Critica de Francisco Cannalonga.
A menina do 14 de Julho/La Fille Du 14 Julliet. França, 2013. Dirigido por Antonin Petertjako. Com Vimala Pons, Grégoire Tachnakian, Vincent Macaigne, Marie-Lorna Vaconsin. 88 min.
Há alguns anos atrás , em 2001, houve um filme que parecia uma benção para o cinema francês e seu sucesso em todo o mundo. Mas que de certa maneira também foi uma maldição. O cinema Francês país de origem de alguns dos maiores transgressores das “normas” cinemáticas - Abel Gance e os impressionistas, Jean Renoir, Robert Bresson e os realistas-poéticos, os jovens críticos da Nouvelle Vague, entre outros.
O que aconteceu foi um filme, O Fabuloso Destino de Amelie Poulain, de Jean-Pierre Jeunet, na verdade de muitas qualidades mas que teve tanta repercussão no mundo todo, que lançou uma espécie maldição. Todos os filmes de comédia querem ser “Amélie Poulain” e a personagem vivida Audrey Tautou se tornou que um arquétipo de personagem. Esta sendo um duro golpe no gênero.
Esta nova comédia A menina do 14 de Julho, feita por um diretor estreante em longa, Antonin Petertjako talvez seja o único filme que mesmo apresentando sintomas da “síndrome de Amélie Poulain” (o arquétipo de Amelie é evidente na protagonista) consegue agradar. Não por seu roteiro, enredo ou personagens, mas porque é ao mesmo tempo, uma homenagem e uma sátira ácida dos filmes revolucionários da Nouvelle Vague, o famoso e aclamado movimento dos anos 1959-60 em diante, liderado pelos aprendizes de Andre Bazin – Jean- Luc Godard, François Truffaut, Claude Chabrol, Eric Rohmer, entre outros.
O enredo em si já traz consigo alguns paralelos com o filme Weekend à Francesa de Godard - Um grupo de jovens parte para uma viagem na praia e como plano de fundo, a estabilidade econômica da França despenca e as férias são encurtadas em um mês. Vale mencionar que também há um “romance”, entre a protagonista Améli… digo Truquette (Vimala Pons) e Hector (Grégoire Tachnakian), mas, para ser sincero, isso pouco importa. Ah, eu mencionei que o filme é uma comédia? Sim, é, e bastante engraçada, apesar de empregar um humor “chucro”, nada sutil ou elegante. As “gags” geralmente provém de ações físicas completamente inesperadas ao invés de texto - O Dr. Placenta dá um tiro com “balas de clorofórmio” para botar o filho que se veste de barata gigante em homenagem ao livro “A metamorfose” de Franz Kafka para dormir, sem aviso algum.Mas o melhor do filme certamente é a brincadeira com algumas “constantes” da Nouvelle Vague - longos monólogos intelectuais, sobre o amor perdido, o amor que se foi, a solidão do homem e a hipocrisia da burguesia, em alguns momentos os personagens direcionam suas falas diretamente para o público e contam uma dessas histórias. São possivelmente as sequências de humor mais sutis e as melhores do filme. Como recurso estético (ou falta de dinheiro, já que são desconhecidos) , o filme foi rodado em 16mm, o que traz uma granulação maior da imagem e cores saturadas, de forma a emular os filmes do famoso movimento francês e sua falta de recursos financeiros.
O maior problema talvez seja o fato de que o filme, apesar de algumas tentativas, jamais consegue criar uma verdadeira empatia pelo romance do casal, ou seja, o “problema” proposto pelo enredo, no fim, pouco importa. O que poderia tornar a projeção extremamente cansativa, depois que todos os artifícios cômicos já fossem revelados. O que não acontece porque o filme tem apenas 88 minutos de duração, talvez oito minutos longo demais, mas vale a sessão.
fim

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