Reprisado
várias vezes na TV, o filme é uma deliciosa comédia que coleciona diversos momentos
marcantes: as desastrosas tentativas de Ted para chamar a atenção de Charlotte
(a estreante Kelly LeBrock), a perseguição da secretária feiosa, as noitadas
dos amigos de Ted e uma inspiradíssima trilha sonora de Steve Wonder que inclui
os hits “It’s You” (dueto com Dionne Warwick) e “I Just Called to Say I Love You”
(premiada com o Oscar® de melhor canção naquele ano). Esta também ganhou o
Golden Globe e foi indicada ao BAFTA, o Oscar Inglês, além de ter tido uma
versão em Português cantada por Gilberto Gil.
A Dama de Vermelho foi a quarta e penúltima incursão do comediante
Gene Wilder pela direção. Wilder é um talentoso roteirista, ator e diretor,
afastado das telas depois de problemas de saúde. Sua carreira guarda diversos momentos
criativos como sua colaboração com Mel Brooks (Banzé no Oeste, O Jovem
Frankenstein) ou os filmes em que dividiu a cena com Richard Pryor (Cegos, Surdos e Loucos, Loucos de Dar Nó). Wilder adaptou o
roteiro de A Dama de Vermelho do
filme francês O Doce Perfume do Adultério
(Un éléphant ça trompe énormément), de 1976, que gerou até uma sequência no
ano seguinte chamada Nous Irons tous au
Paradis, com o mesmo elenco famoso (Jean Rochefort, Claude Brasseur, Guy
Bedos, Victor Lanoux). O truque de Wilder na adaptação foi mudar de quatro
protagonistas para apenas um, no caso ele mesmo! E deu certo.
O filme
foi considerado como precursor de uma série de filmes americanos adaptados de
filmes franceses (Três Solteirões e um Bebê,
Um Toque de Infidelidade e outros) e
lançou a carreira nas telas da modelo Kelly Lebrock, então com 24 anos, que logo em seguida faria outro filme icônico
da década de 80 (Mulher Nota 1000),
para em seguida cair no ostracismo se casando com o ator Steven Seagal e
aparecendo muito pouco em alguns filmes de TV, além de papéis em filmes
inexpressivos. Seu papel de Charlotte quase ficou com Melaine Griffith que o
recusou para fazer Dublê de Corpo
com Brian DePalma. Enquanto estava promovendo o filme na França, Gene Wilder se
casou com a atriz Gilda Radner, a secretária feiosa de A Dama de Vermelho com quem dividiu a cena por três vezes e com
quem dividiu a vida até a morte dela por câncer poucos anos depois.
O filme
foi o trabalho melhor sucedido de Gene Wilder atrás das câmeras fazendo bom uso
da icônica cena de Marilyn Monroe em O
Pecado Mora ao Lado (1955), trocando a cor do vestido de branca para
vermelho. O filme ainda tem no elenco Joseph Bologna como Joey, o amigo que
trai a esposa, Charles Grodin como o amigo gay e Judith Ivey como a dedicada
esposa de Ted, Didi. Um elenco coadjuvante bem afinado, cada um brilhando na
medida certa para fazer rir. O filme de Wilder também foi um dos primeiros a
receber nos Estados Unidos a classificação PG-13, na época recentemente criado
e que também foi usado em Indiana Jones
& O Templo da Perdição para indicar que o conteúdo não é apropriado
para menores de 13 anos. Gene Wilder conseguiu fazer uma comédia leve mas
provocativa sensualmente sem ser apelativa. Curiosamente, no final do fllme
quando Ted esta prestes a satisfazer seu desejo de amor com a sedutora
Charlotte, vai para no parapeito do quarto dela, surpreendidos pela chegada de
seu marido. O prédio em questão é o mesmo usado no clássico Um Corpo que Cai. O marido de
Charlotte, por sua vez, mal aparece. Na cena, enquanto fazem amor aparece uma
foto do casal onde o homem que posa na verdade é Jean-Loup Dabadie, um dos
roteiristas do filme original francês que inspirou A Dama de Vermelho. Acho importante também ressaltar a qualidade do
filme francês original, que foi dirigido pelo excelente Yves Robert,
1920-2002, produtor e ator, casado com a
atriz Daniele Delorme, que teve seu maior êxito com A Gloria do Meu Pai e O Castelo de Minha Mãe, ambos de 1990.
Quando
exibido na TV brasileira pela primeira vez na Rede Globo, na época trazendo
grandes títulos em sua sessão Tela Quente, o filme teve uma excelente trabalho
de dublagem com Mario Monjardim fazendo Gene Wilder, Sumara Louise dublando
Kelly LeBrock, Julio César dublando Joseph Bologna, Carmen Sheila na voz de
Judith Ivey e Mario Jorge dublando Charles Grodin e Maria Helena Pader na voz
de Gilda Radner.
Delícia de
assistir em qualquer reprise, o filme deixa a saudade do talento de Gene
Wilder, desconhecido hoje para uma geração mal acostumada a comédias grosseiras
e sem sentido e que não tiveram o prazer de conhecer o talento de Wilder, seu
rosto de homem comum tímido e desastrado, fácil de se identificar, e embalado
pela voz de Steve Wonder que nos fazer lembrar a importância de chamar, sem
vergonha de ser emotivo, só para dizer “Te amo”.
PS – Gene
Wilder (1933-) tem problemas de saúde, que o afastaram do cinema, mas continua sendo
Cult e cada vez mais querido. Vive em Nova York com sua nova mulher Karen Boyer
(desde 91).
(Por Adilson
de Carvalho Santos)
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