

O diretor Mackenzie é inglês e pouco conhecido por outros trabalhos como Encarcerado (Starred up, com Jack O´Connell), Esta Noite Você é Minha (You Instead, com Luke Treadway), Sentidos do Amor (Perfect Sense, com Ewan McGregor e Eva Green), Jogando com o Prazer (Spread, com Aston Kutcher e Anne Heche), Olhar do Desejo, com Jaime Bell, Paixão sem Limites (Asylum ,com Natasha Richardson), O Jovem Adam, com Ewan McGregor e Tilda Swinton. Todos imemoráveis com a possível exceção deste último por causa de uma cena de nudez. O roteiro Sheridan também é ator de muitos filmes (esta aqui creditado como “cowboy”) e ficou conhecido e até elogiado por causa de Sicário: Terra de Ninguém (15).

Se já se esperava alguma surpresa com o filme, acabou superando a expectativa quando foi indicado ao prêmio dos Critic´s Choice, que foi revelado dia 11 de dezembro em festa transmitida pela TNT comigo como comentarista. Eles deixaram de lado Chris PiIne (que é injusto), mas o filme foi destacado como indicados a melhor filme, diretor Ben Foster e Jeff Bridges como coadjuvante, melhor elenco, roteiro original. Muita coisa para um filme apenas modesto.

Detalhe: foi indicado ao Oscar de montagem, roteiro, coadjuvante (Jeff Bridges) e filme. Se ganhar algo será pelo roteiro.

2 comentários:

  1. Eu acho que você não é crítico nem aqui nem em xerem, o papel de um um crítico é destrinchar um filme. Suas críticas, se é que podem chamar disso parece mais uma sinopse. Eu acho que você é apenas um fã de cinema e que precisa entender mais os significados dos filmes e o que eles transmitem. Vou te mostrar o que é uma crítica

    Chris Pine e Jeff Bridges em um faroeste clássico na estrutura e contemporâneo na forma, realizado com viço notável. O resultado se resume em uma palavra: filmaço

    Às vezes, há uma única palavra capaz de abranger as qualidades específicas de um filme: “filmaço”. E é com propriedade que ela se aplica a A Qualquer Custo, que estreia nesta quinta-feira no país com indicações ao Oscar em quatro categorias, entre elas a de melhor filme. O faroeste contemporâneo do diretor David Mackenzie tem a propulsão narrativa, a voragem dramática, a exuberância estilística e os desempenhos marcantes que caracterizam essa experiência cinematográfica particular. O escocês Mackenzie, além disso, absorve a cultura e a geografia do Oeste do Texas, que vai da fronteiriça El Paso até Lubbock e Amarillo – terra de gado e de petróleo, de gente perdendo o rancho e de gente bombeando milhões da terra –, com o fascínio dos forasteiros: seu olhar tem um viço que contagia cada cena e cada interpretação.
    Chris Pine e Ben Foster são dois irmãos de personalidades contrastantes unidos em torno de um plano: na fenomenal sequência de abertura, eles já estão em plena maratona de roubo a banco. De cada agência em cidadezinhas sonolentas pelas quais passam, levam uma ninharia. Só notas de valor baixo, nada que esteja no cofre ou possa ser rastreado. Querem chegar rapidamente a uma determinada quantia – e roubá-la toda da mesma instituição, o Texas Midland Bank. Toby (Pine), o irmão racional e taciturno, é o articulador do método. Tanner (Foster), o irmão explosivo, recém-saído da prisão, cuida da intimidação e, se houver uma deixa, da violência. Toby e Tanner são rancheiros pobres e ignorantes, mas não falta a eles inteligência – nem desespero. No seu encalço está outra figura típica do faroeste: o velho homem da lei numa última missão. Marcus Hamilton, o Texas Ranger saborosamente interpretado por Jeff Bridges, é um tipo ardiloso. Prefere pensar a correr, e intui que os dois rapazes não são meros alucinados. São, ao contrário, meticulosos, e têm um propósito muito definido quanto ao valor que desejam amealhar, ao prazo em que pretendem fazê-lo e ao recado que querem mandar com sua escolha do Texas Midland. É hora então de parar de perseguir, decide Marcus, e simplesmente montar a armadilha e esperar que os dois caiam nela. Antes tudo fosse tão simples.
    David Mackenzie (Sentidos do Amor, Encarcerado) é um recrutador de elenco perspicaz. Em A Qualquer Custo, Chris Pine atinge a intensidade que tem de abrandar como o Capitão Kirk de Star Trek, e mistura a ela uma boa dose de amargura. Ben Foster, sempre apreciado pela volatilidade, aqui a refina por meio do senso de humor. E Jeff Bridges, buscando referências no seu xerife de Bravura Indômita, está magistral. Seus diálogos com seu parceiro, o meio índio, meio mexicano e integralmente estóico Alberto (Gil Birmingham), são uma joia na escrita (a cargo do roteirista Taylor Sheridan, de Sicario) e na performance. Com suas incessantes tiradas racistas, Marcus ao mesmo tempo testa a intimidade da parceria e reafirma seu amor por Alberto. Ele ilustra ainda a mentalidade peculiar da porção Oeste do Texas – o culto ao individualismo e à independência de espírito, a crença na ordem pelas armas (e ainda mais no direito de portá-las) e a intrincada tessitura cultural de uma região tomada ao México e às tribos nativas, onde um grupo afirma sua preponderância e, no mesmo fôlego, incorpora esses valores múltiplos de maneira decidida, até desafiadora.

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  2. Para os apreciadores do western na sua forma clássica, Mackenzie tem outro imenso prazer a proporcionar: a graciosidade com que ele cita, um a um, os elementos cardeais do gênero. Dos desperados que recorrem ao crime como retribuição para a injustiça às entradas pressagiosas nos vilarejos poeirentos, da boa mulher que reconhece o caráter no âmago do bandido aos grupos de justiceiros que se formam espontaneamente para perseguir os renegados, toda a forma tradicional do faroeste está recriada para o enredo contemporâneo de recessão econômica e ganância corporativa. Mas é, acima de tudo, a feição mitológica do western que sobressai no estrondoso confronto final, em que tiros voam para todos os lados e alguns deles acham o alvo, e no desfecho transbordante de admiração e ameaça mútuas entre dois dos personagens. Não há, enfim, como descrever de outra forma: é um filmaço.

    Isabela Boscov
    Publicado originalmente na revista VEJA no dia 01/02/2017
    Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
    © Abril Comunicações S.A., 2017

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