terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
Fences: Denzel na Broadway
Um texto que eu escrevi quando vi a peça original na Broadway, em 2009, que tem muitas curiosidades relativas ao filme que concorre ao Oscar neste ano
Sempre achei conversa fiada esse papo de não ver peças porque estão lotadas. Indo na porta do teatro, dificilmente se deixa de conseguir ao menos um ingresso ou dois, que sobraram. Somente num caso há muitos anos (que foi o Fantasma da Ópera) tive que voltar as quatro da tarde, para esperar a devolução das agências de venda de ingressos, ou seja o encalhe, mas o ingresso mais difícil que enfrentei foi de ver Denzel Washington, onde estava tudo lotado e só consegui no que chama de vista Parcial (num dos camarotes onde para ver a ação no canto esquerdo era preciso esticar o pescoço, mas bem que valeu até porque era a metade do preço! Com a sala lotada, e com mais metade do teatro formada por blacks (aliás os mais bem vestidos, em particular as mulheres uma delas na fila se queixava da época em que para ir ao teatro era preciso usar luvas brancas), a plateia era ótima, levava sustos, suspirava, aplaudia no meio dos desabafos e cenas de vingança. E riam muito E muito forte. Vvocês não imagem o aplauso quando apareceu em cena Denzel, acontece que ele começou em teatro e tem bastante experiência para dar uma interpretação convincente e forte, que lhe deu o Oscar do teatro, o Tony.
Deixa eu dar mais explicações. A peça se chamava Fences (Cercas) e foi escrita já ha algum tempo pelo famoso dramaturgo August Wilson, que faleceu e já virou nome de teatro na rua 52. Nunca tinha visto uma peca dele, mas tinha total domínio do playwriting, contava muito bem seus dramas e sua obra monumental foi contar a história dos negros no Século Vinte, fazendo uma peça para cada década. Esta aqui corresponde aos anos cinquenta e fala de um homem casado, pai de um rapaz estudante que ele não deixa seguir carreira como jogador de beisebol (porque ele mesmo não conseguiu fazer isso, talvez por ter começado velho demais ou então por mero ciúme). Sua mulher Rose é uma santa, aceita o irmão maluco dele, um filho malandro mais velho e até um bastardo que ira surgir. Denzel faz o protagonista, um homem cheio de defeitos, que vive brigando com o Diabo (que ele quer deixar do outro lado da cerca mas a peça se pergunta será que a cerca não é para não deixar alguém não escapar daquela casa?). É daquelas peças onde se fala muito, se lava a roupa e depois conclui com um posfácio, com a ação já anos depois.
Sem dúvida pela amostragem a obra de Mr. Wilson criou realmente uma painel interessante da experiência negra americana no século. Se o elenco é competente, a direção de Kenny Leon (A Raisin in the Sun) só tem de criativo o uso da trilha de jazz de Brandford Marsalis, estranhissimamente indicada ao Tony. E que só se ouve durante as mudanças de cena! Quem rouba a peça é a conhecida Viola Davis, aquela mesmo que roubou o filme Dúvida, da Meryl Streep. E que tem outra cena de choro e briga fenomenal. Acho que no momento ninguém no cinema ou no palco chora tão bem quanto Viola!
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